terça-feira, julho 26, 2016

Phoenix




Tá sendo bem difícil tirar esse filme Phoenix, de Christian Petzold, da cabeça. Speak Low, que pra mim era só mais um standard, tornou--se moldura de uma das cenas mais acachapantes da história ao mesmo tempo em que foi arruinada para todo o sempre, porque será impossível dissociá-la do rosto de Nina Hoss. Perdi a conta de quantas vezes escutei a canção por esses dias.

Nas últimas duas semanas tenho lido um monte de textos sobre o filme, e 90 por cento deles dizem que se trata de uma atualização de Vertigo, e eu também pensei nisso imediatamente, mas hoje o filme já me bate como um filme-irmão de A Pele Que Habito, de Almodóvar, só que devidamente adequado a esse rigoroso e duro corte alemão, no qual tudo é seco, despido, mínimo.

Nos dois filmes temos pessoas vivendo com o outro rosto que não o seu de nascença, com sérios problemas de identidade. Em Phoenix, em especial, me chama a atenção o processo de negação da identidade, em direções opostas.

Nelly quer ser a que era antes da guerra, quer acreditar no amor do seu marido ariano, quer arranjar desculpas para a sua delação, enquanto o marido se recusa a ver a nova mulher na sua frente como a antiga - tem de ser outra pessoa - mas (inconscientemente?) a atira rumo à identidade anterior. Para quem é aquela farsa?

Os personagens demoram horrores para se libertar das suas negações, como se a ficção encenada por eles mesmos fosse a única saída para continuar a viver até que as feridas se fechem. (Yann Martel escreveu um livro brilhante sobre isso, A Vida de Pi). É ainda mais impressionante como, num detalhe especialmente cruel, à personagem que insiste encarar a verdade sem desviar o olhar, só resta o suicídio.

Em Tudo Sobre Minha Mãe, Agrado dizia que as pessoas são mais autênticas quanto mais se parecem com aquilo que sempre quiseram ser. E quando isso é impossível? E quando esse caminho rumo à identidade é roubado, violentado, abreviado? É daí que vem a força de A Pele que Habito e de Phoenix em suas cenas finais: aprender a ser outra pessoa diferente do que se é - no seu cerne - e tomar outro caminho pode ser o maior dos traumas.

quinta-feira, julho 07, 2016

O tempo de Almodóvar





Já escrevi pelo menos duas vezes sobre Julieta, o doloroso filme de Almodóvar que estreia amanhã no Brasil, mas nas duas vezes deixei passar uma coisa que continua me chamando a atenção não só nesse filme, mas em toda a fase "madura" do diretor, que, dizem, começou há 20 anos com A Flor do Meu Segredo. Eu queria na verdade de falar que essa tal maturidade do diretor tem uma relação direta com a maneira com a qual ele passou a pensar o tempo dos seus filmes. Não o ritmo, o tempo mesmo, o Tempo.

O plano da imagem é de Fale Com Ela, ainda o maior de seus filmes, e é uma prova da paixão do diretor pelo livro As Horas, de Michael Cunningham, que ele queria ter adaptado (que pena, poderia ter nos poupado daquele filme). Isso me chama a atenção porque é o livro (que não li, mas que tento perceber por meio da adaptação) é uma história em três tempos, e quando um personagem de um tempo invade o outro temos um panorama de uma vida inteira.

Aí você para pensar em como essa dispersão das suas histórias em diversos tempos tem sido comum em praticamente todos os filmes dele dos últimos vinte anos (vamos fingir que Os Amantes Passageiros não existiu). As suas histórias não são lineares, e sim temos personagens presos em labirintos temporais sofisticados, quase sempre com a lógica de repercurtir ações passadas meses ou anos depois das maneiras mais tortas e inesperadas.

Esses filmes são todos muito fortes porque no final das contas temos a sensação de, a partir da seleção desses momentos-chave, vemos a vida inteira dessas pessoas na nossa frente, ás vezes desde o nascimento, como em Carne Trêmula, ou na infância, na idade adulta e no reflexo dessa idade adulta dentro de um filme, como em Má Educação.

Quando escrevi sobre Abraços Partidos (o pior filme "adulto" do diretor), eu pensei ver nessa teia temporal uma vontade de refletir sobre a memória, mas hoje acho que não. O passado em Almodóvar nunca vira memória; na verdade, o preço das nossas ações é vivo e está conosco o tempo todo, do mesmo jeito que os mortos de Mizoguchi, por exemplo, continuam ao lado dos vivos.

