sábado, setembro 16, 2006

New York, New York


Na página de Opinião do A Tarde de ontem, Vitor Pamplona escreveu sobre tempo e decadência de artistas, a partir do exemplo de Francis Ford Coppola. Fiquei pensando no quanto isso também vale para Martin Scorsese, contemporâneo. Vivendo no Limite, Gangues de Nova York e O Aviador são bons, maduros, mas encolhem ao ponto da insignificância em relação a New York, New York, normalmente tido como “filme menor”. Nesse caso, trata-se de uma injustiça, pois trata-se de uma obra-prima, tão potente como Taxi Driver ou Os Bons Companheiros. O diretor, agora em fase DiCaprio, não parece mais ser capaz de fazer algo no mesmo nível.
No dia da capitulação do Japão, na Segunda Guerra, Jimmy Doyle (Robert De Niro) e Francine Evans (Liza Minnelli) se conhecem em um clube de jazz: festa, confete, farra. Ele é saxofonista, ela, cantora. Ambos estiveram afastados da música, lutando na guerra, como soldado e enfermeira. A primeira hora é isso, a apresentação desse namoro, sempre pontuada por standards de Gershwin e cia, além de canções inéditas de John Kander e Fred Ebb (Chicago, Cabaret). Apesar do rigor de Scorsese, o filme não parece que vai segurar seus 163 minutos.
O fôlego vai aumentando à proporção que o caso se torna mais sério e, conseqüentemente, conflituoso. Em Scorsese, os personagens são tão intensos que não cabem no corpo, estão sempre explodindo, chocando-se uns com os outros. De Niro faz com brilhantismo esse tipo de coisa. Jimmy Doyle não deixa de ser uma versão saudável (embora perigosa) de Jake de LaMotta, ou Travis Bickle. Sua presença garante tensão constante, incômodo.


O choque entre Jimmy e Francine é potencializado pela convivência full-time, casamento e trabalho, na mesma banda. Quando Francine começa a se destacar em críticas, atraindo produtores, a tensão fica insuportável. Filme entra na rota de Nasce Uma Estrela, de George Cukor, com Judy Garland, mãe de Liza. A consagração da mulher oprime o ego do marido, que perde as estribeiras. A semelhança física e profissional entre mãe e filha só reforça a comparação.
Melodrama parece material inadequado para Scorsese, mas apesar da imagem estranhamente edulcorada, temos um legítimo filme de autor. Há a dureza habitual do diretor nesse processo de separação, em altas madrugadas e depois de algumas doses de whisky. Filme segue em crescendo de agonia até o nascimento do primeiro filho, ponto para uma virada inesperada.
Antes da violência emocional alcançar o ponto de um Touro Indomável, ocorre o divórcio. Muito tempo depois, Francine vira uma estrela, e entra em cena o grande momento do filme, mais uma prova do imenso repertório de Scorsese como cineasta e crítico. A Época da Inocência e O Aviador, por exemplo, foram traduções cinematográficas rigorosas de coisas que ele admira como espectador – o melodrama operístico de Visconti e a grande biopic clássica hollywoodiana do cinema clássico, respectivamente.


Em New York, New York, ele refaz apaixonadamente a idéia do musical biográfico da personagem Vicky Lester em Nasce Uma Estrela. São vinte minutos que compilam os números musicais de um filme estrelado por Francine, Happy Endings, com praticamente a mesma trama de A Star is Born, e a mesma moral dele e do New York: incompatibilidade de sucesso e amor quando os egos são muito fortes. Na trama de Happy Endings, uma lanterninha é alçada ao sucesso por um produtor da Broadway que a abandona quando ela está no topo – ele não quer se tornar o sr. Peggy Smith.
Scorsese voa no tempo para filmar coreografias em cenários estilizados, figurinos excessivos, fotografia brilhante, cheia de vermelho, do jeito que se fazia na MGM. Na verdade, não parece um filme de 77 sobre uma história passada no final dos anos 40. Não; estamos diante de algo filmado no próprio período da trama. Happy Endings descortina o que era insinuação e mostra New York, New York já era assim desde a primeira cena, coerência impecável de visual, roteiro, interpretações. Scorsese consegue fazer o que quiser por ter domínio técnico e histórico, de sua arte.
Happy Endings também deve ser o topo da carreira de Minnelli, e falamos da mulher que foi Sally Bowles em Cabaret... O que faz aqui é reviver a própria mãe, à altura. Canta, dança e interpreta em altíssimo nível, provocando comoção e tristeza ao mesmo tempo. Comoção porque performances completas como essa são muito raras. Tristeza porque sabemos que, no cinema, este foi seu último momento expressivo. A exemplo de Coppola e Scorsese, entrou em decadência. Ainda assim, parece ser a menos culpada. Nasceu 20 anos mais tarde do que deveria, numa época em que o cinema não mais a comportava.


