domingo, março 11, 2007

Exilados

Hoje (ontem, na verdade), acabei de ler a segunda parte do Nostromo, de Joseph Conrad. Fiquei um bom tempo à procura de uma cópia, esgotada já já algum tempo. Parece que é sempre assim: quando a gente consegue (cortesia da biblioteca de meu antigo chefe, em amigo oculto de fim de ano!), lançam nova edição. Ainda assim, prefiro a minha, mais sóbria, com páginas levemente amareladas que dão um toque de pergaminho ou mapas marítimos que tem tudo a ver com o autor. (Agora que a Ediouro comprou a Nova Fronteira, tomara que lancem um novo Os Filmes de Minha Vida, de Truffaut, minha prioridade rara neste momento. Quem vir em sebo, me avise).

Por que tinha tanto vontade de ler o Nostromo? Para começar, uma razão cinematográfica. David Lean morreu tentando levantar dinheiro para adaptá-lo, mas não conseguiu financiamento e uma seguradora que aceitasse o risco de ter um diretor octogenário no comando de uma produção complicada e de grande dimensão. Pelas 250 densas páginas que já li, seria material perfeito para o cineasta.

Joseph Conrad

Lean dirigiu meu filme preferido de todos os tempos, Lawrence da Arábia, exaustivo épico de quatro horas sobre a trajetória do tenente inglês (já ouvi dizer que ele nasceu no Brasil, em Botucatu, SP; o Wikipedia desmente) T.E. Lawrence tentando unir os povos árabes durante a Primeira Guerra Mundial. Em outros de seus grandes filmes, o “ser estrangeiro” é fundamental: A Ponte do Rio Kwai, sobre soldados ingleses sob domínio japonês na antiga Birmânia, durante a II Guerra; Passagem Para A Índia, magistral adaptação de E.M. Forster sobre o comportamento da comunidade inglesa em contato com os mistérios do país asiático; Summertime, pequena crônica de uma secretária americana solteirona, aprendendo o que é paixão, amor e sexo em Veneza.

Mesmo em Desencanto, sufocadamente narrado em Londres, após o desenlace de um adultério, o médico decide trabalhar na África. A mesma atitude do Lord Jim, de Conrad, a quem a lembrança do fracasso impede o fortalecimento de raízes em qualquer lugar. Pela afinidade de tema, Lean faria um grande Nostromo. Tanto ele quanto Conrad têm imenso interesse na sensação de exílio.

O que nos leva ao motivo número 2: a vida do próprio Conrad. Mais detalhes no Wikipedia, mas sempre me atraiu saber o que alguém com sua trajetória escreveria. Nascido na Ucrânia de família polonesa, entrou para a marinha britânica e foi ver o mundo, da Venezuela até a Indonésia. Lord Jim, é um grande livro que traz esse ponto de vista sobre a Ásia; Nostromo seria um produto das vivências na América Latina.



David Lean

Isso tudo me faz pensar que na verdade, há uma única razão geral para que esteja atraído pelo livro. Trata-se de uma afinidade e vontade que eu mesmo tenho de ler/ver tudo sobre esse tema, o exílio. Meu escritor favorito é Henry James, o mestre americano que foi viver na Europa, mas não deixou de ser apátrido – aqui, acolá, nunca à vontade. James escreve sobre “incidentes internacionais”, histórias de desencontro de mentalidades que se refletem discreta e poderosamente em sentimentos como amor, paixão e arrependimento.

Também me interessei imediatamente por Graham Greene pela sua história: inglês, espião, jornalista de guerra, autor de dois livros que gosto muito, O Americano Tranqüilo e Fim de Caso, e de outros que quero muito ler. Hemingway também, Camus. E Truman Capote, super-elogiado por A Sangue Frio, mas autor cujas obras-primas estão em histórias curtas, como os relatos de viagem de “ A Cor Local”, disponíveis na compilação Os Cães Ladram. Qualquer dia desses, digito o capítulo sobre Tânger.

No cinema, nem se fala- dos já citados filmes de Lean a várias obras de Howard Hawks e John Huston. Paraíso Infernal, Uma Aventura na Martinica (adaptado de Hemingway), de Hawks; Uma Aventura Na África, O Diabo Ri Por Último (roteiro de Capote), de Huston. Os três últimos, aliás, com Humphrey Bogart no papel principal. Deve ser isso - ser exilado exige curtimento da carne, mente aguçada, esperteza, o tipo de coisa que compõe personagens muito interessantes, anti-heróis. Claro, colocar Casablanca nesta lista Bogart. E não esquecer de O Salário do Medo, de Henri Georges Clouzot, único filme da história a passar em Berlim e Cannes e levar para casa tanto o Urso quanto a Palma de Ouro. (Tudo isso disponível em DVD).

John Huston: impressão minha ou dá para ver a marca de exilado na cara desses três?

(Claro, vários desses caras são jornalistas ou seus livros/filmes tem protagonistas que exercem a profissão. Resquícios de uma visão meio romantizada sobre o jornalismo, o "ser correspondente", expertise que deve exigir muito jogo de cintura e poder de observação. Conte aí Euclides da Cunha e seu fundamental Os Sertões - quem me apresentar livro brasileiro melhor ganha eterna consideração)

Enfim, depois desse name-dropping, todos ficam sabendo: este é um tema que me atrai. O Nostromo? Até agora, maravilhoso, mas livre que exige atenção extrema. Não é algo que se leia em busca de aventura, e sim de poder de observação, de escrita em entrelinha. Muito pouco “narrativo”, por sinal. Demora e muito para que ele saia de um panorama geral (geográfico, até) sem fixar tempo nem personagens como nossos cicerones em Sulaco, a cidade fictícia que é centro do livro. Leio devagar, às vezes a conta-gotas, mas com grande prazer.

Um comentário:

Roberto Queiroz disse...

Saymon, valeu o comentário no the cave e pode ficar despreocupado. eu não corro o risco de ficar na fissura por ver um filme por dia. Vejo que você curtiu Nostromo. Recomendo Tufão, do mesmo autor (eu li a edição pocket da LPM). É extraordinário! Aliás, como tudo que o Conrad escreveu. Eu também estou correndo atrás desse os filmes de minha vida. Desse e daquele livro Hitchcock/Truffaut (um livro de entrevistas com dois dos maiores gênios da história do cinema).

(http://claque-te.blogspot.com): A Conquista da Honra, de Clint Eastwood.