segunda-feira, dezembro 18, 2017

Melhores de 2017

Scorsese disse certa vez que nunca termina o filme. Ele simplesmente o abandona. Com listas é a mesma coisa - cansei de ver filmes deste ano e estou oficialmente abandonando 2017. Minha lista de melhores do ano segue abaixo, e pronto. Normalmente eu escrevo um ou dois parágrafos sobre cada filme, mas olha, esse ano eu comecei a escrever e só saiu Moonlight. Os outros que me perdoem.

(Eu tava guardando notas sobre o filme para um ensaio posterior, mas também estou abandonando essa pretensão agora. Vamos ver se o filme sai do sistema)

*

1 - Moonlight, de Barry Jenkins

Passei o ano inteiro querendo escrever um texto que dê conta desse filme sem glorificá-lo pela sua importância extra-cinematográfica, e muito menos puni-lo por isso, mas chega o momento em que simplesmente nos conformamos com a existência dessas reações extremas e esperamos que o tempo ilumine a sua pujança.

Ainda assim, cabe pontuar que pra mim o mérito de Moonlight foi cinematográfico desde o dia 1, já que a administração da tensão insuportável entre os corpos no quadro e da tensão interna que cada um desses corpos carrega é, no meu, entender, a definição exemplar de uma mise-en-scene vigorosa.

Essa tensão é isolada como um gene no DNA, e trazida para o primeiro plano da experiência do filme em todas as suas cenas - é como se 122 anos depois, com milhares de tentativas, alguém tenha conseguido expressar cinematograficamente a sensorialidade da experiência queer (ou de certa experiência queer), resumida nesse "não caber no corpo" que o filme explora tão bem.

(A tensão a que me refiro é perfeitamente ilustrada em ONe Step Ahead, na trilha, cantada por Aretha Franklin: Just one step ahead is a step too far away from you.)

Vejam, citar esse ponto de vista específico não é desautorizar outros pontos de vista que não veem Moonlight em primeira pessoa, e sim tentar iluminar as decisões cinematográficas de um filme muitas vezes visto (apressadamente) como publicitário, sobretudo devido à homenagem aberta do filme ao cinema de Wong Kar-Wai e Hou Hsiao-Hsien.

Cada ruído de imagem, cada anteparo que nos separa dos personagens, cada distorção de som imagem - tudo isso é muito mais que um ímpeto de edulcoração, e sim um reflexo natural de um plano coerente de ilustração de uma experiência, a de não estar em paz de dentro para fora e de fora para dentro. O cinema é o caleidoscópio eu-mundo dessa relação.

Quando o filme avança violentamente em direção a seu desfecho, essa tensão é reduzida a seu essencial, e, portanto maximizada. Há um trecho lindo no Antes de Pôr-do-Sol em que Julie Delpy e Ethan Hawke estão numa van pelas ruas de Paris, e a Delpy vai encostar a mão no cabelo do Hawke, mas recua.

O último ato de Moonlight é esse minuto do filme de Linklater amplificado à última potência, com outros fatores bem específicos impedindo o toque, com as palavras que não saem sem dor da boca de Trevante Rhodes, e com esses corpos, fartos de não caberem em si, transbordando em suores numa mesa de restaurante ou, de modo marcante, numa polução noturna, talvez o momento mais romântico visto numa tela de cinema desde As Pontes de Madison.

Ah, os outros filmes?

2 - Z - A Cidade Perdida, de James Gray
3 - Silêncio, de Martin Scorsese
4 - Toni Erdmann, de Maren Ade
5 - Personal Shopper, de Olivier Assayas
6 - Corra, de Jordan Peele
7 - Até o Último Homem, de Mel Gibson
8 - Joaquim, de Marcelo Gomes
9 - Fragmentado, de M. Night Shyamalan
10 - Martírio, de Vincent Carelli

Calendário de estreias comerciais em Salvador, claro.

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