segunda-feira, agosto 06, 2007

Cão Sem Dono

Texto meu em Nacocó.

Na capa da Revista TPM, a chamada diz que Tainá Müller é a mulher que faltava no cinema brasileiro. Na mosca. Estrela de “Cão sem dono” (Cão Sem Dono, Brasil, 2007), quinto longa de Beto Brant, Tainá é linda como a vida eterna, e é ainda mais bonita porque seu rosto na tela não é vazio. Desperta emoção, apreço, carinho, ternura. Não seria tão bonita se fosse apática, nem tão expressiva se não fosse tão atraente e magnética.

Estabelecer o poder da atriz é o melhor ponto de partida para falar de “Cão sem dono”. Durante pouco mais de uma hora e meia, Brant (dividindo os créditos de direção com Renato Ciasca) convida o público a acompanhar os efeitos devastadores tanto da presença quanto da ausência da voz, olhar, andar e temperamento de Marcela, personagem de Tainá. A vítima é Ciro (Júlio Andrade). Do ponto de vista masculino, filme segue a evolução do casal, a partir do encontro depois de uma noite de sexo casual, passando pelos primeiros gestos de carinho e a incrível vontade de ficar junto, o relacionamento firme e vivido intensamente, até uma inesperada separação.

Não se trata, no entanto, de uma “DR”, como no caso do recente e belíssimo “5x2” (2004), de François Ozon. O diretor aposta num perfil de Ciro, homem sem lá muito futuro, introspectivo, e irremediavelmente apaixonado. O filme o acompanha, perdido de amor, em todos os abismos de seu tédio de desempregado, sozinho em casa, conversando sobre nada com um elenco de personagens coadjuvantes sempre generosos, mas principalmente ao lado de Marcela. A presença dela no filme é cronometrada tanto para que Tainá Muller não roube o filme, quanto para provocar uma saudade intolerável, tanto em Ciro, quanto no público.



O principal mérito do filme é essa adesão total, estável e permanente, provavelmente por causa do tratamento livre de excessos adotado por Brant. Ser excessivo, surreal, também pode ser uma qualidade, mas neste caso a força de “Cão sem dono” vem por identificação. Depois de uma virada do roteiro, o casal é separado, e o filme fica mais forte ainda. Ciro fica doente de amor, tenta se recuperar. Narrativamente, parece que o filme não tem para onde ir. E agora? É justamente nesse tempo arrastado, em que não acontece nada além da tristeza projetada, que o filme fica mais forte, puxado pela excelente atuação de Júlio Andrade.

Pena que Brant e Ciasca quase comprometam tudo isso com um final que “resolve” as coisas. O final é ruim não somente pela diluição instantânea do sentimento que eles tinham obtido, mas porque parece abrupto, grosseiro, absurdo e caído do céu, num filme que se dispôs firmemente a encarar emoções de olho na realidade. Essa nota falsa não compromete “Cão sem dono”, mas com certeza impede o filme de chegar no nível de um “Clamor do sexo” (1961) , de Elia Kazan, ou “Amor à flor da pele” (2000) , de Wong Kar-wai, lindos filmes de amor que não tiveram qualquer hesitação em mandar o público para casa com o coração pesado.

De qualquer jeito, dentro da carreira de Brant, esta é uma nova surpresa. Depois do vigoroso e bruto “O invasor” (2001) , ele havia feito o infernal e intelectual “Crime delicado” (2005) , seu melhor filme. Em “Cão sem dono”, parte para uma delicadeza porto-alegrense do mesmo tipo que Marcelo Gomes e Karim Aïnouz fizeram no interior do nordeste em “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) e “O Céu de Suely” (2006) , respectivamente. Nada de muito novo no panorama geral, mas um excelente passo para um diretor cada vez mais interessado em gente.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Cinema - Faça Você Mesmo

Muito bom esse vídeo. Já mostra que é possível a existências de filmes muito impactantes, dentro desse formato youtube, onde todo mundo posta o que quiser. Na verdade, não sou rato de Youtube, mas isso aqui me pegou completamente de surpresa: é pós-moderno, e presta; é colaborativo, a cara do século XXI. Muito bom.


Lip Dub - Flagpole Sitta by Harvey Danger from amandalynferri and Vimeo.

terça-feira, julho 31, 2007

Luto, de novo

A morte deixou duas vítimas seguidas no panteão do cinema: Bergman e Antonioni. O sueco não gostava do italiano, não sei se a recíproca era verdadeira, mas é interessante que uma coisa os unia, cada qual em seu estilo – foram dos cineastas mais dedicados em entender as mulheres, e utilizavam um realismo das emoções que era da ordem da alma, interior, enquanto se permitiam estilizações exteriores. Enfim...

De Bergman, assim como Chico, o primeiro filme que vi foi Gritos e Sussurros, num VHS Concorde que loquei na primeira vez que fui à VideoHobby. Vi numa sexta à noite e revi no sábado de manhã. Já revi em DVD e em 35mm, na Sala Walter da Silveira. O filme não é do tipo que cresce. Ele tem impacto imediato e supremo e o mantém. Não cresce porque não tem mais para onde. É topo, e foi por muito tempo meu filme preferido.

Ainda amo o filme, mas hoje, meu Bergman preferido é outro: Persona. Vi na Alexandre Robatto, a apartir de um VHS projetado com barras pretas na parte de baixo para tapar a legenda em inglês. Tenho um divx, mas nunca tive ânimo para revê-lo. É forte demais. Gosto muito também do Morangos Silvestres, Noites de Circo, mas talvez o terceiro Bergman na minha cabeça seja A Fonte da Donzela, com uma das seqüências mais angustiantes da história: Max von Sydow arranca uma arbusto com as próprias mãos, e realiza uma purificação do corpo com as folhas, antes de matar os assassinos de sua filha.

Bibi Andersson e Liv Ullmann em Persona

O Sétimo Selo, incrivelmente, nunca me despertou mais do que a admiração normal por um Bergman, mas preciso revê-lo. O bom é que, para quem não conhece, tá muita coisa por aí em DVD. Vi quase 20 filmes dele. Praticamente tudo é muito bom. Preciso rever, mas lembro de não ter gostado muito de Da Vida Das Marionetes...

Quanto a Antonioni, o processo foi mais difícil. Vi Deserto Vermelho num VHS bem ruim, e achei insuportavelmente chato. Só fui ver o segundo Antonioni quando passou O Passageiro Profissão Repórter, também lá na Walter. Eu tinha ido ver A Doce Vida, mas a programação mudou, e ficamos, meu irmão e eu pro Antonioni. Ele não gostou, mas eu chapei. Depois saiu tudo em DVD, A Aventura, A Noite, O Eclipse, Blowup, As amigas, O Grito.

Monica Vitti em O Eclipse

A princípio parece que não, mas o melhor desses aí é O Eclipse, filme de angústia e aridez insuportável, e tão geometricamente perfeito quanto Blowup, no qual Antonioni faz arquitetura.

Poderiam passar no cinema também... Vi A Noite lá na Walter, novamente com meu irmão, e dessa vez ele gostou. Na seqüência, sem tempo para respirar, vimos Os Incompreendidos, de Truffaut.

segunda-feira, julho 23, 2007

Era Uma Vez em Macau


Num rompante de prova dos nove, vi um dos melhores filmes do ano. Há um tempo, peguei na locadora Breaking News, de Johnnie To, só para verificar se o diretor tão prestigiado era isso tudo mesmo. Naquele filme, virtuoso mas besta, o cara parecia uma fraude oriental que cresce aos olhos de críticos ocidentais. Nada como uma segunda chance: Exilados é incrível, lindo, majestoso, falso policial com alma de faroeste spaghetti, e dos bons.

As pistas já estavam lá, mas só percebi isso do meio para o fim, quando os personagens principais abandonam a cidade e resolvem assaltam uma “diligência” carregada de ouro. Vem a gaita, o cenário rochoso e árido, o sol. Aquela camaradagem do passado ganha a luz de Sergio Leone. Já era assim no início silencioso e tenso, num tiroteio triangular, no acerto de contas dos pistoleiros do apocalipse e da moral “o passado vem te pegar”.

Quando chega o ouro, a referência cinematográfica é completamente assumida, e tudo é resolvido num espetacular desfecho numa villa em Macau, com cara de México. Com uma viúva violenta e um aparente seqüestro em que a paga não é um punhado de dólares. Podia ser uma grande masturbação cinéfila, mas... Tem força o Johnnie To, e nunca deixa a homenagem ficar só na superfície. Faroeste é questão de moral, e da verdade dos personagens, e tá tudo aí, intacto. As fotografias, a amizade e o tempo, presente e passado – a homenagem é maior ao faroeste ou a Leone? Era Uma Vez em América?

sexta-feira, julho 13, 2007

O Passado (recente)

Volto a usar esse espaço como blog, e não como reprodutor de textos que escrevo para outro lugares. Em flashes e rapidinho, já que o tempo anda escasso:

>>> Além dos dois livros citados em post recente (Nó Na Garganta e Vernon God Little), andei lendo Ian McEwan. Primeiro foi o Reparação, fábula poderosa sobre culpa e redenção impossível, narrada numa muito sofisticada estrutura de tempo que arma um truque intrigante, e atinge o leitor em cheio, no final. O livro vira filme esse ano, com o mesmo diretor de Orgulho e Preconceito. Pelo trailer, palpite: vão fazer O Paciente Inglês de novo, amantes separados pela guerra, o que não tem muito a ver com o original. (O filme de Minghella não é só isso, eu gosto. Ainda assim, é muito diluído em relação ao livro).

>>> Gostei de Reparação, catei (comprei, R$ 23) um livro um pouco mais antigo dele, Amsterdam, que venceu o Booker Prize. Novo espanto. Mais um trabalho de tempo sensacional, desta vez em pequena dimensão. Há o passado, e todas as conseqüências no que os dois personagens principais são agora – sem traumas antigos, é bom que se diga, apenas o desgaste de ser. O final, arriscadíssimo, por um pingo não destrói tudo, mas funciona. Menos polido que Reparação, mas com pontos mais altos, talvez.

