sexta-feira, dezembro 01, 2006

Um Grande Garoto / Novembro

Estou sem tempo para escrever com calma. Apelo para a fórmula de Nick Hornby (nunca li) e posto três top-5.

Hoje, 1 de dezembro, é aniversário de Woody Allen. Ao contrário da maioria das pessoas, acho a década de 90 do diretor excelente. Sua carreira parece que só desandou entre Trapaceiros e Melinda e Melinda, e nem tenho tanta certeza, porque perdi o recheio dessa parte supostamente ruim: Igual a Tudo Na Vida, O Escorpião de Jade e Dirigindo no Escuro. Na minha escala Woody, os dois primeiros se afastam dos seguintes, e Mariel Hemingway e o diálogo final acabam desequilibrando a favor de Manhattan (embora o desfecho ao som de What's This Thing Called Love em Maridos e Esposas seja de uma crueldade infernal).

5 – Tiros na Broadway
4 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
3 – Desconstruindo Harry
2 – Maridos e Esposas
1 – Manhattan


Mariel Hemingway, neta de Ernest: "É preciso confiar nas pessoas"
Criador de grandes papéis femininos, Allen quase sempre trabalhou com um grupo fixo de atrizes, duas delas, “musas na tela e na vida real. As cinco melhores interpretações em seus filmes.

5 – Gena Rowlands, A Outra
4 – Dianne Wiest, Tiros na Broadway
3 – Diane Keaton, Um Misterioso Assassinato em Manhattan
2 – Geraldine Page, Interiores
1 – Judy Davis, Maridos e Esposas

Judy Davis enlouquecendo.

Agora, meu top 5 mensal. De vinte e nove filmes vistos em novembro, destaco:
5 - Curva do Destino, de Edgar Ulmer

4 - O Criado, de Joseph Losey

3 - Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah

2 - A Mulher Infiel, de Claude Chabrol

1 - Hara-kiri, de Masaki Kobayashi


Tanta coisa para falar desses filmes, mas deixa para lá.

sábado, novembro 18, 2006

Sonos Eternos


Três filmes recentes muito me aborreceram: Sin City, Dália Negra e Verdade Nua. Motivo: se vendem como revisões estilizadas do cinema noir, mas não passam de delírios formais, sem a dureza e crueldade do estilo, tão forte em filmes como A Dama de Shangai ou Pacto de Sangue, por exemplo. Partindo do mesmo princípio, não deveria admirar À Beira do Abismo, de 1946.


O filme de Howard Hawks é estrelado por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tem roteiro do Nobel William Faulkner. É baseado no primeiro romance de Raymond Chandler, O Sono Eterno, já estilisticamente impecável, de trama muito complicada e melancólica. Hawks e Faulkner seguem à risca o plot de Chandler, mas sacrificam o clima soturno do escritor. Fiquei com a impressão de que a confusão de tiroteios e chantagens é só pretexto para, de vinte em vinte minutos, termos um diálogo espetacular entre Bogart e Bacall. Aliás, nem sombra do detetive dos livros Philip Marlowe. Em cena, Bogart é Bogart, Bacall é Bacall, mas representam a si mesmos maravilhosamente.


Temos então um noir bastardo, uma mistura de policial com diálogos de comédia romântica – versão super sexy. Isso faz de À Beira do Abismo um filme ruim? Não. É excelente. Diversão classe AAA, violência inofensiva e final com picos impensáveis de charme. Está quase no mesmo patamar da outra obra-prima de Faulkner-Hawks-Bogart-Bacall, Uma Aventura na Martinica, livre adaptação de Ter ou Não Ter, de Hemingway. Aliás, ainda sobre À Beira do Abismo: Dorothy Malone, atriz vencedora do Oscar de coadjuvante em 57 pela performance genial em Palavras Ao Vento, de Douglas Sirk, faz ponta, interpretando uma esperta atendente de livraria, de óculos.


Conclusão: problema dos três filmes recentes citados no início não é exatamente diluir o estilo que reverenciam, mas oferecer muito pouco em troca.
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>>> No post anterior, sobre Volver, esqueci um detalhe interessante. Vários críticos colocam Kenji Mizoguchi num molde oriental de diretores do estilo de George Cukor e Joseph L. Mankiewicz, especialistas em mulheres, e fortes influências para Pedro Almodóvar. Dá para fazer uma ponte direta entre o espanhol e o japonês. Volver usa um efeito muito tradicional do cinema japonês, a convivência cotidiana entre vivos e mortos, que, sem paz, voltam como fantasmas. Volver e Contos Da Lua Vaga não somente exploram essa relação sobrenatural, mas são fortes ensaios sobre a resistência feminina a momentos adversos.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Velhos novos

Volver

Almodóvar enfileira mais um grande filme na seqüência que começou com Carne Trêmula, em 98. Volver, ao contrário dos dois últimos, não é sobre homens, e tem alto nível de humor. Celebra a força das mulheres, capazes de se reerguer do nada e superar tudo – transformam a tragédia em combustível, o fundo do poço em mola de propulsão. Acho que a frase é do próprio Almodóvar, mas se aplica a Woody Allen, Antonioni, Bergman, George Cukor, etc. “Gosto de filmar mulheres porque elas têm mais pedaços”. Talvez não, e o espanhol já foi capaz de mostrar a complexidade do mundo masculino. Mas, em Volver, ninguém duvida que ele sabe tudo de mulher. Dos seus filmes sobre mulher, esse é o melhor, mais humano, e mais plácido também. Ele chegou no ponto da carreira de pensar na morte, e usa o exemplo do afeto feminino para celebrar o perdão e a reconciliação. Lelouch falou sobre Spielberg depois do lançamento de E.T., mas a sugestão é perfeita para o momento:”Ele não deveria ganhar Oscars, e sim o Nobel da Paz”. (Almodóvar, mesmo em versão simples e enxuta continua muito apaixonado por cinema. Depois de fazer Tudo Sobre Minha Mãe para Bette Davis, Volver é homenagem a Joan Crawford: o drama de mãe e filha vem todo de Alma Em Suplício, de Michael Curtiz, e Almodóvar supera o filme antigo. Na televisão, já perto do fim, Belíssima, de Visconti).

Os Infiltrados

Para Scorsese, Os Infiltrados é ponto alto depois de dois filmes infelizes, e, como quase sempre, tem um magnífico ensemble masculino. Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Matt Damon e Leonardo DiCaprio se envolvem num complicado jogo de espionagem de polícia e ladrão no submundo de Boston. Violência corre solta, e Scorsese acerta em cheio no personagem desequilibrado do excelente DiCaprio. Ele é o ponto de distanciamento da selvageria dominante, e o que impede o filme de ser “só” mais um filme de ação bem realizado. Aliás, bem realizado é pouco, filme é um primor de roteiro e montagem – ou seja, administração da história. Tensão explode. Ainda assim, a expectativa de um novo Cassino pode provocar um pé atrás. Pena não ver Joe Pesci, os travellings, os offs superpostos... Mas o que ele já fez é muito bom.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Outubro

Cinco melhores filmes que vi em outubro:

5 - O Dia do Chacal, de Fred Zinnemann


4 - O Pagamento Final, de Brian de Palma

3 - Danton - O Processo da Revolução, de Andrzej Wajda



2 - Os Inocentes, de Jack Clayton


1 - Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes

sábado, novembro 04, 2006

Laços de família

>>> Vi ontem Estrela de Fogo, filme de Don Siegel estrelado por Elvis Presley. O cantor é Pacer, mestiço que vive com pai e irmão brancos, e mãe índia. Quando os kiowas começam a lutar contra os brancos, os dois lados pedem a Pacer uma tomada de posição. A intransigência tem muito a ver com os Estados Unidos. A preocupação principal de Siegel é o que sobra da família depois de tanta violência. A tragédia inevitável nada tem de racista. A impossibilidade da miscigenação não é apresentada como lição, mas como comentário político dos mais pessimistas.


Muitos faroestes são construídos assim: a violência não existe para fins de entretenimento. A morte é elemento de pressão, para que o diretor pense as relações humanas num ambiente hostil. Em clássicos do porte de Um Certo Capitão Lockhart, A Face Oculta, ou no maior dos westerns, Os Brutos Também Amam, os laços que importam são familiares. A não contar as convenções de gênero, o que separa esses filmes dos melodramas de Douglas Sirk?
>>> Dia de Finados foi centenário de nascimento de Luchino Visconti. Coincidência perfeita: Visconti foi o cineasta da decadência, e o caminho provável de todos os seus filmes é a morte, o fim. Ninguém registrou dessa maneira o processo de declínio e destruição - de relações humanas (Obsessão, O Inocente) e políticas (O Leopardo, Ludwig). Rocco e Seus Irmãos é seu filme mais influente. Visconti mistura literatura russa e ópera para construir o épico do povo.
A família pobre tentando sobreviver em Milão, Rocco imaculado ganhando dinheiro na violência cotidiana do boxe, separado do irmão volúvel pelo amor da prostituta Nadia - é o auge do roteiro no cinema. Junta o inconciliável: o ambiente neo-realista, mas tratamento de grande melodrama. Era Uma Vez na América também não é neo-realista, mas não existiriam sem a lição de Visconti: levar a suntuosidade narrativa para as paixões violentas do mundo de verdade.