Em Julieta, o filme que estreia esse fim de semana - e que o facebook friend Fernando Vasconcelos chamou de "um As Horas que presta" -, Almodóvar alcança um refinamento nesse projeto de "panoramas de vida" que permite-lhe não apenas um retrato pessoal e único, com todos os sofrimentos e angústia que acumulamos, mas expande esse terror para a ideia de família, como numa sina. A gente muitas vezes repete os tropeços dos nossos pais, que serão repetidos pelos nossos filhos.

E como já escrevi sobre o filme, a principal consequência em não romper essa inevitabilidade é que a morte fecha todos os caminhos de volta, e só sobra o silêncio. No fundo, é como dizia García Márquez: "as estirpes condenadas a cem anos de solidão não terão uma segunda oportunidade sobre a terra". Que se aproveite antes que seja tarde.

Mais: 



sábado, junho 04, 2016

Julieta, As Memórias de Marnie



Em Má Educação, de Pedro Almodóvar, dois personagens atormentados pela sombra de um assassinato entram numa sala de cinema onde está em cartaz um festival de filmes noir. Na saída, um diz para o outro: por que todos os filmes falam sobre a gente?

Em Cannes, vi o último filme do mesmo Almodóvar, Julieta, um filme doloroso sobre os abismos que se criam entre pessoas que se amam e os silêncios que as separam. Hoje eu vi (acabei mesmo de ver) a animação japonesa As Memórias de Marnie, de Hiromasa Yonebayashi, que é basicamente o mesmo filme que Julieta, outra obra sobre pessoas ligadas por laços familiares e sentimentais que não conseguem se comunicar. Em ambos os filmes, Julieta e As Memórias de Marnie, me senti como a personagem de Má Educação: todos os filmes falam sobre mim.


Por mais que eu enxergue imensas qualidades nesses filmes, sinto imensa dificuldade em saber quando a minha admiração estética acaba e quando começa a pura e simples identificação ou o choque de ver a própria história numa tela de cinema, com as mesmas dores, as mesmas zonas sombrias.

Cheguei a Angola há sete anos. Meu pai só soube que eu estava aqui alguns meses depois, e demorou até que conseguisse falar comigo devido a barreiras que eu mesmo pus e sustentei. Anos depois, numa viagem curta a Belém - numa fase difícil, quando finalmente me percebi adulto, descobri que um dia eu iria morrer e resolvi acertas algumas pontas soltas da vida antes de seguir em frente -, meu pai me contou a mesma história. Ele havia simplesmente desaparecido de Belém e ganhou o Brasil pouco depois da adolescência, sendo redescoberto apenas anos depois na Bahia.

Não conto isso aqui para transformar a minha história em melodrama nem para pedir compaixão - está tudo resolvido, na medida do possível. Muito pelo contrário, faço isso para afirmar a potência e o poder de comunicação e reflexão desses filmes. Não acredito, mesmo, que a minha relação de admiração com eles fosse tão diferente caso eu tivesse uma outra história pessoal, mas me parece um fato de que ter essa história cria um atalho para que esses filmes batam certo e rápido.

Woody Allen quis desdizer o ditado e escreveu no roteiro de Maridos e Esposas que a vida imita a televisão ruim. Talvez, mas acho que a arte, sim, imita e amplifica a vida, e assim, muitas vezes nos dá a dimensão exata das escolhas que fazemos e do nosso lugar no mundo a partir dessas escolhas.

Julieta estreia no Brasil em 7 de Julho. Será o grande filme desse ano. As Memórias de Marnie entrou em cartaz ano passado em várias capitais, incluindo Salvador, e acabou de sair em dvd e bluray pela Califórnia Filmes. Também pode ser encontrado no site de torrents mais próximo.