Ian McEwan

>>> Leio finalmente O Amor Nos Tempos do Cólera, e já no meio, o livro me parece sem propulsão. Há um início maravilhoso, depois um flashback gigantesco que conta o que aconteceu, mas infelizmente sem suspense – a narrativa vira uma passagem em revista por 50 anos da vida de dois personagens. “Fizeram isso, aquilo e aquilo outro, amaram fulano e beltrano”. Claro, há muita beleza na descrição desse tipo de coisa, mas estruturalmente, o livro não funciona tão bem. Por enquanto, deixa terminar.

>>> Esse flashback de García Marquez me lembra o arrasador capítulo final de Hiroshima, de John Hersey, escrito 40 anos depois da primeira parte. O livro é a reportagem do século: primeira parte, seis pessoas em Hiroshima, aqui e agora, com precisão de detalhes cinematográfica; segunda parte, o reencontro com as seis pessoas, Hersey resume o que aconteceu com cada uma delas nos 40 anos seguintes, 10 páginas para cada. É acachapante: 40 anos em 10 páginas, escritas com infinita placidez, respeito e humanidade. E dá uma terrível melancolia, à Yasujiro Ozu.

>>> Muitos, muitos filmes além dos criticados recentemente. Pra resumir, um recente: Gerry, de Gus Van Sant, o melhor de sua nova fase autoral, que continua com Elefante e Last Days. O filme é o mínimo possível – Matt Damon e Casey Affleck perdidos de uma excursão em campo aberto, andam, andam, andam atrás de ajuda. Esqueça Robinson Crusoé, o tom aqui é claramente de transe, planos longuíssimos só com o barulho do deserto, poucos diálogos. Falando assim pode parecer afetado, mas é radical.

Gerry, de Gus Van Sant

>>> Uns velhos: Desafio à Corrupção, muito bom filme de Robert Rossen com Paul Newman, aparentemente sobre sinuca, só que mais um poderoso ensaio sobre a desilusão americana que produziu várias obras-primas nos anos 60. O Indomado, A Sangue Frio, A Noite dos Desesperados...

>>> Muitos outros para comentar – andei vendo de Lola, a Flor Proibida (Jacques Demy) a Um Condenado à Morte Escapou, de Robert Bresson. Esse filme de Bresson é uma maravilha, mas sou mais Demy, menos em Lola e mais em Os Guarda-Chuvas do Amor e Duas Garotas Românticas. Último filme visto: O Buraco, de Tsai Ming-Liang.

>>> Último texto em Nacocó: Cinema novo, novidade pouca. Comentário sobre as novas salas do Cinemark e da UFBa.

sexta-feira, julho 06, 2007

Entretenimento sem segredos

Wim Wenders era presidente do júri do Festival de Cannes de 1989, e deu a Palma de Ouro a "Sexo, Mentiras e Videotape" (1989), de Steven Soderbergh. Para justificar a premiação do filme, Wenders afirmou estar diante do "cinema do futuro". Quase 20 anos depois, a estréia de "Treze homens e um novo segredo" (Ocean's thirteen, 2007, Estados Unidos) acrescenta mais um tijolo de contradição em relação às expectativas do cineasta alemão. Soderbergh parece cada vez mais fazer um cinema do passado, nostálgico e dedicado à execução inteligente de fórmulas que foram consagradas pelo sistema de estúdios da Hollywood clássica.

Somente nesta década, ele já dirigiu os dois filmes anteriores desta franquia com George Clooney, a partir da refilmagem do original de Lewis Milestone, fez um bom remake do clássico russo "Solaris" (1972) e revisou o cinema dos anos 40 no ainda inédito no Brasil "O Segredo de Berlim" (2007). Ainda produziu "Longe do Paraíso" (2002), homenagem aos melodramas de Douglas Sirk na Universal, e assinou um dos segmentos de "Eros" (2004), em p&b e nos anos 50. O que não falta a Soderbergh é vocabulário cinematográfico.

Neste "Treze homens e um novo segredo", fica evidente o domínio do diretor do material que tem nas mãos. Já escolado, o terceiro filme da série tem tudo o que se espera dele: charme, roteiro tão complicado quanto surreal e senso de humor à beira da demência, capaz de manter o espectador por 122 minutos com um sorriso cúmplice, já engatilhado para a gargalhada. Soderbergh praticamente segue sem mudança de direção a trilha dos filmes anteriores – a única missão agora é apresentar uma nova coleção de absurdos.

Desta vez, sem Julia Roberts e Catherine Zeta-Jones (“não é da conta delas”), Danny Ocean, Rusty Ryam e sua intrépida gangue se reúnem para vingar Reuben, um dos veteranos do grupo, que levou um golpe de Willy Bank (Al Pacino, brega, bronzeado, divertindo-se muito, direto de algum texto de Tom Wolfe). Willy levou o dinheiro de Reuben e abriu um gigantesco cassino em Las Vegas. Danny Ocean e companhia vão fazer de tudo para que a inauguração do mastodôntico prédio seja um fracasso.

Willy está protegido por um poderosíssimo sistema de segurança, mas isso não será problema. O grupo vai deslocar uma perfuradora de túneis para causar um terremoto sob o cassino e derrubar o sistema. A idéia é, enquanto o sistema estiver fora do ar, causar o maior prejuízo possível em caça níqueis batizados e dados viciados. A graça, claro, é acompanhar todo esse complexo plot, que inclui uma greve no México, doações para a apresentadora Oprah Winfrey e uma coleção incrível de disfarces.

A razão pela qual isso tudo não entedia – afinal já vimos essa estrutura nos dois filmes anteriores – é que Soderbergh pisa firme no acelerador. Há milhares de outros pequenos truques desses, e como num show de mágica as caixas continuam abrindo e tem sempre mais um coelho na cartola. Quando a gente pensa que acabou, Vincent Cassel (aquele que driblou um sistema de lasers jogando capoeira) e Andy Garcia (contido, como sempre, e por isso hilário) complicam mais ainda as coisas, com uma subtrama de roubo de diamantes.

Se o roteiro faz hora extra na composição minuciosa desses momentos, o mérito de Soderbergh é ter um tempo de comédia absolutamente perfeito. Com tanta coisa acontecendo, o natural é que o filme se tornasse exagerado. O diretor segura a mão, e deixa as piadas acontecerem. Por incrível que pareça, esse humor todo é quase discreto – um ator entra em cena numa situação ridícula ou surreal, mas a deixa ou a frase feita não vem. A graça vem da criação do clima fora da realidade, e não da tentativa de fazer piada.

Soderbergh, mais uma vez acumulando a direção de fotografia, acerta mais no alvo também na parte técnica. O filme é um desbunde, como parecer ser o caso da própria Las Vegas. Muito neon, mulheres vestidas para matar e direção de arte espetacular – dos mínimos detalhes (dados, cartas, gadgets) até o design de interiores nababescos. Visualmente, temos uma incrível celebração do excesso, cujo ponto alto são letreiros com grandes quantias em dinheiro pipocando em letreiros pela tela.

O resultado é tão positivamente alienado que chega a ser chocante comparar este filme com o pequeno "Bubble", seu longa anterior – a alguns quilômetros de Vegas estão os não-atores, o clima sóbrio, a tristeza do interior dos Estados Unidos. Soderbergh parece não ter limites criativos, e busca, filme após filme, domínio do cinema de A a Z. Curiosamente, ele é mais bem sucedido em projetões de estúdio do que em suas iniciativas menores, quase experimentais.

Vale notar que essa sintonia com o passado parece ser o forte não somente do diretor, mas do melhor que o cinemão americano tem feito nesta década – desde o saudoso sessentismo do "Homem-Aranha" (2002), às navalhadas hawksianas dos irmãos Coen em "O amor custa caro" (2003), passando, claro, pelo genial "Prenda-me se for capaz" (2002), de Spielberg, e pelo doce-trágico "King Kong" (2005), de Peter Jackson. Nesse tom, Soderbergh encontrou o companheiro ideal, George Clooney, ator em moldes Cary Grant, perfeito para essa nostalgia moderna da velha Hollywood. Clooney, aliás, deixou sua marca também na direção, com "Boa noite e boa sorte" (2005), p&B, anos 50. Longa vida a essa parceria.

domingo, julho 01, 2007

Belo Filme Raso

Texto meu em Nacocó:


P
hilippe Barcinski estréia no longa-metragem com “Não Por Acaso” (Brasil, 2007), produto Globo Filmes que felizmente funciona fora dos padrões de mediocridade estabelecidos pela distribuidora. Embora haja realmente uma redução de complexidades em relação ao que se espera de um diretor promissor, a marca autoral de Barcinski é forte o suficiente para minimizar as limitações do filme.

Pelo estilo de Barcinski, entenda-se em gosto de explorar cenários urbanos, em tom diferente do realismo urgente que se vê no cinema brasileiro. Suas tramas são intrincadas, com tendência ao fantástico. O sinopse de seus curtas mais conhecidos pode dar uma idéia: em Palíndromo, vemos de trás para frente o dia de um executivo em São Paulo; em A Janela Aberta, um homem na cama tenta lembrar se fechou a janela de casa. Essa ambientação paulista-paranóica costuma ser fotografada rigorosamente, com especial atenção para a geometria da imagem.

Em “Não Por Acaso”, Barcinski continua dando um show de cinema, desde os créditos iniciais. Num sobrevôo por São Paulo, os nomes de patrocinadores, elenco e técnicos aparecem gigantes sobre os prédios e viadutos da cidade. Durante os 90 minutos de projeção, a câmera freqüentemente se detém na composição arquitetônicas dos edifícios, carros para lá e para cá, silêncio. Os interiores não são negligenciados. Planos exploram apartamentos antigos, de cores perfeitamente desbotadas, envolvendo os personagens. É lindo na tela (foto de Pedro Farkas), mas também é triste, melancólico. O cara ama São Paulo.

Embora essas imagens urbanas garantam arrebatamento constante, é pena que, no que diz respeito às pessoas que ocupam esses espaços, o diretor ainda tenha um longo caminho a percorrer. O filme segue dois personagens, Pedro (Rodrigo Santoro) e Ênio (Leonardo Medeiros), afetados pela perda das pessoas que amam.