O Poderoso Chefão é herdeiro do Rocco, mas também tem os dois pés em O Leopardo. "As coisas devem mudar para continuarem as mesmas", é o dito de Tancredi para o Princípe de Salina, seu tio. Visconti filma uma morte social, eterna adaptação da aristocracia aos novos poderosos. Vito Corleone, acuado e antiquado, abre o caminho para o filho Michael. Este se torna mais poderoso que o pai, às custas de seu valor fundamental: a família. Assim, voltamos ao Rocco.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Faixa Nobre do Esporte

UPDATE: O sufoco que o time tomou da Holanda me fez sentir falta do time velho. O passe não saiu, Carol ficou meio hesitante, e onde está a bola de segurança para resolver. Sassá, cada vez melhor, entrou e não fez feio. Pena que Mari tenha saído. Não tava muito bem, mas é porque o lugar dela é mesmo como oposto. Contra os Estados Unidos, ela entrou no final do primeiro set na inversão do 5-1, já que Renata não se destacou muito nos últimos jogos. Sobre os EUA, onde está Logan Tom?

Fui até as duas da manhã lendo. Ligo a televisão, e, grata surpresa, a Globo transmite o Campeonato Mundial Feminino de Vôlei. Pena que essas competições são sempre no Japão, e provocam horário proibitivo. Ainda assim, prazer absoluto ver a geração de Zé Roberto jogar, mesmo contra o Cazaquistão.
Dizem que é bom time, e deu calor nos Estados Unidos (perdeu de 3 a 2) na primeira rodada, liderado pela ponta Pavlova – incríveis 40 pontos. O problema do jogo contra o Brasil é que a equipe ex-soviética desistiu, poupando-se para quando tivesse mais chances. Pavlova foi sacada no final do primeiro set. Mari, Sheila, Jaqueline, Fabiana, Walewska e Carol não deram chances: 3 a 0, com parciais de 25-17, 25-13 e 25-16.
O melhor foi ver a seleção completamente azeitada, mesmo sem Fofão, que sofreu lesão leve. Há quatro anos, na Alemanha, Marco Aurélio Motta levou o Brasil pro mundial com muitas dessas jogadoras, depois que veteranas abandonaram o time. Paula Pequeno, Sassá e Sheila, entre outras, foram até às quartas, onde perderam para a China num dramático 3 a 2.
Depois do quarto lugar (das veteranas) nas Olimpíadas, o time novo tem varrido todos os títulos, e chegou ao hexa no Grand Prix. A geração anos 90/início dos 2000 jogava no tempo da vantagem, com atacantes de força e bola alta: Ana Moser, Virna, Elisângela, Raquel, Érika. O Brasil tentava ser um misto de mais leve de Rússia e Cuba – o dream team tricampeão olímpico de Regla Bell e Mireya Luis.
O novo vôlei está mais adaptado ao tempo da China, time que ganhou cada vez mais projeção depois do vice-olímpico em Atlanta, até a medalha de ouro em Atenas. É um vôlei muito marcado pela tradição oriental da velocidade, só que jogadoras altas e muita força de ataque. A geração Zé Roberto,entrou nesse tempo. Todas as bolas são de grande velocidade – é como se todo mundo jogasse no ritmo da musa Leila.
Jaqueline, Sassá e, principalmente Sheila arrebentam nesse estilo, e ainda são capazes de “resolver” as bolas complicadas, embora sem a potência da geração passada. Para o desafogo o Brasil conta com Mari, minha jogadora brasileira preferida da atualidade. Ela não aparece muito em jogos fáceis, e seu estilo é bastante frio, mas quando o jogo precisa de braço, não há competição. Lembro da semifinal de Atenas, contra a Rússia. O Brasil perdeu e Mari errou a última bola, mas já tinha feito 37 pontos.
Enquanto essas partidas decisivas não chegam, Zé Roberto faz bem em dar rotatividade ao time. Contra o Cazaquistão todas as reservas jogaram. Entre elas a ex-titular Paula Pequeno, que esteve afastada da seleção por conta de gravidez. Renata, a jogadora com braço mais pesado do time, ainda tem um tempo muito Bernardinho, mas é perfeita pra movimentar o time durante as inversões da diagonal da levantadora. (Eu a vi jogar aqui em Salvador pelo antigo BCN, durante a Copa Salonpas. Foi a melhor atacante da competição, batendo Virna, do mesmo time, que foi melhor pontuadora).
Enfim, acho que o Brasil tem tudo pra levar seu primeiro ouro mundial, e colocar de vez o time feminino em pé de igualdade em títulos com a equipe masculina. Os grande adversários devem ser os suspeitos de sempre: China, Rússia e Cuba, agora renovada, e com uma atacante do nível do dream team, Calderón Diaz. Comendo pelas bordas, a atual campeã, Itália Zebra em 2002), além de novidades, como Sérvia. O time eslavo não tema tradição de sua equipe masculina, mas surpreendeu nas duas primeiras rodadas, batendo justamente Cuba e Itália. O campeonato está só começando.
(Eu sempre gostei muito de esporte, pela TV. Sou órfão da Faixa Nobre do Esporte, da Band. Assistia até campeonato de sinuca.)

segunda-feira, outubro 30, 2006

Mais Short Cuts

>>> Emanuella Sombra inaugurou novo blog, sem perder os trocadilhos do sobrenome. Criou uma endo-blogosfera, página principal + blogs colunas, também assinados por amigos. Inaugurei uma dessas páginas agregadas. Sombra é talento ascendente no jornalismo nacional, pronta para, junto com seu par, Vitor Pamplona, travar duelo de frases amorosamente cortantes numa grande redação. O final é obviamente feliz, como num filme de George Cukor ou Howard Hawks. Pamplona, também cineasta, está mais para autor russo. Seu debut, o curta Notas de Obituário, é uma precisão de atmosfera leste-européia desconstruída.
>>> Não vejo Páginas da Vida. Parece que Manoel Carlos está em fase extrema. Parei numa banca atrás de figurinhas pro meu álbum do campeonato espanhol, e vejo três manchetes de revistas baratas: 1) Clara é raptada; 2 ) Carmem seqüestra Bira; 3) Alex some com Francisco. Com andam as estatísticas desse tipo de crime? Enfim, somente reprise de Renascer ou volta da dobradinha Benedito Ruy Barbosa & Luiz Fernando Carvalho para me colocar na frente da tv de novo. Aliás, dia 20 começam as gravações da próxima novela da oito, aqui em Salvador. Tem um núcleo baiano, de turismo sexual.
>>> Estou cada vez mais fascinado por filmes arcaicos, com soluções narrativas que se alicerçam em somente uma das mídias de onde o cinema se originou (teatro, romance, fotografia, pintura) ao invés de se afirmarem como uma síntese delas todas, ou como “cinema puro”, de “filmes cinematográficos”, quase sempre estripulia de montagem. Por exemplo: Consciências Mortas, de William Wellman, ou Boulevard do Crime, de Marcel Carné. São exemplos de teatro e novelona filmados sem muita “linguagem”, mas que se alojam na cabeça de maneira indelével. Essas obras são pedra no sapato contra a idéia amplamente difundida que não importa o que se conta, e sim a maneira de fazê-lo. A grandeza de Wellman e Carné não vem da administração, mas somente da força dos temas e situações. Claros enigmas. Bom diferenciá-los de coisas como Carta de Uma Desconhecida, de Max Ophuls, ou Rocco e Seus Irmãos, de Visconti, em que a influência do romance é mais que evidente, mas não decorre de apagamento da direção.
>>> É impressionante como não vejo notas falsas na produção de cinema argentina. À exceção de Lugares Comuns, de Adolfo Aristarain, é tudo muito bom. Curioso também que a maioria dos filmes é bem acessível, thrillers, melodramas, comédias. (Lucrecia Martel destoa dessa tendência, com seus excelentes O Pântano e A Menina Santa, mais áridos) Filmes com gente boa, com nuances, complexidades, como as pessoas da vida real costumam ser. Ninguém é um tipo de papelão. A realidade dessa gente é um elogio, com certeza. Mais sobre isso aqui.

domingo, outubro 22, 2006

Garbo?