segunda-feira, maio 23, 2016

Cannes 2016

cobrir cannes foi uma experiência foda, que mudou a minha perspectiva sobre um monte de coisas, do cinema, da vida em geral, da minha própria vida, da minha carreira como jornalista, enfim. foram 30 filmes, mas foi muito mais do que a soma desses filmes. 
se o resultado disso em quinze textos não traduz a riqueza dessas quase duas semanas, a culpa é minha, mas tem ideias soltas nesse textos das quais eu gosto, e que valem a pena ser lidas, se me dão um direito de ser um pouco cabotino.
muito obrigado por ter acompanhado!
vamos lá:
Premiação: http://www.redeangola.info/apesar-da-competicao-forte-juri-da-palmares-desastroso/
The Last Face, de Sean Penn, Forushande, de Ashgar Farhadi, e Elle, de Paul Verhoeven: http://www.redeangola.info/africa-presente-na-competicao-como-cenario-de-filme-de-sean-penn/
The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn, Bacalaureat, de Christian Mungiu, e Juste le Fin du Monde, de Xavier Dolan: http://www.redeangola.info/dinamarques-nicolas-winding-refn-apresenta-o-filme-choque-do-festival/
La Fille Inconnue, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Personal Shopper, de Olivier Assayas, e Umi Yorimo Mada Fukako, de Hirokazu Kore-eda: http://www.redeangola.info/os-mortos-sem-nome-numa-europa-ferida/
Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, e Ma' Rosa, de Brillante Mendonza: http://www.redeangola.info/o-filme-e-sua-circunstancia/
Julieta, de Pedro Almodóvar, e Loving, de Jeff Nichols: http://www.redeangola.info/luto-abandono-racismo-resiliencia/
Hissein Habré, Une Tragédie Chadienne, de Mahamat-Saleh Haroun, Mimosas, de Oliver Laxe, e Cinema Novo, de Eryk Rocha: http://www.redeangola.info/documentario-pede-justica-para-as-vitimas-de-hissain-habre/
Patterson, de Jim Jarmusch, Mal de Pierres, de Nicole Garcia, Agassi, de Park Chanwook: http://www.redeangola.info/uma-pequena-obra-prima-de-jarmusch/
Toni Erdmann, de Maren Ade, American Honey, de Andrea Arnold, e The BFG, de Steven Spielberg: http://www.redeangola.info/cannes-apresenta-mulheres-palma/
Neruda, de Pablo Larraín, e Money Monster, de Jodie Foster: http://www.redeangola.info/a-arte-vence-a-opressao-numa-joia-vinda-do-chile/
Ma Loute, de Bruno Dumont, e Rester Vertical, de Alain Guiraudie: http://www.redeangola.info/participacao-francesa-comeca-com-sexo-e-surrealismo/
I, Daniel Blake, de Ken Loach: http://www.redeangola.info/em-meio-ao-circo-vida-real/
Eshtebak, de Mohamed Diab: http://www.redeangola.info/em-meio-ao-circo-vida-real/
Café Society, de Woody Allen, e Sieranevada, de Cristi Puiu: http://www.redeangola.info/woody-allen-abre-cannes-em-clima-de-nostalgia/
+ Entrevista (rápida) com Mahamat-Saleh Haroun: http://www.redeangola.info/especiais/mahamat-saleh-haroun/
Cotação final, com os filmes em ordem de preferência:
Julieta, de Pedro Almodóvar *****
Patterson, de Jim Jarmusch *****
Aquarius, de Kleber Mendonça Filho *****
Neruda, de Pablo Larraín ****1/2
Sieranevada, de Cristi Puiu ****
Elle, de Paul Verhoeven ****
The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn ****
Personal Shopper, de Olivier Assayas ****
Ma Loute, de Bruno Dumont ****
Toni Erdmann, de Maren Ade ****
Loving, de Jeff Nichols ****
After the Storm, de Hirokazu Kore-eda ***1/2
Eshbetak, de Mohamed Diap ***1/2
Bacalaureat, de Christian Mungiu ***
Forushande, de Ashgar Farhadi ***
Agassi, de Park Chanwook ***
Hissein Habré, de Mahamat-Saleh Haroun ***
La Fille Inconnue, dos irmãos Dardenne ***
Money Monster, de Jodie Foster ***
I, Daniel Blake, de Ken Loach **1/2
Cinema Novo, de Eryk Rocha **1/2
Rester Vertical, de Alain Guiraudie **1/2
Ma Rosa, de Brillante Mendoza **
Café Society, de Woody Allen **
Mal de Pierres, de Nicole Garcia *
The BFG, de Steven Spielberg *
Juste le Fin du Monde, de Xavier Dolan *
Mimosas, de Oliver Laxe *
American Honey, de Andrea Arnold BOLA PRETA
The Last Face, de Sean Penn BOLA PRETA GIGANTE

