Estava vendo A Sereia do Mississipi, de 1969, o mais hitchcockiano dos filmes de Truffaut. Em geral, a proximidade dos dois diretores é estabelecida a partir da admiração do cineasta francês pelo inglês, e pelo uso de dois temas semelhante em especial: a mulher como instrumento de perdição do homem, de Um Corpo que Cai, e, principalmente, a conturbada psicologia feminina, de Marnie. (Hitchcock escarneceria da idéia de que seu cinema tem um "tema", claro, o que não desmente o fato de que eles estão lá, mesmo que a preocupação principal do diretor seja formal, enfim).
Em seu modo Hitchcock, Truffaut filma esses temas, mas é muito raro que se expresse cinematograficamente da mesma maneira. Seus filmes são tão naturalmente leves, que parecem improvisados mesmo quando rigidamente calculados - à prova de storyboard. A Sereia do Mississipi é a exceção. Há um controle hitchcockiano em cada cena, cada plano, uma câmera deliciosamente insinuante, cheia daqueles planos que o diretor inglês adorava fazer, sem palavras.
Dois personagens conversam, a câmera os abandona e filma um baú suspeito, somente para o espectador. Em outra cena, ficamos sabendo de um golpe através de um golpe de mestre: Catherine Deneuve tenta aplacar a desconfiança do marido desabotoando o vestido e pedindo que ele o abotoe novamente, já que ela não alcança. O espectador tem a certeza imediata que ela é mentirosa.
Enfim, toda a primeira parte do filme é a ilustração de um golpe: Deneuve interpreta uma golpista que se apresenta a um dono de fábrica como a mulher com quem ele trocava cartas e por quem se apáixonou sem conhecer, marcando casamento - ela morava na França, ele na longínqua Ilha de Reunion, próximo a Madagascar. Deneuve é uma fraude, a mulher verdadeira sumiu, etc.

Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve
Depois do golpe consumado - a sereia vinda no navio Mississipi rouba muito dinheiro e foge - , o marido traído sai em busca de vingança, somente para cair de novo de amores pela golpista. Ele passa a protegê-la da polícia, os dois viram fugitivos, e o filme vira Truffaut puro. Mesmo que continue fazendo citações a Hitchcock o tempo todo, Truffaut relaxa, as cenas ganham aquele tom descontraído que é típico do diretor.
Nessa segunda parte (vou contar até o fim do filme, com alguns spoilers), a golpista se revela mais profunda: ganha um background de traumas e uma história que justifica seu comportamento, sem deixar de ser evidentemente mau caráter, daninha, exploradora. Para complicar, entra a paixão no meio. Para a personagem de Deneuve, é conveniente ser protegida pelo marido, mas a convivência mexe com seus sentimentos. Depois de alguns percalços, ele passa a ser um entrave, e ela tenta matá-lo envenenado, mesmo apaixonada. É novamente descoberta, e novamente perdoada.
Deneuve fica histérica, e vem a primeira grande frase do diálogo: "Ninguém merece ser amada desse jeito!". O marido explica que a ama incondicionalmente, mesmo que ela seja má. Deneuve desaba, e vem a outra fala perfeita, aquela que ficou matutando na minha cabeça, e que mencionei no início desse post: "Estou aprendendo a amar, e isso é muito doloroso".
Amor e dor é mais pobre das rimas, mas, no caso, expressa a imensa complexidade da situação, que é recorrente nos filmes de Truffaut. É difícil amar sem, ao mesmo tempo, fazer mal ao outro. A Sereia do Mississipi pode até ser um filme menor do diretor, mas não deixa de ter suas verdades.
O que isso tem a ver com o comentário de Gabriela? Não sei, provavelmente a perspicácia tanto de Truffaut quanto de Coppola em tentar entender o mundo feminino.
PS: Esse filme foi refilmado recentemente como Pecado Original, com Antonio Banderas e Angelina Jolie. Não vi.