terça-feira, junho 03, 2008

Mais Cassandra

Katarina escreveu um excelente post sobre O Sonho de Cassandra, pensando o filme à luz de Dostoievski, referência obrigatória para esse Woody Allen mais soturno. Vou usar a comparação dela para destrinchar um pouco mais o que me incomoda no filme - o final.

Falei no post anterior sobre fecho de ouro. Isso não é pedir um twist, uma amarração na trama, nada disso. No cinema, e muitas vezes, na obra de Woody Allen, acabar bem um filme é deixar os personagem em suspenso, se afogando na merda, sem morrer nem ser salvo.

O final de O Sonho de Cassandra, súbito, se não premia os personagens com redenção, dá a eles um livramento, a morte. Em Crime e Castigo, a grande tragédia de Raskolnikov é continuar vivo o resto do livro, e para sempre, depois que as páginas acabam. O castigo é muito mais forte, narrativamente, do que o crime.


Laudau e Allen em Crimes e Pecados

Allen prefere o crime. É tenso, infernal, mas não honra as possibilidades que ele mesmo abriu no roteiro. O castigo não chega a vinte minutos de projeção, e acaba numa porta de saída fácil.

Não conheço o cara, repropduzo de ouvir falar. Acho que era Michel Cioran que dizia que a vida seria insuportável sem a possibilidade do suicídio. Morrer pode ser reconfortante. Não é o tipo de coisa que eu esperava de Woody Allen em seu filme mais sombrio - ao menos durante boa parte da projeção.

Quando as coisas desandam e se atropelam, Crimes e Pecados, sábio, genial, volta ao posto de origem. Allen nunca superou aqueles planos na cara de Martin Landau, falando sobre como voltou a dormir depois de encomendar o assassinato da amante.

2 comentários:

Diego Damasceno disse...

Talvez o castigo não seja o ponto. Visto à luz de mr. Dodô, com certeza sua inquietação faz sentido.
Mas visto à luz da tradição grega, do trágico, do homem que quer mais do que pode, do desafio ao próprio destino, o final não poderia ser muito diferente.

Diego Damasceno disse...

E, enfim, quando encetamos uma interpretação complexa [como essa à partir de Ródia], fica difícil saber se, quando as coisas não se encaixam, é problema do filme, ou problema da interpretação, que talvez tenha ido longe demais.