Para quem se alinha comigo e Inácio Araújo e não vê muita graça na Greta Garbo dos filmes, sempre fascina mais o encantamento dos outros por sua figura éterea. Se a Garbo chata, chorosa e melodramática de Anna Karenina, Grande Hotel e boa parte de Ninochtka mina minha paciência, a Garbo urbana e novaiorquina parece ser bem mais interessante. Duas histórias que não canso de repetir. 1) Paulo Francis, sempre ele, conta a história sensacional da pré-estréia de A Bela e Fera, de Jean Cocteau, cujo público era somente Garbo, senhora de uma sala vazia. O filme acaba, o monstro vira príncipe e a atriz sueca, já aposentada, reclama: “Quero a minha fera de volta!”. 2) Mastroianni narra seu primeiro encontro com a diva, que pediu para conhecê-lo. A primeira fase dela: “Italian shoes?”
Volto a Garbo pelo filtro de Truman Capote, escritor que dosa perfeitamente melancolia e frivolidade. Acabo de ler Os Cães Ladram, meio que para me recuperar do sofrimento físico e psicológico de Os Sertões, clássico do jornalismo (e da narrativa) negligenciado por mim até então. Entre os grandes momentos do livro – e Capote é muito mais gênio em histórias curtas do que em A Sangue Frio -, esse terno e carinhoso texto, dentro do capítulo Nova York, segmento “Cor Local”. Para Gabriela e Fernanda:


“Vi Garbo duas vezes na semana passada, uma no teatro, onde ela sentou ao meu lado, e num antiquário da Terceira Avenida. Quando menino sofri uma série de problemas, passando muito tempo de cama, dedicando a maior parte do tempo a escrever uma peça de teatro a ser estrelada pela mulher mais linda do mundo, e era assim que eu descrevia a srta. Garbo na carta que acompanhava o texto. Mas nem a peça nem a carta foram comentadas, e por muito tempo guardei um ressentimento desesperado, que nunca mais passou, até a outra noite quando, num sobressalto do coração, identifiquei a mulher sentada ao meu lado. Foi uma surpresa vê-la tão pequena, tão vividamente colorida: como Loren McIver disse, com traços assim a gente nem espera que venha cor, também.
Alguém perguntou: "Você acha que ela é inteligente?". Isso me pareceu uma pergunta ultrajante; sério, importa para alguém se ela é inteligente ou não? Sem dúvida basta que um rosto assim exista, embora a própria Garbo possa ter chegado ao ponto de lamentar a trágica responsabilidade de possuí-lo. Não tem graça nenhuma seu desejo de ficar sozinha; claro que deseja isso. Imagino que seja o único momento em que ela não se sente só: se a pessoa percorre um caminho circular, guarda sempre uma certa melancolia, mas não se lamenta em público.
Ontem, no antiquário, ela andava de um lado para outro, observando tudo atentamente, sem se interessar no fundo por nada, e por um momento maluco, pensei em falar com ela, só para ouvir sua voz, sabe; o momento passou, graças a Deus, e ela seguiu até a porta e saiu. Aproximei-me da janela e a vi andando apressada pela rua azulada, ao entardecer, com seus passos saltitantes, longos. Na esquina, ela hesitou, como se não se soubesse para que lado queria ir. As luzes da rua foram acesas, um reflexo criou subitamente na avenida uma parede branca: com o vento a fustigar seu casaco, e sozinha, Garbo, ainda a mulher mais bonita do mundo, Garbo, o símbolo, caminhou diretamente para ela.”
Tradução de Celso Nogueira.


quinta-feira, outubro 12, 2006

O americano, os europeus


Luiz Carlos Merten tem falado muito sobre a necessidade do espectador (ou leitor, ouvinte, etc) ser co-autor do filme. Fazer pontes, criar referências que talvez só sejam válidas para ele próprio, mas que estimulam o raciocínio e apuram o olhar. Desde que vi O Novo Mundo, de Terrence Malick, não consigo deixar de associá-lo com Henry James, escritor norte-americano do século XIX. Ele passou seus últimos anos na Inglaterra, e, na fase final de livros gigantescos, criou prosa muito peculiar. Escrevia grande volume de texto para acontecimentos mínimos. Passava à margem de eventos, pulava os fatos mais importantes da trama, somente para insinuar o invisível. Nesta página, Paulo Francis, provavelmente inspirado por Thomas Hardy, fala da fúria escondida em monossílabos, subentendidos e entrelinhas.


Chego ao filme de Malick, a princípio, pela narrativa. Abstraindo as diferenças entre cinema e literatura, O Novo Mundo apresenta a mesma desarticulação linear, pela montagem. Não se trata de confundir a historinha de maneira formalista, mas de conseguir provocar o máximo de sentimento com o máximo de economia, sem escrever/filmar menos. Quase tudo da última fase de James tem mais de 500 páginas; O Novo Mundo tem 135 minutos, e, se não fosse o corte do estúdio, teria quase três horas.
No filme, o romance entre a nativa Pocahontas e o britânico Capitão Smith (cenário: início da colonização inglesa nos Estados Unidos) existe praticamente sem diálogo, no idílio e no abandono. Quando há o reencontro, a comunicação acontece sem a intervenção inútil da palavra. O ponto alto desta sensação jamesiana é o relacionamento de Pocahontas com John Rolfe, o marido que a acolhe depois da volta de Smith para a Europa. Eles convivem carinhosamente com o fantasma de outro amor fracassado, em silêncio, amparados pelo carinho que sentem um pelo outro.


Pensei que a comparação ficava nisso, mas o tipo de conflito mostrado aqui, de amor, inocência e dever social no século XVII, é muito parecido com o que se vê em livros como Retrato de Uma Senhora ou A Taça de Ouro, 200 anos depois. Nestes romances, americanos ingênuos são manipulados amorosamente por ingleses inteligentes ou compatriotas escolados. A relação, claro, passa longe do maniqueísmo, porque algozes são sempre suscetíveis a paixões mortais, e vítimas tomam o controle da situação, revelando inteligência insuspeita. Mesmo fazendo mal aos outros, ninguém é ruim – e todo mundo perde, discretamente. James, cosmopolita e quase apátrida, é cínico; Malick, “americanamente”, limpa essa perfídia relativa, mas os incidentes internacionais ainda estão lá. O final é perfeito: o amor enterrado para sempre a partir de um acordo calado.
Dias de Paraíso, de 78, também reforça minha viagem. Apesar do cenário Faulkner, a trama é idêntica à de Asas da Pomba. No romance, Kate Croy e Merton Desher precisam de dinheiro para ficarem juntos. Kate aproxima o amante de uma ricaça americana em fase terminal, para que ele possa herdar sua fortuna. No filme, Bill (Richard Gere) aproveita a paixão de um fazendeiro por sua namorada Abby, e planeja um golpe arriscado. No livro e no cinema, o mesmo paradoxo: o understatement excessivo e arrebatador.
Vejam, leiam. Se não concordarem, ao menos terão visto/lido coisas inesquecíveis.

domingo, outubro 08, 2006

Flop


Depois de muita expectativa, Dália Negra chega aos cinemas como um dos piores filmes de Brian De Palma. Problema não é exatamente roteiro confuso, mas a incrível preguiça do diretor. Há um momento muito bom: a descoberta do corpo mutilado da starlet mostrada ao mesmo tempo em que acontece violento tiroteio. De resto, direção desconfortavelmente genérica. Nada dos travellings delirantes que o deixaram famoso e tornaram seus filmes verdadeiras declarações de amor ao movimento e a fluidez das imagens. A câmera, sempre insinuante em Dublê de Corpo e O Pagamento Final (só pra usar dois exemplos aleatórios), parece não existir.

De Palma é grande cinéfilo, tanto que transformou sua filmografia em reorganização das obras que o marcaram, além de retratos do processod e criação da imagem. Dália Negra é oportunidade perdida. Essa revisão do film noir põe a perder a alma do estilo, em prol de perversão mal administrada ao ponto em que conflitos beiram sempre o ridículo, o posudo. Prefiro infinitamente O Homem Que Não Estava Lá, dos irmãos Coen, um show de forma que não perdeu o ponto de vista seco e cruel da vida. Ainda assim, há Hilary Swank, luminosa.

sexta-feira, outubro 06, 2006

A imagem da imagem da imagem da imagem

(texto provavelmente cabeção e pessoal demais pra justificar minha admiração por Vestida Para Matar. não tenho ainda as palavras para melhor definir as idéias. então, caro leitor, considere essas linhas como um ensaio de um texto melhor, que escreverei daqui a dez anos)
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Brian de Palma não filma, edita. Do mesmo modo que um editor de televisão buscando imagens para um programa jornalístico, ele trabalha sempre com material já visto, retrabalhando o arquivo. Vestida Para Matar, de 1980, é o maior exemplo desse comportamento. Há uma mulher de meia-idade esfaqueada (Angie Dickinson) no elevador do prédio de seu amante. Keith Gordon, o filho nerd, investiga o crime com a ajuda da única testemunha (Karen Allen) e do psicólogo da morta. Puro pretexto. Desde a primeira tomada, propondo perigo no chuveiro, De Palma guia o espectador através de cenas inteiras de Hitchcock.
Um Corpo Que Cai, A Sombra de Uma Dúvida e Janela Indiscreta passam pelos olhos, além de Psicose o tempo todo, em estrutura de roteiro, imagens, música. O ritmo sinfônico vem da obra-prima Marnie, com travellings atrás de mulheres criminosas em contra-plongée. Não se trata mais de citação: Vestida Para Matar existe no território da reciclagem precisa de peças avulsas. Quem não tem o repertório, verá um policial meio absurdo e muito tenso, mas não terá acesso ao essencial do diretor.


