terça-feira, setembro 06, 2011

Ladainha

O que mais me impressionou em A Árvore da Vida foi sua estrutura, ou não-estrutura. O cinema não nasceu ontem, mas ainda há espaço para o choque com a fragmentação e com outro tipo de fluxo narrativo, ou com um cinema que não parece interessado em narrar nada. Não tem cena, sequência, ato: o filme é uma vinheta gigante e ininterrupta embalada por uma prece, uma vontade de transcender, de pensar e remoer na cabeça a relação entre natureza e graça.

Os momentos (e não cenas) dessa reza têm então de ser outros. Não tem nada que seja normal nessa câmera, que parece, mesmo no chão, sempre em pleno voo - ela mesma uma consciência total. É tudo vertical, cima-baixo, baixo-cima, ou circular. A imagem não parece ter controle, mas longe de irritar, aborrecer, como aqueles cineastas viciados em um estilo Aqui Agora de balançar câmera, Malick na verdade quer suspender a realidade, superá-la.

Me parece, na verdade, uma câmera-alma, como a subjetiva do fantasma de Sokurov em Arca Russa, só que sem nenhum senso de marcação, e muito mais selvagem. Usando a dicotomia apresentada no início do filme, A Árvore da Vida tem uma imagem que se comporta como a natureza, mas apenas para chegar à Graça. Ou tirar a Graça da própria natureza.

Num filme que se propõe a isso, me parece duvidoso que se objete um caráter reiterativo, como li por aí. As metáforas não precisam ou mesmo não devem ter uma estrutura "ótima", uma economia narrativa - como se, caso fosse possível obter o mesmo efeito a partir de um artifício menor, este artifício menor fosse obrigatório. Num filme com essas ambições, mais é mais. Mais, mais, mais. E a repetição de ideias, até pelo cansaço, conforma uma ladainha, oração cujo efeito (estético-religioso-epifânico) se dá justamente por essa insistência.

O mais legal é esse contraste: uma ladainha coletiva com o espaço para a digressão constante, uma vontade de voltar ao ponto de partida que, na vida, foge das mãos assim que parece estar sob controle. Bora ver como o filme decanta, mas até agora é o filme do ano.

Um comentário:

Por que você faz poema? disse...

De "Fina Estampa"
para "A Árvore da Vida",
viva à pockbola.