sábado, janeiro 27, 2007

Agora vai

O ator do melhor filme da história está de volta com uma vingança. Clica na foto.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Yakult não quer dizer "saúde"


Quem manda não checar as informações. Graças a uma nota de alguma revista VIP Exame antiga, repeti durante muito tempo que Yakult significa "saúde" em esperanto. Contei isso pra Tiago no sábado, e não é que ele escolheu essa curiosidade como título de um post? Fui verificar na internet, e só achei informação semelhante em um lugar. Em todos os outros sites, Yakult significa, obviamente, iogurte.

domingo, janeiro 14, 2007

Play it again


Enquanto tomava café, vi um trecho de Páginas da Vida. Mal olho para a televisão, mas desta vez, surpresa: Marta (Lília Cabral), uma vilã escrota – me informam as capas de revistas – chorava com o reencontro de Ilsa e Rick em Casablanca. Ilsa (Ingrid Bergman) entra no bar e vê o velho conhecido pianista Sam, e lhe pede As Time Goes By.
Depois de hesitar, Sam toca e canta a canção. Rick (Humphrey Bogart), o dono do bar, repreende Sam – As Time Goes By é tabu, música proibida que embalou o romance com Ilsa em Paris, anos antes. Rick então percebe a velha amada, com os olhos explodindo de brilho, sobe a música incidental de Max Steiner. Abaixo, a troca de olhares neste momento:


Cena linda, mas incapaz de fazer alguém chorar na primeira vez que a vê. A essa altura do filme, ainda não se sabe do passado de Ilsa e Rick juntos. Por isso, vários críticos já disseram, este momento é mais forte a partir da segunda vista. Passamos a compartilhar o segredo deles dois. As notas de As Time Goes By já nos remetem à linda história de amor que, na montagem do filme, só aparece por volta dos 50 minutos, depois de um longo flashback, introduzido fotogramas depois da seguinte imagem:


Falei no post anterior do clássico romântico Carta de Uma Desconhecida, de Max Ophuls. O roteirista desse filme é Howard Koch, vencedor do Oscar por Casablanca, em cuja equipe se integrou especialmente para construir o flashback em Paris. A viúva Ilsa amou Rick, com quem planejou uma fuga. Os alemães invadem a cidade: “Será um canhão, ou meu coração batendo?”. Horas mais tarde, Ilsa descobre que o marido militante da resistência estava vivo. Rick ficou esperando na estação de trem, com uma carta que nada explicava.
A frase do canhão é célebre, mas a maior parte das outras citações brilhantes de Casablanca é de responsabilidade dos irmãos Epstein. Foram eles que construíram o clima cínico da cidade marroquina, onde todos os personagens têm língua afiada. Falas sensacionais: “Sou um pobre policial corrupto”,“Como líder das atividades ilegais em Casablanca, sou um homem influente e respeitado” ou a trágica “Os alemães vestiam cinza; você estava de azul”, lembrança de Rick da última vez que viu Ilsa.
O nariz de cera é para avisar que Bogart completa 50 anos de morto neste domingo. Leia mais aqui.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Caminhos do melodrama


Dentre as pessoas que conheço, todas que viram se emocionaram com Tarde Demais Para Esquecer, melodrama dos anos 50 com Cary Grant e Deborah Kerr. Eles se conhecem em um navio, onde desfrutam de belo romance. Ao fim da viagem, marcam encontro no alto do Empire State Building, dentro de seis meses. Precisam do tempo para rearrumar suas vidas. Na data marcada, ela não aparece. Foi atropelada quando se dirigia ao prédio.

