A historinha não podia ser mais simples e batida: garanhão de meia idade encontra garota hippie de mente aberta, e os dois desenvolvem um relacionamento baseado em oposições: rico/pobre, jovem/velho, formal/informal. Como sempre nos filmes de Eastwood, a trama é só um detalhe: o brilhantismo vem do tratamento estoico, minimalista, completamente despido de excessos. São coisas que fazem com que o filme nem tome conhecimento de sua estrutura alicerçada em clichês. Fica apenas a força da verdade que no fundo há em todo lugar-comum.
Vendo esse filme me peguei algumas vezes pensando em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, uma obra superior. A lembrança vem menos da situação velho/moça do que da confiança dos dois filmes na interação entre as pessoas, na falta de pressa do ritmo dos diálogos, e, claro, dos silêncios. Kay Lenz não resistiria a uma comparação com Scarlett Johansson, mas o rosto de pedra do galã hollywoodiano William Holden fala horrores sobre vida, desalento e segunda chance, tanto quanto o trabalho aclamado de Bill Murray.


Holden, aliás, é o típico caso de ator subestimado pela sua beleza, mas era muito mais que um musculoso all-american boy. Billy Wilder sabia o quanto ele podia ser cínico e lhe deu três grandes papéis, em Crepúsculo dos Deuses, Sabrina e Inferno nª17. Entertanto, no filme de Eastwood sua atuação se aproxima do andarilho fracassado de Férias de Amor: mesmo sendo bem-sucedido na vida, os traços do personagem de Holden passam uma sensação de amargor e tempo perdido da maneira mais generosa possível - o charme e presença de megastar ainda estão intactos, claro.
Apesar de ter uma relação pai/filha e não homem/mulher, o filme de Eastwood mais próximo de Interlúdio de Amor é Menina de Ouro: os temas são praticamente os mesmos, com a diferença de que o diretor envelheceu e deixou marcas mais duras no filme, tornando tudo mais sombrio. A violência que brutaliza as pessoas em Interlúdio de Amor é apenas sentimental, e, em Menina de Ouro, assume uma dimensão física, via boxe. São escolhas diferentes: em 1973 o instável final feliz - "tomara que essa relação dure pelo menos um ano" - é tão belo quando a melancolia do treinador de boxe, a torta de limão, e a lembrança da pessoa amada.
>>> Já sabemos que Isabelle Huppert é a melhor atriz - ou intérprete, de todos os sexos - do mundo em atividade, mas sua carreira é tão prolífica que não se pode afirmar com certeza qual o ponto mais alto deste currículo. Até uns dias atrás eu achava que era a ilustração da alma doente de A Professora de Piano: a mulher amada, mas que nunca aprendeu a amar, vive de relações emocionalmente destrutivas e associa sexo a dor e violência. Michael Haneke matou a charada: nenhum outro ator pode ser tão realista no sofrimento e, ao mesmo tempo, aparentar tanta frieza e intelectualismo.

Em Um Assunto de Mulheres, no entanto, Huppert se supera. É tudo aquilo que Haneke descreveu, e muito mais, com notas de alegria, ironia, sensualidade, divismo... O personagem é dos mais bem escritos da História, exige talentos de A a Z: dona de casa insatisfeita, bissexual reprimida, começa a fazer abortos para ganhar um dinheirinho por fora. Pouco a pouco, liberta-se de todas as restrições morais. Aluga os quartos dos filhos para prostitutas, redescobre o gosto pelo sexo masculino de maneira selvagem e vulgar (sem abandonar a bissexualidade, claro) e desfruta do prazer de poder comprar o que gosta. Ao mesmo tempo, esforça-se para ser uma boa mãe, joga a empregada para cima do marido, e tem uma ou outra inquietação pelas almas das crianças abortadas.
É tanta coisa para administrar, variações, altos e baixos, e jamais percebemos qualquer deslize ou insegurança. O trabalho é absolutamente coeso e natural, sem que Huppert se entregue em qualquer cena à gritaria ou ao excesso. A mulher é um monstro e consegue até mesmo dobrar um diretor do porte de Chabrol, em seus melhores dias. O filme é muito bom, mas às vezes parece que o cineasta está a serviço da atriz e não o contrário.
>>> Georges Franju é um Bresson do mal: utiliza os artifícios de luz branca, atores robóticos e sons puros para sugerir a presença do Diabo, e não de Deus. Judex, de 63, é um show de cinema fantástico dentro dessa moldura de "depuração". O enredo pode ser complicado e absurdo, à beira do Batman, mas o tratamento é admiravelmente monocórdio, lento, fascinante, e insuportavelmente perverso. Nos filmes de Franju as pessoas não morrem de tiro, mas caem de grandes alturas ou são golpeadas com armas brancas. Judex não é tão redondo e macabro quanto o obrigatório Os Olhos Sem Rosto, mas tem diversas cenas de antologia. Como essa: