segunda-feira, junho 11, 2007

Zodíaco

Texto meu publicado no Coisa de Cinema:


Depois de Dália Negra e Hollywoodland, estréia Zodíaco, de David Fincher, mais um filme sobre crimes históricos nunca resolvidos. O cenário ainda é a Califórnia, mas Fincher troca o glamour de Los Angeles por São Francisco. As influências também mudam: ao invés do pastiche de film noir, o diretor põe toda sua imensa habilidade visual a serviço de uma merecida homenagem ao filme de ação hollywoodiano do início dos anos 70 – época de Operação França, Serpico e Os Implacáveis, de William Friedkin, Sidnley Lumet e Sam Peckinpah, respectivamente.

Não poderia ser diferente: o caso real do assassino serial “Zodíaco” (matava casais que andavam sozinhos em noites escuras, mandava cartas aos jornais desafiando a polícia) inspirou o primeiro filme do personagem Dirty Harry, Perseguidor Implacável, (de Don Siegel)de 1971. Também somos informados que o policial David Toschi (Mark Ruffalo), um dos três protagonistas, serviu de inspiração para Bullitt, personagem-título da obra-prima de Peter Yates.

David Toschi, o policial, investiga o caso do serial killer ao mesmo tempo que o jornalista Paul Avery (Robert Downey, Jr.) e o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhall), este último o autor do livro que inspirou o complexo roteiro de James Vanderbilt. Em exigentes 158 minutos, destrincha minuciosamente os desdobramentos do caso, que começa em 1969 e se arrasta pelas décadas seguintes. A depender da disposição do espectador e do respeito que ele tiver pelo tempo do cineasta, o efeito pode ser a perturbação pelo compartilhamento dessa paranóia ou o cansaço absoluto – e o abandono do filme no meio. Fincher não faz concessões, vale lembrar.

Simultaneamente à narração das investigações, Fincher ilustra o efeito da busca sem fim pelo assassino nos protagonistas. Toschi decide abandonar o caso para viver, Graysmith põe em risco o casamento, Avery se entrega ao álcool e às drogas. Cada ator defende brilhantemente seu papel, sempre atuando com contenção, sem histrionismos, fazendo precisamente as delicadas transições que indicam a perda do equilíbrio emocional de seus personagens. O nível de interpretação também é alto com os coadjuvantes – Chloe Sevigny se destaca como a esposa de Graysmith, único papel feminino relevante num filme extremamente masculino, os grandes Brian Cox e Philip Baker Hall aparecem rapidamente.

O cuidado que o filme tem com a dificuldade de se manter os nervos em ordem quando não se tem o controle da informação mostram que é este o ponto em comum de Zodíaco com Seven, e não a presença de um maníaco à solta. Fincher trabalha sempre com uma estrutura simples de suspense, tensão frente ao desconhecido, a mesma que levava à loucura os detetives de Brad Pitt e Morgan Freeman, sempre um passo atrás do serial killer dos pecados capitais, ou o irmão correto do vagabundo demente de Vidas em Jogo, também dos anos 90. Nesses três filmes, Fincher é um mestre da manipulação e esse é seu grande valor, e não o terror diante da modernidade que prejudicava seu ainda assim brilhante Clube da Luta.

Na posição de grande artesão americano contemporâneo, Fincher não decepciona. Saem as toneladas de presepada de O Quarto do Pânico e entra um cinema primorosamente contido. Aqui, pela primeira vez o domínio técnico do cineasta não briga por espaço com o lado dramatúrgico, e a habilidade manipulativa da linguagem está a serviço da fluência narrativa e não contra eles.

Neste ponto, vale notar a substituição de fotógrafos excessivos (Darius Khondji, Jeff Cronenweth) pelo sóbrio Harris Savides (com quem Fincher em trabalhou em Vidas em Jogo). Savides compõe aqui uma espetacular paleta de marrom, sem jamais tender ao fashion. Todo o departamento técnico está à altura do orçamento. Paletós de lapela larga, carros, interiores de papel de parede extravagante - está tudo lá.

Mais importante: Fincher honra o cinema setentista não somente na concepção visual, mas no tratamento seco, limpo, sem firulas, e brutalidade – elementos também resgatados pelos extraordinários Munique (Spielberg), Miami Vice (Mann) e Os Infiltrados (Scorsese). No entanto, e guardadas as proporções, Zodíaco se posiciona em relação a esses filmes contemporâneos da mesma maneira que A Conversação, de Coppola, estava frente a Bullitt e Operação França. O filme de Fincher é bruto e complexo, mas o ritmo é bem mais cerebral. O foco está mais no tormento pessoal e menos na ação, mas há tanta tensão quanto se houvesse um tiroteio a cada cinco minutos. Ótimo.

2 comentários:

Roberto Queiroz disse...

Espetacular! Sou suspeito para falar do cinema de Finch (eu o considero um dos diretores mais regulares da atualidade). Tudo é medido de forma espetacular: o elenco, a trilha sonora, a direção de arte, que reconstruiu as décadas de 60 e 70 de forma soberba. Definitivamente tudo. Sem contar que a película mostra de forma evidente um amadureciemtno na carreira do diretor.

(http://claque-te.blogspot.com): Zodíaco, de David Fincher.

Junior disse...

Realmente o Fincher é um diretor de brilhante a forma como filma, a elegância é única hoje em dia. Direção de arte impecável, fotografia super limpa, atores ótimos, bom roteiro e na minha opinião direção genial. Salve Fincher!