De Palma não oferece mensagens ou interpretações psicanalíticas, como o mestre Hitchcock. O americano fica com a preocupação com a forma e o tesão por objetos ópticos e de gravação. Em Um Tiro na Noite, ele usa Blow-Up, o filme-forma de Antonioni, para falar de si mesmo: técnico de som em busca do grito perfeito. Recria a cena de O Passageiro - Profissão: Repórter em que uma câmera gira sem parar num quarto, e confunde três tempos de ação através do áudio.
Vestida Para Matar é só imagem. Parte da contribuição para o desvendamento do crime vem das máquinas fotográficas programadas do garoto geek. O testemunho do crime é filtrado por um espelho. Daí a diferença entre criador e criatura. Hitchcock, artificial ao extremo, é obcecado pela instrumento óptico orgânico, o olho. Veja a primeira tomada de Vertigo, projeção do filme dentro do globo ocular. James Stewart não vai acreditar nos sentidos – vê o que é impossível, sobrenatural.


De Palma, por sua vez, situa suas obras dentro da câmera, pondo em dúvida o velho clichê de que um artista usa a vida real como matéria-prima de expressão. De Dublê de Corpo a Femme Fatale, o importante é mediado por espelhos, lunetas, radares e redes de circuito interno. Imagem da imagem da imagem da imagem. Roteiro, atores, diálogos, verossimilhança? De Palma ri na cara disso tudo, colocando helicópteros em túneis e coisas do tipo.
Fica a pergunta: por que tanto formalismo não é esterilizante? Há a resposta fácil. Domínio do ofício, que lhe permite convencer com filmes de gênero de grande apelo. Por outro lado, Deus me perdoe por citar Marshall McLuhan em público, mas os sentidos colonizados tecnologicamente já são pão dormido teórico – o que reafirma o clichê citado no parágrafo anterior. De Palma não faz nada extra-terreno. Um Tiro na Noite, Dublê de Corpo e Vestida para Matar são obras onde esse pensamento é expresso com maior eloqüência – em especial, o último, pela carga de paixão. Um filme para o mestre, um filme para o cinema.


Depois dessa trilogia, vieram os anos 80 e 90, onde “fazer referências” virou praga tão grande quanto o All Star ou Backstreet Boys. Filmes sem graça tentam distrair o público parando tudo para “citar”. Há honrosas exceções, mas demorou até 2002 pra termos um longa tão interessado em forma(tividade?). Moulin Rouge é ainda mais ambicioso que Vestida Para Matar – além do cinema, arrebanha música, teatro, ópera e literatura. Mas isso é outra história.

sábado, setembro 30, 2006

Comida, diversão e arte

Em comemoração aos 50 anos da Escola de Nutrição da UFBA, estamos apresentando a mostra "O Cinema, a Comida e o Comer" com a exibição de filmes cuja temática central gira em torno da comida e do comer, seguidos de debates. O evento ocorrerá sempre as terças às 18 horas. O evento tem como apoio a Pró-Reitoria de Extensão e a Casa do Cinema.

Na programação de outubro serão exibidos os seguintes filmes:
03.10 A festa de Babette (Babettes Gaestebud, Gabriel Axel, 1987, Dinamarca), A comida enquanto celebração da vida. Debatedor: Saymon Nascimento (FACOM);
10.10 A Comilança (La Grand Bouffe, Marco Ferreri, 1973, França/Itália), A comida enquanto prazer e enquanto projeto suicida. Debatedor: Professor André Setaro (FACOM);
17.10 Tomates Verdes Fritos (Fried Green Tomatoes, Jon Avnet, 1991, EUA); A comida como fator integrativo nas desavenças humanas.Debatedor: Professor Fernando Conceição (FACOM);
24.10 Super Size Me, A Dieta do Palhaço (Super Size Me, Morgan Spurlock, 2004, EUA); A comida na sociedade de consumo como combustível mortal. Debatedor: Professor Fernando Conceição (FACOM);
31.10 O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (The Cook, the Thief, his Wife & her Lover, Peter Greenway, 1989, França/Inglaterra/Holanda). A comida como ingrediente do sexo, arte e humor negro. Debatedor: Professor André França (FTC) .

Local: Auditório de Nutrição

terça-feira, setembro 26, 2006

Faster

>>> O melhor filme que vi em agosto foi Weekend à Francesa, de Godard. Muito me irritam as freqüentes associações que fazem entre ele e um cinema debilóide, pseudo intelectual. Tudo bem que ele perdeu a cabeça em algum lugar dos anos 70, mas nesta grande fase, ninguém poderia batê-lo. Weekend é Godard endiabrado, anfetaminado, extremo - o equivalente a Desconstruindo Harry na carreira de Woody Allen. O autor em modo hard. Uma hora e quarenta minutos de alucinação nonstop, road movie do absurdo. O cômico é que o hard-Godard parece com alguns Buñuel, Via Láctea, talvez. Na comparação direta, Weekend é bem melhor.
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>>> Setembro ainda não acabou, mas posso dizer que gostei muito de 3 filmes. Todas as Mulheres do Mundo e sua levada nouvelle vague, homem ama as mulheres, até encontrar todas em uma só: Maria Alice, ou Leila Diniz. A Conversação, filme do futuro que Coppola fez em 74, entre os dois primeiros Godfather, mas em versão Polanski. Paranóia, sangue e frio na espinha do mesmo tipo encontrado em O Bebê de Rosemary ou O Inquilino, sem o sobrenatural. As Aventuras de Robin Hood é o máximo do cinema como diversão de feira. Capa e espada com Errol Flynn, Olivia de Havilland e Claude Rains, em produção classe AAA. Nada pode ser mais divertido.
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>>> Dos filmes lançados esse ano, observo duas idéias recorrentes. A melancolia pós-faroeste resgatada lindamente em Três Enterros e Brokeback Mountain, mas tratada com desleixo por Win Wenders em Estrela Solitária, grande decepção. Miami Vice é excessivo ao extremo, mas Michael Mann filma com tanta urgência e brutalidade que, ao invés de estranhar Colin Farrel, Jamie Foxx e Gong Li em Cidade do Leste, penso que o crime está mesmo muito sofisticado. Junto com Munique e O Jardineiro Fiel, Miami Vice mostra o mundo em perigo, enredado nas teias do terrorismo e do crime organizado. Globalização?
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>>> Pondé, essa é a deusa contemporânea. Emmanuelle Beart, de Missão Impossível e Oito Mulheres. Boca rasgada, insinuante; corpo incomparável. Acho que bate Monica Bellucci.
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sábado, setembro 16, 2006

New York, New York


Na página de Opinião do A Tarde de ontem, Vitor Pamplona escreveu sobre tempo e decadência de artistas, a partir do exemplo de Francis Ford Coppola. Fiquei pensando no quanto isso também vale para Martin Scorsese, contemporâneo. Vivendo no Limite, Gangues de Nova York e O Aviador são bons, maduros, mas encolhem ao ponto da insignificância em relação a New York, New York, normalmente tido como “filme menor”. Nesse caso, trata-se de uma injustiça, pois trata-se de uma obra-prima, tão potente como Taxi Driver ou Os Bons Companheiros. O diretor, agora em fase DiCaprio, não parece mais ser capaz de fazer algo no mesmo nível.
No dia da capitulação do Japão, na Segunda Guerra, Jimmy Doyle (Robert De Niro) e Francine Evans (Liza Minnelli) se conhecem em um clube de jazz: festa, confete, farra. Ele é saxofonista, ela, cantora. Ambos estiveram afastados da música, lutando na guerra, como soldado e enfermeira. A primeira hora é isso, a apresentação desse namoro, sempre pontuada por standards de Gershwin e cia, além de canções inéditas de John Kander e Fred Ebb (Chicago, Cabaret). Apesar do rigor de Scorsese, o filme não parece que vai segurar seus 163 minutos.
O fôlego vai aumentando à proporção que o caso se torna mais sério e, conseqüentemente, conflituoso. Em Scorsese, os personagens são tão intensos que não cabem no corpo, estão sempre explodindo, chocando-se uns com os outros. De Niro faz com brilhantismo esse tipo de coisa. Jimmy Doyle não deixa de ser uma versão saudável (embora perigosa) de Jake de LaMotta, ou Travis Bickle. Sua presença garante tensão constante, incômodo.