Não bastasse esse ponto alto de música, interpretação e cinema que é o Happy Endings, Scorsese ainda nos entrega dois brindes. Minnelli canta “New York, New York” (hoje famosa na voz de Sinatra), a canção que representa o velho amor perdido no tempo. No filme, Jimmy fez a partitura e Francine, a letra. Logo depois, a cena final incrivelmente melancólica, talvez uma expressão da inutilidade de tentar renascer o amor (ou o cinema), quando seu tempo já passou.
PS.: Fui informado pelo IMDB que a versão original do filme tinha 4 horas, cortadas para 163 minutos - o que provocou a exclusão completa de Happy Endings. É claro que o filme é muito mais do que isso, mas esses 20 minutos não somente são perfeitos, mas colocam o todo sob outra dimensão. Ainda bem que existe o DVD, enfim.

Um comentário:

Jorge Tavares disse...

Concordo plenamente com a análise de Saymon Nascimento. Não consigo ver 'equívoco' na obra de Martin Scorcese. New York New York é um primor de cinematografia. O roteiro se sustenta seja pela seleção musical, seja pela intrincada relação do casal Jimmy Doyle & Francine Evans, seja pela trama em si. É um filme portentoso, com notável reconstituição de época e precisão narrativa. De Niro está impecável como o antipático saxofonista movido por uma irrefreável megalomania que não o deixava encontrar o equilíbrio das coisas. De tão extremista nunca chegou a conhecer o sucesso. Ele açoitou todos com quem conviveu ao mesmo tempo em que era açoitado pela vida. Mas não aprendeu. Apenas se conformou com seu carma de 'incompreendido'. Liza, ao contrário, empresta um equilíbrio e um bom senso quase celestial ao seu personagem. É a antítese do companheiro. Tem talento, sabe negociar, sabe usar sua arte no momento e na hora certa. É bem fácil imaginar o quanto o furacão Liza Minnelli teve d se disciplinar para viver diaraiamente o comedimento e a parcimônia de sua doce Francine. A meu ver, New York New York é um filme incompreendido embora o próprio diretor tenha dito, numa entrevista, que sua obra fora um equívoco. Fiquei decepcionado com esta declaração. Para mim New Yok New York entrou, por alguma razão, na rota de colisão com o azar: Foi lançado no mesmo ano de um Annie Hall (um dos filmes mais chatos de Woody Allen) que acabou endeusado pela Academia. Vocês lembram do que se trata a história do filme de Allen? E de sua música? Pois é... em compensação New York New York, a canção-título do filme, se tornou símbolo da cidade mais famosa do mundo e é uma das mais executadas no mundo até hoje. E a célebre Academia de Artes e Ciências de Hollywood ignorou-a solenemente... E Sinatra?, Um notório usurpador de sucessos alheios, mudou a letra e o tempo da música e acabou fazendo sucesso no lugar de quem realmente merecia os louros: Liza Minnelli! (Só a título de curiosidade, o mesmo Sinatra, no final dos anos 50 regravou 'The Man thar Got Away', marca registrada de Judy Garland - mãe de Liza - mudando a letra para The Girl that got Away. Ainda bem que essa versão ficou no limbo para sempre. Mais vale ouvir a bela canção na incomparável voz de Ella Fitzgerald. Mas voltando ao clássico New York New York, considero que Scorcese tenha fechado um ciclo de filmes que hoje em dia já não se faz mais. Infelizmente. É pena que o próprio criador tenha negligenciado sua criação. Acho, inclusive, que Scorcese deu esta declaração para 'ficar bem na foto' junto aos os poderosos de Hollywood. Mas perdeu e feio. Ficou anos no limbo fazendo um fracasso atrás do outro. Se New York New York tivesse sido um erro, teria sido um caso isolado na carreira do diretor. Scorcese seguiria fazendo novos outros sucessos. Mas não foi bem isso o que aconteceu... O diretor veio errando a mão em tantas outras produções depois daquele filme que nem a Academia -que o indicou várias vezes neste período - conseguiu premiá-lo. E pra finalizar, na minha visão, a Academia se redimiu perante New York New York ao premiar Chicago com o Oscar de melhor filme. Afinal, quem, assistindo a performance de Catherina Zeta-Jones em Chicado, não pensou em Liza Minnelli e no quanto o filme e a personagem renderiam nas mãos dela, se ainda tivesse condição física para fazê-lo?