terça-feira, abril 05, 2016

O centenário de Gregory Peck

Gregory Peck não é o meu ator preferido, mas talvez seja o astro do cinema clássico que eu mais gosto. Ele entra em cena e os filmes ganham uma mistura quase paradoxal de charme e gravidade. É ele o ator-símbolo da luta pelas boas causas no cinema, aquele que era sempre advogado ou jornalista, mas também era a elegância em pessoa, o dono da finesse rara num ator de sempre saber a palavra certa, a inflexão econômica para não apenas transmitir o que o seu personagem precisa, mas para fazer com que todo mundo à sua volta não apenas o admire, mas por ele se apaixone.

Numa década marcada pelo furacão Marlon Brando, como os anos 50, ele conseguia projetar o seu magnetismo sem pingar uma gota de suor. É como uma se suas feições de pedra e o seu corpo sempre trajado num terno impecável o tornassem ao mesmo tempo invisível e o centro das atenções. Por isso que é tão difícil definir: todos os atores da sua época áurea (45-65), como Brando, Lancaster, Newman são definidos por traços físicos. Gregory Peck, acima de tudo é presença.

Claro que hoje, no seu centenário de nascimento, todo mundo se lembra daquele que foi escolhido o maior herói do cinema americano, o idealista advogado Atticus Finch de O Sol É Para Todos, que ousa defender um homem negro acusado de estupro em pleno sul racista e atrasado. Amo o livro e o filme e Peck nos dois (li o livro depois e é impossível não imaginá-lo em todas as páginas), mas o meu Peck do coração é o jornalista malandro de A Princesa e o Plebeu.

Repórter falido da sucursal de um jornal americano em Roma, Peck encontra por acaso uma princesa em fuga, Audrey Hepburn. Ele tem uma pauta gigantesca nas mãos, e finge não conhecê-la para servir de cicerone pelas ruas da capital italiana e conseguir uma reportagem incrível. Sua decisão no final, cheia de beleza e dignidade dão uma inesperada lição de ética e jornalismo mesmo dentro de uma das melhores comédias românticas da história - talvez a melhor, com sua licença, Lubitsch. Há o jornalismo, mas a vida passa na frente.

Vê-lo como um ídolo de matinê não significa dessexualizá-lo. Como bem lembra Martin Scorsese na sua série sobre o cinema americano, existe uma sexualidade em Hollywood antes e depois de Duelo Ao Sol. Quem o vê explodindo de tesão ao lado de uma igualmente incandescente Jennifer Jones percebe que além do astro digno e elegante, há um ator capaz de fervor e fúria, mas sem transformar isso em tique, como os descendentes menos talentosos de Brando.

Outro papel dele que adoro, também com William Wyler na direção (o mesmo de A Princesa e o Plebeu), é o protagonista de Da Terra Nascem os Homens, um raro faroeste na sua filmografia e na do cineasta de Ben-Hur. A figura citadina e democrata de Peck entra em conflito imediato com o interior sem leis do filme, onde as coisas se resolvem a tiro. Num plano maravilhoso no duelo do desfecho ele pisca o olho fazendo a mira, mas decide não matar o oponente. Ele estava acima daquela selvageria, mas jamais parece arrogante. É apenas o homem que anuncia a mudança para tempos melhores.

No sistema de estúdio os atores raramente eram desafiados e cada um tinha a sua área de atuação. O que fazia Peck tão cativante é justamente isso: ele se especializou em ser nas telas um arauto da tolerância.