O choque entre Jimmy e Francine é potencializado pela convivência full-time, casamento e trabalho, na mesma banda. Quando Francine começa a se destacar em críticas, atraindo produtores, a tensão fica insuportável. Filme entra na rota de Nasce Uma Estrela, de George Cukor, com Judy Garland, mãe de Liza. A consagração da mulher oprime o ego do marido, que perde as estribeiras. A semelhança física e profissional entre mãe e filha só reforça a comparação.
Melodrama parece material inadequado para Scorsese, mas apesar da imagem estranhamente edulcorada, temos um legítimo filme de autor. Há a dureza habitual do diretor nesse processo de separação, em altas madrugadas e depois de algumas doses de whisky. Filme segue em crescendo de agonia até o nascimento do primeiro filho, ponto para uma virada inesperada.
Antes da violência emocional alcançar o ponto de um Touro Indomável, ocorre o divórcio. Muito tempo depois, Francine vira uma estrela, e entra em cena o grande momento do filme, mais uma prova do imenso repertório de Scorsese como cineasta e crítico. A Época da Inocência e O Aviador, por exemplo, foram traduções cinematográficas rigorosas de coisas que ele admira como espectador – o melodrama operístico de Visconti e a grande biopic clássica hollywoodiana do cinema clássico, respectivamente.


Em New York, New York, ele refaz apaixonadamente a idéia do musical biográfico da personagem Vicky Lester em Nasce Uma Estrela. São vinte minutos que compilam os números musicais de um filme estrelado por Francine, Happy Endings, com praticamente a mesma trama de A Star is Born, e a mesma moral dele e do New York: incompatibilidade de sucesso e amor quando os egos são muito fortes. Na trama de Happy Endings, uma lanterninha é alçada ao sucesso por um produtor da Broadway que a abandona quando ela está no topo – ele não quer se tornar o sr. Peggy Smith.
Scorsese voa no tempo para filmar coreografias em cenários estilizados, figurinos excessivos, fotografia brilhante, cheia de vermelho, do jeito que se fazia na MGM. Na verdade, não parece um filme de 77 sobre uma história passada no final dos anos 40. Não; estamos diante de algo filmado no próprio período da trama. Happy Endings descortina o que era insinuação e mostra New York, New York já era assim desde a primeira cena, coerência impecável de visual, roteiro, interpretações. Scorsese consegue fazer o que quiser por ter domínio técnico e histórico, de sua arte.
Happy Endings também deve ser o topo da carreira de Minnelli, e falamos da mulher que foi Sally Bowles em Cabaret... O que faz aqui é reviver a própria mãe, à altura. Canta, dança e interpreta em altíssimo nível, provocando comoção e tristeza ao mesmo tempo. Comoção porque performances completas como essa são muito raras. Tristeza porque sabemos que, no cinema, este foi seu último momento expressivo. A exemplo de Coppola e Scorsese, entrou em decadência. Ainda assim, parece ser a menos culpada. Nasceu 20 anos mais tarde do que deveria, numa época em que o cinema não mais a comportava.


Não bastasse esse ponto alto de música, interpretação e cinema que é o Happy Endings, Scorsese ainda nos entrega dois brindes. Minnelli canta “New York, New York” (hoje famosa na voz de Sinatra), a canção que representa o velho amor perdido no tempo. No filme, Jimmy fez a partitura e Francine, a letra. Logo depois, a cena final incrivelmente melancólica, talvez uma expressão da inutilidade de tentar renascer o amor (ou o cinema), quando seu tempo já passou.
PS.: Fui informado pelo IMDB que a versão original do filme tinha 4 horas, cortadas para 163 minutos - o que provocou a exclusão completa de Happy Endings. É claro que o filme é muito mais do que isso, mas esses 20 minutos não somente são perfeitos, mas colocam o todo sob outra dimensão. Ainda bem que existe o DVD, enfim.

Roque

XEQUE-MATE
Prioridade de Xeque-Mate (Lucky Number Slevin), de Paul McGuigan, é mais uma vez fazer o elogio da cultura pop, e assim, quem sabe, se tornar um cult para quem compartilha as referências apresentadas em seus 109 minutos. Cenários e roupas estilizados, reviravoltas no roteiro, humor negro, diálogos pretensamente irônicos e citações a discos e filmes: é o tipo de coisa produzida por gente jovem, com grande capacidade de absorver som e imagem, ressaltando na sua expressão (filme, quadrinhos, tevê) esse repertório adquirido.
Guy Ritchie (Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes), é bom exemplo de um diretor capaz de fazer isso de maneira competente. Para a maioria dos outros diretores que se aventuram em empreitadas semelhantes, isso nem de longe garante que o produto final será bom. A ganância pop costuma jogar a habilidade narrativa para terceiro plano, como é o caso dessa estréia.
Continua... (é o segundo texto)

domingo, setembro 10, 2006

Truffaut e as mulheres

Em O Homem que Amava as Mulheres, François Truffaut criou um personagem obcecado pelo sexo feminino para falar de si mesmo. Biógrafos contam histórias maravilhosas sobre isso: ele sempre se apaixonava pela estrela do filme que estava dirigindo, e talvez por isso, elas eram retratatas como deusas absolutas. Apesar disso, Roger Ebert nos lembra, todos os papéis femininos que ele criava tinham graves debilidades psicológicas, herança hitchcockiana. Tendo visto já boa parte de sua filmografia, e como ensaio para meu projeto de lista "As Mulheres Mais Espetaculares do Cinema", fiz uma compilação com minhas preferidas nos filmes do diretor.
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10 - Delphine Seyrig como Fabienne Tabard, em Beijos Proibidos
Antoine Doinel - personagem alter-ego de Truffaut em 5 filmes - já está casado e trabalha como detetive particular. Seu caso: o dono de uma loja de sapatos quer saber porque os funcionários lhe odeiam. Doinel passa a trabalhar disfarçado na loja, mas suas investigações são atrapalhadas pela presença de Fabienne Tabard, mulher do comerciante. Mesmo sem a beleza impressionante do tempo do Marienbad, charme não falta a Seyrig.

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9 - Bernadette Lafont como Camille Bliss, em Uma Jovem Tão Bela Como Eu
Camille está presa por assassinato, e é entrevistada por um estudante de sociologia preparando um texto para pós-graduação. O filme é uma comédia, e se sustenta nas travessuras sexuais de Camille, a garota meio burra, mas que sabe usar seus dotes físicos. Esses dotes são amplamente explorados por Truffaut. Se o filme fosse bom, o papel cairia bem numa Marilyn Monroe. Lafont não chega a tanto, mas faz sua parte.

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8 - Catherine Deneuve como Marion Steiner, O Último Metrô
Na Segunda Guerra Mundial, Deneuve é um atriz envolvida com um colega de peça, enquanto tenta esconder o marido judeu dos nazistas que ocupam a França. Filme morno, cuja única graça é a intensidade de Deneuve como mulher infiel. Poucas vezes esteve tão elegante, discreta. Sua agonia casa muito bem com a ambientação fria, nebulosa. Perfeita pra uma versão de Fim de Caso.

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7 - Jacqueline Bisset como Julie, em A Noite Americana
Bisset é belíssima, mas não deixa de ser a protagonista mais insípida de Truffaut. A deusa dele nesse filme é o próprio cinema; os personagens, acessórios. Valentina Cortese e Nathalia Baye se destacam, mas nenhuma delas é a musa, a protagonista do filme dentro do filme, a "estrela americana". Mesmo que o papel não ajude, Bisset conquista seu espaço só por aparecer na tela.

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6 - Julie Christie como Clarisse e Linda, em Fahrenheit 451
Como Christie se tornou um símbolo sexual tão forte? Vítor Pamplona explica: "mais importante não é ser bonita - é comportar-se como se fosse". Christie era bela sim senhor, mas foi sua "presença" que garantiu supremacia sobre mulheres muito mais bonitas. Nos olhares, gestos, voz, a moça magrela ficava deslumbrante. Não à toa foi a Lara de Dr. Jivago, e Mrs. Miller em Quando os Homens são Homens. Fahrenheit 451 se passa no futuro (onde os livros são proibidos), Christie faz jornada dupla como a esposa alienada e a amante esperta de um policial que descobre a literatura.

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5 - Françoise Dorleac como Nicole, em Um Só Pecado
Irmã de Catherine Deneuve falecida precocemente, Dorleac é uma aeromoça que aparece para iluminar a vida de um professor de literatura em viagem a Lisboa. Iluminar é a palavra certa. Dorleac domina o P&B como uma diva do cinema mudo, mas sem as teatralidades: frágil, adulta, apaixonante. Vale dizer que pouca coisa de Truffaut é melhor do que esse filme delicado e sutil sobre paixão, adultério e vingança. Nada a ver com novela mexicana.

