Francamente, essa simplicidade desconcertante do filme de meninas em férias (a ideia do Grindhouse, homenagem ao cinema pulp dos anos 70, passa em branco) registra absurdamente como um filme de Rohmer, e num dia inspirado. Os alicerces estão todos no bate-papo, e 90% da projeção é apenas isso, um primor de leveza.

E Tarantino, claro, continua um excelente dialoguista, o melhor de todos, escrevendo falas que passam longe do cool gratuito, definindo e desenvolvendo personagens com uma facilidade inacreditável. Quanto mais o tempo passa, mais tempo queremos ficar espionando esse papo do lado de cá da tela.
O filme é um prazer de ver e ouvir, um divertissement (alô, Setaro) de luxo de um autor inspiradíssimo. Se Tarantino fosse Hitchcock, esse seria seu Intriga Internacional, ou Ladrão de Casaca. Se a Europa finalmente lançá-lo em novembro, mesmo tendo perdido muito coisa, arrisco dizer que pode ser o melhor filme do ano.
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Antes de À Prova de Morte estrear no Brasil, a Universal deve pôr no mercado o longa mais recente de Tarantino, Bastardos Inglórios (Sacanas Sem Lei em Portugal e Angola), que estreou em Cannes e, dizem, foi levemente remontado para a exibição comercial. O filme é outra joia, e nos traz prazeres inéditos na obra do diretor.

Pode não parecer, mas Tarantino sempre teve interesse absurdo por gente, personagens, característica que não é encoberta pela estilização que é sua marca registrada. Dessa vez, com a exceção do Coronel Landa, seu filme abandona essa preocupação e resume-se a uma coleção de fetiches cuja única função é compor a imagem de uma grande celebração do cinema, daquele antigo, em película.
Se Death Proof lembra Rohmer, esse aqui seria o Vestida Para Matar de Tarantino, o momento em que a reflexão sobre a História e a linguagem do cinema (presente em toda a carreira do diretor) finalmente suplanta a busca obsessiva por um refinamento dramatúrgico. Tudo funciona dentro do cinema, sem que a possibilidade da existência de um mundo real sequer exista. Não à toa, os fatos são mandados à puta que pariu da maneira mais delirante possível.
Enfim, é um filme com muito plot e pouco drama, um quebra-cabeça fácil de montar, cheio de peças usadas mas remontadas com imenso frescor. Bastardos Inglórios voa das aventuras de montanhismo de Pabst até os thrillers estilosos de guerra dos anos 60. Cinéfilos riem mais, e melhor. Em tempo: o próximo filme de QT deve ser estrelado por Lauren Bacall.