segunda-feira, janeiro 04, 2016

Melhores 2015

Eu ia tentar ver mais algumas coisas antes de fechar essa lista, mas quer saber, é só uma lista, estou de férias, e posso deixar o que falta para depois, incluindo o que está em cartaz em Salvador agora (sorry, Trapero, Kawase, Garrel). Sem contar que eu já perdi um monte de coisa que queria ter visto mesmo e não tive chance, de Larraín a Domingos de Oliveira, de Alvaro Brechner a Andrew Haigh.
Antes disso, fica a ressalva de que a lista poderia ser melhor se tivessem entrado realmente em circuito as obras-primas Bird People, de Pascale Ferran, e o ultra incompreendido Blackhat, de Michael Mann. Os dois filmes passaram em sessões especiais em Salvador (o meu critério é ter entrado em cartaz na cidade em 2015).
Mas vamos lá fechar isso.
10 - A História da Eternidade, Brasil, de Camilo Cavalcanti
Ainda não sei se realmente gosto desse filme, mas ele é em partes tão forte e impressionante - embora consciente demais disso - que vale o voto de confiança, mesmo que o todo pareça desconjuntado e demasiado auto-importante. Mas vamos lá, é um filme de estreia, e bem promissor.
Sessão dupla: Japão, de Carlos Reygadas.
9 - O Conto da Princesa Kaguya, Japão, de Isao Takahata
O retorno do mestre de O Túmulo dos Vaga-lumes numa mistura de fantasia e melodrama que identifica imediatamente a tradição feminista e empática com as mulheres do cinema japonês. Esse conto é sobre uma princesa que se recusa a ser um objeto, mesmo que, no final das contas, até a intervenção divina lhe mostre que ela não tem muita escolha.
Sessão dupla: A Imperatriz Yang Kwei-Fei, de Kenji Mizoguchi.
8 - Três Lembranças da Minha Juventude, França, de Arnaud Desplechin
Desplechin voltou menos elétrico e mais nostálgico de um cinema bêbado de nouvelle vague. É derivativo, sim, mas o cara continua pondo tanto coração no que faz que o seu cinema ainda funciona, mesmo que esse arrebatamento de cartas de amor pareça já anacrônico nos anos 80/90. Desplechin deve boa parte do sucesso do filme à descoberta desse ator novo, Quentin Dolmaire, um proto Louis Garrel destinado ao estrelato. Bônus: todo o maravilhoso preâmbulo em Belarus, que faz o filme parecer que vai ser outra coisa.
Sessão dupla: As Duas Inglesas e o Amor, de François Truffaut.
7 - As Maravilhas, Itália, de Alice Rohrbacher
Num ano forte em cinema de referência, a teuto-italiana Rohrbacher reconjura intacta a dureza e a humanidade neorrealista na história das meninas de uma família numa Itália árida e pobre. Seguindo os passos de Reality, de Matteo Garrone, a televisão entra como um trator nessa realidade, do mesmo jeito que um dia o cinema o fez (no Belíssima, de Visconti, por exemplo). Com uma mão bem leve, Rohrwacher parece mais pessimista e amarga: o populismo televisivo é só um furacão efêmero, não muda nada.
Sessão Dupla: Pai Patrão, dos irmãos Taviani.
6 - Divertida Mente, EUA, de Pete Docter
Uma volta à forma da Pixar no seu conceito mais ambicioso. Em vez de antromorfizar o mundos dos peixes, dos insetos ou dos carros, dessa vez eles foram para dentro do cérebro humano, desvendar os mecanismos da depressão. O seu ponto de vista, no entanto, está longe de ser infantil. O filme está consciente da importância de coisas como o sacrifício, o luto e a importância de por vezes ceder à tristeza para que seja possível uma recuperação. Belo e profundo.
Sessão dupla: Poesia, de Lee Chang-Dong
5 - O Amor é Estranho, EUA, de Ira Sachs
Deixe a Luz Acesa já era um filme promissor pela honestidade com que lidava com a vida LGBT no hoje em dia, mas esse filme novo avança ainda mais casas no entendimento dessa vida em tempos em que batalha cultural está em grande parte, encaminhada. Sobra um sentimento mais universal, da perda que é se ver separado de um companheiro de 40 anos, e da necessidade física de estar perto de quem se ama. Não deixa de ser uma normatização, mas por outro lado, essas decisões do filme evidenciam o quanto, no fundo, somos todos muito mais iguais do que diferentes, sejamos heteros, homos, bis, etc. O importante - sempre, e para todos - é estar junto que quem amamos. Bem bonito e delicado.
Sessão dupla: Longe Dela, de Sarah Polley
4 - Mapa Para as Estrelas, de David Cronenberg
O melhor Cronemberg desde Spider, engraçado, irônico, virulento, sombrio e quase apocalíptico. Me parece que ele finalmente se encontrou depois de uma abandonar as agruras do corpo e se focar em exercícios de gênero bem recebidos, mas estranhamente contidos, como o quase-faroeste Marcas da Violência ou aquele gelado teatro filmado sobre Freud e Jung. Eu gosto muito de Cosmópolis, mas ele é quase um ensaio para esse filme novo, cheio de múltiplos pontos de vista sobre o porque desse mundo estar dando tão errado. Mapas Para Estrelas é o seu primeiro filme feito nos Estados Unidos, e ele ataca a indústria cinematográfica sem deixar prisioneiros.
Sessão Dupla: Rede de Intrigas, de Sidney Lumet.
3 - Foxcatcher, de Bennett Miller
Bennett Miller, um diretor muito melhor que a sua reputação, aprendeu uma ou duas coisas com Truman Capote ao fazer aquele filme sobre a reconstituição do escritor do assassinato de uma família do interior dos Estados Unidos. O que ele faz aqui não deixa de ser a mesma coisa, é reconstruir um crime a partir de todos os seus detalhes e das suas mentes doentes, com frieza clínica. Atores impossivelmente perfeitos, aliás, com o destaque para Mark Ruffalo, numa cena em que aparece a dar um depoimento para um documentário.
Sessão dupla: O Indomado, de Martin Ritt.
2 - Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg
Os dois primeiros dessa lista são filmes gêmeos, praticamente. Em Ponte de Espiões, Spielberg parece promover a importância do diálogo para a manutenção da civilização e do pacto social que nos impede de explodir uns aos outros - algo que ele já havia começado a tratar em Caminho de Guerra e Lincoln. Os olhos spielbergueanos continuam excelentes para filmar de acidentes de aviões a cenas de tribunal, mas isso é apenas a superfície de um filme que busca no teatro e nos papéis de cada um uma metáfora para o convívio entre humanos.
Sessão Dupla: Da Terra Nascem os Homens, de William Wyler.
1 - Timbuktu, de Abdehrramane Sissako
Timbuktu, por sua vez, é um filme sobre a falta de diálogo e sobre o estrago que o fim da possibilidade de conversar provoca. Não há conversa com os radicais, não há razoabilidade, não há arte, não há vida nem diversão; sobram apenas radicalismos e fundamentalismos. O modo magistral de Sissako encenar a implosão dessa civilização faz de Timbuktu não apenas o filme-desastre do ano, mas o filme do ano tout-court.
Sessão dupla: Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola.