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4- Isabelle Adjani como Adele Hugo, em A História de Adele H.
A filha de Victor Hugo viaja para os Estados Unidos atrás de um amor não-correspondido, sofre com as seguidas rejeições, faz várias loucuras, até perder o controle das faculdades mentais. O papel é dificílimo e o filme, pesado. Truffaut precisava de uma atriz intensa. Viu Adjani num teatro e, diz a lenda, escreveu-lhe uma apaixonada carta, cujo trecho mais célebre é: "Você merece ser filmada todos os dias, inclusive aos domingos".

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3 - Claude Jade como Christine Doinel, em Domicílio Conjugal
A maravilhosa esposa de Antoine Doinel é um encanto sem fim, desde Beijos Proibidos. Ela já começa Domicílio Conjugal feliz da vida,passando em várias lojas, somente para corrigir os vendedores: "Mademoiselle, não. Madame!" Somente o comportamento meio insano de Doinel para justificar suas infidelidades. Quem tem uma mulher dessa em casa não precisa de mais nada na vida. No filme, ele corrige o erro a tempo, e ruma para um dos finais mais felizes já vistos.

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2 - Jeanne Moreau como Catherine, em Jules e Jim
O filme deveria se chamar Catherine: Jules e Jim apenas gravitam em torno dessa mulher louca, intensa, arrebatadora. Mulher complexa, cheia de nuances, nada fácil: impossível de ser contida, sexual e emocionalmente. Moreau não deixa pedra sobre pedra do espectador - seria essa a melhor interpretação da história? A boca amarga, o olhar hipnótico, enquanto canta "Le Tourbillon de la Vie". Muito boa a história de Milton Nascimento com Jules e Jim. Viu quatro vezes seguidas, no mesmo dia, e compôs por dias sem parar, sob efeito da poesia da coisa toda.

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1 - Fanny Ardant como Mathilde Bauchard, A Mulher do Lado
Em A Mulher do Lado o adultério vira crime - Ardant é a mulher ao mesmo tempo frágil e perigosa; pode causar danos a si mesma e a quem ama, mas não pode evitar, arrebatada de amor. Nunca pudica, ela é o exemplo perfeito do amor espalhado por todo o corpo - não somente em sua vontade de expressá-lo fisicamente pelo sexo, mas também como uma doença. Já viram isso antes? Ela desmaia de amor, tamanha a tensão. Seus estados ficam alterados, irradiando paixão nos cabelos, nas pernas, nos olhos insinuantes.
O engraçado é que ela hoje é tão bonita como há 30 anos. Alguém viu 8 Mulheres?

Obs.: Fora da disputa: De Repente, Num Domingo; A Sereia do Mississipi, O Garoto Selvagem, As Duas Inglesas e o Amor, O Quarto Verde; O Amor em Fuga.

Mais fotos de Ardant:





quarta-feira, agosto 30, 2006

Você, de quem nunca estou distante

(Antes de começar, um aviso: os comentários estão liberados para não-usuários do Blogger. Valeu, Tiago)
Você, de quem nunca estou distante

Não consigo lembrar de como era antes de conhecer você. Será que sempre fui como sou hoje? Lembro-me de estar perdido. Tenho certeza disso. Vagando. Indo de uma mulher para outra. Ficando, às vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que a perplexidade delas era maior que a minha. Pelo menos, era o que parecia. Mas não me lembro de me sentir tão nervoso antes, tão desgastado. Eu as observava de uma certa distância, tomando banho de esponja em suas pias, raspando bolas negras com lâminas de barbear, movendo-se como rainhas em câmara lenta. Então, elas se tranformavam nas garotas de antigamente, com risadinhas nervosas e dobrando as pernas longas sob o corpo. O modo como andavam com passos macios com os saltos altos e depois sacudiam o cabelo como os cavalos agitam a cauda.
Mas de você, não guardo nenhuma distância. A cada movimento seu, sinto como se viajasse em sua pele. cada olhar seu para fora da janela é como se estivesse completamente sozinha e sonhando com outros tempos. Não adianta balançar meus braços, acenando. Agora está tudo ao contrário.

Shepard

Este é um dos contos de Sam Shepard em Cruzando o Paraíso, livro mencionado no antepenúltimo post. Não passa perto dos melhores, mas é curto suficiente para ser digitado. Além disso, dá pra ver nele algumas coisas de que gosto muito em Shepard. Para começar, esse ponto de vista masculino, meio perturbado por uma ou duas histórias de amor que já teve na vida - inesquecíveis, mas perdidas em algum lugar. Talvez algo truffautiano? Tem outro conto com o mesmo tipo de romantismo, muito bom, chamado Pele Fina; imagino que traduzido de Soft Skin, o mesmo título americano do atordoante Um Só Pecado, do diretor francês.
Aqui, ele parece no modo Roberto Carlos de escrita: a mesma coisa do amor perdido, de maneira clara, simples, talvez óbvia, mas muito efetiva - e RC é bem mais impactante. Ainda assim, esse cenário banheira e banho de esponja não deixa de me lembrar que Shepard escreveu Crônicas de Motel, o livro no qual Win Wenders se baseou para fazer Paris, Texas. O filme é a mediana perfeita no tempo entre O Indomado (1963) e Brokeback Mountain (2005) - histórias sobre tempo perdido no hostil Mid-West em ponto de vista completamente masculino e solitário, pós-faroeste. É esse o clima dos contos de Cruzando o Paraíso, discretamente lírico, cheio de histórias sobre pais e filhos, homens abandonados, mulheres que querem viver, quartos de hotel de beira de estrada.

Harry Dean Stanton em Paris, Texas


Agora um pouco de orelha: Sam Shepard nasceu em 1943, em Fort Sheridan, Illinois; dramaturgo já escreveu mais de 45 peças, tendo vencido o prêmio Pulitzer em 1979 por Buried Child. Foi indicado ao Oscar de melhor ator codjuvante por Os Eleitos, adaptação sem falhas da obra-prima de Tom Wolfe. Vive hoje com Jessica Lange, com quem tem dois filhos.

Moral da história: preciso ver urgentemente Estrela Solitária, de Win Wenders, atualmente em cartaz em alguma Sala de Arte. Shepard escreve e atua, no papel de um astro de faroeste que abandona um set de filmagem para se encontrar com um filho que não conhecia.

domingo, agosto 27, 2006

Hong Kong, Meu Amor

Depois de passagem apressada pelos cinemas baianos no início do ano, 2046 - Os Segredos do Amor, de Wong Kar-wai, volta a cartaz, na Sala Walter da Silveira. Para quem não conhece o diretor, a carta de apresentação é um romantismo sem fim, que foge de modelos melodramáticos tradicionais para apostar em uma relação com os sentidos do espectador. Mais uma vez nos anos 60, Kar-wai nos apresenta as várias histórias de amor de Chow Mo-Wan, jornalista estilo café, cigarro e ventilador de teto que busca em todas as mulheres a sua paixão não resolvida por Su Li Zhen - paixão mostrada em Amor à Flor da Pele, de 2000. Da complicada tapeçaria dessas histórias de amor, ficam o cheiro, o som, o clima... Nesses dois filmes - e no seu episódio para Eros - o diretor está praticamente fundando um movimento artístico de um homem só, o sessentismo.
Essa tendência extrapola trilha e decoração de interiores e passa para o campo referencial - revisão de diretores revelados mais ou menos nessa época. Amor à Flor da Pele tinha um forte teor Truffaut, em sua metade Hitchcock, filmando o amor como a tensão e rigor de um crime: A Mulher do Lado é uma referência, também por causa da relação adúltera entre vizinhos. 2046 vai em direção a Alain Resnais. Em seus filmes mais famosos, Hiroshima Mon Amour e O Ano Passado em Marienbad, Resnais conta histórias de amor com tempo e espaços estilhaçados, histórias narradas segundo a lógica da memória. 2046, na mesma escola, perde a noção temporal (viajando pra passado, futuro e futuro distante) e geográfica (Cingapura, Tailândia, quartos de hotel), desafiando qualquer tentativa de arrumação linear. O motor do filme é a recordação.


