quarta-feira, novembro 07, 2007

Medo do palco

>>> Antes de Bergman, havia Alf Sjoberg. O recém-falecido Ingmar começou escrevendo roteiros para o mais velho, como Tormento. Em Morangos Silvestres, praticamente copiou o método de Sjoberg em Senhorita Júlia. Presente, passado e futuro convivem cenicamente, nos mesmos planos-seqüência. A cópia saiu melhor que o original. Embora Júlia tenha seu impacto, o virtuosismo da câmera acrobática distrai.


Nunca li nem vi montado no palco o texto original de Strindberg, mas, mesmo percebendo aqui e ali seus pontos fortes, sinto que foi sacrificado em “prol” da linguagem cinematográfica. O filme é rápido demais. Talvez Sjoberg tenha medo de teatro. Mais cabia fazer igual a Dreyer em A Palavra, e ser econômico. Talvez o filme mereça uma segunda visita (merece), mas seu excesso não é sublime. É sufocante - o resto do filme é relegado a segundo plano.

>>> Se tenho dúvidas em relação a Sjoberg, todas as certezas vão para Elia Kazan em termos de adaptação teatral. Não bastasse seu Um Bonde Chamado Desejo, Kazan usou Tennessee Williams em um filme ainda mais intenso (embora menos sofisticado). Boneca de Carne tem uma voracidade animalesca na análise dos instintos sexuais de uma jovem de 19 anos, o marido quarentão e o forasteiro sedutor.

A mise-en-scène de Kazan é invisível no bom sentido: a sensação de ver o filme é a mesma de ter acesso a coisas que não deveriam ter sido vistas, perfeitamente traduzida na expressão “eu queria ser uma mosca só pra ver”. O processo de sedução da garota, sozinha em casa numa tarde quente, é até hoje, um dos momentos mais sexuais que o cinema já viu, algo como aquela cena entre Laura Dern e Willem Dafoe em Coração Selvagem, mas expandida para sempre. Brutal.

2 comentários:

fernando monteiro disse...

Tenho acompanhado seus comentarios com interesse, Saymon, porque eles se situam bem acima da media do que se escreve -- e como se escreve! -- sobre filmes, nos blogs que nos cercam por todos os lados. Quanta bobagem se diz sobre cinema, diretores e obras cinematográficas na Web -- de maneira que eh um prazer encontrar alguem com a tua agudeza. Isto nao estah sendo dito para "puxar o saco" etc, mas para registrar a justeza tanto da critica que vc fez aos excessos do velho filme de Sjoberg, como do elogio ah obra (geralmente) injustiçada de Kazan, uma vitima da [mais que] lamentavel atuaçao que teve perante o "Comite de Ativividades Anti-americanas", nos anos 50. Depois disso, parece que ninguem quis aceitar -- inteiramente -- que o "delator" (o que ele foi, de fato) fosse tambem um dos autenticos genios do cinema feito nos EUA.

Gabi disse...

meninos, vcs estão ficando muito adultos!