Pedro é dono de uma oficina de carpintaria especializada em mesas de sinuca, e pratica eventualmente o esporte. Barcinski, claro, não deixa de se esbaldar com a geometria das bolas sobre o verde, criando efeitos de imagem próximos da hipnose. Ênio é engenheiro de tráfego, trabalha regulando o trânsito de São Paulo, na frente do computador. As duas vidas não se unem, mas têm um ponto de tangência. Um acidente de carro causa a morte da namorada de Pedro e da ex-mulher de Ênio. Ainda bem, filme passa longe de “Amores Brutos” (2000) e “21 Gramas” (2003).

A perda os aproxima de outras pessoas – Pedro se envolve com a inquilina de sua namorada morta, Ênio descobre tem uma filha adolescente com o amor do passado. Para quem tem tanto repertório de imagem, é surpresa agradável ver o tratamento delicado que Barcinski dedica a essas pessoas. Os atores conversam calmamente, com intervalos entre as frases, respirando, bem longe de interpretações globais. As imagens de São Paulo não trabalham contra os sentimentos; ao contrário, os contextualiza.

Os problemas aparecem quando essas relações pessoais ameaçam se complexificar. A história de Ênio parece bem segura, mas Pedro caminha em direção à loucura, e sua rota de destruição é prontamente abortada. Aí fica claro que o diretor, embora interessado e aplicado, não tem ainda fôlego para produzir um drama humano de profundidade. Problemático também é o uso da música, que parece querer provocar sentimentos fortes muito antes de haver alguma coisa na tela com alta voltagem emocional.

Quando o filme vai ficando frouxo, Barcinski vence a queda de braço com suas limitações armando um maravilhoso e poético final, um espetacular engarrafamento provocado com um rádio de comunicação. É o toque de fantástico-urbano usual nos filmes do diretor, desta vez lembrando um desfecho das adaptações cinematográficas de Cortázar, como o tênis sem bola de “Blow-Up” (1966) (guardadas as proporções, claro). Logo depois do caos, um bonito plano final, ao mesmo tempo tão próximo de um comercial de margarina quanto da paz de ter superado uma fase difícil da vida. Por incrível que pareça, dado o tom emocionalmente raso do filme, o efeito é de lavar a alma. Com um final desses, o balanço geral só pode ser positivo.

quinta-feira, junho 21, 2007

Dois livros

Bom tempo sem escrever. Além da falta de tempo, o principal motivo é que comecei a ler dois livros exaustivos, e dedicava qualquer intervalo para adiantar a leitura. São duas histórias de adolescentes, contadas em primeira pessoa, com algum experimentalismo narrativo. Nó na Garganta, de Patrick McCabe, é infinitamente melhor do que Vernon God Little, de DBC Pierre, mas ambos são de leitura problemática.

Quanto ao primeiro tive a sensação de ler Guimarães Rosa em eslovaco. Há poesia ali com certeza, além da óbvia delicadeza de sentimentos e ações, mas a força do livro é abafada por uma tradução que não lhe permite entrega total – é o tipo de livro que se lê especulando como estava escrito em inglês. Talvez tente uma segunda vez no original, mas já antecipo as dificuldades. Pontuação corre solta, deve haver muita expressão fortemente irlandesa, etc. Enfim, segue trecho aleatório:

“Um homem feito de bolhas tomava conta da escola para meninos maus era difícil de acreditar mas era verdade lá estava ele na janela sua cabeça de bolha enorme e para fora ele vem pulando pula pula e Como vai o senhor! Ele exclama para o sargento, nunca vi uma cabeça tão brilhante, branca e polida como a cabeça que Padre Bolha tinha. Como vão todos! ele diz de novo e o sargento começa a resfolegar e tenta ajeitar seu uniforme. Muito bem padre fizeram boa viagem não foi mal padre obrigado por perguntar.”

Resumindo, Francie, garoto no interior da Irlanda nos anos 60, é perturbado pelo pai alcoólatra e pela mãe depressiva. Não por causa-efeito, ele cria um mundo sé dele, onde só é permitida a entrada do melhor amigo. Quando este começa a ignorá-lo, Francie vai ficando cada vez mais louco.

Quanto a Vernon God Little, de DBC (Dirty But Clean) Pierre, pseudônimo de Peter Warren Finlay, no todo, me lembra aquele clássico do Piores Clipes do Mundo, I'm too sexy for myself. Esse tipo de mal do ego também afeta escritores (e jornalistas), num terrível I'm too smart for myself. Não há um parágrafo nesse livro todo que não tenha sido escrito para ser espertinho e irônico, ou com a clara intenção de virar cult da cultura pop (hein?). Dá uma olhada:

“Adquiro um aprendizado: que caras mais idiotas do que eu acabam como encarregados. Veja como são as coisas. Não sou a porra de um gênio nem nada, mas esses retardados estão encarregados de cada um dos meus movimentos. O que estou começando a imaginar é que talvez apenas os imbecis estejam seguros neste mundo, os tais que andam a esmo com a manada, sem pensar em coisíssima nenhuma. Mas está me vendo? Tenho que pensar em cada porra de coisinha.”

O livro, vencedor do Booker Prize 2003, dá aquela péssima impressão causada pelos últimos diálogos de Clube da Luta, radiografia pop e rala da pós-modernidade, algo bizarro e cansativo, já que abafa qualquer possibilidade de conflito humano. Aliás, resumo: adolescente é acusado de cumplicidade num ataque de um aluno franco-atirador à escola local (Martirio, Texas), que deixou quase vinte mortos. A mídia manipula o caso, etc. Extremamente cansativo, mas acabou.

segunda-feira, junho 11, 2007

Zodíaco

Texto meu publicado no Coisa de Cinema:


Depois de Dália Negra e Hollywoodland, estréia Zodíaco, de David Fincher, mais um filme sobre crimes históricos nunca resolvidos. O cenário ainda é a Califórnia, mas Fincher troca o glamour de Los Angeles por São Francisco. As influências também mudam: ao invés do pastiche de film noir, o diretor põe toda sua imensa habilidade visual a serviço de uma merecida homenagem ao filme de ação hollywoodiano do início dos anos 70 – época de Operação França, Serpico e Os Implacáveis, de William Friedkin, Sidnley Lumet e Sam Peckinpah, respectivamente.

Não poderia ser diferente: o caso real do assassino serial “Zodíaco” (matava casais que andavam sozinhos em noites escuras, mandava cartas aos jornais desafiando a polícia) inspirou o primeiro filme do personagem Dirty Harry, Perseguidor Implacável, (de Don Siegel)de 1971. Também somos informados que o policial David Toschi (Mark Ruffalo), um dos três protagonistas, serviu de inspiração para Bullitt, personagem-título da obra-prima de Peter Yates.

David Toschi, o policial, investiga o caso do serial killer ao mesmo tempo que o jornalista Paul Avery (Robert Downey, Jr.) e o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhall), este último o autor do livro que inspirou o complexo roteiro de James Vanderbilt. Em exigentes 158 minutos, destrincha minuciosamente os desdobramentos do caso, que começa em 1969 e se arrasta pelas décadas seguintes. A depender da disposição do espectador e do respeito que ele tiver pelo tempo do cineasta, o efeito pode ser a perturbação pelo compartilhamento dessa paranóia ou o cansaço absoluto – e o abandono do filme no meio. Fincher não faz concessões, vale lembrar.

Simultaneamente à narração das investigações, Fincher ilustra o efeito da busca sem fim pelo assassino nos protagonistas. Toschi decide abandonar o caso para viver, Graysmith põe em risco o casamento, Avery se entrega ao álcool e às drogas. Cada ator defende brilhantemente seu papel, sempre atuando com contenção, sem histrionismos, fazendo precisamente as delicadas transições que indicam a perda do equilíbrio emocional de seus personagens. O nível de interpretação também é alto com os coadjuvantes – Chloe Sevigny se destaca como a esposa de Graysmith, único papel feminino relevante num filme extremamente masculino, os grandes Brian Cox e Philip Baker Hall aparecem rapidamente.

O cuidado que o filme tem com a dificuldade de se manter os nervos em ordem quando não se tem o controle da informação mostram que é este o ponto em comum de Zodíaco com Seven, e não a presença de um maníaco à solta. Fincher trabalha sempre com uma estrutura simples de suspense, tensão frente ao desconhecido, a mesma que levava à loucura os detetives de Brad Pitt e Morgan Freeman, sempre um passo atrás do serial killer dos pecados capitais, ou o irmão correto do vagabundo demente de Vidas em Jogo, também dos anos 90. Nesses três filmes, Fincher é um mestre da manipulação e esse é seu grande valor, e não o terror diante da modernidade que prejudicava seu ainda assim brilhante Clube da Luta.

Na posição de grande artesão americano contemporâneo, Fincher não decepciona. Saem as toneladas de presepada de O Quarto do Pânico e entra um cinema primorosamente contido. Aqui, pela primeira vez o domínio técnico do cineasta não briga por espaço com o lado dramatúrgico, e a habilidade manipulativa da linguagem está a serviço da fluência narrativa e não contra eles.

Neste ponto, vale notar a substituição de fotógrafos excessivos (Darius Khondji, Jeff Cronenweth) pelo sóbrio Harris Savides (com quem Fincher em trabalhou em Vidas em Jogo). Savides compõe aqui uma espetacular paleta de marrom, sem jamais tender ao fashion. Todo o departamento técnico está à altura do orçamento. Paletós de lapela larga, carros, interiores de papel de parede extravagante - está tudo lá.

Mais importante: Fincher honra o cinema setentista não somente na concepção visual, mas no tratamento seco, limpo, sem firulas, e brutalidade – elementos também resgatados pelos extraordinários Munique (Spielberg), Miami Vice (Mann) e Os Infiltrados (Scorsese). No entanto, e guardadas as proporções, Zodíaco se posiciona em relação a esses filmes contemporâneos da mesma maneira que A Conversação, de Coppola, estava frente a Bullitt e Operação França. O filme de Fincher é bruto e complexo, mas o ritmo é bem mais cerebral. O foco está mais no tormento pessoal e menos na ação, mas há tanta tensão quanto se houvesse um tiroteio a cada cinco minutos. Ótimo.

segunda-feira, junho 04, 2007

Brainstorm sobre Maria Antonieta

Boa chave para decifrar o mistério de Maria Antonieta é tentar ver o filme de Sofia Coppola por um caminho pessoal-cinematográfico. Não a ponte fácil entre a corte francesa e a realeza de Hollywood, de que a diretora faz parte. Não – o filme da Coppola parece feito em primeira pessoa porque reacessa os dois anteriores da diretora, As Virgens Suicidas e Encontros e Desencontros, com preocupações que parecem, mais uma vez, vindas de Antonioni, Godard e Fosse.