O interessante disso tudo é que o vocabulário cinematográfico sofisticado de Kar-Wai não o restringe a fazer um cinema de citações, como alguns filmes de Brian de Palma. Cada imagem é completamente autoral, ficando a semelhança com outros autores em nível temático e estrutural. Por autoral, nesse caso, entenda-se o detalhismo fotográfico, de cores que parecem inventadas em cenários e figurinos ultra-texturizados, recursos de edição que quase sempre atrasam o olhar, para que possamos ver com mais atenção cada uma das deusas orientais que passam pela vida do protagonista. Cabe destacar o apuro visual da concepção das histórias futuristas de Chow Mo-Wan, capaz de gerar uma imagem que fica para sempre: a andróide que aprendeu a amar, somente para fracassar, olhando pela janela, triste. Acusações de super-estetização devem ser descartadas, pois todo a minúcia na composição de cada imagem converge pra conteúdo humano do filme – não há excesso, distração.
Por toda essa fome de imagem, a Sala Walter não é o melhor lugar pra ver o filme, embora seja muito melhor do que uma tevê, por exemplo. Numa sala com projeção e som impecáveis, o filme não acontece só na tela; dá pra sentí-lo nas mãos, pés, ao redor da cabeça. De Amor à Flor da Pele para 2046, Kar-wai passou a adotar o formato Cinemascope, em que a largura é 2,35 maior que a altura - cinema totalmente retangular. A imagem crescem para os lados e pra frente; meio que abraça o espectador. 2046 tem o poder espacial de uma instalação. É pra esse tipo de filme que serve o adjetivo "sensorial", tão banalizado.
Na verdade, a eloqüência com que Kar-Wai entende a memória através desse tipo de detalhe físico tem tanto poder que é capaz de alterar a perspectiva de um espectador mais propenso à experiência do filme. Um olhar trocado por um casal amigo durante um almoço cotidiano; a tristeza de um amigo em fim de caso; a mulher com a cabeça encostada no vidro do ônibus, ao seu lado. Por algum tempo (dias? meses?) dá pra viver num mundo 2046.
Em tempo: O título é uma referência ao quarto que abrigou o romance secreto de Amor à Flor da Pele, projetado por Chow Mo-Wan em suas histórias sci-fi como o ano onde elas acontecem.

domingo, agosto 20, 2006

Fassbinder, Malick


Sem tempo para escrever, vou mencionar dois filmes que vi recentemente e me deixaram de olhos bem abertos:

Lili Marlene, talvez meu filme preferido de Rainer Werner Fassbinder. Projetão, direção de arte, elenco internacional - o que normalmente diluiria um cineasta radical, é para Fassbinder uma oportunidade de ser mais aplicado ainda na sua paixão pelos melodramas de Douglas Sirk. O corte do filme é Hollywood, mas sem perder uma vírgula da crítica e do ceticismo fassbinderiano (e sirkiano). Agora, como o filme foi rodado em inglês e posteriormente dublado em alemão, o DVD da Versátil deveria ter o áudio original.

Dias de Paraíso tem todas as qualidades que dão carga para detratores desqualificarem Terrence Malick como cineasta hippie: lentidão, marola, paz. Eu gosto, e desse filme especialmente - uma história de amor em algum lugar entre O Destino Bate à Sua Porta e Os Desajustados. A trama é a mesma de As Asas da Pomba. Casal planeja aproximação com uma pessoa rica e com pouco tempo de vida, que deve ser seduzida e deixar sua fortuna para usufruto dos golpistas. O problema, tanto aqui como no romance de Henry James, é que surge uma paixão sem futuro entre escroque e vítima. De qualquer jeito, qualquer sinopse apressada não dá conta de anunciar a delicadeza letal da coisa toda. Sam Shepard, como o fazendeiro moribundo é perfeito. Estou lendo um livro de contos dele, Cruzando o Paraíso, cujo tom é o mesmo desse filme, bem bom.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Dia dos Pais


Um filme para celebrar o dia dos pais, e não é O Poderoso Chefão:

Rio Grande é o último filme da trilogia de John Ford sobre a cavalaria americana; os dois primeiros são Sangue de Heróis (e não Herói, como quer a Warner) e Legião Invencível. John Wayne é o Tenente-Coronel Kirby Yorke, encarregado de treinar recrutas. Um dos novatos é seu filho, que ele não vê desde que se separou da mulher Kathleen, a genial Maureen O'Hara. Quando a base enfrenta o perigo Apache, ela aparece para resgatar o filho, que se alistou contra sua vontade. O garoto decide ficar, mesmo sob ataque, para aprender com o pai o que é ser um homem de verdade. Numa cena discreta e linda, o Ten Cel Yorke decide não interferir numa briga em que o filho se mete. Instinto vs linha de conduta + orgulho: Wayne é brilhante.

Na verdade, não sei porque cito esse filme, porque a relação homem-mulher é bem mais importante no todo: temos dois adultos que se amam, mas foram afastados pela guerra - tema sempre de alta voltagem para cineastas hábeis. A relação ausente pai-filho é um efeito daninho da guerra para o casal. Ainda assim, a vontade de recuperar o tempo perdido manifestada em tons austeros e discretos, é tão potente que eu fico com essa coisa na cabeça, o tempo em que os homens não expunham suas emoções e mesmo assim eram capazes de amar e respeitar. Grande filme.

sábado, agosto 12, 2006

Reset

EDITADO: Vi o filme, dez.

Vejam a notícia abaixo. Era bom demais para ser verdade. Filmes que tenho esperado há muito tempo, passando no Aeroclube, a dez minutos de caminhada de onde moro... Pois é, acabei de chegar em casa, porque fui ver Caché, de Michael Haneke, e a cópia "não chegou". Sem nenhum anúncio na porta, nenhum cartaz, nada. Eu pego a fila, ansioso pelo filme, e a bilheteira simplesmente me informa que "a cópia não chegou". Eu devia ganhar um ingresso pra ver qualquer outro filme, pelo transtorno. Enfim, muito frustrante.

09/08/06
Cinema de Arte ganha sessão na programação do UCI Aeroclube
do A Tarde On Line
A partir desta sexta, 11, o cinema UCI do Aeroclube passa a integrar o circuito de exibição "Cinema de Arte". Este projeto, que já está em vigor em Maceió, Fortaleza e Recife, trará na sua estréia o drama "Cachê", de Michael Heneke, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes 2005.O "Cinema de Arte" foi fundado em 1963 pelo cineclubista cearense Darcy Costa. Em sua programação estão previstas as exibições dos filmes "O Homem Urso", de Werner Herzog; "A Criança", dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2005; "Factótum – Sem Destino", de Bent Hamer, adaptação do romance de Charles Bukowski; "Pais, Filhos & etc", de Michel Boujenah; "Neste Mundo", de Michael Winterbottom, ganhador do Urso de Ouro do Festival de Berlim-2003 e do Bafta de Melhor filme estrangeiro; e a Mostra Lucas Belvaux, composta pelos filmes "Acordo Quebrado", "Em Fuga" e "Um Casal Admirável".
A programação do Cinema de Arte acontece na sextas, às 21h; sábados, às 19h30 e na Faixa Nobre de segunda a quinta-feira, às 19h30.

quarta-feira, agosto 09, 2006

A Mulher do Lado


Já faz algum tempo que quero publicar uma lista das mulheres mais sensacionais do cinema, mas tenho me detido por nunca ter visto Assassinos, de Robert Siodmak. Paulo Francis tem uma história ótima com esse filme, que criou o mito Ava Gardner. Já vi outras coisas com ela, mas, por enquanto, mantenho a lista em suspenso.

Escrevo hoje por causa de uma observação em relação às mulheres que costumo lembrar nessa lista: algumas ficaram marcadas por um tipo de papel, o da educadora sexual. Algo entre quarenta anos, experiente, exercendo um misto de autoridade e atração sobre garotos incautos - a Jocasta sem impedimentos, diriam os psicanalistas.

Esse perfil costuma ser bem popular com os cinéfilOs, porque geralmente aparece em flashbacks melancólicos e romãnticos, ao som de uma música evocativa. Não se trata só de educação sexual, mas de educação sentimental também, rito de passagem. Minhas preferidas, com a ressalva de que não vi Malèna, de Giuseppe Tornatore. A exuberante Monica Bellucci faz o papel título, a Segunda Guerra de fundo, música de Ennio Morricone - deve ser um clássico do gênero. Minhas duas preferidas, afinal:
Jennifer O'Neill, em Verão de 42

O'Neill é Dorothy, uma dona de casa esperando por notícias do front de seu marido soldado na ilha de Nantucket, onde um grupo de garotos passa férias e luta pela primeira experiência sexual. Herman, o escolhido, sempre te ajuda a bater pregos, carregar compras, e fazer outros serviços domésticos - até que chega o ponto em que a próxima tarefa é saciar a carência emocional de Dorothy.


Cínicos podem identificar na personagem uma variação do perfil passivo-agressivo construído por Woody Allen para Mia Farrow em Maridos e Esposas - a mulher que nunca se manifesta, mas sempre obtém o que quer, fazendo todos acreditarem que ela nunca quis nada. Acho que não é o caso.
Dorothy é muito mais que um objeto sexual, porque sua sensualidade vem principalmente do fato de que ela é ao mesmo tempo cativante e frágil. Muito mais que a perda da virgindade - e a cena de sexo aqui é linda, de uma delicadeza sem limites - o que o filme mostra é o despertar do primeiro amor, sem perspectivas, mas arrebatador. O sexo vem como conseqüência.
O material é perfeito pra Robert Mulligan, de O Sol é Para Todos, outro eloqüente retrato de pessoas lembrando experiências marcantes em sua formação pessoal - e outra história real.
Obs.: a) a música embriagante é de Michel Legrand. b) na cena do cinema, o filme em cartaz é A Estranha Passageira, outro conto de educação sentimental.

