domingo, dezembro 16, 2007

Baixio, entorpecente

Muito bom o Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. Filme ficou um bom tempo em cartaz, mas perdi. Agora, na retrospectiva em cartaz no Cinemark consegui ver. Primeiro aspecto digno de nota é a evolução gritante de Assis em relação a Amarelo Manga. Filma extraordinariamente, domínio técnico impressionante, alguns planos realmente dignos de antologia. A câmera sobe desce, freqüenta os interiores, explora os ambientes, joga o espectador lá. Roteiro econômico, fala na hora certa, muito menos teatral do que no filme anterior dele. Dá pra acreditar do que está sendo dita na tela, desta vez, com uma ou outra bola fora. Aliás, elenco incrível.

Detratores ferozes o acusam de usar esse repertório cinematográfico para glorificar o que filma, um pequeno inferno no interior de Pernambuco. Talvez eu tenha visto outro filme, mas Baixio é um dos filmes mais angustiantes e pessimistas dos últimos tempos. Não tem auto-congratulação pela perfeição da pobreza - ao contrário, filmar "melhor", da maneira que Assis faz aqui, é amplificar seu impacto. Não é embelezar o inferno. É torná-lo inquietantemente próximo do espectador. Saí com a cabeça rodando.



Assis monta o filme seguindo um pequeno grupo de personagens: uma garota explorada pelo pai-avô (à Chinatown), dois agroboys sem limites, um grupo de prostitutas. O filme não anda pra frente, e vale o pleonasmo. Pega uns flashes de um lugar, sem início, fim, só um breve panorama da coisa toda, mas sem nenhuma intenção sociológica - o filme não é pregador. O que fica na cabeça um retrato rigorosamente composto de um ambiente infernal, que Assis cria num nível quase orgânico. O filme tem cheiro de cana, fumaça, mosquitos. Intoxicante.

Numa comparação rápida, durante a projeção, dois filmes me pareceram primos: O Pântano, de Lucrecia Martel, e obra-prima A Humanidade, de Bruno Dumont. São filmes melhores que o de Assis - que ainda tem seus excessos-assinatura, que sabotam o filme aqui e ali, sem grandes danos -, mas é animador ver um cineasta brasileiro se alinhando com gente desse tipo. Não por imitação ou inspiração, mas por sintonia.

2 comentários:

Clementine disse...

tá eu também vou esperar Godard aqui...
sejá lá quem ele for.

te vi comentando sobre "não por acaso"
vim conferir.

sem mais conclusões...

até mais.

Museu do Cinema disse...

Esse é um filme que quero muito ver, perdi nos cinemas, mas espero fazê-lo em breve em DVD.