Do italiano, o gosto por filmar mulher, a alienação feminina, e um ritmo de cinema que é muito particular, o tempo morto, de silêncios barulhentos. Sofia continua filmando com calma, sabendo compor planos, aliando tema (mulher, pressão, costumes, incômodo) a uma rigorosa aplicação visual. De Godard, vem menos, mas o fator habitual que Coppola já tinha absorvido: a vontade de filmar a inconseqüência e a vibração da juventude.

O aparente descolamento dramático do rock com o clima de cinema abotoado parece vir daí, de Godard, e das experiências com música e som em filmes como Uma Mulher é Uma Mulher e Alphaville. Imagem prum lado, som pro outro, mas o estranhamento resultante é o que torna esse discrepância coerente. Filme estranho para gente esquisita (ou deslocada, melhor dizendo). Pois bem, é isso, mas não só isso. O rock é fundamental para criar o excesso do entretenimento, dos jogos, champagne e noitadas enquanto o mundo lá fora cai em convulsão. Isso é Fosse, isso é Cabaret.

Apontar esse tipo de coisa não é maletice cinéfila, nem checklist de influências. Isso já estava estabelecido desde aquele discurso do Oscar, quando Sofia apontou esses diretores como fundamentais para Encontros e Desencontros. Por isso chamei essa visão de pessoal-cinematográfica no início do post. Sofia deve ter sido viciada em filmes, tendo crescido com eles ao redor. Ela se formou como pessoa cinematograficamente, sendo tocada profundamente pelas obras desses diretores. Tanto suas preocupações autorais quanto seu jeito de filmar me parecem reflexo dessa história toda com o cinema.

Parece o tipo de coisa que se pode dizer de qualquer diretor, mas em poucos casos consigo ver relações desta profundidade entre artista criador e artista influenciado, ao ponto que a obra do influenciado é determinada quase que totalmente por sua memória cinematográfica. Caso semelhante, em registro bem diferente, seria Brian de Palma, e seu personalíssimo cinema de peças recicladas.

quinta-feira, maio 24, 2007

Sarcasmo, até o ponto da dormência

A história adora desmentir frases feitas, mas é muito difícil que um cineasta apresente um segundo longa satisfatório depois de estrear com um desastre absoluto. O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, entrou em cartaz sob a sombra de Nina, releitura de Dostoievski à luz de Kafka, cheio de tons expressionistas, mas com peso e superficialidade de videoclipe do Evanescence. Dhalia, neste novo longa, baixa a bola e adapta Lourenço Mutarelli. O resultado é menos pretensioso, mas sem muito ganho em qualidade.

Selton Mello, também produtor do filme, interpreta Lourenço, dono de antiquário, que passa os dias sendo sarcástico e estúpido com as pessoas que o procuram em busca de dinheiro rápido. Automaticamente em posição superior, Lourenço lança aos clientes olhares desagradáveis, às vezes compra o que lhe oferecem, sempre por muito menos do que os objetos valem. Depois manda os desesperados pastarem, quando não os agride fisicamente.

Deveria haver alguma profundidade nisso, camadas e camadas em baixo da carcaça de sarcasmo, mas Dhalia prefere não levar o personagem além do clichê de vilão malcriado hollywoodiano – a criança mimada e irônica em tempo integral, provavelmente com problemas psicológicos, que precisa urgentemente de uma palmada para se consertar. Talvez nem precisasse de profundidade, desde que esse tipo cômico funcionasse.

Ver Selton Mello sendo intratável pode deixar o espectador dormente, depois da quarta ou quinta vez. Ele será assim até o fim. Dhalia acredita que isso é tão engraçado que monta o filme numa estrutura auto-indulgente de câmera escondida de Silvio Santos. Filme é isso – uma vítima atrás da outra, todos na arapuca da mesma pegadinha.

Não ajuda o fato de que Mello, tão aclamado, pareça aqui uma versão muito esmaecida de seu notável João da Ega, da minissérie Os Maias, ou mesmo um primo infeliz de seu papel fixo em Os Normais. Mello insiste numa nota só, e já declarou em entrevistas que esse é papel mais difícil, cômico e dramático ao mesmo tempo. A muito custo, ele arranca umas risadas, mas não por muito tempo. Para os momentos dramáticos que Dhalia e Mutarelli criam, Mello se esforça, mas o material é muito ruim. Ver aqui a cena do desabafo para a empregada – talvez por culpa de direção roteiro e interpretação, a carapaça de sarcasmo não desmonta, personagem continua inexpressivo, plano.



Nos intervalos desse joguinho mórbido, Lourenço se comporta do mesmo jeito com as mulheres de sua vida. Logo no início, dispensa a noiva, sem qualquer vestígio de humanidade. Poderia ser muito forte, mas é tudo reduzido à fórmula da pegadinha, muito longe em alcance do momento idêntico de Ligações Perigosas, em que o mestre da ironia John Malkovich se livra de Michelle Pfeiffer. Mais tarde, a noiva de Lourenço reaparece, faca em punho, caricatura grosseira de um personagem que nem saiu do rascunho.

A outra mulher da vida de Lourenço tem uma bunda grande - o atributo anatômico da moça torna-se a obsessão do anti-herói. Mais uma vez, o comportamento vilão de pegadinha se repete, e vêm outra lembrança cinematográfica: Jack Nicholson, maravilhosamente indelicado na excelente sitcom estendida Melhor é Impossível, também atraído por uma garçonete simplória. A lembrança é ruim para o filme de Dhalia – no longa havia certo desenvolvimento de conflitos; aqui, temos idiossincrasias imbecis tentando movimentar o que já não tem solução.

Enfim, como bem escreveu Eduardo Valente na Cinética, Dhalia erra, mas é coerente. Continua fazendo cinema de superfície, árido, sem pathos. Por falar na camada exterior desse bolo sem graça, o filme é competente tecnicamente, e pode se orgulhar do orçamento de R$ 350 mil. Ainda assim, esses atributos não alcançam o grau de brilhantismo que façam o todo sair do lugar ou mesmo chegar a um nível de relevância, como muita coisa de Brian de Palma.

Imagens de fachada podem ser hipnotizantes, ao ponto de que um filme permaneça completamente à parte de qualquer conflito humano, sem prejuízo estético qualquer. Não é o caso. Ser superficial aqui é questão de imaturidade, frivolidade. Até por isso, Dhalia deveria ter contido seus instintos cinéfilos e tirado os pôsteres de Os Implacáveis e Acossado do cenário.

segunda-feira, maio 21, 2007

O Turbilhão da Vida

Provavelmente já disse isso aqui, mas Jeanne Moreau é das atrizes mais impressionantes da história. Obviedade, sei, mas não como resistir à força daquela boca amarga quando se descobre, filme a filme, sua grande fase. Acho que foi Milton Nascimento - ele viu Jules e Jim quatro vezes seguidas e conseguiu inspiração para compor durante um mês, ou viu o filme uma vez só e compõs por quatro dias, sem parar, não importa. O filme de Truffaut é definitivo.

Vi Jules e Jim pela primeira vez num VHS Alpha Filmes, que mutilava os enquadramentos em Cinemascope. No dia, lembro que aconteceu um problema barra pesada em casa, mas minha cabeça não saía das imagens de Truffaut, do clima, da força. Revi o filme no cinema, e durante boa parte da projeção, tinha uma mancha de óleo na fita. Chorar vendo um filme é fácil. É ato reflexo de drama, como uma risada em piada de banheiro numa comédia ruim. Às vezes, no entanto, uma lágrima sincera que não vem define as conseqüências de um filme na nossa mente, da mesma maneira que a mancha de óleo na película. O filme vira parte de você, até o túmulo.

Jules e Jim, mesmo com todo o brilhantismo de Truffaut em dia endemoniado, não seria o mesmo sem Moreau. A extrema sensibilidade de sua personagem, Catherine, joga Moreau em abismos de doçura, amor, sensualidade, e por fim, amargor e loucura. Não há personagem feminino tão complexo. Na minha opinião, está é A atuação da história do cinema.

Mesmo com tanto área coberta por Catherine, ainda não vi Moreau passar em branco, oferecer pouco a um personagem. Ela está sempre na tela de corpo e alma. Sua beleza difícil lhe rendeu papéis difíceis, não exatamente simpáticos. Vi Moreau impressionante em Ascensor Para o Cadafalso e Os Amantes, de Louis Malle. No primeiro, arma um plot para matar o marido; no segundo, decide fugir da vida em direção ao nada com um desconhecido.



A maldade na alma que seus traços sugerem a levaram a As Relações Amorosas, de Roger Vadim. Filme é adapatação das Ligações Perigosas de Chordelos de Laclos, nos anos 60. Não presta. Moreau, no entanto, sai incólume na pele da Mme. de Merteiull. Glenn Close viveu depois o papel interpretanto com os seios - alguém já disse isso, não lembro quem - e maravilhosamente. Moreau joga a dimensão toda do personagem no sorriso.

Hoje (ontem, 20/05), vi Moreau em mais um grande papel, desta vez como a Eva de Joseph Losey. O diretor renegava o resultado final, com uma hora a menos do que o planejado. Provavelmente os produtores tinham razão. As lacunas, ao invés de enfraquecerem o filme, o tornam infinitamente complexo, cruel, insinuado, enigmático. Moreau tem essas mesas qualidades do filme.

O que poderia ser uma falha vira mérito, já que tudo se sustenta no poder de fogo da superfície de Losey, via enquadramentos, montagem, trilha, e Moreau, impondo um magnetismo exacerbado, imponente, ainda que discreto. Ela domina o outro personagem masculino, sem mais nem porquê, ou explicação. Mérito completo da atriz - tornar situações incontestáveis, à prova de questionamento.

***

Eva se passa em Veneza, cidade fatal, fria, gélida. Obviamente, não conheço in loco, mas, não importa quão maravilhosa seja a celebração da cidade de David Lean em Summertime, fico sempre com a impressão assustadora e mórbida impressa na memória por Visconti, Roeg, e agora Losey. Embora este último diretor não tenha falado especificamente de morte, o clima doente (uma doença moral, provavelmente) da cidade chega imenso com um caixão numa gôndola, já nos minutos finais.