Anne Bancroft, em A Primeira Noite de um Homem

Como diz meu colega Flávio Costa, "Mrs. Robinson é quintessência da mulheres balzaquianas no cinema". Ela administra durante 35 minutos uma verdadeira tortura em Benjamin Braddock (Dustin Hoffmann), filho adolescente de uma família amiga. Não que Benjamin fosse gay, ou tivesse horror a sexo. O problema é que ela era casada; mas, uma vez versada e escolada na vida, age com o maior sangue frio na sua sedução, o que o pobre garoto mal pode suportar. Muita tensão.


Não bastasse a pressão de ter que tomar várias decisões que definirão a sua vida, Benjamin ainda tem que inaugurar sua vida sexual com extremo jogo de cintura para não revelar sua ligação clandestina - enquanto não está chocado pela descontrução da imagem da matrona de família que Mrs. Robinson deveria ser. Benjamin é praticamente convocado a satisfazer os desejos da senhora, é mais uma frente de pressão. Somente quando conhece a filha de Mrs. Robinson, consegue se realizar de uma maneira, digamos, livre. Aí é uma pena que, como escreveu Kléber Mendonça Filho, a pistoleira agressiva e implacável pareça se acomodar.
Obs.: a) Bancroft tinha 36 anos, e Dustin Hoffman 30 quando fizeram o filme. b) outra boa definição de Mrs. Robinson é feita por Miguel Falabella: "Ela é o próprio Estados Unidos, imperialista; quer por quer, e vai lá, come o garoto". c) Doris Day recusou o papel. Somente Ruy Castro acha que a loura seria uma escolha mais acertada. d) mais uma vez a música é fundamental. "Mrs. Robinson", de Simon & Garfunkel, é uma das melhores canções da história, e provavelmnte a melhor já escrita para um personagem de cinema.
As outras:

Separando essas duas, diametralmente opostas em comportamente, mas igualmente importantes na construção do imaginário Jocasta, estão outras mulheres dignas de nota:
>>> Irene Papas em Zorba, o Grego: é um papel menor, e Irene não é muito bonita, mas tem fogo o suficiente para hipnotizar o escritor tímido de Alan Bates. Ele já não era nenhum mocinho, mas na sua embalagem paletó-gravata-livros, parecia ser mesmo virgem.
>>> Grazyna Szapolowska em Não Amarás. Ela é uma prostituta que fascina um garoto residente em um prédio vizinho. Ele espiona, segue, inventa mil subterfúgios para estar perto. Ela descobre, e a chapa esquenta.
>>> Magali Noel, em Amarcord. Em mais um filme de reminiscências (falsas, no caso de Fellini), Magali Noel é Gradisca, a obsessão dos garotos da cidade de Rimini, também durante a Segunda Guerra. Eles vêem com os olhos, lambem a testa; em uma cena incrível, um dos garotos tenta alguma coisa num cinema vazio.
Em tempo: clique aqui para ver a letra de "Mrs. Robinson"

sexta-feira, agosto 04, 2006

Short Cuts

Durante o tempo em que não atualizei esse blog, pensei várias vezes em cancelá-lo. Sempre tenho vontade de escrever, mas falata o tempo para escrever do jeito que eu quero: aqueles posts grandes, com ambição analítica... Resolvi continuar, mas vou mudar o formato. Escrevo menos, em flashes, uma vez que minha capacidade "analítica" é superficial e acabo produzindo mastodontes sem nenhuma consistência. Agora, vamos às coisas sobre as quais eu quis comentar nesse intervalo:
>>> Os Olhos Sem Rosto, de Georges Franju, é um grande filme. Suspense clínico, surpreendentemente gráfico para a época que foi feito, traz as marcas que eu costumo identificar nos exemplares franceses do gênero, seja literatura ou cinema: as mortes difíceis, por armas brancas ou contusão - nunca vemos pistolas ou revólveres; as pessoas sangram, morrem penosamente; o clima de bruma, nebuloso, por oposição ao sol californiano. Perturbadora a precisão do filme: um médico retira o rosto de mulheres dopadas para fazer um transplante na sua filha, que tem queimaduras graves devido a um acidente de carro. Franju nos ganha pela perversidade da situação. Todo mundo fica indefeso diante de um médico, que se for um louco como é o caso, pode fazer o que quiser. Tudo é muito branco; e a música de Maurice Jarre, tétrica.

>>> Alida Valli, que sempre achei uma das mais belas mulheres da história, está desglamurizada em Os Olhos Sem Rosto. Desse jeito, é claro que ela não bate a Garbo (copm quem era comparado), e provavelmente não bateria mesmo nos seus melhores momentos. Garbo, como dizia Vinicius de Moraes, era uma mulher-orquídea. Apesar disso, continuo a preferir Valli, que não faz a vítima chata. Seuis papéis são sempre arriscados, interessantes, complexos. Como mulher, é terrena, sensual, enquanto Garbo é divina demais. Por falar nisso, também vi Alida Valli por esses dias em La Luna, de Bertolucci, já velha, mas bela.
>>> Eu havia comentado em um post anterior que não conhecia muito o cinema de Bertolucci. Pois bem: vi três filmes dele, e o que mais gostei foi com certeza Assédio, de 99. Uma obra-prima de romantismo e delicadeza, sempre valorizando o silêncio, a capacidade de dizer tudo com o olhar, criando climas intensos só com a presença de dois personagens numa sala. Ajuda muito ter Thandie Newton, linda e sexy. Outra coisa: como Bertolucci é bem observador... Assédio nem precisava, mas é uma excelente visão do mundo globalizado. A Roma onde se passa o filme é uma cidade de expatriados, com vários idiomas. A sensação de ser estrangeiro acentua a solidão, fragiliza e torna os personagens vulneráveis - para o amor, no caso.

>>> Dois colegas meus viram filmes diferentes, mas na verdade viram a mesma coisa. O Poderoso Chefão é Rocco e Seus Irmãos. Trata-se de dois dos filmes mais eloquentes em termos de narrativa tradicional na história do cinema. São extremamente literários, com grandes roteiros, e fazem como poucos o retrato da desintegração da família com tintas épicas. São épicos sem grandes heróis, vilões e conquistas. Enfim, épicos humanos, épicos da gente.
>>> Eu havia prometido um comentário sobre Páginas da Vida, mas não estou assistindo.

>>> Música na minha cabeça:

Fico esperando

um minutinho

mesmo que seja

só pra ganhar um beijinho

rapidamente

de "Eu Estou Apaixonado Por Você", de Helena dos santos, gravada por Roberto Carlos no 1966

quarta-feira, julho 19, 2006

Kathleen Turner


Esse post é dedicado a Kathleen Turner, espetacular femme fatale em Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan.


terça-feira, julho 18, 2006

O nome do jogo

Não conheço muito Bertolucci, não li o romance, mas se tem um título de filme/livro que não tiro da cabeça é O Céu Que Nos Protege. Não exatamente em português; em inglês, o The Sheltering Sky passa uma dimensão épica e ao mesmo tempo intimista, de maneira econômica - três palavras. Mérito dessa terminação -ing, geralmente associada ao gerúndio que pode ser colocada depois de quase todas as palavras em inglês, criando uma infinidade de adjetivos. O português é mais rígido, o -ing às vezes é -ante (Intriguing = Intrigante), mas não há muito o que fazer com "proteger", por exemplo, pra conservar a economia original. O Céu Protetor? Não. "Protegente" não existe. Aí aparece o "que", palavra feia que tira a beleza de uma frase tornandom óbvia a explicação ou a caracterização.
The Sheltering Sky.
Isso me lembra outros títulos que já me fascinaram, conhecendo ou não as obras que eles batizam. Às vezes no original, às vezes na tradução, essas são sonoridades, formas, letras que me atraem:
Fale Com Ela
Ascensor Para o Cadafalso
Música Para Camaleões
The Wings of the Dove
The Postman Always Rings Twice
Eu Receberia de Seus Lindos Lábios as Piores Notícias
A Conversação
A Faca na Água
The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby
A Noiva Estava de Preto
Aliás, chegar em Truffaut é bom pra lembrar dos excelentes títulos que Godard deu a seus filmes. Ninguém batiza filme como ele. Vejamos:
1 - Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela
2 - Viver a Vida
3 - Salve-se Quem Puder (A Vida)
4 - Elogio do Amor
5 - O Desprezo
6 - Masculino Feminino
7 - Uma Mulher é Uma Mulher
E por aí vai, sem falar na tradução de À Bout de Souffle, o excelente (título e filme) Acossado, da qual ele não teve culpa.