sábado, dezembro 27, 2014

Os melhores de 2014

Bom, chegou a hora. Vale sempre a ressalva de que essa lista é baseada no circuito comercial de Salvador, e de que perdi muita coisa, ainda mais esse ano, por ter passado menos de 20 dias na cidade. Faltaram filmes importantes de diretores que queria ver (de estreias bombadas como Relatos Selvagens e O Abutre aos novos de Ferrara, Bonello, etc), mas, enfim, são as limitações que enfrento. Ainda assim, pude ver filmes muito bons, e, embora seja uma lista inferior aos anos anteriores, ainda acho que houve pontos muito altos.


Antes disso, os cinco filmes que quase chegaram ao top 10, sem nenhuma ordem em especial:


Uma Relação Delicada, de Catherine Breillat
Praia do Futuro, de Karim Aïnouz
Filha Distante, de Carlos Sorín
Balada Para um Homem Comum, de Ethan Coen e Joel Coen
Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra

Abaixo, o top 10, no qual cada filme é acompanhado de uma sugestão para sessão dupla, sugestão completamente pessoal, da minha cabeça. Cinema é continuum, claro, os filmes não se encerram neles mesmos. Enfim:


10 - Garota Exemplar, EUA, de David Fincher
Filme romântico de David Fincher, inspirado no suspense de Hitchcock e suas louras glaciais que renascem para acertar em Truffaut: o sexo como um thriller, o casamento como um sequestro, o amor como a Síndrome de Estocolmo.
Sessão dupla com: A Sereia do Mississipi, de François Truffaut

9 - Glória, Chile, de Sebastian Lélio
Biografia de uma mulher comum, andando em círculos a dançando sozinha numa idade na qual o número de segundas chances (no amor, no trabalho, na vida) diminui drasticamente. Um filme que adora a sua atriz a ponto de tê-la em absolutamente todos os seus frames, ela responde de volta com incrível entrega e energia. A intimidade é desconcertante.
Sessão dupla com: A Mulher sem Cabeça, de Lucrecia Martel.