Tarde Demais Para Esquecer

Profissional e competente, Tarde Demais Para Esquecer tem horda feroz de fãs, liderados pela cineasta Nora Ephron. Em seu longa mais famoso, Sintonia de Amor, Nora dedicou alguns diálogos para homenagear o “clássico”, filme preferido da personagem de Meg Ryan. No Oscar seguinte, Deborah Kerr, seis vezes perdedora na categoria melhor atriz, recebeu prêmio especial.
Não estou incluído no grupo de adoradores deste melodrama. Há certa inadequação nos astros. Grant tem sempre a dose certa de charme engatilhada para a hora exata, mas só rende completamente em papéis cômicos, onde consegue chegar aos níveis de cinismo adequados a sua personalidade. Bom exemplo é sua participação em Cupido é Moleque Teimoso, do mesmo diretor Leo McCarey. Kerr é boa, e só. Ainda não havia chegado nos limites dramáticos de Pelo Amor de Meu Amor, adaptação de Fim de Caso, de Graham Greene. A lembrança da Sarah Miles de Kerr praticamente empalidece todos seus outros personagens.
Fora isso, o filme é correto. Taí o problema: para quem não tem afeição especial por esta fórmula eficiente, Tarde Demais Para Esquecer passa como desfile apático e nota dez da Imperatriz Leopoldinense. Melodrama, gênero problemático, só gosto quando sai da linha e toma direções inesperadas, seja na trama ou na condução. Claro, isso é uma idiossincrasia. Exemplo: gosto de faroestes de qualquer jeito, tradicionais ou revolucionários. Melodramas precisam de “um plus a mais”.
Na verdade, os melhores melodramas não sabem que são. Exemplo: Um Certo Capitão Lockhart ou Winchester 73, de Anthony Mann, tirando a cota de índios e tiroteios, não deixam de ser tragédias familiares. Aliás, o tratamento estóico de diretores de westerns sempre funciona nos melos. Ao invés da música alta, contenção para delinear os sentimentos. Vide: As Pontes de Madison, de Clint Eastwood, ou Brokeback Mountain, de Ang Lee, histórias de amor sem notas de excesso.

Celia Johnson e Trevor Howard em Desencanto: um grande amor acaba quando o trem chega; uma amiga aparece e atrapalha a despedida.

A receita, aliás, também é bem usada por diretores ingleses. O grande David Lean fez de Desencanto o clássico do adultério inglês, mudo e abafado numa estação de trem. James Ivory, no seu melhor momento, fez Vestígios do Dia, sobre o amor de um mordomo pela governanta de uma casa nobre, relacionamento perdido numa névoa de obrigações sociais e senso de dever. O livro no qual é baseado, de Kazuo Ishiguro, também é magnífico. Nos Estados Unidos, coisa muito parecida no duo Edith Wharton e Martin Scorsese em A Época da Inocência.

Dorothy Malone e Rock Hudson, atores da exemplar frieza de Douglas Sirk

Ainda mais interessante, embora não exatamente melhor, é o cinema de Douglas Sirk e R.W. Fassbinder. Usam todos os artifícios chavões do gênero, como música alta e apelo ao fake em direção de arte e figurinos excessivos, mas seus filmes parecem obter justamente o efeito contrário: o mínimo de emoção. Coisas como Palavras ao Vento ou O Desespero de Veronika Voss se vestem de inofensiva pele de cordeiro para analisar com bastante crueldade seus objetos de interesse: para Sirk, família; para Fassbinder, as relações pessoais na Alemanha diante do fundo político pré pós e durante o nazismo.
Em direção diversa da contenção ou do excesso estéril, o melodrama que quer realmente emocionar, mas a dosagem dos elementos do gênero é tão desproporcionalmente grande que os filmes parecem dizer muito mais do que o que está na tela. Exemplos deste tipo de viagem pessoal: Moulin Rouge e Romeu + Julieta, de Baz Luhrmann, brilhantes histórias de amor, mas também filmes eloqüentes sobre entretenimento e arte.

Tony Leung e Maggie Cheung em Amor à Flor da Pele

Reunindo um pouco destas três tendências, Wong Kar-Wai, autor de apaixonados e contidos romances, filmados com linguagem artificial e fake, que por vezes parece falar muito mais sobre nostalgia e memória do que sobre relações amorosas. Em território parecido, o deslumbrante formal de Max Ophuls, cineasta extremamente apaixonado pelos alucinantes movimentos de câmera, mas com sensibilidade apurada o suficiente para não tornar seus filmes estéreis exercícios de estilo. Ophuls fez com Carta de Uma Desconhecida o maior melodrama que já vi.

Joan Fontaine e Louis Jordan na obra-prima Carta de Uma Desconhecida

Todos estes caminhos são alternativas ao profissionalismo mediano de Tarde Demais Para Esquecer. Claro, que não se considere este texto uma dispensa do filme de McCarey somente baseado em comparações com outras coisas. É tudo questão de preferência. Maçãs, laranjas. Há quem enxergue o sublime na boa execução de Tarde Demais Para Esquecer. Eu fico aborrecido.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Amendoeira


Gosto muito do MPBismo dos Los Hermanos. Ao contrário de vários amigos, não acho o 4 chato. A combinação de mar, morenas e barcos rende excelentes letras, que podem não bater as do Ventura, mas hipnotizam com seu nível de elaboração. Adoro o efeito sibilante de “Condicional”, cheia daquelas seqüências de palavras com “s”: doces deletérios, asas nos teus pés. As palavras complicadas de Paquetá, ou o epicismo de Dois Barcos – à primeira vista, entediante, logo arrebatadora. A suavidade do ritmo novo, menos roqueiro, casa perfeitamente com a agradável maresia do disco.


