sábado, novembro 18, 2006

Sonos Eternos


Três filmes recentes muito me aborreceram: Sin City, Dália Negra e Verdade Nua. Motivo: se vendem como revisões estilizadas do cinema noir, mas não passam de delírios formais, sem a dureza e crueldade do estilo, tão forte em filmes como A Dama de Shangai ou Pacto de Sangue, por exemplo. Partindo do mesmo princípio, não deveria admirar À Beira do Abismo, de 1946.


O filme de Howard Hawks é estrelado por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tem roteiro do Nobel William Faulkner. É baseado no primeiro romance de Raymond Chandler, O Sono Eterno, já estilisticamente impecável, de trama muito complicada e melancólica. Hawks e Faulkner seguem à risca o plot de Chandler, mas sacrificam o clima soturno do escritor. Fiquei com a impressão de que a confusão de tiroteios e chantagens é só pretexto para, de vinte em vinte minutos, termos um diálogo espetacular entre Bogart e Bacall. Aliás, nem sombra do detetive dos livros Philip Marlowe. Em cena, Bogart é Bogart, Bacall é Bacall, mas representam a si mesmos maravilhosamente.


Temos então um noir bastardo, uma mistura de policial com diálogos de comédia romântica – versão super sexy. Isso faz de À Beira do Abismo um filme ruim? Não. É excelente. Diversão classe AAA, violência inofensiva e final com picos impensáveis de charme. Está quase no mesmo patamar da outra obra-prima de Faulkner-Hawks-Bogart-Bacall, Uma Aventura na Martinica, livre adaptação de Ter ou Não Ter, de Hemingway. Aliás, ainda sobre À Beira do Abismo: Dorothy Malone, atriz vencedora do Oscar de coadjuvante em 57 pela performance genial em Palavras Ao Vento, de Douglas Sirk, faz ponta, interpretando uma esperta atendente de livraria, de óculos.


Conclusão: problema dos três filmes recentes citados no início não é exatamente diluir o estilo que reverenciam, mas oferecer muito pouco em troca.
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>>> No post anterior, sobre Volver, esqueci um detalhe interessante. Vários críticos colocam Kenji Mizoguchi num molde oriental de diretores do estilo de George Cukor e Joseph L. Mankiewicz, especialistas em mulheres, e fortes influências para Pedro Almodóvar. Dá para fazer uma ponte direta entre o espanhol e o japonês. Volver usa um efeito muito tradicional do cinema japonês, a convivência cotidiana entre vivos e mortos, que, sem paz, voltam como fantasmas. Volver e Contos Da Lua Vaga não somente exploram essa relação sobrenatural, mas são fortes ensaios sobre a resistência feminina a momentos adversos.

Um comentário:

Gabi disse...

ah! vc viu Danton! q bom!

beijo!