sábado, abril 05, 2008

Se apenas meu coração fosse de pedra

Dez páginas de A Estrada, de Cormac McCarthy, são suficientes para acabar com o princípio de sono depois de uma madrugada de vigília. São suficientes também para levantar algumas idéias:

>>> Dia desses entrei em argumento com Setaro e Vítor Pamplona sobre a peça que o Oscar nos pregou recentemente. Dois filmes geniais, Onde os Fracos Não Têm Vez e Sangue Negro - qual o melhor? Difícil pensar na utilidade dessa discussão, mas já que a questão foi levantada, eu fico fácil com os Coen. O principal motivo: o filme me parece brilhante não apenas no todo, mas também quadro a quadro, fotograma a fotograma. Não há frame que não seja tenso.



Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez

O filme dos Coen, vocês sabem, é adaptado de outro livro de McCarthy, No Country For Old Men. Não li, mas dá para perceber que os Coen fizeram a transposição de forma não apenas brilhantem mas fiel ao tom do que deve ser o original. Lendo este A Estrada, percebo a mesma coisa - o livro vai ser brilhante frase a frase, palavra a palavra, sílaba a sílaba. Cada período é violento, angustiante.

>>> O próprio texto da capa da edição de A Estrada da Alfaguara traz a idéia de apocalipse. Nunca li uma crítica de livro de McCarthy, mas esse tom apocalíptico é ultra-evidente. Foi, aliás, a coisa mais espantosa no filme dos Coen. A alma da coisa superava a desolação mais ou menos típica de autores ou cineastas que escarafuncharam a triste América Central.

(EDITADO: Óbvio que é apocalíptico, o livro se passa num futuro próximo. Antes de pegar o livro, não havia lido absolutamente nada, nada sobre a trama do romance, justamente porque queria ler, ora. [Trama? Engraçado isso] Estranho, quase nunca faço isso. Quanto à palavra apocalipse na capa, foi só isso mesmo, uma palavra, não li o texto. Enfim, chego desavisado, e percebo, algumas páginas depois que o fim de mundo não é só uma questão de tom - é de verdade mesmo. )

Posso estar errado, mas não há me parece haver qualquer resquício de melancolia, daquela que, mesmo discreta, tende à auto-comiseração (e ainda assim pode ser muito boa): dos contos de Sam Shepard ou catataus de Steinbeck a filmes como, sei lá, A Última Sessão de Cinema, somos todos tristes nessa terra de ninguém.



Cormac McCarthy

McCarthy me parece mais que isso, 100% implacável. Vejamos, no pequeno trecho que li, há a memória de um dia feliz na infância do personagem principal. Se o livro tem um momento desse e consegue ainda ser inequivocadamente árido, não há mais como ceder a qualquer tipo de artifício sentimental ou melancolia de comercial da Marlboro. A depuração me parece ser máxima, mesmo nessa apreciação prematura.

A apreciação é prematura, mas não há jeito de não escrever, de não registrar essa primeira impressão. Não tem coisa que tenha ido tão longe, não que eu conheça ou lembre. O livro vai ser adaptado para o cinema por um diretor australiano que não conheço.

Mesmo em filme, com todo o acervo de pós-faroestes feitos desde os anos 60, só mesmo o longa dos Coen me parece ser pós-pós-faroeste, com o Oeste filmado quase que como distopia, espécie de fim de mundo, coisa de depois da Terceira Guerra Mundial ou do domínio do demônio (E Onde os Fracos Não Têm Vez ainda é só o início da vinda do Anticristo). Parando para pensar, o cinema só foi mais longe que isso com Gerry, de Gus Van Sant, um dos sérios candidatos a filme da década.

(EDITADO: Tem outra coisa parecida em cinema. Possuídos, de William Friedkin. Filmão desafiador e imperfeito, deve estar perdido em alguma prateleira de terror em qualquer locadora. Ano passado, quando passou no Multiplex, ninguém entendeu nada.)

Enfim, divago. Deixa eu voltar para essas cidades fantasmas e esse tempo sem futuro. Em algum dos próximos posts eu falo porque demorei de começar a ler A Estrada, já que havia mencionado o livro em um dos posts anteriores.

Um comentário:

iris disse...

Olá! tudo bem? Gostei muito dos textos e da qualidade das informações que vc disponibiliza. Amo os Coen mas Sangue Negro é melhor (rsrsrsrs
) . Essa discussão aconteceu muitas vezes nas mesas de bar, todo mundo ficava bêbado e, ao final, ambos os lados mudavam de opnião. mó vexame.

bj