A associação da cidade com a morte também vem forte em Asas da Pomba, obra-prima do escritor Henry James, que aliás, tem crueldade discreta bem parecida com a de Losey. Os dois são americanos expatriados, mas isso não explicaria a violência sofisticada de suas narrativas.

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Gostei muito do muito imperfeito Maria Antonieta, de Sofia Coppola. No momento, tentando pôr idéias em ordem sobre o filme. Longe de ser maravilhoso, é ainda assim extremamente estimulante, levanta muitas questões, dá vontade de discutí-lo.

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Brinde: Jeanne Moreau canta Le Tourbillon de La Vie, em Jules e Jim.

terça-feira, maio 08, 2007

Guerra e humanidade

Estava no meio de uma sessão tripla sobre Leste Europeu e Segunda Guerra. Já havia visto Trens Estreitamente Vigiados, de Jiri Menzel, e A Ascenção, de Larissa Shepitko. O primeiro é tcheco, de 60 e poucos, vencedor do Oscar de filme estrangeiro. O segundo venceu Berlim em 76 ou 77, russo. Talvez entre em detalhes sobre eles depois. O que vale dizer é que são emocionalmente muito exigentes, e não quis passar direto para o terceiro da lista, Vá e Veja, do também russo Elem Klimov, marido da Sheptiko.

Pois bem, resolvi fazer um intermezzo com Lola, de Jacques Demy... O diretor é conhecido principalmente por Os Guarda-Chuvas do Amor, um musical todo cantado com Catherine Deneuve, vencedor da Palma de Ouro em Cannes no mesmo ano em que Deus e o Diabo Na Terra do Sol estava em competição. Bom, Fritz Lang, presidente do júri, sabia muito bem o que estava fazendo.

Os Guarda-Chuvas, por vezes tido somente como uma obra lírica e excessiva, tem aquele veneno que transforma todo o cor de rosa de cenários, direção de arte e da música de Michel Legrand em fel puro. Catherine Deneuve tem um namorado, que é convocado para lutar na guerra. Na noite de despedida, eles transam, ela fica grávida e ele parte sem saber. Desaparece, pode ter morrido. Ela casa com outro. Ele volta. Final feliz?

A guerra... Fujo da guerra do leste europeu e vou logo em direção a Demy! Ela também estava lá em Duas Garotas Românticas, como pano de fundo. Já disseram que Minnelli usava o excesso técnico de seus filmes para reconstruir o mundo doente, refazê-lo ao seu prazer. Essa qualidade cabe a Demy. A doçura cheia de cicuta também está em Lola.

Nas historinhas desta falsa comédia romântica, Lola é a personagem do título, mas não a principal. Quem protagoniza o filme é seu amigo de infância Roland. Lola ficou grávida de um homem que a deixou para fazer fortuna, e nunca mais voltou. Roland poderia estar lá no momento, revelar seu amor e ajudar a mulher desamparada. Foram separados pela guerra. Uma personagem com quem Roland se envolve ficou viúva. Outro personagem importante é um marinheiro americano, amante de Lola.

A guerra é pano de fundo, mas está lá, inscrita no cotidiano dessas pessoas – talvez não de modo tão perverso quanto em Os Guarda-Chuvas do Amor, mas com poder suficiente para imprimir nessa pessoas o toque de melancolia que Demy precisa para transcender excesso do tratamento que dá a seus filmes.

Assim, Lola faz parte de uma lista muito especial de filmes que mostra com diferentes graus de atenção os efeitos retardados dos conflitos bélicos na vida. Os Melhores Anos das Nossas Vidas, O Franco-Atirador, Conspiração do Silêncio, O Casamento de Maria Braun, Os Girassóis da Rússia... Ou mesmo a cena mais bela de pós-guerra que me lembro agora, os dois velhinhos que reconhecem os traços no campo de batalha nos rostos um do outro, no recente História Real, de David Lynch.

***

Durante o fim de semana, outra sessão tripla: Descalços no Parque, Adivinhe Quem Para Roubar e California Suite, Jane Fonda em três papéis cômicos. Ela atua sempre do mesmo jeito, mas, incrível, os personagens não se repetem. Isso não é tipo, ou limitação – é estilo. Firme, forte, com autoridade. Aliás, falava de pós-guerra. Jane Fonda venceu seu segundo Oscar por Amargo Regresso. No filme, ela interpreta uma mulher que recebe o marido do Vietnã paralítico. Não vi ainda.

domingo, maio 06, 2007

Jane Fonda

Depois de 15 anos parada, Jane Fonda voltou recentemente ao cinema com A Sogra. Não vi, nem quero. Esse ano, outra comédia feminina, Georgia Rule. Deve ser melhor, mas nem tanto. O que importa é que parece (bem, de acordo com o trailer) que teremos a velha presença da Hanoi Jane.

Nem conheço tanto sua carreira, mas, nos filmes que vi, fiquei impressionado com seu poder de intimidação. Cena a cena, ela parece sólida como uma rocha, invulnerável. Ao mesmo tempo, ameaça destruir tudo à volta. Mesmo em comédias. Talvez por isso são tão impactantes os minutos finais de A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack.

Sem mais tempo, deixo uma amostra de 41 segundos de Klute, o Passado Condena, que uma boa alma colocou no YouTube. Volto ao assunto depois.

quarta-feira, abril 25, 2007

Preferidos

Sem tempo para postar, mas encaminho uma coisa que fiz para o Blog do IBahia. Colocamos nossos livros preferidos, com um texto curtinho. Tanta coisa para dizer, essas paradas nunca dão certo. Segue texto:

Enquanto a Bienal do Livro acontece no Centro de Convenções, nós do IBahia compartilhamos com vocês nossos livros preferidos. Eu, Saymon Nascimento, começo essa brincadeira:

- Judas, o Obscuro, de Thomas Hardy - fascinante romance inglês do século XIX, em que um homem pobre e inteligente passa a vida tentando entrar na universidade. Tem um dos momentos mais forte que já vi num livro - Judas, o protagonista, tenta inabilmente abater um porco. A cena se alonga, o porco sangra, em lento desespero.

- As Asas da Pomba, de Henry James - Uma garota em busca de ascenção social aproxima o amante jornalista sem dinheiro de uma milionária com doença em fase terminal. Se tudo der certo, ele leva a herança. Brilhante jogo de manipulação emocional.

- Os Maias - Episódios da Vida Romântica, de Eça de Queirós - O clássico menos valorizado de Eça, redescoberto depois da minissérie da Globo. O enredo é conhecido - Carlos e Maria Eduarda não sabem que são irmãos e se apaixonam. Nas entrelinhas, a observação em ritmo lento do escritor português sobre como as pessoas levam a vida, e como o tempo atenua mas não cura certas cicatrizes.

- Os Sertões, de Euclides da Cunha - Este relato da Guerra de Canudos busca uma tridimensionalidade dos acontecimentos que não é somente a do jogo terra, homem e luta. É a perseguição da profundidade em cada descrição, em cada mínimo evento, para desencavar no sangue derramado os rastros de séculos de injustiça. Difícil, mas indispensável.

- O Destino Bate à Sua Porta, de James M. Cain - Seminal novela dos anos 30, uma das responsáveis pelo auge artístico do romance policial norte-americano. Cain deixa de lado os detetives particulares e se aproxima dos assassinos Frank e Cora, párias em busca de uma vida melhor. Violento, rápido e sensual, influenciou escritores do porte de Albert Camus.

Boa leitura.

Clique aqui para ler os preferidos de Moacyr Scliar, Elisa Lucinda, Nelson Motta entre outros.

E fiquem com esse vídeo legal. Um cara com cara de francês cantando no violão "Que reste t-il de nos amour?", clássico de Charles Trenet. Para cinéfilos, essa música foi eternizada em Beijos Proibidos de Truffaut, um dos filmes mais simpáticos e românticos da história. Esse cara cantando me lembra Truffaut também - parece que o vídeo foi feito para uma namorada. Tive até uma idéia de roteiro. Garoto e garota num curso de francês, o cara apresenta Truffaut para a garota com essa música. Bem besta - mas se conseguisse um tom remotamente Beijos Proibidos, já valeria a pena.



domingo, abril 15, 2007

Sem padrão de qualidade

Imagino a dona de casa insone e o marido dorminhoco. Hebe na tv, fazendo propaganda de Hipoglós. Onze e meia, a chamada do SBT Realidade. A breve pergunta na cama de casal: “Será que é Ratinho imitando o Linha Direta?”. Desamparada pelo título e pela posição incômoda na grade inconstante do canal de Silvio Santos, entra no ar o segunda edição do programa de Ana Paula Padrão, depois de abandonar a bancada do telejornal do horário nobre.

Ao invés de programa popular indignado, a empolgante aventura de James Bond para falar sobre aquecimento global. Somente um repórter na tela nos dois primeiros blocos, Marcelo Torres. Ele começa em Davos, na Suíça, e até o fim do programa terá passado por França, Inglaterra, Alemanha, Etiópia e Ilhas Maldivas e Índia. Ana Paula, editora-chefe, fica num estúdio cheio de telas de TV, bonito até, mas na incômoda posição de parecer coadjuvante no próprio programa. Parece a M de Judi Dench.

O ritmo do programa é pretensamente espetacular, por isso, demasiadamente apressado. A apresentadora-editora faz a “cabeça”, introduz o repórter, mas continua offs intermináveis cobertos por infográficos e imagens de agência. De pára-quedas, a passagem do repórter. Sem parar de falar, este cobre com sua voz todas as entrevistas. Os personagens não são identificados, nem ouvimos sua voz. O cara branquelo é o engenheiro alemão; o negro é o taxista indiano. Só.

Esse andamento vertiginoso mascara bem o mau jornalismo. Por mais editado que o programa seja, o todo me lembra um espetáculo teatral. O personagem aparece para sua passagem, e, enquanto troca de roupa para aparecer em outro continente, o off nos distrai. A voz desse off pode ser tanto da apresentadora quanto do repórter. Ana Paula aparece no meio das matérias, como se a narração fosse um dueto musical, ou jogral. Ela briga por espaço sem sair do ar condicionado.