Isso tudo é pra dizer que não consigo entender a aclamação de Amendoeira, composição de Marcelo Camelo para seu tio-avô Bebeto Castilho, escolhida por Daniel Piza como a melhor do ano. Música bonita, mas dessa vez parece realmente que Camelo caiu num “bom gosto” estranho, no pior sentido – o que justificaria uma gravação de Emílio Santiago, por exemplo. Apesar de suas qualidades, Amendoeira é a real merecedora das restrições que a maioria das músicas do 4 recebe injustamente. Para escutar a música, clique aqui.

terça-feira, dezembro 26, 2006

No Calor da Noite


Quem observa os links à direita já sabe que não escrevo mais para o Drops de Anis, e agora faço parte do Coisa de Cinema. Ainda não produzo a quantidade de textos que gostaria, mas já estão postadas impressões sobre alguns filmes. Por esses dias, tento escrever sobre Miami Vice, o melhor filme que vi este ano, e que acabou de sair em DVD. Nessa luta, fui atrás de Fogo Contra Fogo, filme de Michael Mann produzido em 1995.


Heat (seu título original) é famoso pelo raro encontro Al Pacino – Robert De Niro, polícia e ladrão numa complexa trama em Los Angeles. Épico de três horas, por incrível que pareça, me lembra Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Mais do que os tiros e perseguições, Heat dá importância às tentativas de administrar vida privada com atividades profissionais desgastantes, nas quais a morte é o básico da rotina – e sempre sobra um crime brutal pra dar a dose extra de estresse. Na noite de Natal, a cena do tiroteio na saída do banco me deixou transtornado. Não há nada de apologético àquela violência. A cena pode cumprir sua função narrativa num filme policial, mas Mann faz cada tiro ser sofrido. Nenhuma morte é gratuita, e o impacto é imenso.
Pacino é perfeito, De Niro também, perdidos em complicações afetivas em L.A., mas o filme é forte em humanidade até o último coadjuvante. Impressionante, neste aspecto, a eloqüência com que Mann destrincha as diversas relações amorosas dos homens com suas companheiras. Pacino tanta segurar as pontas do casamento; De Niro quer uma mulher para dividir a folga que vai conseguir por meio do grande assalto; e assim sucessivamente. Talvez daí a semelhança entre as obras de Mann e Anderson: são grandes painéis de pessoas em crise emocional. Se para Mann importam os laços conjugais, Anderson se interessa por ligações paternais. A força é de suas produções é a mesma.
Aliás, Mann também é magistral na construção da amizade entre os integrantes de cada grupo. Policiais e bandidos são quase espelhados. A cena em que os dois líderes conversam sobre o futuro num café e o final maravilhoso me lembram algo saído de algum clássico samurai.

sábado, dezembro 16, 2006

Esse desespero é moda em 75


Essa semana foram divulgados os indicados ao Globo de Ouro, sinal que o Oscar tá chegando. Coisa mais fácil do mundo é detonar a premiação, antro de frivolidades, gênios esnobados, vencedores medíocres. Tudo a ver, mas isso só vale de uns 25 anos para cá, quando os únicos "best picture" que são/serão clássicos não enchem uma mão: Os Imperdoáveis e Menina de Ouro, de Clint Eastwood, talvez Amadeus, de Milos Forman.

Os Imperdoáveis ganhou o Oscar em 1993

Antes disso, pode-se reclamar do pouco caso com Hitchcock, Kubrick e Altman, mas esse último tem razão: “ A Academia gosta de sapatos, e eu vendo luvas”, ou algo assim. Enfim, questão de adequação ao espírito da coisa. Quem pode reclamar da rejeição de Psicose quando uma obra-prima absoluta como Se Meu Apartamento Falasse é consagrada no mesmo ano?
Vendo no IMDB algumas premiações, os anos 70 provavelmente foram os mais corajosos, entre vencedores e indicados. O Poderoso Chefão 1 e 2, Operação França, Um Estranho no Ninho, Perdidos na Noite, Noivo Neurótico Noiva Nervosa, O Franco Atirador venceram o prêmio principal. Laranja Mecânica, Barry Lyndon, Um Dia de Cão, MASH, Cabaret, A Conversação, Tubarão, Gritos e Sussurros, Rede de Intrigas, Taxi Driver, todos finalistas de melhor filme. Isso sem contar com os premiados na categoria filme estrangeiro: Fellini, Kurosawa, Buñuel, Costa-Gavras, Truffaut.

