Sábado, Outubro 17, 2009

Os melhores atores

Pra não perder a deixa, agora a lista de minha interpretações masculinas preferidas:

10 - Robert Ryan, Homens em Fúria


9 - Harvey Keitel, Vício Frenético


8 - Robert Mitchum, O Mensageiro do Diabo
night of the hunter Pictures, Images and Photos

7 - Marlon Brando, A Face Oculta


6 - Gregory Peck, Duelo ao Sol


5 - Richard Harris, This Sporting Life


4 - Jack Lemmon, Quanto Mais Quente Melhor


3 - Jeremy Irons, Gêmeos - Mórbida Semelhança


2 - Dirk Bogarde, O Criado


1 - Marcello Mastroianni, Divórcio à Italiana

Terça-feira, Outubro 13, 2009

As Melhores Atrizes

Exatos 30 dias desde a última postagem, publico aqui, só para movimentar o blog, uma lista que me veio à cabeça depois de ler esse perfil que a W. fez com a grande Liv Ullmann. A atriz de Bergman e hoje diretora completa 70 anos, e contribuiu para o meu rol das melhores interpretações femininas que já vi. Na ordem, e sem pensar muito:

10 - Emily Watson, Ondas do Destino


9 - Eleonora Rossi Drago, Verão Violento


8 - Meryl Streep, As Pontes de Madison


7 - Irene Dunne, Cupido é Moleque Teimoso


6 - Jane Fonda, Klute - O Passado Condena


5 - Liv Ullmann, Sonata de Outono


4 - Isabelle Huppert, Um Assunto de Mulheres


3 - Gena Rowlands, Noite de Estreia


2 - Emmanuelle Riva, Hiroshima, Meu Amor


1 - Gena Rowlands, Uma Mulher Sob Influência

Domingo, Setembro 13, 2009

Duas vezes Tarantino

À Prova de Morte é o filme mais simples e relaxado de Tarantino, sem estruturas milimetricamente construídas, como a de Pulp Fiction, ou exaustivas e cheias de informação, como a de Kill Bill. É um filme analógico, como um LP: meninas conversam pra lá e pra cá até a metade do filme, onde há uma explosão de violência que encerra o lado A. Viramos o disco, e o chitchat volta com mais meninas legais falando pelos cotovelos. Última faixa é outra longa sequência violenta, só que com direito a revanche.

Francamente, essa simplicidade desconcertante do filme de meninas em férias (a ideia do Grindhouse, homenagem ao cinema pulp dos anos 70, passa em branco) registra absurdamente como um filme de Rohmer, e num dia inspirado. Os alicerces estão todos no bate-papo, e 90% da projeção é apenas isso, um primor de leveza.



E Tarantino, claro, continua um excelente dialoguista, o melhor de todos, escrevendo falas que passam longe do cool gratuito, definindo e desenvolvendo personagens com uma facilidade inacreditável. Quanto mais o tempo passa, mais tempo queremos ficar espionando esse papo do lado de cá da tela.

O filme é um prazer de ver e ouvir, um divertissement (alô, Setaro) de luxo de um autor inspiradíssimo. Se Tarantino fosse Hitchcock, esse seria seu Intriga Internacional, ou Ladrão de Casaca. Se a Europa finalmente lançá-lo em novembro, mesmo tendo perdido muito coisa, arrisco dizer que pode ser o melhor filme do ano.

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Antes de À Prova de Morte estrear no Brasil, a Universal deve pôr no mercado o longa mais recente de Tarantino, Bastardos Inglórios (Sacanas Sem Lei em Portugal e Angola), que estreou em Cannes e, dizem, foi levemente remontado para a exibição comercial. O filme é outra joia, e nos traz prazeres inéditos na obra do diretor.



Pode não parecer, mas Tarantino sempre teve interesse absurdo por gente, personagens, característica que não é encoberta pela estilização que é sua marca registrada. Dessa vez, com a exceção do Coronel Landa, seu filme abandona essa preocupação e resume-se a uma coleção de fetiches cuja única função é compor a imagem de uma grande celebração do cinema, daquele antigo, em película.

