quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Ser feliz é ter dinheiro

Assim que for lançado em DVD, À Procura da Felicidade vai ser exibido em palestras, seminários e cursos de MBA para executivos. Trata-se do filme mais descaradamente empresarial do cinema americano desde o bom Erin Brockovich, de Steven Soderbergh. Mais uma vez, a velha lenga-lenga de pessoas teimosas que começam pobres e, depois de duas horas de projeção, estão em outro nível financeiro. É impossível não telegrafar tudo a partir do letreiro de abertura: “baseado em uma história real”.

Entre a miséria total e a felicidade – leia-se, dinheiro – Chris Gardner (Will Smith) vive em uma corrida de obstáculos. A mulher o abandona, ele fica com o filho, é despejado, despejado de novo, seu negócio não dá certo, e Gardner não pára de correr. Ele é americano e não desiste nunca.

Além de determinado, é inteligente. Sempre foi excelente em matemática na escola, e decide, sem nenhuma experiência, ser corretor no mercado financeiro. A única chance de se infiltrar neste mundo é passar por um rigoroso processo de estágio – não remunerado.

A falta de dinheiro, claro, constrói o lado “tocante”, do filme. Pai e filho dormem na rua, num banheiro de metrô, num abrigo público – e sobe “Bridge Over Trouble Water” (clássico de Simon & Garfunkel) na trilha. Num momento ultra-americano, um coro arrebatador canta um spiritual, aquelas canções evangélicas que geralmente são o primeiro passo na carreira de intérpretes de jazz com voz potente. Jesus está olhando por você. Não desista. Cada cena do filme poderia ser desdobrada em uma palavra de ordem num curso de motivação: “se você tem um sonho, proteja-o”.


Se qualquer sinopse provoca reação negativa de espectadores mais experimentados, o filme passa por cima de preconceitos como um rolo compressor. O diretor Gabriele Muccino empacota seu filme com ritmo impecável, montagem dinâmica, música animada – e o mais difícil, sem causar rejeição. Na verdade, a segurança e a determinação do filme em contar bem essa história chega a causar simpatia, mesmo que seus valores sejam muito discutíveis. O ímpeto de Gardner é quase igual ao do diretor, em seu primeiro projeto em Hollywood. Muccino parece não querer deixar escapar sua chance de fazer muito dinheiro.

Obviamente, faltou citar a carta mais alta na manga do diretor – Will Smith, pela segunda vez indicado ao Oscar de melhor ator. Sempre ajustado para o máximo de energia, Smith se vira com o pé nas costas pelos desvios cômicos e dramáticos da trajetória do personagem. Num insight perfeito, Smith trouxe o próprio filho Jaden para o papel de Chris Gardner Jr. A química sustenta o filme. Thandie Newton, a mulher que Bernardo Bertolucci amou em seu Assédio, some logo no início, desglamourizada.

No fim das contas, a grande questão do filme é saber se a extrema eficiência deste tipo de artesanato consegue fazer perdoar a celebração ininterrupta do poder aquisitivo como fonte de felicidade. Numa cena incrível, Gardner passa pela frente da empresa de corretores, e a narração, cândida: “Todos são tão felizes aqui”. Todos os personagens ricos fazem o tipo boa praça, levam os filhos para assistir futebol americano, são sempre receptivos e simpáticos. O filme é completamente acrítico em relação a este mundo – postura diametralmente oposta a do longa argentino-espanhol O Que Você Faria?, ou do não muito bom Psicopata Americano.

Se a sensação final não é de irritação, talvez seja porque, ao invés de uma mente maligna que tem o dinheiro como deus, À Procura da Felicidade passa idéia de absoluta ingenuidade, típica de certo tipo de formação cultural americana. O filme não ofende porque não parece premeditadamente mal-intencionado; apenas tem um horizonte de pensamento muito estreito. Está fazendo muito sucesso.

Um comentário:

Luís Filipe disse...

Bela crítica! E o que dizer então dos hippies da São Francisco de 1981? Lunáticos ou ladrões... O sonho já havia acabado - nada mais brutal do que a história e suas alternâncias abruptas de zeitgeist! Os yuppies eram agora os arautos da realidade da era Reagan.
Assisti ontem a The Pursuit of happynnes (sic) e a sala de cinema do shopping num determinado momento transpirava o choro inaudível da platéia moralmente suscetível. 26 anos depois e o pesadelo ainda não terminou...