O Poderoso Chefão ganhou o Oscar em 1973

Pode não ter sido a melhor década do Oscar, mas nunca filmes difíceis e autorais foram tão premiados. O melhor desses anos foi 75, premiação referente ao ano anterior. Basta pôr a lista de direção: Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão Parte 2; Bob Fosse, Lenny; Roman Polanski, Chinatown; François Truffaut, A Noite Americana; John Cassavetes, Uma Mulher Sob Influência. Ano seguinte: Milos Forman, Federico Fellini, Robert Altman, Stanley Kubrick e Sidney Lumet. Sensacional, mas a década teve, para compensar, duas das piores vitórias da história. Rocky e Kramer vs Kramer bateram Taxi Driver, Rede de Intrigas, Apocalypse Now e All That Jazz. Aliás, depois de Kramer, começou o período negro do Oscar, que jamais conseguiu se recuperar. Não somente a qualidade dos filmes diminuiu bastante, mas o prêmio não consegue valorizar as pérolas que aparecem ocasionalmente – claro, pérolas acessíveis, nada muito experimental, já que a Academia gosta de sapatos, é bom lembrar. Só assim para entender a predileção por Crash em prejuízo da delicadeza espetacular de Brokeback Mountain ou atordoamento político de Munique.

O Segredo de Brokeback Mountain não ganhou o Oscar de 2006

Melhor coisa para fazer com o Oscar. Pegar listas antigas e ir vendo os filmes premiados e indicados. O catálogo é muito bom. De 80 para cá, a saída é ignorar e tentar se divertir com a festa, que já se sabe, tem muito pouco a ver com qualidade cinematográfica.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Douglas, Minnelli

Kirk Douglas chegou aos 90. No final deste post, a mensagem de aniversário. Antes disso, queria lembrar que ele é muito mais do que um movie star. Participou de filmes magníficos como Glória Feita de Sangue, de Kubrick, e Fuga ao Passado, de Jacques Tourneur, mas foi ator maior que a vida pelo menos duas vezes: em Chaga de Fogo, de William Wyler, e Sede de Viver, de Vincente Minnelli, interpretando Van Gogh. A força e a intensidade de espírito exibida nestes papéis tem tudo a ver com a conclamação de aniversário.

Sede de Viver

Falei em Vincente Minnelli, permitam-me mais uma digressão. Estava meio entediado neste sábado com Um Dia em Nova York, de Gene Kelly e Stanley Donen, quando a lembrança de outro filme entrou na minha cabeça, e não saiu mais. A Lenda dos Beijos Perdidos é um filme nada perfeito. Música imemorável, dança sem ritmo, mas é de uma melancolia intolerável. Gene Kelly encontra por acaso uma passagem secreta para um vila escocesa parada no tempo, há 200 anos. Essa passagem só é aberta uma vez a cada 100 anos – e Kelly fica perdido de amor por Cyd Charisse, mas não pode vê-la nunca mais depois que o portal é fechado.

Gene Kelly e Cyd Charisse: felicidade com hora marcada para acabar

Esqueça Em Algum Lugar do Passado. Esse falso musical de Minnelli é mais uma prova de seu refinadíssimo tato para melodramas. No auge da depressão, Kelly chega a infernos dificilmente tocados pelo diretor em filmes até mais redondos, como Deus Sabe Quanto Amei, Assim Estava Escrito e o já citado Sede de Viver. Muitíssimo subestimado.
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Kirk Douglas Editorial for His 90th Birthday, Saturday, December 9th
LOS ANGELES, Dec. 8 /PRNewswire/ -- My name is Kirk Douglas. You may know me. If you don't ... Google me. I was a movie star and I'm Michael Douglas's dad, Catherine Zeta-Jones' father-in-law, and the grandparents [sic] of their two children. Today I celebrate my 90th birthday.
I have a message to convey to America's young people. A 90th birthday is special. In my case, this birthday is not only special but miraculous. I survived World War II, a helicopter crash, a stroke, and two new knees.
It's a tradition that when a "birthday boy" stands over his cake he makes a silent wish for his life and then blows out the candles. I have followed that tradition for 89 years but on my 90th birthday, I have decided to rebel. Instead of making a silent wish for myself, I want to make a LOUD wish for THE WORLD.
Let's face it: THE WORLD IS IN A MESS and you are inheriting it. Generation Y, you are on the cusp. You are the group facing many problems: abject poverty, global warming, genocide, AIDS, and suicide bombers to name a few. These problems exist, and the world is silent. We have done very little to solve these problems. Now, we leave it to you. You have to fix it because the situation is intolerable.
You need to rebel, to speak up, write, vote, and care about people and the world you live in. We live in the best country in the world. I know. My parents were Russian immigrants. America is a country where EVERYONE, regardless of race, creed, or age has a chance. I had that chance. You are the generation that is most impacted and the generation that can make a difference.
I love this country because I came from a life of poverty. I was able to work my way through college and go into acting, the field that I love. There is no guarantee in this country that you will be successful. But you always have a chance. Nothing should interfere with it. You have to make sure that nothing stands in the way.
When I blow out my candles -- 90! ... it will take a long time ... but I'll be thinking of you.
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sexta-feira, dezembro 01, 2006