Se Death Proof lembra Rohmer, esse aqui seria o Vestida Para Matar de Tarantino, o momento em que a reflexão sobre a História e a linguagem do cinema (presente em toda a carreira do diretor) finalmente suplanta a busca obsessiva por um refinamento dramatúrgico. Tudo funciona dentro do cinema, sem que a possibilidade da existência de um mundo real sequer exista. Não à toa, os fatos são mandados à puta que pariu da maneira mais delirante possível.

Enfim, é um filme com muito plot e pouco drama, um quebra-cabeça fácil de montar, cheio de peças usadas mas remontadas com imenso frescor. Bastardos Inglórios voa das aventuras de montanhismo de Pabst até os thrillers estilosos de guerra dos anos 60. Cinéfilos riem mais, e melhor. Em tempo: o próximo filme de QT deve ser estrelado por Lauren Bacall.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Alfazema e arsênico

Tento há dias escrever alguma coisa sobre uma marretada em forma de cinema chamada O Segredo Íntimo de Lola, de Jacques Demy, mas tudo o que poderia (e vou escrever abaixo) pode ser resumido numa frase de um amigo do Orkut, Júnior Soares: alfazema e arsênico. O Segredo... , ou Model Shop, retoma a personagem-título de Lola, A Flor Proibida, a prostituta sonhadora à espera de seu grande amor, que chega num carro branco conversível, como um príncipe sobre seu cavalo (onde li isso?).

Na continuação de seu primeiro longa, desmonta de vez o artificialismo daquele sonho de amor em p&b e traz Lola de volta, amrgurada, abandonada na América após um divórcio humilhante, prostituindo-se novamente para pagar uma passagem de volta à França e reencontrar seu filho pequeno. Um arquiteto desempregado se apaixona por ela à primera vista, mas a guerra o espera na segunda-feira.



Ao menos nessa fase dos anos 60, Model Shop é o filme de Demy mais frontalmente amargo, sem o lirismo da música de Michel Legrand para disfarçar a crueldade do mundo, ou a paisagem das cidades portuárias francesas para envolver os personagens em um pouco de beleza. Não - Los Angeles, uma cidade que os personagem do filme adora, nunca pareceu tão triste e deprimente, e o tom estranhamente não-espetacular para o normal do diretor nos garante que esse é um exemplar de melancolia puro sangue.

Não há aquela vontade de reconstruir o universo para escapar à realidade, algo identificado por vários críticos em Vincente Minnelli, outro mestre do musical. O que era a Argélia se infiltrando em Lola, Os Guarda-Chuvas do Amor e Duas Garotas Românticas se converte no Vietnã. O final feliz de A Baía dos Anjos também é sacrificado ironicamente numa fala de Lola, que revela o paradeiro da personagem de Jeanne Moreau - não resistiu ao vício e abandonou seu companheiro daquele filme, tendo ido parar em Las Vegas.

Não é surpreendente, portanto, que desta vez Demy nem se dê ao trabalho de criar um happy end fake para destruir depois. O encontro de uma noite dos protagonistas acaba sem direito a evoluir para um relacionamento. Um recado passado ao telefone por uma amiga corta o amor pela raiz, sem direito a despedida, e fade to black.

Domingo, Agosto 30, 2009

Clooney, Nichols, Resnais, etc

Pela primeira vez em muitos anos achei uma atuação de Renee Zellweger mais ou menos tolerável. Ela está bem ok em O Amor Não Tem Regras, terceiro longa de Goerge Clooney na direção, comédia screwball à Capra sobre jornalismo e futebol americano. Zellweger passa dentro do tipo da repórter intrépida, personagem que nos anos 40 parava não mão de gente como Barbara Stanwyck, Rosalind Russell e Jean Arthur.



Se Zellweger é no máximo funcional, Clooney carrega mais uma vez um filme nas costas com seu impecável talento cômico e charme antiquado, roubado de Cary Grant e Clark Gable - e ele não fica nem um pouco mal na comparação. O cara é mesmo o máximo, tem desenvoltura enorme com a câmera e sabe fazer graça tanto no lero, seduzindo a mocinha, quanto no slapstick, sujo de lama.

Clooney parece incapaz de errar nesse tipo, e isso é muito bom. Aqui ele garante a diversão, e todas as memórias que o filme deixa são de sua habilidade cômica. Como diretor, Clooney talvez precise voltar ao patamar ambicioso de seu austero e jazzístico Boa Noite e Boa Sorte.

