sexta-feira, fevereiro 01, 2013

De amor e tortura


Cada dia acho mais indecente essa indicação de Michael Haneke ao Oscar de direção, sobretudo pela esnobada feia em Kathryn Bigelow. Os filmes funcionam de moda diametralmente oposta.

Amour realmente impressiona pela força de projetar mal-estar, pela capacidade de tirar muito cinema de um dueto de grandes atores em um apartamento, mas depois que baixa a poeira só sobra uma violência gratuita contra as pessoas, uma histeria no meio daquele rigor todo, uma inflada legal nos sofrimentos (o pesadelo, o tapa, a agonia da Riva quase que saboreada), enfim, um sentimento geral de desonestidade humana.

Curiosamente, me parece o primeiro filme dele completamente despolitizado, e se seus filmes de tese vez por outra vergavam sob o peso da sua lição de moral (o mundo é uma merda), às vezes ele alcançava grandes insights no nível do detalhe das relações humanas inscritas nesse panorama pessimista (tô falando de Caché, Tempos de Lobo, 71 Fragmentos).

(Em A Professora de Piano, também aparentemente menos político, há uma complexidade daquele relacionamento entre os personagens de Huppert e Magimel que, apesar de todo o horror presente no filme todo como um todo, chegava, ali sim, perto de um amor à Truffaut, doente e obsessivo, mas ainda assim amor.)

A gente reclamava de suas teses, mas sem essa coluna política, o que resta de Amour é uma espiral de horror perfeitamente calibrada para a náusea: os artifícios se evidenciam, chamam a atenção para si, isolados naquele apartamento laboratório, em que ratinhos recebem doses de veneno cada vez mais fortes.

Que ele faz isso com muita habilidade, ok, mas talvez as minhas expectativas de cinema sejam maiores do que exercícios de estilo miserabilistas. (Dica: esse filme pode ser outra coisa em cinema, mas sua mentalidade não passa muito longe de, por exemplo, Biutiful, de Alejandro Gonzalez Iñarritu. Haneke desceu bem baixo).

A Hora Mais Escura, ao contrário, parte de um desconcerto violento pra decantar de maneira extraordinária como o grande filme que é. Bigelow filma a caçada a Osama Bin Laden quase que como uma repórter, numa recusa impressionante de julgamentos mesmo enquanto filma todo o aparato dos US of A cruzando com convicção a linha do humanamente aceitável em nome de um acerto de contas pelo 11 de Setembro.

As cenas de tortura são mesmo terríveis, e, instintivamente, ficamos esperando que Bigelow nos pegue pela mão e condene o que ela registra. Ela se recusa, a ponto de que se possa especular se ela está a favor daquilo. Mais tarde, na reta final da caçada a Osama, Jessica Chastain (grande, grande atuação) afirma numa cena reveladora que, por ela, a invasão à casa do líder da Al Qaeda não se realizaria: preferia jogar uma bomba. Toda a meia hora final é a crônica de um assassinato sem processo, mas não há uma linha de diálogo levantando qualquer questão.

Seria uma omissão, ou mesmo uma conivência de Bigelow com tudo o que ela documenta? Eu acho que não. Acho que, se estou pensando no filme até agora, é porque ela usa o silêncio não para se esquivar de questões, mas para problematizá-las de maneira ainda mais profunda. A reflexão não vem embalada para presente, e é isso que dá a A Hora Mais Escura o seu longo alcance. Em Amor, dá pra parar de pensar já na cena inicial.

Um comentário:

Anônimo disse...

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