quinta-feira, maio 22, 2008

Baisers volés

Tem filme novo de Wong Kar-wai em cartaz. Escrevi sobre ele logo depois da sessão, tentando administrar a frustração de não ver mais um Amor à Flor da Pele, e ao mesmo tempo, reconhecer os prazeres do que está na tela. É aquela coisa - o filme é outra coisa, longe dos filmes mais recentes dele. É leve, pop, fácil, superficial. A mulher jogando cartas, que tinha muito impacto em 2046, virou só um fetiche. O amor virou fetiche cênico. Lindo fetiche.



Voltou a ser, na verdade: antes de mergulhar no mar de melancolia a partir de Felizes Juntos, filmes como Amores Expressos e Anjos Caídos faziam justamente isso: o amor para a câmera, para a foto, um truque fashion. Nada especialmente contra, uma vez que o cara é habilidoso o suficiente para enredar qualquer um nas suas nuvens de neon. Só fica a sensação de que ele vai muito mais longe.

Enfim, comecei esse post para tentar colocar em letras uma impressão talvez mais positiva do filme, porque alguns momentos ficam pipocando na cabeça de vez em quando. No entanto, taí, não consigo. O filme tá marcado com a nódoa da decepção, mesmo que seja bem bom. Eu gostava de Amores Expressos, e muito, mas pensei que o diretor houvesse superado essa fase. Falar aqui, como eu pretendia, sobre como algumas cenas são muito bonitas é enaltecer um cineasta pelo que ele faz com o pé nas costas. Talvez os gênios tenham direito.


***

Um Beijo Roubado pode ter sido um título para chamar o público, mas dá uma bola dentro involuntária. Lembra Baisers Volés, aquele filme lindo de Truffaut embalado pela canção famosa de Charles Trenet, "Que reste t-il de nos amours?". Era o terceiro filme do personagem Antoine Doinel, depois de ser uma criança triste em Os Incompreendidos e um adolescente descobrindo o amor em Antoine e Colette.

Em Beijos Proibidos (trocaram o "roubados" no Brasil) vemos Antine pulando de emprego em emprego, encantado por uma mulher mais velha chamada Fabienne Tabard, que só podia vir na pele de Delphine Seyrig. Também está num vai-não-vai com uma linda namoradinha, Claude Jade.

O filme ainda tem um detetive misterioso, que vive xeretando os personagens. No final, uma surpresa. O cara chega pra Claude Jade e diz (mostrar a cena não estraga em nada o filme):



A tradução está aqui, no "mais info" do vídeo.

Wong Kar-Wai é o diretor mais romântico desde Truffaut, acho. Romântico o suficiente para sempre duvidar do amor, e em seus melhores momentos, duvidar de sua viabilidade. Isso tudo tá em My Blueberry Nights, mas, ao contrário do modo como isso é visto nos filmes anteriores de Wong Kar-Wai, o diretor só passa por essas questões superficialmente.

7 comentários:

Chico Fireman disse...

Sabe, Saymon, eu também me senti frustrado com 'Um Beijo Roubado'. Mas queria que todas minhas frustrações fossem tão bonitas.

E Truffaut é o amor, é Deus, quando e onde e se ele existir.

tiago a. disse...

namorada e amigos cujos gostos respeito gostam muito desse china

durante a exibição de 2046 dormi (mas eu tava com sono nesse dia) então não posso falar nada

mas esse blueberry nights é um filme ruim

Claudio disse...

Saymon,
Ao fim e ao cabo, o beijo nem é roubado. Jude Law limpa a boquinha da madame - a meu ver, porcamente - e mete a língua. Beijo consentido, ora, sô. E o diretor não entende de baralho. Nem eu. Por isso, só vejo filme com cavalo, o que exclui Truffaut, Charles Trenet e Josephine Baker da minha vida.
Hay-ô.

do vosso criado,
Claudio.

Rodrigo Azevedo disse...

Cheguei ao seu blog através do comentário que você deixou logo após o meu no blog do mestre Merten (aquele sobre o discurso de abertura do Festival de Cannes). E rapaz, que bel surpresa eu tive ao ler os seus textos. Seu estilo me agradou bastante! Voltarei mais vezes.

Sobre os filmes do Wong Kar-Wai, pouco posso comentar. Conheço muito pouco a carreira do diretor. Gostei deste "Um Beijo Roubado", confesso. Mas a minha vontade é de mergulhar um pouco mais nos seus filmes anteriores.

Ah, e devo ser um dos poucos que não gostou de Norah Jones Atriz. Será?

Um abraço.

tiago a. disse...

não rodrigo norah jones é péssima mesmo

e já que estou opinionated deixa eu dizer que a única atuação que me arrepiou nesse filme foi a do cara que faz o alcoolatra, o mesmo que já tinha feito o mundo girar pro outro lado no papel daquele jornalista de good night, good luck

e pelo bem da humanidade é melhor nem falar da relação entre o título brazileiro e a estinha porque afinal sejamos justos quem escolheu o título brazileiro não foi o china, foi um brazileiro. esse china pode até ter metido os pés pelas mãos nesse filme aqui mas se ele tivesse escolhido esse título de beijo roubado eu ia pensar que ele tava querendo esfregar o filme dele no meu nariz e dizer tá vendo olha o beijo roubado aí. de certa maneira ele faz isso naquelas cena de propaganda de torta mas pelo menos é mais sutil

tiago a. disse...

*estinha = estorinha

desculpa

Saymon Nascimento disse...

Achei Norah Jones ok, até porque a atuação nos filmes desse cara é meio passiva. A mulher fica lá, toda bonita, e ela filma ela de uma maneira espetacular, e ela fica mais interessante por causa da câmera. Norah Jones nem precisa atuar, besta o cara ficar filmando as pernas dela, o salto alto.

Gostei muito de Rachel Weisz e David Straiharn. Os dois são vulgares e humanos, excessivos de uma maneira como as pessoas normalmente são mesmo quando estão nesses estados de tensão. E Rachel Weisz tá linda, também isso conta ponto num filme desse cara. Na verdade, acho que o filme devia ser só eles dois, aí voltaríamos ao mundo da dor de cotovelo.

Jude Law tá muito bem também. Incrível como ele NÃO parece estar numa peça de publicidade, apesar de tudo ao redor.