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Mike Nichols começou a carreira com Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e A Primeira Noite de um Homem, mas hoje em dia não é homem que honra o currículo. Depois do superescrito, pretensioso e desigual Closer - Perto Demais, ele chega ao fundo do poço com o medonho Jogos de Poder, um filme político peso-pena de 90 minutos e superficialidade assustadora.

Trata a interferência dos Estados Unidos no Afeganistão dos 80 como uma estripulia de um homem charmoso - e sem nenhuma crítica sobre isso, como nos mostram o início e o fim da projeção, com Tom Hanks recebendo um prêmio, emocionado. O filme é um erro completo de tom, não tem força para envergar a comédia até o ponto da sátira e tem a pior atuação de Julia Roberts na carreira. Philip Seymour Hoffman tirou da cartola uma indicação ao Oscar, não sei como. Bomba.

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Também detesto, e "de com força", esse Se Beber, Não Case, que estreou no Brasil agora. O fato de ser a comédia com maior bilheteria desde Um Tira da Pesada é bem revelador: estamos chafurdando na grosseria e na estupidez. Nada contra escatologia como transgressão, mas aqui, nesse filme, as piadas de banheiro são apenas uma tentativa tola de comédia maluca incessante que já era velha em 1940, uma vontade de garantir de saco de risos enquanto o final conservador (casamento, amor eterno) não chega. O horror, o horror. Para um pouco de escatologia cinematograficamente competente, ver o excelente Como se Fosse a Primeira Vez, com Adam Sandler e Drew Barrymore.

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Depois de tanta porcaria e mediocridade, nada como a beleza avassaladora de Morrer de Amor, outra obra-prima de Alain Resnais. Assim como em Mélo, o tema do amor como motor de destruição é totalmente Trufô, mas o rigidamente teatral e não-intrusivo de Resnais transformam a paixão em religião. O filme é hierático, sólido como uma rocha, duro, cheio de planos fixos e close-ups de arrasar, plenos de uma graça quase divina. A obstinação da mulher em permancer junto ao amado, mesmo do lado da morte, tornariam Bresson uma referência fácil, se Bresson falasse de amor.

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Revisto na tv, Onde Os Fracos Não Têm Vez continua sendo o melhor vencedor do Oscar desde O Franco-Atirador e o melhor longa dos Coen (Barton Fink é o segundo, de perto). Não bastasse a precisão neurocirúrgica com que cada sequência é filmada e montada (mão gela de tanta tensão), o tom apocalíptico em modo turbo radicaliza a desesperança do faroeste psicológico e suas atualizações, como Os Desajustados, e O Indomado. No fundo, primeiro próximo e sangrento de Brokeback Mountain, só que em outro gênero - em vez do melodrama, o thriller.

Domingo, Agosto 16, 2009

Inimigos Públicos, A Bela Junie

Ok, de volta ao blog após um longo recesso - um mês, na internet, é uma eternidade. Pois bem, tiremos logo da frente o Inimigos Públicos, meu filme mais esperado do ano, feito por um dos diretores mais sensacionais da atualidade. Havia falado num post anterior sobre autores em grande fase, como Almodóvar e Ang Lee, e da expectativa de decepção que vem junto cada vez que um desses caras lança um filme.

Dessa vez, com Michael Mann, não teve jeito. O filme tem momentos lindos, cenas de grande cinema, mas depois de Miami Vice não tem como não ver as arestas desse aqui. Por que um filme que tem Johnny Depp e Marion Cotillard fazendo o que fazem aqui precisa perder tempo com os esforços policiais para prender o bandido-protagonista?

Cada vez que perdemos Depp de vista o filme ganha uma corrente nos pés, e deixa a sensação de que estamos perdendo algo importante da relação de Dillinger e sua namorada francesa-índia, mesmo quando eles estão separados. Em seus policiais Michael Mann sempre soube administrar esse paralelismo ação-vida muito bem, especialmente em suas duas obras-primas, Fogo Contra Fogo e Miami Vice.