Hipnotizados pelo volume de informação provavelmente bem pesquisado no Wikipedia, o casal que estava vendo Hebe talvez tenha a impressão de estar vendo um programa didático. Que nada, pura encenação. Tanto lugar do mundo, tanta milhagem, e pouco sabemos dessas pessoas e cidades. Ao mesmo tempo, o Repórter Record exibia em levada muito mais careta um programa sobre tráfico de drogas. Parte era bem careta – pessoas falando sobre como foram destruídas pelo vício. Paralelamente, uma calma e bela reportagem sobre os plantadores de coca na Bolívia, editada com uma precisão tão clássica que era possível sentir a altitude dos Andes.

Tanta pressa e vontade de mostrar a Silvio Santos que dinheiro está sendo gasto nesse SBT Realidade é ainda mais terrível pelo histórico de Ana Paula Padrão. Depois da geração de Pedro Bial e Roberto Cabrini (ambos na fila do hospício, hoje em dia), ela foi a correspondente internacional mais importante do telejornalismo brasileiro nos últimos dez anos. Tinha a sempre saudável vontade jornalística de ver gente e conhecer histórias que lhe fazia superar as materinhas com a Torre Eiffel ou a Ponte de Londres de fundo, ou, ainda pior, o terraço do prédio da Globo em Nova York.

Lembro especialmente da belíssima reportagem em duas edições do fantástico, sobre a Guerra do Kosovo. Estava lá em tom grave mas não sensacionalista o horror do conflito e a conseqüência na vida de pessoas comuns. Ela trocou o ataque/contra-ataque dos discursos pela história de uma família separada na ocasião. Muito bem assessorada, conseguiu reunir os dois grupos perdidos – um havia ficado em Kosovo, outro conseguiu fugir para os Estados Unidos, se não me engano. Tudo isso sem o tom sensacionalista-urgente-moderno da trilha sonora de sua empreitada no SBT. Vamos ver se melhora.

quinta-feira, abril 12, 2007

300, um filme que banaliza a tragédia do mundo atual

Arnaldo Jabor, especial para Esperando Godard*

Ninguém escreveu nada sobre esse matadouro kitsch que é o maior sucesso de bilheteria da América? Ninguém se incomodou com o espetáculo brutal que o filme 300 nos oferece? Será possível que, com o chamado 'fim das ideologias', os críticos fiquem constrangidos de condenar o óbvio, que esse filme só tem o objetivo de nos vender um show de decapitações e estripamentos, com corpos esquartejados em câmera lenta, se aproveitando de um fato histórico para legitimar uma picaretagem sangrenta? Hoje, ficou feio para a crítica colocar um freio ético aos filmes. 'Ah... na pós-modernidade, seria ideologismo de minha parte...' Não. Uma das funções principais da crítica é a localização e a defesa do 'humano'; é a denúncia da traição às conquistas da razão. Já se criou também nas bordas da cultura de massas uma periferia 'cult', com seu panteon de intocáveis: 'Ahh... porque esse filme é baseado no Frank Miller, o mesmo de Sin City (aquela aula de estripamentos 'cult'). Ahh... porque Will Eisner, ahh... porque o fulano, ahh o Elmore...' E os nomes pingam das boquinhas dos articulistas dos cadernos de cultura. Eu cag... solenemente para Frank Miller. A arte também foi enxotada pelos efeitos tecnológicos da moda: 'Ahhh... foi tudo filmado em blue screen e depois eles puseram as paisagens...' O resultado é uma ridícula folhinha de coloridos kitsch, pores-do-sol tingidos de lirismo cafajeste, penhascos góticos laranjas e azuis, trigais românticos, tudo para ornamentar o grande campo de concentração, o 'Auschwitz' digital do desfiladeiro. Muita gente boba pensa: 'Ahh... que efeitos lindos...' Não são. São horrendas aquarelas de subacadêmicos.

Eu me pergunto: por que a morte vista, nua, os membros voando, as cabeças decepadas, por que isso faz tanto sucesso? Por que o jorro de sangue tem tal poder sobre o público? As hipóteses sociopsicoanalíticas são muitas. Não as quero convocar, pois seria muita colher de chá para esse show vagabundo. Talvez não possa deixar de dizer que há no mundo um voyeurismo banalizador crescente diante da morte violenta, como a nos preparar para o 'horrorismo' que vem por aí, do qual o Iraque, Bush, o aquecimento global, o terrorismo sem trégua já são indícios. Os jorros de sangue parecem orgasmos de um filme pornô de guerra. Temos de tudo no matadouro das Termópilas: há até pilhas e muralhas de cadáveres que evocam nitidamente as valas comuns da 2ª Guerra nos campos de concentração e tudo 'embelezado' com os eternos contraluzes e os filtros polarizadores. É uma vergonha... O mercado tem a capacidade de antever a bosta que vem, a shitstorm que ronda, para fazer pré-vendas. Falo isso porque mais de 100 milhões de pessoas vão ver. Em breve veremos, em vez de protocolos de Kyotos assinados, aparelhos protetores para os ricos se livrarem do aquecimento que vai torrar os miseráveis. Aliás, vocês, jovens, verão, porque eu, graças a Deus, estarei quentinho debaixo da terra.

Na Ilíada, o maior monumento da história da literatura (no Brasil, com a única tradução decente, feita por Carlos Alberto Nunes - Ediouro), há também muita morte e sangue. Mas, lá, escrito há 2.500 anos, em outro contexto, esses momentos não são como o exibicionismo sádico do filme; as mortes são rituais trágicos, com as armaduras caindo com fragor nas lutas dolorosas. Há o pranto, a dor, o amor, há o desespero de Aquiles pela morte de seu amante Patroclos, há a dor de Heitor, tudo é um tratado maravilhoso da uma humanidade que nascia com uma esperança de grandeza ética. No filme, convocam meia dúzia de 'valores' para justificar os espartanos, como defensores da 'tenacidade pela liberdade' parecendo o treinamento dos fuzileiros americanos, representados por uma academia de 300 halterofilistas boçais. Que saudades dos grandes épicos humanistas, como o genial Spartacus ou mesmo Ben Hur, Quo Vadis, tantos...

O massacre sádico é narrado por uma voz off 'clássica', falando em 'glória e coragem' com lugares-comuns que parecem os discursos de Wolfowitz ou Rumsfeld, justificando a invasão ao Iraque ou até indiretas referências ao Irã (a antiga Pérsia, lembram?) Os espartanos, militaristas, totalitários, que seriam os 'republicanos' da Grécia Antiga, são elevados ao ápice da cultura grega, ao contrário de Atenas, onde se aninhavam 'filósofos e pederastas', como diz o próprio Leônidas no filme, ele que parece um paralelepípedo falante. Não há um ator decente entre os americanos.

Sem ufanismo, o único que cria alguma arte é Rodrigo Santoro, que surge numa espécie de alegoria de escola de samba (será que os inspirou?) e que nos passa uma personalidade ambígua, entre a piedade e o ódio, entre delicadeza e violência, uma duplicidade até sexual, diante dos brutos que o olham como ursos boçais.

Os americanos amam o espetáculo da morte, não há dúvida. O 11 de Setembro teve algo de realização de desejo, já previsto nos Godzillas da vida.

Ninguém criticou a violência do filme. Os filmes que foram mais combatidos pela crítica americana como 'violentos' foram os de Tarantino ou o Blade Runner, o genial clássico de Ridley Scott, quando o que se dá é o contrário.

A violência em Tarantino é ilógica, paródica. Para Tarantino, não há mundo real; real para ele são as imagens de sua cabeça de cinéfilo. O cinema comercial de Hollywood transforma a vida humana em clichês ridículos e Tarantino usou os clichês para falar da vida humana. Ele mostra que somos todos clichês. Ao ser cínico e violento, ele expõe nossa ausência de compaixão. Ao adotar o debochado cinismo, ele nos faz saudosos de alguma humanidade perdida. Ao não dizer nada, ele diz tudo.

Tarantino conseguiu poluir a limpeza do mainstream com a dúvida de uma linguagem herdada de Godard e Sergio Leone. Em seus filmes, temos prazer de rir da superficialidade da violência, o que expõe e condena o problema maior da sociedade americana: a violência da superficialidade.

*Texto retirado do Caderno 2 do Estadão de terça. Ah, não vi o filme, mas o texto vale mesmo que Jabor esteja errado sobre 300. Muito boas as opinões colaterais sobre jornalistas, Tarantino, etc,

sexta-feira, abril 06, 2007

Sobre medusas

Leio em Nacocó ferozes restrições de Vítor Pamplona e Diego Damasceno ao posicionamento da crítica baiana em relação a Ó Paí, Ó, de Monique Gardenberg, em cartaz nos cinemas. Sem entrar na procedência dos argumentos de Pamplona e Damasceno – até porque não vi o filme, embora tenha cá minhas desconfianças – prefiro falar da última frase do texto: “A crítica está querendo dirigir o filme”. Se esta afirmação tem tom de repreensão, bom, só posso discordar. Óbvio que a crítica quer dirigir o filme – é sua vocação, razão de ser.

Quando um espectador qualquer sai do cinema (ou do teatro, de um concerto) reclamando da mentira que salva o herói no último momento, o que quem paga o ingresso deseja é que a resolução da intriga fosse realizada de maneira mais convincente. Pode até sugerir ao acompanhante: “na verdade, acho que ele deveria ter feito isso, isso e isso”. Natural.

Com a crítica não é diferente, guardadas as proporções da especialização. Difícil conceber esse freio de passividade que permitiria ao analista expôr o que vê de errado em uma obra de arte sem propôr implicitamente a correção - mesmo que não se saiba exatamente como. Apesar da última frase do texto publicado em Nacocó – se fosse eu, ela não seria publicada -, Pamplona e Damasceno concordam com o que digo ou entram em contradição, afinal de contas, cobram de João Carlos Sampaio justamente a tomada de posição, a indicação do “caminho do meio”.

O crítico não é necessariamente arrogante por fazer proposições para um processo que deve ser realizado de maneira orgânica e sensível. Na verdade, ele tenta preencher os claros (consciente da impossibilidade de “fechar” seu trabalho, se for um bom profissional) provocados da arrogância ou falta de discernimento do artista, por vezes incapaz de entender o que a obra de arte lhe pede. O crítico isolado tenta sem esperanças fazer a reparação de algo já consumado, a obra de arte física que não pode ser alterada sem intervenção do artista. A medusa solitária é um escultor maneta - transforma em pedra, mas não pode dar forma a seu Pigmaleão.