Um Grande Garoto / Novembro

Estou sem tempo para escrever com calma. Apelo para a fórmula de Nick Hornby (nunca li) e posto três top-5.

Hoje, 1 de dezembro, é aniversário de Woody Allen. Ao contrário da maioria das pessoas, acho a década de 90 do diretor excelente. Sua carreira parece que só desandou entre Trapaceiros e Melinda e Melinda, e nem tenho tanta certeza, porque perdi o recheio dessa parte supostamente ruim: Igual a Tudo Na Vida, O Escorpião de Jade e Dirigindo no Escuro. Na minha escala Woody, os dois primeiros se afastam dos seguintes, e Mariel Hemingway e o diálogo final acabam desequilibrando a favor de Manhattan (embora o desfecho ao som de What's This Thing Called Love em Maridos e Esposas seja de uma crueldade infernal).

5 – Tiros na Broadway
4 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
3 – Desconstruindo Harry
2 – Maridos e Esposas
1 – Manhattan


Mariel Hemingway, neta de Ernest: "É preciso confiar nas pessoas"
Criador de grandes papéis femininos, Allen quase sempre trabalhou com um grupo fixo de atrizes, duas delas, “musas na tela e na vida real. As cinco melhores interpretações em seus filmes.

5 – Gena Rowlands, A Outra
4 – Dianne Wiest, Tiros na Broadway
3 – Diane Keaton, Um Misterioso Assassinato em Manhattan
2 – Geraldine Page, Interiores
1 – Judy Davis, Maridos e Esposas

Judy Davis enlouquecendo.

Agora, meu top 5 mensal. De vinte e nove filmes vistos em novembro, destaco:
5 - Curva do Destino, de Edgar Ulmer

4 - O Criado, de Joseph Losey

3 - Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah

2 - A Mulher Infiel, de Claude Chabrol

1 - Hara-kiri, de Masaki Kobayashi


Tanta coisa para falar desses filmes, mas deixa para lá.

sábado, novembro 18, 2006

Sonos Eternos


Três filmes recentes muito me aborreceram: Sin City, Dália Negra e Verdade Nua. Motivo: se vendem como revisões estilizadas do cinema noir, mas não passam de delírios formais, sem a dureza e crueldade do estilo, tão forte em filmes como A Dama de Shangai ou Pacto de Sangue, por exemplo. Partindo do mesmo princípio, não deveria admirar À Beira do Abismo, de 1946.


O filme de Howard Hawks é estrelado por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tem roteiro do Nobel William Faulkner. É baseado no primeiro romance de Raymond Chandler, O Sono Eterno, já estilisticamente impecável, de trama muito complicada e melancólica. Hawks e Faulkner seguem à risca o plot de Chandler, mas sacrificam o clima soturno do escritor. Fiquei com a impressão de que a confusão de tiroteios e chantagens é só pretexto para, de vinte em vinte minutos, termos um diálogo espetacular entre Bogart e Bacall. Aliás, nem sombra do detetive dos livros Philip Marlowe. Em cena, Bogart é Bogart, Bacall é Bacall, mas representam a si mesmos maravilhosamente.


Temos então um noir bastardo, uma mistura de policial com diálogos de comédia romântica – versão super sexy. Isso faz de À Beira do Abismo um filme ruim? Não. É excelente. Diversão classe AAA, violência inofensiva e final com picos impensáveis de charme. Está quase no mesmo patamar da outra obra-prima de Faulkner-Hawks-Bogart-Bacall, Uma Aventura na Martinica, livre adaptação de Ter ou Não Ter, de Hemingway. Aliás, ainda sobre À Beira do Abismo: Dorothy Malone, atriz vencedora do Oscar de coadjuvante em 57 pela performance genial em Palavras Ao Vento, de Douglas Sirk, faz ponta, interpretando uma esperta atendente de livraria, de óculos.


