sexta-feira, fevereiro 09, 2007

nip/tuck

>>> Dia desses, folheava O Prazer dos Olhos, de Truffaut, quando descobri porque ele escalou Isabelle Adjani para A História de Adele H.: “É a única atriz que já me fez chorar na frente de uma televisão”. Nunca chorei vendo tv, mas fiquei muito abalado essa madrugada, vendo um episódio de Nip/Tuck em DVD.

A amante do médico Sean McNamara, protagonista da série, sofre de câncer em fase terminal, e decide se matar. Sean, na base do “They Shoot Horses, Don't They?”, apóia a decisão, e todo o episódio mostra delicadamente todo o processo – a decisão, o ato, o enterro, e a confissão do médico para a mulher. Numa época em que a regra geral do cinema americano é a sutileza de hipopótamo, acompanhar uma série desenvolver esse tipo de idéia com tanta desenvoltura me faz pensar no cinema brasileiro mais popular, tão vilipendiado por parecer com tv. Se tivesse o nível de algumas coisas da tv americana, estaria uns vinte níveis acima do atual.

Faz pensar também em uma atriz do porte de Joely Richardson (a mulher traída), filha da grande Vanessa Redgrave. Por seu trabalho magnífico, Joely não disputou nenhum Oscar, prêmio que ultimamente tem caído de pára-quedas nas mãos de Renee Zellweger e Reese Witherspoon. Pior para o cinema.

>>> A direção desta série é tão confiante que, em toda a seqüência do suicídio, das cartas de despedida ao sufocamento no saco plástico, a trilha é Rocket Man, de Elton John. Não fica brega, e isso me lembra de três momentos cinematográficos que usaram a música de Elton John de maneira sensacional.

  • O momento de confraternização no ônibus em Quase Famosos, todos juntos cantando Tiny Dancer.

  • A poesia de Christian em Moulin Rouge, Your Song.

  • A mesma Your Song, usada por Lars von Trier em seu melhor filme, Ondas do Destino. A cada passagem de capítulo dessa história de amor de três horas, o diretor coloca um clássico romântico com algumas paisagens de fundo. Numa das últimas passagens, quando o filme alcança níveis insuportáveis de tristeza, a canção de Elton John dá o arremate.


>>> Sem tv a cabo em casa, meu contato com séries é limitado, e só agora despertei para a possibilidade de ver algumas em DVD. Nip/Tuck começa de maneira sensacional, tem elenco à prova de balas, é engraçado, triste e cínico, mas justamente depois desse episódio maravilhoso, a série cai num abismo. A crise da amizade, do casamento e da relação entre pais e filhos dá lugar a uma subtrama besta envolvendo traficante de drogas. O tom explícito em que as cirurgias são filmadas deixam de impressionar. Não vou ver a segunda temporada. Ao menos não tão cedo.

Um comentário:

Roberto Queiroz disse...

Você resumiu bem o que é o filme: ser feliz é ter dinheiro. Sem contar que aquele emprego de corretor de ações que ele consegue ao final do filme, que presente de grego! uma vida enlouquecedora, cheia de máscaras, rótulos, comprimentos hipócritas e o lado positivo é... não há lado positivo. Se trata de ganhar dinheiro. E só. Vale pelo empenho de Will Smith no papel de Chris Gardner.

(http://claque-te.blogspot.com): Vôo United 93, de Paul Greengrass.