quarta-feira, março 12, 2008

Dois Irmãos

Tenho uma lista imaginária de livros que quero comprar, mas sempre atropelo esses planos por puro impulso. Na última vez que saquei o meu cartão de crédito, pensei que já era hora de tentar começar a diminuir minha ignorância no que se refere a literatura brasileira contemporânea (não que eu seja muito versado em coisas mais antigas, enfim). Comprei o suposto melhor livro nacional dos últimos 25 anos, o Dois Irmãos, de Milton Hatoum.

Tem quase um mês que comecei a ler, e o livro simplesmente morreu na minha mão, a 40 páginas do final. É bom demais, e tem minha simpatia imediata pela ambientação-tema: família árabe de fortes laços de sangue, irmãos gêmeos inimigos, mulher no meio, cenário inóspito (perdão aos manauaras, mas fui a Belém e posso imaginar como são as coisas Amazônia adentro).

Acho que o problema é que o livro é muito bem escrito, página a página, mas talvez mal arquitetado. O início é retumbante, aquele tipo de prólogo que dá uns lances do final em um flash de agonia: no caso, a matriarca morrendo sem saber se os filhos fizeram as pazes. O livro volta para recontar a história da família toda desde o Líbano, tudo isso no ponto de vista do filho da empregada. O livro se passa nos anos 40,50 e 60, até onde li.



Milton Hatoum

O tal problema de arquitetura é que o livro nega fogo no que deveria ser mais tenso: a relação dos irmãos. Eles são afastados geograficamente, se reúnem, mas são separados novamente pelo autor-deus. Mesmo quando estão juntos, a tensão é abafada pelo foco narrativo no garoto, que não nos consegue ver as explosões que deveriam sair da interação dos gêmeos.

A escrita de Hatoum segura forte o livro, mas essa força vai se diluindo, até que o leitor pára e tem que se forçar a terminar. Enfim, agora é torcer para Hatoum ter um belo final na cartola, que talvez compense a curva descendente do miolo do romance.



Luiz Fernando Carvalho

Notícia boa: os direitos de adaptação são do genial Luiz Fernando Carvalho, que, na sua única incursão pelo longa-metragem entregou um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, com todos os defeitos que pode ter. Lavoura Arcaica, de 2001, era um desses retratos lancinantes de família, cheio de uma sensorialidade que chegava a ser brutal. Da poltrona do cinema, dava para sentir o cheiro da comida à mesa, a sensação da terra nos pés, a leveza imensa de voar, "que nem um balão". Vi Lavoura Arcaica duas vezes no cinema, mas nunca me atrevi e revisitar o filme em DVD.

Notícia ruim: LFC deve adaptar Dois Irmãos não para a tela grande, mas para a Globo, dentro do projeto Quadrante. E talvez essa adaptação nem saia do papel. Depois do fracasso monumental de A Pedra do Reino, a Globo pode cancelar de vez o tal projeto, que previa ainda uma versão de Dom Casmurro e um quarto livro do qual não me lembro.

EDITADO: É, eu estava errado: as 40 páginas finais são as melhores do livro. Não apenas "compensam" a queda de ritmo, mas justificam completamente as escolhas de Hatoum em relação ao tempo dedicado a essa família quanto à opção de não centrar a história no conflito dos irmãos. Há incrível melancolia e tristeza nesse desmonte da conclusão do livro: tempo passado, todos morrendo, das cinzas às cinzas, do pó ao pó.

O outro livro que, arrogantemente, eu desejava na minha cabeça (Dostoievski, Visconti?), poderia ser grande, mas não anula a bela obra de Hatoum. Frases de destruir o coração no desfecho, capítulo final à beira do gênio, frase final inexcedível.

5 comentários:

Omar disse...

Saymon! Como é bom ler um texto seu. Eu tenho este livro, ganhei. Não li. Um dos irmão se chama Omar, e a presenteadora (tenho quase certeza que a palavra existe) é uma novidadeira que adora um lance novo com qualidade. Nunca li por falta de tempo mesmo. Tenho uma edição de bolso das Cia das letras, que tem um custo benefício interessante. O filme lavoura Arcaica eu vi em 2001, na época tive uma sensação estranha, é um misto de muito estranho e muito bom. O filme tem cenas de dança e mesa (como mencionado em seu texto) fantásticas, uma atuação excelente de Raul Cortez. Não gosto do tempo do filme, que é muito longo (na época achei, talvez estivesse em um “tempo” muito paulistano, pode ser que hoje ache adequado, mas a sensação primeira ainda prevalece) e umas cenas meio exageradas daquele menino Selton Mello, cuspindo bebida, muito teatral. Mas, lendo seu texto. só lembrei da dança, dos olhares e dos sentidos todos que estão na tela de maneira magistral. Parabéns! Seu blog continua muito bom. Saudade da Facom e de você

Saymon Nascimento disse...

Omar, tenho essa mesmo edição de bolso... Eu acho quer Lavoura tem mesmo seus defeitos, mas por outro lado, não seria Lavoura sem esses defeitos, essa teatralidade, o excesso temporal. O filme só existe nesse exagero mesmo!

Heron disse...

Também gosto de Lavoura Arcaica... acho tão legal esse negócio de mostrar uma cena que, ali na hora, parece ser uma coisa e depois, com o passar do filme, vc fica em dúvida sobre o que viu... como uma das primeiras cenas, se não me engano... quando o personagem de Selton está [aparentemente] se masturbando, mas depois percebi que aquilo poderia ser somente um de seus ataques nervosos... e que DVD bacana, não é? Vc tem?

[www.metaplano.blogger.com.br]

Breno disse...

Eu li Cinzas do Norte, do Hatoum, cara, e é realmente impressionante o talento desse cara. Sua narrativa tem cheiro, tem textura, tem cor. Depois, fiquei agoniado querendo ler os outros dois, mas fica um pouco dificil, daqui da Espanha...

pedro mafra disse...

estou fazendo um trabalho escolar sobre o livro, e preciso de uma conclusão, porém as minhas palavras ficaram mto vagas. além de citar que é uma obra que retrata a formulação e a desintegração de uma familia não sei o que completar!
SOS.