domingo, maio 25, 2008

Jogando para o público

Antes de ir ao cinema essa semana ver Chega de Saudade, meu último registro de Cássia Kiss era de um cabelo branco grande, numa cena com Malu Mader, vista em meio a um zapping. Depois de visto o filme, só posso achar que a Globo é a pior coisa para o cinema nacional. Quantos atores muito bons deixam de fazer filmes para ficar colocar perucas absurdas e falar textos idiotas, todo dia, às 18h?

Cássia até que tinha estilo envenenando meio mundo naquela novela das oito, há um tempinho, mas não era nada comparado à economia e à sutileza dela em Chega de Saudade. Diz sem falar, morde o lábio, desiste de passar um batom. Ela não precisa de palavras.

Stepan Nercessian, também no filme, vi hoje num comercial da Zorra Total. Vejam o abismo. O cara se sustenta trabalhando no pior programa da televisão e, do nada, larga uma atuação linda no filme de Laís Bodanzky. Tem mais uns 10 atores no longa que eu chamaria, sem pestanejar, de brilhantes - o que inclui uma inesperadamente tocante Betty Faria, exibida diariamente na novela das oito com a importância de um objeto de cena, um móvel do cenário.

O filme é isso, um salão de baile, pequenas cenas da vida das pessoas que se cruzam na pista, nada de muito ousado, a princípio. No entanto, o filme se destaca como uma jamanta na nossa produção. É humano, bonito, sincero, e completamente acessível. Coisa de argentino.



Nercessian e Kiss: sensacionais

Parando para pensar: o Brasil tem feito muitos bons filmes (ficção/longa) nos últimos três ou quatro anos, mas eles são inevitavelmente de acesso limitado, difíceis, artsy (com exceção do excelente Cidade dos Homens, de Paulo Morelli). Não dá para jogar O Céu de Suely, Cão Sem Dono ou mesmo Cinema, Aspirinas e Urubus na cabeça de qualquer público.

Do lado de lá da grama, além de coisas extremas como os filmes de Lucrecia Martel, há material de muita qualidade no cinema extremamente simples de Juan José Campanella, Carlos Sorín, ou Daniel Burman. No caso de Pablo Trapero, o cara sai do complicado Do Outro Lado da Lei, e logo depois entrega um acessível e adorável Família Rodante, sem perda de qualidade. (Família Rodante, aliás, é a Pequena Miss Sunshine, se esse aí fosse bom).

Da safra argentina, Chega de Saudade lembra muito os filmes de Campanella, O Filho da Noiva e Clube da Lua. Não em tema, ou mesmo carpintaria (apesar de que, dos dois lados, o estilo é o basicão, sempre), mas no carinho com as pessoas, cheias de uma generosidade cotidiana difícil de ignorar.



Clube da Lua, de Juan José Campanella

Não se trata de chapar tudo na idéia de que todo mundo é gente boa, mas saber olhar as pessoas de perto, com qualidades e defeitos naturais do ser humano. Glamour e estilização são bacanas também, mas esse choque de realidade (realidade nossa, não "cinema de urgência") é reconfortante.

Ao fim de Chega de Saudade, fiquei preso num pequeno exercício: imaginar o emprego de cada pessoa. Se fosse aqui em Salvador, uma seria funcionária pública, outro, gerente de uma loja de eletrodomésticos, enfim, essas coisas. Os personagens do filme não nos abandonam. Quando as luzes se apagam, a gente sabe que eles continuam existindo, por aí, talvez bem perto.

(Nota dez para a visão natural do filme em relação à vida sexual dessas pessoas que já romperam há algum tempo a marca dos 40 anos)

2 comentários:

Angelov disse...

e de falsa loura, o q achou?

é acessível tb

td mundo diz q a minha mãe é a cara da cassia kiss

beijão

Rodrigo Azevedo disse...

Um bom trabalho da Lais, sem duvida alguma. Um filme que o cinema brasileiro estava precisando já há algum tempo.

A trilha tambem "faz parte do elenco". Os coadjuvantes dão gosto de ver, enfim, uma das melhores fitas brazucas até o momento. Uma agradavel surpresa. Dá vontade até de dançar depois da sessão.