Aí entra a crítica, o coletivo de analistas. Em conjunto, os críticos se não alteram a obra fechada, preparam o terreno para como ela será recebida. Não por acaso, nesse ponto, o erro mais comum é o mesmo dos dois lados: o artista insensível submete a forma ao pensamento de modo desordenado; a crítica molda o produto a sua visão - principal acusação dos autores do texto de Nacocó a Sampaio e Claudio Marques. Se isso procede, como já disse, ainda não sei.

sábado, março 31, 2007

Em algum lugar, eu

Título do post tem a ver com um filme bem ruim e chato que vi de graça na Walter - há três anos, acho. Era uma falação bem intelectual-francesa que não fazia sentido. Travelling vai, travelling vem, um cara levanta exaltado e berra: "Que merda! Cinema é Marcel Carné!". Se fosse hoje, aplaudiria na hora e também deixaria a sala.

Carné é bem difícil de achar, mas ao menos o filme que deixou o diretor na história está disponível em DVD, em dois discos: O Boulevard do Crime. São três horas, divididos em duas épocas. À época do lançamento, a França estava ocupada e havia a proibição para qualquer filme com mais de 90 minutos. Carné rodou no braço, e adotou a tática Kill Bill - parte 1 e parte 2. O corte entre os dois volumes é marcado por uma passagem de tempo na história.



O Boulevard do Crime já foi / talvez ainda seja considerado o maior filme francês de todos os tempos. À primeira vista parece datado, velho, empoeirado, mas não é nada disso. Melhor, é datado sim, feito em moldes pré Cidadão Kane, mas quem se importa? Poucas coisas conseguem ser tão belas.

***

O título. Ele veio porque queria só encaminhar dois textos que escrevi. Para a Nacocó, um mais velho, sobre o número de cinemas em Salvador, que deve aumentar nos próximos anos. Não está uma Brastemp, mas deu muito trabalho, principalmente pela indisponibilidade das fontes. O segundo é dessa semana, para o Coisa de Cinema, sobre o muito simpático novo filme de Woody Allen, Scoop. Para quem leu aquela matéria do Estadão em que o diretor compara Scarlett Johansson a Marilyn Monroe, eu escrevi o texto um dia antes com essa mesma observação!



Traduzindo o título então: em outros lugares, o mesmo escriba do blog.

O filme em questão, aliás, é Em Algum Lugar, Alguém, de Yannick Bellon. Já que falei numa diretora francesa, fica a recomendação de Cléo das 5 às 7, de Agnes Varda, obra-prima disponível em DVD.

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Ouço sem parar a versão de Toni Platão para "Impossível Acreditar Que Perdi Você", clássico da Jovem Guarda. Muito bom.

sexta-feira, março 23, 2007

Sensibilidade e Bom Senso

Por acaso, acabei de achar em uma comunidade do Orkut uma transcrição portuguesa de Abadia de Northanger, romance de Jane Austen que nunca li por falta de acesso. A autora é genial – com tramas que não ficariam mal num livro de banca, ela destila imenso senso de percepção, traduzido em cada palavra. Cada escolha é precisa, não há equívoco. Resultado: a viagem rumo ao sempre inevitável final feliz é feita com prazer absoluto.

Dos quatro livros de Austen que li, meu preferido – e de quase todo mundo – é Orgulho e Preconceito. Tem boa adaptação pro cinema, embora não muito fiel. Keira Knightley e Matthew MacFayden parecem mais saídos de um romance bromteniano, só que sem o melodrama. O texto de Austen pródigo em observações em profundidade dos personagens vira uma excelente comédia chá com biscoito. É bom, mas Austen fazia muito mais. Dominava sua arte (a escrita) com uma precisão que faz o cineasta Joe Wright, empenhado, firme, parecer meio amador. Não é – somente a comparação é injusta.



Razão e Sensibilidade – ou Sensibilidade e Bom Senso, excelente título de Portugal – passou às telas com fidelidade rigorosa. Não exatamente por isso, é um dos melhores filmes da década de 90, dirigido pelo mesmo Ang Lee de maravilhas como Hulk, Tempestade de Gelo e O Segredo de Brokeback Mountain. De Emma gosto menos, ou eu vi muito Clueless na Sessão da Tarde para chegar a me surpreender com a narrativa. Ou talvez já conhecesse todas as qualidades que Austen apresenta, sem muita novidade.

Muito subestimado é Persuasão, que também parte de um desencontro amoroso, mas tece uma relação familiar cínica demais para o que nos acostumamos a ler na autora. Mais uma vez, as irmãs. Agora não são amigas (uma emocional e outra sábia, como em Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade), mas compartilham uma convivência levemente perversa. Uma é linda; a outra, inteligente, mas passiva. E há o pai, incrível, irônico, sutilmente brutal e venenoso, futilmente obcecado pela beleza – que a heroína não tem.

Vamos para Abadia de Northanger, então. Vai furar a minha fila de leitura, que conta com, entre outros, o incensado Reparação, de Ian McEwan. A Inglaterra muda, mas as referências, não. A epígrafe do livre é um trecho da Abadia... Reparação chega esse ano aos cinemas, nas mãos do mesmo Joe Wright de Orgulho e Preconceito.
Leia mais: João Pereira Coutinho na Folha: "Como Jane Austen pode mudar sua vida"

quinta-feira, março 15, 2007

Grandes mestres

Poucos dias depois da entrega do Oscar, o assunto já virou embrulho de peixe, e a única coisa que fica é a desagradável pecha a algum vencedor – para sempre, ilegítimo proprietário de um troféu que não prima pela qualidade de suas escolhas. Este ano, a carapuça parece ter caído infelizmente para Os Infiltrados, de Martin Scorsese, que levou montagem, roteiro, direção e filme. Batata – virou o prêmio de consolação para o diretor, que nunca venceu com as obras-primas pelas quais foi anteriormente indicado: Touro Indomável, A Última Tentação de Cristo & Cia.

Esta última empreitada do realizador pode não ficar no mesmo nível de trabalhos passados, mas é bom desconfiar de outro motivo para essa reação negativa: Clint Eastwood. O ex-astro de western está vivendo a segunda melhor fase de sua carreira, e, com o já clássico Menina de Ouro, bateu no Oscar o suntuoso O Aviador, tentativa anterior de Scorsese de levar a estatueta para casa.


Quem via Menina de Ouro como apenas um melodrama descarado e vulgar tomou a defesa de Scorsese. Uma parte dos amantes do filme de Eastwood passou a invocar a decadência de Scorsese como argumento contra Os Infiltrados antes mesmo de seu lançamento, e mesmo antes de tê-lo visto.

Motivo: os dois diretores voltariam a se enfrentar no Oscar deste ano, já que Clint puxou da última hora Cartas de Iwo Jima da manga. O filme é mesmo magnífico, mas a discussão é frívola. Na semana do oba oba, jornalistas escreveram automaticamente sobre como Os Infiltrados é um filme "menor" e pronto, sem parar pra vê-lo além da carreira do diretor. Também engoliram com facilidade o muito discutível mérito do filme de Eastwood, a humanização do "outro lado". Acho que nem é por aí.

Pessoalmente, acho que Cartas de Iwo Jima excelente, mas a recepção favorável parece já automática, uma vez que Eastwood parece ter preparado terreno não somente com suas duas obras anteriores (descontando aqui A Conquista da Honra – que vê a mesma batalha de Cartas... do lado americano). Ajuda também ter a face de 70 e tantos anos esculpida na pedra, ter feito uma improvável transição de ator cult para diretor artesanal e ostentar aquele ar de outsider discreto-desconfiado-cético tão típico de diretor queridos, quase sempre associados ao faroeste e o filme de ação. Clint seria um último John Huston, Samuel Fuller, Howard Hawks.

Maravilhosamente, Eastwood tem impresso em cada fotograma de seus filmes essa discrição para filmar a sensação estranha e incontornável de envelhecer e ver o passado projetado na sua frente, no que você é, no que fez. É um cinema sem muita alternativa, árido, mínimo, limpo.

Em Cartas de Iwo Jima, dá para lembrar de um episódio na vida de Ingmar Bergman, quando ficou extremamente perturbado com a opinião de um crítico sobre Sonata de Outono. O jornalista escreveu algo no estilo “O filme é Bergman sendo Bergman”, o que correspondia à opinião de que não havia nada especialmente brilhante no filme a não ser o que o diretor sempre colocava em suas obras – visão desolada do mundo e das relações humanas, dramaturgia à prova de fogo, direção de atores soberba. Com isso, Bergman não podia mais errar, mas também poderia cair num piloto automático.

Não é o que acontece com Eastwood desta vez. Ele se propôs a um grande desafio técnico, logístico, humano e político, mas o resultado final me soaria quase que como uma falha, não fosse a presença dessa nobre assinatura Clint, que já garante nível acima da maior parte dos filmes, da mesma maneira que Sonata de Outono era um grande filme.

Curiosamente, a hora em que o diretor parece atirar no próprio pé tem muito a ver com um aspecto muito bem-sucedido em Os Infiltrados. Em ambos os longas, está o interesse de enxergar os dois lados de uma disputa, seja da jogo polícia e ladrão em Boston, ou das trincheiras da segunda Guerra Mundial, mesmo que Eastwood faz isso em filmes separados.

Scorsese abre vantagem justamente pela capacidade de dominar completamente essa intenção. Leonardo DiCaprio e Matt Damon estão fingem estar em posições opostas às reais, e são confrontados não somente numa batalha espetacularmente narrada, mas num jogo de nervos insuportável. Difícil se render a essa pecha de fake que puseram no filme, quando, mesmo trabalhando num filme de ação de alto orçamento, consegue contrabandear (para usar expressão do próprio Scorsese) a confusão emocional que deixa seus personagens sempre à beira da explosão, de New York New York a Cabo do Medo. Esse perigo de explosão, aliás, dificulta qualquer relacionamento duradouro.

