domingo, junho 22, 2008

Família, corpo, morte

Tantos filmes, tanta coisa para conhecer. Dia desses vi Irmãos, de Patrice Chéreau, diretor que eu não conhecia, à exceção de seu grandioso e sangrento A Rainha Margot, de 94, com Isabelle Adjani e Virna Lisi. Irmãos, lançado nove anos depois, aparentemente tem poucas semelhanças com o épico anterior. Longe de qualquer suntuosidade, o diretor conta uma pequena história de morte e reconciliação.

Thomas sofre de uma doença crônica no sangue, que diminui sua contagem de plaquetas e provoca hemorragias súbitas. Temendo a morte, procura o irmão Luc, de quem havia se separado muitos anos antes, sem dar notícia. Não tem trauma no passado, grandes revelações, ou excesso melodramático.


As pessoas se juntam e se afastam, como na vida. Quando os irmãos voltam a conviver, têm de administrar as lacunas desse relacionamento distante que já foi próximo, diferenças e afinidades, sentimentos e impressões. Na tela, uma interação incrivelmente real, tão terna quanto complicada, cheia da mesma idéia de pertencimento que há no Amantes, de John Cassavetes, embora os filmes tenham grandes diferenças.

De qualquer jeito, pensando bem, há um aspecto que une Irmãos a A Rainha Margot. Nos dois filmes, Chéreau faz um cinema com a mesma qualidade enxergada por Luiz Carlos Merten na obra de Visconti: antropocêntrico, ou seja, cinema interessado pelo corpo dos atores, pelo toque, pelo contato. Não exatamente de uma maneira erótica, mas orgânica. (Personagens estão freqüentemente sem roupa de maneira completamente desglamourizada, aliás).

O centro disso, em Irmãos, é a debilidade física. Há pelo menos duas cenas perturbadoras e incômodas sobre o efeito emcocional de uma doença. Enquanto visita o irmão internado, Luc ouve de um desconhecido um desabafo acachapante. O garoto tem 19 anos, uma doença no aparelho digestivo e espera o resultado de exames para saber se vai ser submetido a uma nova operação. A frase é desconcertante, coisa do tipo: "Eu sou muito jovem e não vou ser retalhado de novo", diz o garoto, mostrando uma enorme cicatriz na barriga.




A outra cena é ainda mais agressiva. Thomas se prepara para retirar o baço, e as enfermeiras começam a assepsia. Um zombido de barbeador elétrico corre o peito e abdômen do ator Bruno Todeschini para tirar o excesso de pêlos. Em seguida, a gilete, para tirar tudo de vez. A cena é longa, e barulho que esse processo faz é de gelar a espinha, perfeita ilustração da brutalização do corpo pela doença.

O final de Irmãos, não por acaso, vem numa praia, como o Morte em Veneza, de Visconti. A diferença é que, para o diretor italiano, a morte não vem eternização da agonia e auge de um momento patético, tanto no sentido moderno de ridículo, quanto no de paixão (pathos, patético, etc). Do mesmo jeito que O Tempo Que Resta, de Ozon, outro filme recente que revisita o desfecho viscontiano, Chereau associa morte a alívio, sem, ao mesmo tempo, ser redentor.

Aliás, ao contrário, o filme é tão honesto quanto deprimente. Fazer o quê? Algumas verdades sempre precisam ser ditas e lembradas: nossa fragilidade humana é uma delas. Em DVD.

Um comentário:

Demas disse...

"Irmãos" é mesmo um filme muito tocante. Ao ler seu texto, as emoções provocadas quando o assisti voltaram.
Abração