sexta-feira, abril 06, 2007

Sobre medusas

Leio em Nacocó ferozes restrições de Vítor Pamplona e Diego Damasceno ao posicionamento da crítica baiana em relação a Ó Paí, Ó, de Monique Gardenberg, em cartaz nos cinemas. Sem entrar na procedência dos argumentos de Pamplona e Damasceno – até porque não vi o filme, embora tenha cá minhas desconfianças – prefiro falar da última frase do texto: “A crítica está querendo dirigir o filme”. Se esta afirmação tem tom de repreensão, bom, só posso discordar. Óbvio que a crítica quer dirigir o filme – é sua vocação, razão de ser.

Quando um espectador qualquer sai do cinema (ou do teatro, de um concerto) reclamando da mentira que salva o herói no último momento, o que quem paga o ingresso deseja é que a resolução da intriga fosse realizada de maneira mais convincente. Pode até sugerir ao acompanhante: “na verdade, acho que ele deveria ter feito isso, isso e isso”. Natural.

Com a crítica não é diferente, guardadas as proporções da especialização. Difícil conceber esse freio de passividade que permitiria ao analista expôr o que vê de errado em uma obra de arte sem propôr implicitamente a correção - mesmo que não se saiba exatamente como. Apesar da última frase do texto publicado em Nacocó – se fosse eu, ela não seria publicada -, Pamplona e Damasceno concordam com o que digo ou entram em contradição, afinal de contas, cobram de João Carlos Sampaio justamente a tomada de posição, a indicação do “caminho do meio”.

O crítico não é necessariamente arrogante por fazer proposições para um processo que deve ser realizado de maneira orgânica e sensível. Na verdade, ele tenta preencher os claros (consciente da impossibilidade de “fechar” seu trabalho, se for um bom profissional) provocados da arrogância ou falta de discernimento do artista, por vezes incapaz de entender o que a obra de arte lhe pede. O crítico isolado tenta sem esperanças fazer a reparação de algo já consumado, a obra de arte física que não pode ser alterada sem intervenção do artista. A medusa solitária é um escultor maneta - transforma em pedra, mas não pode dar forma a seu Pigmaleão.

Aí entra a crítica, o coletivo de analistas. Em conjunto, os críticos se não alteram a obra fechada, preparam o terreno para como ela será recebida. Não por acaso, nesse ponto, o erro mais comum é o mesmo dos dois lados: o artista insensível submete a forma ao pensamento de modo desordenado; a crítica molda o produto a sua visão - principal acusação dos autores do texto de Nacocó a Sampaio e Claudio Marques. Se isso procede, como já disse, ainda não sei.

2 comentários:

Gabi disse...

interessante.
[tô meio c/ preguiça de ir ver o filme]

André Setaro disse...

O texto, reflexão sobre os ditos críticos 'apriorísticos' soteropolitanos, publicado na excelente 'Nacocó', que, apesar do nome, pode ser considerado um site cultural surpreendente na mediocridade geral do espaço virtual, veio a calhar. Não vi ainda, por preguiça, 'Ó Pai, Ó'. Devo fazê-lo, no entanto, logo. Não me motiva a locomoçao, mas vou fazer um esforço, um sacrifício, por se tratar de uma produção que toca em coisas baianas, ainda que as coisas baianas da contemporaneidade estejam cada vez menos interessantes. Vixe Maria, Deus e o Diabo estão na Bahia.