quarta-feira, agosto 09, 2006

A Mulher do Lado


Já faz algum tempo que quero publicar uma lista das mulheres mais sensacionais do cinema, mas tenho me detido por nunca ter visto Assassinos, de Robert Siodmak. Paulo Francis tem uma história ótima com esse filme, que criou o mito Ava Gardner. Já vi outras coisas com ela, mas, por enquanto, mantenho a lista em suspenso.

Escrevo hoje por causa de uma observação em relação às mulheres que costumo lembrar nessa lista: algumas ficaram marcadas por um tipo de papel, o da educadora sexual. Algo entre quarenta anos, experiente, exercendo um misto de autoridade e atração sobre garotos incautos - a Jocasta sem impedimentos, diriam os psicanalistas.

Esse perfil costuma ser bem popular com os cinéfilOs, porque geralmente aparece em flashbacks melancólicos e romãnticos, ao som de uma música evocativa. Não se trata só de educação sexual, mas de educação sentimental também, rito de passagem. Minhas preferidas, com a ressalva de que não vi Malèna, de Giuseppe Tornatore. A exuberante Monica Bellucci faz o papel título, a Segunda Guerra de fundo, música de Ennio Morricone - deve ser um clássico do gênero. Minhas duas preferidas, afinal:
Jennifer O'Neill, em Verão de 42

O'Neill é Dorothy, uma dona de casa esperando por notícias do front de seu marido soldado na ilha de Nantucket, onde um grupo de garotos passa férias e luta pela primeira experiência sexual. Herman, o escolhido, sempre te ajuda a bater pregos, carregar compras, e fazer outros serviços domésticos - até que chega o ponto em que a próxima tarefa é saciar a carência emocional de Dorothy.


Cínicos podem identificar na personagem uma variação do perfil passivo-agressivo construído por Woody Allen para Mia Farrow em Maridos e Esposas - a mulher que nunca se manifesta, mas sempre obtém o que quer, fazendo todos acreditarem que ela nunca quis nada. Acho que não é o caso.
Dorothy é muito mais que um objeto sexual, porque sua sensualidade vem principalmente do fato de que ela é ao mesmo tempo cativante e frágil. Muito mais que a perda da virgindade - e a cena de sexo aqui é linda, de uma delicadeza sem limites - o que o filme mostra é o despertar do primeiro amor, sem perspectivas, mas arrebatador. O sexo vem como conseqüência.
O material é perfeito pra Robert Mulligan, de O Sol é Para Todos, outro eloqüente retrato de pessoas lembrando experiências marcantes em sua formação pessoal - e outra história real.
Obs.: a) a música embriagante é de Michel Legrand. b) na cena do cinema, o filme em cartaz é A Estranha Passageira, outro conto de educação sentimental.

Anne Bancroft, em A Primeira Noite de um Homem

Como diz meu colega Flávio Costa, "Mrs. Robinson é quintessência da mulheres balzaquianas no cinema". Ela administra durante 35 minutos uma verdadeira tortura em Benjamin Braddock (Dustin Hoffmann), filho adolescente de uma família amiga. Não que Benjamin fosse gay, ou tivesse horror a sexo. O problema é que ela era casada; mas, uma vez versada e escolada na vida, age com o maior sangue frio na sua sedução, o que o pobre garoto mal pode suportar. Muita tensão.


Não bastasse a pressão de ter que tomar várias decisões que definirão a sua vida, Benjamin ainda tem que inaugurar sua vida sexual com extremo jogo de cintura para não revelar sua ligação clandestina - enquanto não está chocado pela descontrução da imagem da matrona de família que Mrs. Robinson deveria ser. Benjamin é praticamente convocado a satisfazer os desejos da senhora, é mais uma frente de pressão. Somente quando conhece a filha de Mrs. Robinson, consegue se realizar de uma maneira, digamos, livre. Aí é uma pena que, como escreveu Kléber Mendonça Filho, a pistoleira agressiva e implacável pareça se acomodar.
Obs.: a) Bancroft tinha 36 anos, e Dustin Hoffman 30 quando fizeram o filme. b) outra boa definição de Mrs. Robinson é feita por Miguel Falabella: "Ela é o próprio Estados Unidos, imperialista; quer por quer, e vai lá, come o garoto". c) Doris Day recusou o papel. Somente Ruy Castro acha que a loura seria uma escolha mais acertada. d) mais uma vez a música é fundamental. "Mrs. Robinson", de Simon & Garfunkel, é uma das melhores canções da história, e provavelmnte a melhor já escrita para um personagem de cinema.
As outras:

Separando essas duas, diametralmente opostas em comportamente, mas igualmente importantes na construção do imaginário Jocasta, estão outras mulheres dignas de nota:
>>> Irene Papas em Zorba, o Grego: é um papel menor, e Irene não é muito bonita, mas tem fogo o suficiente para hipnotizar o escritor tímido de Alan Bates. Ele já não era nenhum mocinho, mas na sua embalagem paletó-gravata-livros, parecia ser mesmo virgem.
>>> Grazyna Szapolowska em Não Amarás. Ela é uma prostituta que fascina um garoto residente em um prédio vizinho. Ele espiona, segue, inventa mil subterfúgios para estar perto. Ela descobre, e a chapa esquenta.
>>> Magali Noel, em Amarcord. Em mais um filme de reminiscências (falsas, no caso de Fellini), Magali Noel é Gradisca, a obsessão dos garotos da cidade de Rimini, também durante a Segunda Guerra. Eles vêem com os olhos, lambem a testa; em uma cena incrível, um dos garotos tenta alguma coisa num cinema vazio.
Em tempo: clique aqui para ver a letra de "Mrs. Robinson"

5 comentários:

Gabi disse...

por falar em AMARCORD, vc podia ter citado a mega-gordona!

nao, acho q nao.

enfim...

:-P

Saymon Nascimento disse...

Saraghina...

Não.

Gabi disse...

Oi Saymon!

veja só, é q como essa frase sobre os chapéus e a sexualidade intocada da Doris Day eram do Disco de filme, eu coloquei link pra ele...

mas se vc reparar, vai ver um link pro Esperando Godard ali na parte e links pra outros blogs ;-)

bises, até sábado!

Pondé disse...

Esperando musas atuais! Saymon, para que vieram ao mundo Shue, Lopez e Swank? Godard não ia gostar nada, nada desta lista.

Vitor Pamplona disse...

O velho João-Lucas soube da lista e me pediu para traduzir o comentário postado abaixo:

"Anna Karina, carai!"