domingo, abril 15, 2007

Sem padrão de qualidade

Imagino a dona de casa insone e o marido dorminhoco. Hebe na tv, fazendo propaganda de Hipoglós. Onze e meia, a chamada do SBT Realidade. A breve pergunta na cama de casal: “Será que é Ratinho imitando o Linha Direta?”. Desamparada pelo título e pela posição incômoda na grade inconstante do canal de Silvio Santos, entra no ar o segunda edição do programa de Ana Paula Padrão, depois de abandonar a bancada do telejornal do horário nobre.

Ao invés de programa popular indignado, a empolgante aventura de James Bond para falar sobre aquecimento global. Somente um repórter na tela nos dois primeiros blocos, Marcelo Torres. Ele começa em Davos, na Suíça, e até o fim do programa terá passado por França, Inglaterra, Alemanha, Etiópia e Ilhas Maldivas e Índia. Ana Paula, editora-chefe, fica num estúdio cheio de telas de TV, bonito até, mas na incômoda posição de parecer coadjuvante no próprio programa. Parece a M de Judi Dench.

O ritmo do programa é pretensamente espetacular, por isso, demasiadamente apressado. A apresentadora-editora faz a “cabeça”, introduz o repórter, mas continua offs intermináveis cobertos por infográficos e imagens de agência. De pára-quedas, a passagem do repórter. Sem parar de falar, este cobre com sua voz todas as entrevistas. Os personagens não são identificados, nem ouvimos sua voz. O cara branquelo é o engenheiro alemão; o negro é o taxista indiano. Só.

Esse andamento vertiginoso mascara bem o mau jornalismo. Por mais editado que o programa seja, o todo me lembra um espetáculo teatral. O personagem aparece para sua passagem, e, enquanto troca de roupa para aparecer em outro continente, o off nos distrai. A voz desse off pode ser tanto da apresentadora quanto do repórter. Ana Paula aparece no meio das matérias, como se a narração fosse um dueto musical, ou jogral. Ela briga por espaço sem sair do ar condicionado.

Hipnotizados pelo volume de informação provavelmente bem pesquisado no Wikipedia, o casal que estava vendo Hebe talvez tenha a impressão de estar vendo um programa didático. Que nada, pura encenação. Tanto lugar do mundo, tanta milhagem, e pouco sabemos dessas pessoas e cidades. Ao mesmo tempo, o Repórter Record exibia em levada muito mais careta um programa sobre tráfico de drogas. Parte era bem careta – pessoas falando sobre como foram destruídas pelo vício. Paralelamente, uma calma e bela reportagem sobre os plantadores de coca na Bolívia, editada com uma precisão tão clássica que era possível sentir a altitude dos Andes.

Tanta pressa e vontade de mostrar a Silvio Santos que dinheiro está sendo gasto nesse SBT Realidade é ainda mais terrível pelo histórico de Ana Paula Padrão. Depois da geração de Pedro Bial e Roberto Cabrini (ambos na fila do hospício, hoje em dia), ela foi a correspondente internacional mais importante do telejornalismo brasileiro nos últimos dez anos. Tinha a sempre saudável vontade jornalística de ver gente e conhecer histórias que lhe fazia superar as materinhas com a Torre Eiffel ou a Ponte de Londres de fundo, ou, ainda pior, o terraço do prédio da Globo em Nova York.

Lembro especialmente da belíssima reportagem em duas edições do fantástico, sobre a Guerra do Kosovo. Estava lá em tom grave mas não sensacionalista o horror do conflito e a conseqüência na vida de pessoas comuns. Ela trocou o ataque/contra-ataque dos discursos pela história de uma família separada na ocasião. Muito bem assessorada, conseguiu reunir os dois grupos perdidos – um havia ficado em Kosovo, outro conseguiu fugir para os Estados Unidos, se não me engano. Tudo isso sem o tom sensacionalista-urgente-moderno da trilha sonora de sua empreitada no SBT. Vamos ver se melhora.

Um comentário:

Gabi disse...

lindo o texto do jabor.
tb cago solenemente para frank miller.


e, puxa, tadinha da minha ídola padrão.
mas pelo menos ela ganha bem.