Conclusão: problema dos três filmes recentes citados no início não é exatamente diluir o estilo que reverenciam, mas oferecer muito pouco em troca.
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>>> No post anterior, sobre Volver, esqueci um detalhe interessante. Vários críticos colocam Kenji Mizoguchi num molde oriental de diretores do estilo de George Cukor e Joseph L. Mankiewicz, especialistas em mulheres, e fortes influências para Pedro Almodóvar. Dá para fazer uma ponte direta entre o espanhol e o japonês. Volver usa um efeito muito tradicional do cinema japonês, a convivência cotidiana entre vivos e mortos, que, sem paz, voltam como fantasmas. Volver e Contos Da Lua Vaga não somente exploram essa relação sobrenatural, mas são fortes ensaios sobre a resistência feminina a momentos adversos.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Velhos novos

Volver

Almodóvar enfileira mais um grande filme na seqüência que começou com Carne Trêmula, em 98. Volver, ao contrário dos dois últimos, não é sobre homens, e tem alto nível de humor. Celebra a força das mulheres, capazes de se reerguer do nada e superar tudo – transformam a tragédia em combustível, o fundo do poço em mola de propulsão. Acho que a frase é do próprio Almodóvar, mas se aplica a Woody Allen, Antonioni, Bergman, George Cukor, etc. “Gosto de filmar mulheres porque elas têm mais pedaços”. Talvez não, e o espanhol já foi capaz de mostrar a complexidade do mundo masculino. Mas, em Volver, ninguém duvida que ele sabe tudo de mulher. Dos seus filmes sobre mulher, esse é o melhor, mais humano, e mais plácido também. Ele chegou no ponto da carreira de pensar na morte, e usa o exemplo do afeto feminino para celebrar o perdão e a reconciliação. Lelouch falou sobre Spielberg depois do lançamento de E.T., mas a sugestão é perfeita para o momento:”Ele não deveria ganhar Oscars, e sim o Nobel da Paz”. (Almodóvar, mesmo em versão simples e enxuta continua muito apaixonado por cinema. Depois de fazer Tudo Sobre Minha Mãe para Bette Davis, Volver é homenagem a Joan Crawford: o drama de mãe e filha vem todo de Alma Em Suplício, de Michael Curtiz, e Almodóvar supera o filme antigo. Na televisão, já perto do fim, Belíssima, de Visconti).

Os Infiltrados

Para Scorsese, Os Infiltrados é ponto alto depois de dois filmes infelizes, e, como quase sempre, tem um magnífico ensemble masculino. Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Matt Damon e Leonardo DiCaprio se envolvem num complicado jogo de espionagem de polícia e ladrão no submundo de Boston. Violência corre solta, e Scorsese acerta em cheio no personagem desequilibrado do excelente DiCaprio. Ele é o ponto de distanciamento da selvageria dominante, e o que impede o filme de ser “só” mais um filme de ação bem realizado. Aliás, bem realizado é pouco, filme é um primor de roteiro e montagem – ou seja, administração da história. Tensão explode. Ainda assim, a expectativa de um novo Cassino pode provocar um pé atrás. Pena não ver Joe Pesci, os travellings, os offs superpostos... Mas o que ele já fez é muito bom.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Outubro

Cinco melhores filmes que vi em outubro:

5 - O Dia do Chacal, de Fred Zinnemann


4 - O Pagamento Final, de Brian de Palma

3 - Danton - O Processo da Revolução, de Andrzej Wajda



2 - Os Inocentes, de Jack Clayton


1 - Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes

sábado, novembro 04, 2006

Laços de família

>>> Vi ontem Estrela de Fogo, filme de Don Siegel estrelado por Elvis Presley. O cantor é Pacer, mestiço que vive com pai e irmão brancos, e mãe índia. Quando os kiowas começam a lutar contra os brancos, os dois lados pedem a Pacer uma tomada de posição. A intransigência tem muito a ver com os Estados Unidos. A preocupação principal de Siegel é o que sobra da família depois de tanta violência. A tragédia inevitável nada tem de racista. A impossibilidade da miscigenação não é apresentada como lição, mas como comentário político dos mais pessimistas.