Johnny Depp, Dillinger

Os relacionamentos pessoais eram tão fortes que praticamente conduziam a projeção, independentemente da trama policial. Não são filmes sobre perseguições, mas sobre homens e seus conflitos - um amor de verão em Cuba, um casamento em ruínas ou uma relação difícil com uma filha. Para que esses filmes fossem, em si, "policiais", Mann exercitava todo seu epicismo em grandes cenas de ação, como aquele tiroteio de Fogo Contra Fogo, e só assim alcançava o equilíbrio público & privado que é particular a seu cinema. A cada morte, a cada ferimento a bala, a dor vinha mais forte. Tem alguém ali, uma pessoa embaixo da carcaça de vítima ou algoz.

Apesar de alguns planos realmente antológicos, no entanto, o Mann diretor de gênero deixa de impressionar, a ponto de que os assaltos a banco parecem inferiores aos do último Batman, um filme que copiou descaradamente do cineasta. Faltam elaboração e força em vários dos momentos de ação do filme, que parecem ser dirigidos por um imitador.

A substituição do fotógrafo Dion Beebe pelo veterano Dante Spinotti parece também um erro: o visual perde aquela qualidade quase surreal de improviso que os dois longas anteriores de Mann tinham, como se a luz borrada fosse análoga a notas de jazz, rebeldes, estouradas. E essa luz some justo agora, naquele filme que deveria ser o mais jazzy do diretor, e que acaba sendo o mais austero.

Lendo esses parágrafos, pode-se ter a impressão de que estou sendo negativo em relação ao filme. Não estou: antes de restrições, essas ideias são mais justificativas da inferioridade desse Inimigos Públicos em relação ao auge de Michael Mann. Mesmo assim, alguns passos atrás, ele ainda é um dos maiores gênios da atualidade, e será difícil encontrar até seu próximo longa alguem que entregue momentos como o que ele mostra aqui. O filme é sensacional, mesmo que imperfeito.

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Outro caso de diretor trabalhando um nível abaixo em relação ao que já alcançou é Christophe Honoré, mas nesse caso eu não saberia exatamente o porquê. Amei de com força seu filme anterior, Canções de Amor, e esse A Bela Junie é também muito bonito, só que não bate igual.

No fundo, é outro exercício de romantismo do diretor, só que em outro tom. Honoré continua longe dos cânones cinematográficos hollywoodianos, sem juras de eternidade e moralismos, e entende, como Truffaut, o amor em sua dimensão mais orgânica, capaz de provocar distúrbios no corpo e na alma por sua intensidade. Seus filmes exibem sexualidade exarcebada, mas não gratuita, e entendem que existe amor além do mundo hetero.



Léa Sydoux e Gregóire Leprince-Ringuet

A mudança do tom se registra na passagem da alegria do musical à sobriedade de um romance de séculos passados, adaptado a uma escola secundária da atualidade sem muitos ajustes. É um filme lindo e apaixonado, mas para manter a analogia com Trufô, não é porralouca como Jules e Jim, mas terno e rigoroso como As Duas Inglesas e o Amor.

Trufô também aparece aqui e ali na relação próxima do amor com a morte, e a saída de cena de um dos personagens tem aquela magia triste que o mestre da nouvelle vague conseguiu conjurar ao encerrar coisas como A Mulher do Lado ou A História de Adele H. É o amor como doença terminal, como diria Kléber Mendonça Filho. Mas, no todo, o filme de Honoré não suporta a comparação.

PS: Essa menina Léa Sydoux é uma revelação. Gregóire Leprince-Ringuet, que fez o garoto gay em Canções de Amor, está mais uma vez perfeito, com o coração carregado de dor. O ator do ano, provavelmente.

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Argentina, Uruguai

Quem são meus diretores favoritos hoje? Acho que essa lista com certeza teria Michael Mann (Miami Vice, Colateral, Fogo Contra Fogo), Wong Kar-Wai (Amor à Flor da Pele, 2046, Felizes Juntos), e Clint Eastwood (dã), etc, etc. A lista é longa, mas dentro desse grupo há com certeza espaço para a obra do argentino Daniel Burman, um cara que normalmente não entraria em listas de consenso, mas que, para mim, é praticamente um herói. Se eu fosse cineasta queria fazer filmes iguais aos dele.