8 - No Limite do Amanhã, EUA, de Doug Liman
Até que enfim um filme de ação! Integração muito inteligente da ideia de videogame no cinema, em outro ângulo - não interessa aqui ser o herói, achar que vai destruir tudo, e sim a exaustão das “vidas” infinitas, de ficar preso num estágio, e insistir até passar, aprendendo por tentativa e erro.
Sessão dupla com: Invasores de Corpos, de Philip Kaufman.

7 - Era Uma Vez em Nova York, EUA, de James Gray
Não é o melhor filme de James Gray, mas o seu talento operático para o melodrama continua notável, e o seu detalhismo estilizado, curiosamente, opera como uma forma de realismo, mesmo que interno. Parece over, mas não há uma nota falsa sequer nas suas emoções. Bônus: a fotografia do gênio iraniano Darius Khondji.
Sessão dupla com: Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou.


6 - Eles Voltam, Brasil, de Marcelo Lordello
Um filme muito delicado sobre intimidade, sobre registrar sentimentos bem de perto, em pequenas reações ao mundo: no intervalo de alguns dias, olhos abertos para todo o mundo, para estar só, sem os pais, para conhecer realidades diferentes, para se redescobrir em casa e se sentir estranho do mesmo jeito - enfim, para aprender a prestar atenção em tudo.
Sessão dupla com: O Espírito da Colmeia, de Victor Erice.


5 - 12 Anos de Escravidão, EUA, de Steve McQueen
Certamente uma escolha impopular na cinefilia, afinal o filme cometeu o pecado de ganhar o Óscar, mas me parece um avanço imenso em relação à pretensão enjoada de Shame e ao virtuosismo juvenil mas certamente impressionante de Hunger. No cinema, McQueen finalmente se descobre como narrador e faz um filme límpido e até um pouco despersonalizado, mas impecável no seu storytelling. Pense em diretores como Wyler e Stevens.
Sessão dupla com: Shane, de George Stevens.


4 - Sob a Pele, Inglaterra, de Jonathan Glazer
A viagem “de arte” do ano, filme hipnótico dos infernos, ou do espaço sideral, dono de um clima e uma atmosfera que lhe são exclusivas. Curiosamente, outro filme sobre a letalidade da mulher, que vira o jogo e manipula os homens com alguma facilidade.
Sessão dupla com: Desejo Profano, de Shohei Imamura


3 - Uma Família em Tóquio, Japão, de Yoji Yamada
Fica mais fácil se a gente esquecer que é um remake de Ozu, mas o filme tem força própria, e mais ainda se a gente esquece da sua fonte. Ozu era muito específico no seu tempo, fazendo filme sobre presente e passado. Atualizados para hoje, todos os personagens são “presente”, mas fica o que havia de universal não só no cinema do grande mestre, mas em toda uma tradição japonesa de cinema. É um filme humanista como nenhum outro neste ano.
Sessão Dupla com: Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa


2 - Vidas ao Vento, Japão, de Hayao Miyazaki
Um filme sobre a obsessão de ser artista, mesmo quando a arte aproxima o autor de pactos mefistotélicos. Criar, para um artista, é condição de existência - como sobreviver quando essa arte vira instrumento da barbárie?
Sessão dupla com: Pinceladas de Fogo, de Im-Kwon Taek


1 - Amar, Beber e Cantar, França, de Alain Resnais
Outro “último” filme, só que, à diferença de Miyazaki, com Resnais é irreversível, dada a sua morte três semanas após a estreia. Estava, no entanto, no topo da sua arte e desprendimento, fazia o que queria com o cinema: Aqui, são apenas atores a falar na frente de cenários artificiais, sem que isso, no entanto seja teatro, como parece: Resnais isola o cinema como arte visual, e isola o seu diferencial da pintura, a palavra. É um tipo de cinema quase puro, não fosse tão livre de se prender a qualquer projeto de depuração. Ele é isso, e pronto.
Sessão dupla com: O Mistério Picasso, de Henri-Georges Clouzot

Três atores:

1 - Oscar Isaac, Balada Para um Homem Comum
2 - Philip Seymour Hoffmann, O Homem Mais Procurado
3 - Alejandro Awada, Filha Distante

Três atrizes:

1 - Marion Cotillard, Era Uma Vez em Nova York
2 - Paulina García, Gloria
3 - Julia Louis-Dreyfus, À Procura do Amor