Muitos faroestes são construídos assim: a violência não existe para fins de entretenimento. A morte é elemento de pressão, para que o diretor pense as relações humanas num ambiente hostil. Em clássicos do porte de Um Certo Capitão Lockhart, A Face Oculta, ou no maior dos westerns, Os Brutos Também Amam, os laços que importam são familiares. A não contar as convenções de gênero, o que separa esses filmes dos melodramas de Douglas Sirk?
>>> Dia de Finados foi centenário de nascimento de Luchino Visconti. Coincidência perfeita: Visconti foi o cineasta da decadência, e o caminho provável de todos os seus filmes é a morte, o fim. Ninguém registrou dessa maneira o processo de declínio e destruição - de relações humanas (Obsessão, O Inocente) e políticas (O Leopardo, Ludwig). Rocco e Seus Irmãos é seu filme mais influente. Visconti mistura literatura russa e ópera para construir o épico do povo.
A família pobre tentando sobreviver em Milão, Rocco imaculado ganhando dinheiro na violência cotidiana do boxe, separado do irmão volúvel pelo amor da prostituta Nadia - é o auge do roteiro no cinema. Junta o inconciliável: o ambiente neo-realista, mas tratamento de grande melodrama. Era Uma Vez na América também não é neo-realista, mas não existiriam sem a lição de Visconti: levar a suntuosidade narrativa para as paixões violentas do mundo de verdade.


O Poderoso Chefão é herdeiro do Rocco, mas também tem os dois pés em O Leopardo. "As coisas devem mudar para continuarem as mesmas", é o dito de Tancredi para o Princípe de Salina, seu tio. Visconti filma uma morte social, eterna adaptação da aristocracia aos novos poderosos. Vito Corleone, acuado e antiquado, abre o caminho para o filho Michael. Este se torna mais poderoso que o pai, às custas de seu valor fundamental: a família. Assim, voltamos ao Rocco.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Faixa Nobre do Esporte

UPDATE: O sufoco que o time tomou da Holanda me fez sentir falta do time velho. O passe não saiu, Carol ficou meio hesitante, e onde está a bola de segurança para resolver. Sassá, cada vez melhor, entrou e não fez feio. Pena que Mari tenha saído. Não tava muito bem, mas é porque o lugar dela é mesmo como oposto. Contra os Estados Unidos, ela entrou no final do primeiro set na inversão do 5-1, já que Renata não se destacou muito nos últimos jogos. Sobre os EUA, onde está Logan Tom?

Fui até as duas da manhã lendo. Ligo a televisão, e, grata surpresa, a Globo transmite o Campeonato Mundial Feminino de Vôlei. Pena que essas competições são sempre no Japão, e provocam horário proibitivo. Ainda assim, prazer absoluto ver a geração de Zé Roberto jogar, mesmo contra o Cazaquistão.
Dizem que é bom time, e deu calor nos Estados Unidos (perdeu de 3 a 2) na primeira rodada, liderado pela ponta Pavlova – incríveis 40 pontos. O problema do jogo contra o Brasil é que a equipe ex-soviética desistiu, poupando-se para quando tivesse mais chances. Pavlova foi sacada no final do primeiro set. Mari, Sheila, Jaqueline, Fabiana, Walewska e Carol não deram chances: 3 a 0, com parciais de 25-17, 25-13 e 25-16.
O melhor foi ver a seleção completamente azeitada, mesmo sem Fofão, que sofreu lesão leve. Há quatro anos, na Alemanha, Marco Aurélio Motta levou o Brasil pro mundial com muitas dessas jogadoras, depois que veteranas abandonaram o time. Paula Pequeno, Sassá e Sheila, entre outras, foram até às quartas, onde perderam para a China num dramático 3 a 2.
Depois do quarto lugar (das veteranas) nas Olimpíadas, o time novo tem varrido todos os títulos, e chegou ao hexa no Grand Prix. A geração anos 90/início dos 2000 jogava no tempo da vantagem, com atacantes de força e bola alta: Ana Moser, Virna, Elisângela, Raquel, Érika. O Brasil tentava ser um misto de mais leve de Rússia e Cuba – o dream team tricampeão olímpico de Regla Bell e Mireya Luis.
O novo vôlei está mais adaptado ao tempo da China, time que ganhou cada vez mais projeção depois do vice-olímpico em Atlanta, até a medalha de ouro em Atenas. É um vôlei muito marcado pela tradição oriental da velocidade, só que jogadoras altas e muita força de ataque. A geração Zé Roberto,entrou nesse tempo. Todas as bolas são de grande velocidade – é como se todo mundo jogasse no ritmo da musa Leila.
Jaqueline, Sassá e, principalmente Sheila arrebentam nesse estilo, e ainda são capazes de “resolver” as bolas complicadas, embora sem a potência da geração passada. Para o desafogo o Brasil conta com Mari, minha jogadora brasileira preferida da atualidade. Ela não aparece muito em jogos fáceis, e seu estilo é bastante frio, mas quando o jogo precisa de braço, não há competição. Lembro da semifinal de Atenas, contra a Rússia. O Brasil perdeu e Mari errou a última bola, mas já tinha feito 37 pontos.
Enquanto essas partidas decisivas não chegam, Zé Roberto faz bem em dar rotatividade ao time. Contra o Cazaquistão todas as reservas jogaram. Entre elas a ex-titular Paula Pequeno, que esteve afastada da seleção por conta de gravidez. Renata, a jogadora com braço mais pesado do time, ainda tem um tempo muito Bernardinho, mas é perfeita pra movimentar o time durante as inversões da diagonal da levantadora. (Eu a vi jogar aqui em Salvador pelo antigo BCN, durante a Copa Salonpas. Foi a melhor atacante da competição, batendo Virna, do mesmo time, que foi melhor pontuadora).
Enfim, acho que o Brasil tem tudo pra levar seu primeiro ouro mundial, e colocar de vez o time feminino em pé de igualdade em títulos com a equipe masculina. Os grande adversários devem ser os suspeitos de sempre: China, Rússia e Cuba, agora renovada, e com uma atacante do nível do dream team, Calderón Diaz. Comendo pelas bordas, a atual campeã, Itália Zebra em 2002), além de novidades, como Sérvia. O time eslavo não tema tradição de sua equipe masculina, mas surpreendeu nas duas primeiras rodadas, batendo justamente Cuba e Itália. O campeonato está só começando.
(Eu sempre gostei muito de esporte, pela TV. Sou órfão da Faixa Nobre do Esporte, da Band. Assistia até campeonato de sinuca.)

