segunda-feira, abril 21, 2008

Velho-novo

Sabem da velha história, não? Até porque todo mundo repete, e eu já devo ter escrito aqui umas três vezes. Em 1960 e poucos, William Wyler, mestre dos mestres do cinema clássico, anadava de saco cheio de Godard, Resnais e cia. Para mostrar sua insatisfação mandou confeccionar espirituosos cartões de visita. No verso dos cartões, duas letras: A. V. Ancienne vague.

Wyler podia fazer os filmes mais brilhantes, mas era tão tolo quanto os críticos que dispensavam sua obra como "acadêmica". Não tem coisa mais chata do que regras arbitrárias: cinema deve ser assim, cinema deve ser assado. Novo vs velho, etc, quanta besteira. Essa velha história da carochinha só me passou pela cabeça porque, em menos de 24 horas, acho que cheguei bem perto de tocar os dois extremos da dicotomia moderno vs clássico.

Nunca estreou aqui em Salvador, mas quem já viu Mal dos Trópicos sabe na hora: é cinema do futuro, daqui a 50 anos ainda vão estar falando do filme. O diretor é tailandês e tem um nome impronunciável: Apichatpong Weerasethakul. Por alguma espécie de talento nato, o sujeito é dotado do poder de filmar imagens ultra-impactantes, sem que isso passe propriamente pelo conteúdo do que ele filma. É tão natural quanto inexplicável: pode ser um bloco de gelo sendo cortado ou um close-up de um tigre, o cinema de A.W. exige olhos bem abertos.



No meio da floresta em Mal dos Trópicos

Já que ele tem o dom, não se esforça em fazer nada muito compreensível, mas também não é complicado. Entenda - o cara só não usa de artifícios tradicionais para se fazer compreender/sentir, mas funciona. Mal dos Trópicos é um filme de dois episódios. A primeira parte é um romance gay entre um soldado e um desempregado na Tailândia moderna. Não acontece muita coisa, mas acontece tudo.

Na segunda parte, os dois atores voltam em outros moldes: o soldado agora sai em busca do espírito de um tigre no meio da floresta. O outro ator é uma das formas do próprio espírito caçado. Praticamente sem diálogos, a caça mata adentro poderia se confundir com algum Herzog mais radical, mas o silêncio e o misticismo, aliada à já comentada força natural das imagens do diretor, leva o filme a um território praticamente alien, sem possibilidades de comparação. É o pesadelo mais cinematográfico da década.

***

Na Alemanha, com as cores mortas típicas de um clichê de cinema germânico, tem o frio e extremamente clássico A Vida dos Outros, vencedor do prêmio de filme estrangeiro no penúltimo Oscar. O filme é hit em Salvador no circuito de arte, vem sobrevivendo muito bem, gerando boca a boca. O motivo é, ao mesmo tempo, a aura séria que garante o respeito de quem assiste, e a acessibilidade total de um cinema sem qualquer novidade.

Nada contra; aliás, tudo a favor quando o resultado é bem-sucedido desse jeito. Para uma crítica cada vez mais fascinada com os desvios de rota propostos por "outros" cinemas, como o coreano e o romeno, A Vida Dos Outros nos lembra todos os méritos de ser filmado com elegância, ter bons atores, e um roteiro indestrutível de tão sólido.



Ulrich Mühe, ator de A Vida dos Outros, recém-falecido

A história - burocrata da Alemanha Oriental espiona dramaturgo, por quem começa a sentir simpatia - também ajuda a estebelecer essa sensação de conservadorismo. Com os dois pés bem firmes no mundo capitalista, o diretor tem o distanciamento para revisitar o período pré queda do muro de Berlim, e colocar todos os pontos nos is da História.

Há quase algo de elitista no todo, uma vez que os perseguidos são os que, numa economia de mercado, teriam todos os privilégios possíveis. São artistas, astros e estrelas, gente fora do normal, algo totalmente deslocado da idéia de massificação das ditaduras operárias. No entanto, seria tolo dizer que é A Vida dos Outros é um filme de "direita". Não é - é um filme sobre fazer o que é certo. Sem firula, o cinema do estreante Florian Henckel von Donnnersmarck parece fazer a defesa máxima da correção. Enquanto ele tiver esse domínio tão forte do que já foi feito, tudo bem. Filmão. (Dica: Mephisto, de Istvan Szabò, dá uma excelente sessão dupla).

3 comentários:

André Setaro disse...

Como em todo posicionamento quando do lançamento de uma manifesto, ou de um programa de ação, seja artístico, político, etc, há, sempre, uma certa radicalidade necessária para causar sensação e polêmica. Foi o caso do lançamento do "Politique D'Auteurs". Os jovens 'turcos' cometeram exageros (a considerar autores que na verdade não o são como Don Siegel, bom, muito bom, mas não autor) e injustiças. François Truffaut, a princípio, foi injusto com John Huston e John Ford e, depois, contrito, pediu perdão. William Wyler, quer queiram os críticos, é um grande cineasta, um "estilista sem estilo", mas com um rigor surpreendente na construção de seus espetáculos. Nunca a profundidade de campo, por exemplo, foi usada com tanta maestria quanto por Wyler em 1946 em "Os melhores anos de nossas vidas", que, por sinal, concordando com Sidney Lumet, que o acha o maior de todos os tempos, embora não o coloque no primeiro lugar, está entre meus dez favoritos. O filme é uma obra-prima. Que bom se tivéssemos um cineasta, hoje, tempo de terra arrasada, como William Wyler.

Seu leitor,

André Setaro

Você precisa atualizar mais seu blog. Deixe de ficar esperando tanto um Godard que não vem, que não vem...

Diego D. disse...

curioso seu comentário sobre "A Vida dos Outros". O filme é bom, concordo, mas tende mesmo a ser considerado excelente porque "as pessoas entendem" -- ou melhor, porque é fácil interpretá-lo.

É bem comum acontecer isso: quem assiste, porque "descobriu" algo no filme, eleva-o, festejando-o quando na verdade festeja a própria descoberta.

Diego Damasceno disse...

Rapaz, acho que menos que 'quase'. Não sei se você faz constatação ou uma crítica negativa, quando fala dos artistas.

São diferenciados? Sim. Mas são mais expostos também. Se você está na rua passeando com seu cachorro e ouve um toque de recolher, você está sendo reprimido.

Mas se você faz algo que é, além de proibido (como caminhar depois de tal horário), agressivo ao regime (ler um livro, publicar suas idéias num jornal), você está sendo reprimido com maior intensidade.

E, no fim, se foi uma crítica, é o mesmo que dizer que a filmes assim sempre faltará algo -- no caso, o recorte "popular". É mesmo necessário falar sempre das massas? Por que não falar de artistas? Não vale? Não é tão bom?

No fim, acho elitista uma palavra forte demais.