sexta-feira, setembro 07, 2007

No dorso instável de um tigre

Por completa falta de oportunidade, nunca vi Noite de Estréia, de John Cassavetes. Não saiu em DVD no Brasil, mas foi relançado nos cinemas esse ano, junto com outros filmes do diretor. Aqui em Salvador, nada, mas está passando em Recife. Kléber Mendonça escreve sobre o filme, sua associação com Tudo Sobre Minha Mãe, de Almodóvar. O texto me faz pensar no quanto eu gosto de ver atores, o quanto os admiro, só não mais do que admiro médicos. No fundo, porque é o tipo de corda bamba onde sei que jamais poderia pisar – o equilíbrio da vida criada e da vida salva.

Uma das melhores coisas que aconteceu nessa semana comigo foi ler no blog que Fernando Meirelles dedica às filmagens de Blindness (adaptação do Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago) a descrição de um grande momento de emoção com Julianne Moore:

“O microfone de lapela da Julianne já estava ligado, pude ouvir pelo head-phone que, lá do outro lado do corredor, sozinha, ela se preparava respirando fortemente. Enquanto isso, preparávamos nosso lado: luz, câmera, figuração. Então ela começou a chorar e depois a chorar convulsivamente, até que um assistente entrou correndo onde estávamos e anunciou: 'A Julie está pronta e pede para rodarmos já'. Nós não estávamos prontos mas, nesta hora não interessa se a mesa não está posta ou se o vinho não foi aberto. Tem que rodar. E rodamos.”

Julianne, na primeira tomada está explodindo de emoção, e faz a cena acima do tom. Fernando filma e refilma, tentando ir moldando a paixão bruta que parece surgir Moore do absolutamente nada, até chegar ao ponto que quer.

Que mulher fascinante. Entre as grandes atrizes do cinema americano hoje (Meryl Streep, ainda, Samantha Morton, Jodie Foster, Cate Blanchett), ela e Kate Winslet são as mais deliberadamente emocionais, intensas. Não parecem ter medo da nota acima, vão sempre para a tela sem medo do excesso, sem a mínima vontade de se preservar. Têm o bom senso, claro, de escolher diretores capazes de extrair o melhor desse estilo de interpretação, e melhor, com ambições autorais que pedem esse tipo de aproximação do intérprete.

Com Julianne Moore, especificamente, há essa cena abaixo, de Magnólia... Há quem pense em exagero, mas não consigo pensar em nada mais adequado ao clima épico do filme e as verdades que estão sendo ditas. Para uma crítica que banaliza o termo “descer ao inferno”, difícil ver alguma performance do cinema recente em que um ator tenha chegado num nível tão alto de expressão da dor.

Lembra outro momento mágico de atuação do cinema americano, daquela que foi uma de suas maiores intérpretes: Jane Fonda, no final de A Noite Dos Desesperados. Onde está o dvd dessa obra-prima? Lembra também esse texto de Fernanda Torres para a Piauí de dezembro.

2 comentários:

Stela Almeida disse...

Bem situado os diferentes estilos de interpretação, são atores inspirados realmente, por ausência de medo, entregues ao ofício ou puríssimo talento, os dois acho. Gostei dos seus comentários.

Gustavo disse...

e eu que, também por falta de oportunidade, nunca vi um cassavetes? =(