Resultado, temos um filme absolutamente balanceado que não somente passa longe de qualquer maniqueísmo, mas deixa no público a perturbadora sensação de não ter muito com o que se pegar. A desconfiança generalizada pode ter vindo originalmente de um filme de Hong Kong (Os Infiltrados é remake), mas casa perfeitamente com a sensação de insegurança coletiva americana. Não se trata de conservadorismo, mas de pânico – como se fôssemos Teresa Wright naquele close-up genial de Hitchcock em A Sombra de Uma Dúvida, descobrindo um monstro em um parente próximo.

Já Eastwood parte para “humanizar o lado japonês”, frase que vai piada tanto pela imprecisão quanto pela repetição por parte da crítica. Que o diretor tenha, num impulso, filmar o ponto de vista do inimigo parece uma decisão interessante, movida pela vontade de não se contentar com explicações rasas, mas ainda assim nada original. A Grande Ilusão, de Jean Renoir, no final dos anos 30, já havia tirado de letra. Gente é gente dos dois lados da trincheira. Qualquer diretor que valha a pena discutir aprendeu a lição.

Pois bem, vai Eastwood filmar os soldados sitiados na ilha de Iwo Jima, com a guerra perdida diante do poder de fogo americano. Humanos todos são, com dor de barriga, saudade de casa e vontade de fugir, mas onde estão as diferenças, o que é particular daquela cultura? Eastwood bem sabe que, praticamente no meio do século XX, o Japão ainda carrega peculiaridades que foram abandonadas séculos antes pelo Ocidente, como o direito divino ao poder. A queda do imperador Hiroíto ao fim da segunda guerra provocou desespero, suicídio.

Uma parte dos soldados da ilha tem comportamento parecido, ainda feudal, baseado na derrota honrosa e na impossibilidade de rendição. Estão opostos ao comandante Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), homem educado e culto que viveu nos Estados Unidos, de visão mais equilibrada. Watanabe nem precisa fazer muito esforço para parecer um Gregory Peck japonês. Daí o equívoco de Eastwood: os soldados mais “radicais” são estupidamente transformados em vilões, fala 100% impostada, olhos firmes e esbugalhados, estilo psicopata. Não entendem a razão do terno comandante.

Filmando o outro lado, a generosidade de Eastwood passa como falácia: ele está com os dois pés bem firmes em seu ponto de vista americano. O diretor parece não entender a natureza mundana das atitudes dos soldados “honrados”. A humanidade só está reservada àqueles que parecem mais modernizados, o estilo de vida feudal parece-lhe incompatível. Pouco razoável para um diretor deste calibre artístico. Talvez, por influência de Sergio Leone, tenha visto demais os magníficos filmes de Akira Kurosawa e se esqueceu de que sua vocação hierática tinha mais a ver com influências ocidentais, como Shakespeare e John Ford.

Ainda assim, sorte de Eastwood que talento seja item fundamental de sua assinatura. Numa abstração da localidade ou da referência política e geográfica do filme, fica a tristeza extrema de uma situação que lhe é muito cara. Mais uma vez, o beco sem saída, mas com fim lento, sofrido, e o tipo de laço estabelecido entre as pessoas nestas situações-limite. É no Japão, mas poderia ser no Álamo, batalha tantas vezes filmada, ou em Canudos. No seu colorido quase preto-e-branco, Cartas de Iwo Jima é mesmo um grande filme. Que suas qualidades não sejam apreciadas às expensas das do filme de Scorsese.

domingo, março 11, 2007

Exilados

Hoje (ontem, na verdade), acabei de ler a segunda parte do Nostromo, de Joseph Conrad. Fiquei um bom tempo à procura de uma cópia, esgotada já já algum tempo. Parece que é sempre assim: quando a gente consegue (cortesia da biblioteca de meu antigo chefe, em amigo oculto de fim de ano!), lançam nova edição. Ainda assim, prefiro a minha, mais sóbria, com páginas levemente amareladas que dão um toque de pergaminho ou mapas marítimos que tem tudo a ver com o autor. (Agora que a Ediouro comprou a Nova Fronteira, tomara que lancem um novo Os Filmes de Minha Vida, de Truffaut, minha prioridade rara neste momento. Quem vir em sebo, me avise).

Por que tinha tanto vontade de ler o Nostromo? Para começar, uma razão cinematográfica. David Lean morreu tentando levantar dinheiro para adaptá-lo, mas não conseguiu financiamento e uma seguradora que aceitasse o risco de ter um diretor octogenário no comando de uma produção complicada e de grande dimensão. Pelas 250 densas páginas que já li, seria material perfeito para o cineasta.

Joseph Conrad

Lean dirigiu meu filme preferido de todos os tempos, Lawrence da Arábia, exaustivo épico de quatro horas sobre a trajetória do tenente inglês (já ouvi dizer que ele nasceu no Brasil, em Botucatu, SP; o Wikipedia desmente) T.E. Lawrence tentando unir os povos árabes durante a Primeira Guerra Mundial. Em outros de seus grandes filmes, o “ser estrangeiro” é fundamental: A Ponte do Rio Kwai, sobre soldados ingleses sob domínio japonês na antiga Birmânia, durante a II Guerra; Passagem Para A Índia, magistral adaptação de E.M. Forster sobre o comportamento da comunidade inglesa em contato com os mistérios do país asiático; Summertime, pequena crônica de uma secretária americana solteirona, aprendendo o que é paixão, amor e sexo em Veneza.

Mesmo em Desencanto, sufocadamente narrado em Londres, após o desenlace de um adultério, o médico decide trabalhar na África. A mesma atitude do Lord Jim, de Conrad, a quem a lembrança do fracasso impede o fortalecimento de raízes em qualquer lugar. Pela afinidade de tema, Lean faria um grande Nostromo. Tanto ele quanto Conrad têm imenso interesse na sensação de exílio.

O que nos leva ao motivo número 2: a vida do próprio Conrad. Mais detalhes no Wikipedia, mas sempre me atraiu saber o que alguém com sua trajetória escreveria. Nascido na Ucrânia de família polonesa, entrou para a marinha britânica e foi ver o mundo, da Venezuela até a Indonésia. Lord Jim, é um grande livro que traz esse ponto de vista sobre a Ásia; Nostromo seria um produto das vivências na América Latina.



David Lean

Isso tudo me faz pensar que na verdade, há uma única razão geral para que esteja atraído pelo livro. Trata-se de uma afinidade e vontade que eu mesmo tenho de ler/ver tudo sobre esse tema, o exílio. Meu escritor favorito é Henry James, o mestre americano que foi viver na Europa, mas não deixou de ser apátrido – aqui, acolá, nunca à vontade. James escreve sobre “incidentes internacionais”, histórias de desencontro de mentalidades que se refletem discreta e poderosamente em sentimentos como amor, paixão e arrependimento.

Também me interessei imediatamente por Graham Greene pela sua história: inglês, espião, jornalista de guerra, autor de dois livros que gosto muito, O Americano Tranqüilo e Fim de Caso, e de outros que quero muito ler. Hemingway também, Camus. E Truman Capote, super-elogiado por A Sangue Frio, mas autor cujas obras-primas estão em histórias curtas, como os relatos de viagem de “ A Cor Local”, disponíveis na compilação Os Cães Ladram. Qualquer dia desses, digito o capítulo sobre Tânger.

No cinema, nem se fala- dos já citados filmes de Lean a várias obras de Howard Hawks e John Huston. Paraíso Infernal, Uma Aventura na Martinica (adaptado de Hemingway), de Hawks; Uma Aventura Na África, O Diabo Ri Por Último (roteiro de Capote), de Huston. Os três últimos, aliás, com Humphrey Bogart no papel principal. Deve ser isso - ser exilado exige curtimento da carne, mente aguçada, esperteza, o tipo de coisa que compõe personagens muito interessantes, anti-heróis. Claro, colocar Casablanca nesta lista Bogart. E não esquecer de O Salário do Medo, de Henri Georges Clouzot, único filme da história a passar em Berlim e Cannes e levar para casa tanto o Urso quanto a Palma de Ouro. (Tudo isso disponível em DVD).

John Huston: impressão minha ou dá para ver a marca de exilado na cara desses três?

(Claro, vários desses caras são jornalistas ou seus livros/filmes tem protagonistas que exercem a profissão. Resquícios de uma visão meio romantizada sobre o jornalismo, o "ser correspondente", expertise que deve exigir muito jogo de cintura e poder de observação. Conte aí Euclides da Cunha e seu fundamental Os Sertões - quem me apresentar livro brasileiro melhor ganha eterna consideração)

Enfim, depois desse name-dropping, todos ficam sabendo: este é um tema que me atrai. O Nostromo? Até agora, maravilhoso, mas livre que exige atenção extrema. Não é algo que se leia em busca de aventura, e sim de poder de observação, de escrita em entrelinha. Muito pouco “narrativo”, por sinal. Demora e muito para que ele saia de um panorama geral (geográfico, até) sem fixar tempo nem personagens como nossos cicerones em Sulaco, a cidade fictícia que é centro do livro. Leio devagar, às vezes a conta-gotas, mas com grande prazer.

quarta-feira, março 07, 2007

Cinema cantado

Vi agora há pouco Dreamgirls, de Bill Condon. Ele dirigiu Kinsey, escreveu Chicago, que é bom. Dreamgirls, não. Cansa. Como um DVD Mariah Carey encontra Whitney Houston, mas com música provavelmente melhor. Galera canta muito, especialmente Jennifer Hudson, mas esse não é exatamente o tipo de música que que me prende por duas horas e dez minutos. Para quem gosta, sugiro comprar a trilha. Filme é número musical atrás do outro, estilo coletânea de clipes (em cima do palco, quase sempre), e que não tem nem a coragem de ser todo cantado. Tudo que é falado aqui é desnecessário, não somente pela bobeira da trama, mas porque, em várias situações, músicas substituem diálogos.

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Musical todo cantado é Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy. Venceu a Palma de Ouro em Cannes, quando o presidente do júri foi Fritz Lang (Metropolis, M - O Vampiro de Dusseldorf), batendo Deus e o Diabo na Terra do Sol, merecidamente. Música sem parar, colorido intenso, uma paixão quase água-com-açúcar. Que filme venenoso. Num golpe genial de roteiro, o amor é interrompido pela guerra. Fica tudo tão imensamente triste. Melancólico. O cara volta da guerra, mas não espere final feliz. E a sinfonia não pára.

segunda-feira, março 05, 2007