Burman tem um cinema discreto e fluido, mas me parece ser o homem que melhor escreve hoje, junto com Desplechin. Faz filmes quase verbosos, super-escritos, e já foi comparado a Woody Allen, mas há uma leveza impressa em cada frase e desdobramento de trama que me parece jogar por terra essas críticas. Estamos dentro da mente de alguém bem próximo, capa de pensar e se expressar rápido, mas não há nada aqui da chatíssima vontade de ser irônico/pós-moderno de fraudes como Diablo Cody e Charlie Kaufman. Burman é lindamente livre de sarcasmo.

Seu coração aberto e excelente olho para gente fazem também com que seus filmes não sejam apenas peças engendradas com inteligência narrativa à antiga. Nessas comédias falsamente peso-pena de classe média, verdades pontiagudas aqui e ali que sugerem uma melancolia muito bem lograda, perfeitamente inserida no cotidiano e sem qualquer lance de dramalhão, mesmo com histórias de reconciliação familiar.



Pois bem, eu não vi os primeiros longas dele, mas me apaixonei completamente por Abraço Partido, e talvez mais ainda por As Leis de Família, dois filmes estrelados por um xará do diretor, o uruguaio Daniel Hendler, em papeis parecidos de jovem hesitante, judeus como o cineasta, ambos chamados Ariel. Vi esses dias por aqui Ninho Vazio, outro prazer imenso de cinema e texto, com uma acenada para o fantástico.

Começa com uma cena maravilhosa, jantar de amigos intelectuais, e vem outra e mais uma, e uma terceira cena incrível, e assim sucessivamente. Estruturalmente, no entanto, há alguma obviedade nas tentativas de metalinguagem, e por melhor que seja a empatia criada com o protagonista-escritor-turrão, Burman é ainda melhor quando escreve sobre pessoas de sua geração, mais jovens. Conflitos parecem mais acertados, sem arestas. Mas, por esses vários momentos soltos de pura graça, uma sessão de encanto, sim.

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Bem mais redondo, embora de uma frieza quase glacial é o incrível Aura, do também argentino Fabian Bielinsky, o mesmo diretor de Nove Rainhas, morto prematuramente por um ataque cardíaco. Filme de gênero com gosto, noir de simbolismos não-estensivos, protagonizado por um taxidermista epilético. É o tipo de coisa que não fazemos do lado de cá da fronteira, a mesma releitura do policial de erros hollywoodiano tão consagrada pelos irmãos Coen em toda a sua obra. Gélido, violento, atmosférico e completamente seco em sua narrativa, Aura se sustenta muito bem na comparação com a obra dos diretores americanos.

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Do outro lado do Rio da Prata, dois filmes também muito bons. 25 Watts, longa de estreia da dupla Juan Pedro Rebella e Pablo Stoll (mais tarde fariam o genial Whisky; o duo acabou com o suicídio de Rebella), mostra um dia de tédio de três amigos de classe média em Montevidéu de maneira muito espirituosa. Feito na guerrilha com 200 mil dólares, o filme se livra muito bem de suas limitações financeiras e as converte em mérito.

Câmeras fixas, apartamentos de verdade, p&b meio sujo - tudo isso se vira a favor do filme e de sua modorra. Não há aqui aqueles climões asiáticos, e sim um humor bem masculino, mas discreto, que sempre surge quando um grupo de homens jovens não sabe muito o que fazer da vida. Cheguei até desconfiar de uma influência de Cassavetes, mas o lance aqui é mais cômico mesmo, e um agradecimento nos créditos a Jim Jarmusch esclarece mais as coisas. Podia até ser um curta, mas um colega de trabalho uruguaio já me disse que a alma do país é a repetição - por isso o filme se resolve tão bem em sua hora e meia. Eles dominam esse vazio.

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O outro filme uruguaio é O Banheiro do Papa, de Enrique Fernández e César Charlone, este último o consagrado fotógrafo de Fernando Meirelles. Bonito também, numa daquelas histórias de cinema iraniano: cidadezinha do interior se mobiliza para vender comidas durante a visita de João Paulo II, em 88. O protagonista resolve construir um banheiro para atender as necessidades do grande grupo de romeiros esperado. A comparação com o cinema iraniano vai além da história: temos de volta aquela grande sensação de naturalidade, em casas autênticas, atores com caras reais e um bom humor e amor à vida invejáveis. Dá até uma saudade de Jafar Panahi.