segunda-feira, outubro 30, 2006

Mais Short Cuts

>>> Emanuella Sombra inaugurou novo blog, sem perder os trocadilhos do sobrenome. Criou uma endo-blogosfera, página principal + blogs colunas, também assinados por amigos. Inaugurei uma dessas páginas agregadas. Sombra é talento ascendente no jornalismo nacional, pronta para, junto com seu par, Vitor Pamplona, travar duelo de frases amorosamente cortantes numa grande redação. O final é obviamente feliz, como num filme de George Cukor ou Howard Hawks. Pamplona, também cineasta, está mais para autor russo. Seu debut, o curta Notas de Obituário, é uma precisão de atmosfera leste-européia desconstruída.
>>> Não vejo Páginas da Vida. Parece que Manoel Carlos está em fase extrema. Parei numa banca atrás de figurinhas pro meu álbum do campeonato espanhol, e vejo três manchetes de revistas baratas: 1) Clara é raptada; 2 ) Carmem seqüestra Bira; 3) Alex some com Francisco. Com andam as estatísticas desse tipo de crime? Enfim, somente reprise de Renascer ou volta da dobradinha Benedito Ruy Barbosa & Luiz Fernando Carvalho para me colocar na frente da tv de novo. Aliás, dia 20 começam as gravações da próxima novela da oito, aqui em Salvador. Tem um núcleo baiano, de turismo sexual.
>>> Estou cada vez mais fascinado por filmes arcaicos, com soluções narrativas que se alicerçam em somente uma das mídias de onde o cinema se originou (teatro, romance, fotografia, pintura) ao invés de se afirmarem como uma síntese delas todas, ou como “cinema puro”, de “filmes cinematográficos”, quase sempre estripulia de montagem. Por exemplo: Consciências Mortas, de William Wellman, ou Boulevard do Crime, de Marcel Carné. São exemplos de teatro e novelona filmados sem muita “linguagem”, mas que se alojam na cabeça de maneira indelével. Essas obras são pedra no sapato contra a idéia amplamente difundida que não importa o que se conta, e sim a maneira de fazê-lo. A grandeza de Wellman e Carné não vem da administração, mas somente da força dos temas e situações. Claros enigmas. Bom diferenciá-los de coisas como Carta de Uma Desconhecida, de Max Ophuls, ou Rocco e Seus Irmãos, de Visconti, em que a influência do romance é mais que evidente, mas não decorre de apagamento da direção.
>>> É impressionante como não vejo notas falsas na produção de cinema argentina. À exceção de Lugares Comuns, de Adolfo Aristarain, é tudo muito bom. Curioso também que a maioria dos filmes é bem acessível, thrillers, melodramas, comédias. (Lucrecia Martel destoa dessa tendência, com seus excelentes O Pântano e A Menina Santa, mais áridos) Filmes com gente boa, com nuances, complexidades, como as pessoas da vida real costumam ser. Ninguém é um tipo de papelão. A realidade dessa gente é um elogio, com certeza. Mais sobre isso aqui.

domingo, outubro 22, 2006

Garbo?


Para quem se alinha comigo e Inácio Araújo e não vê muita graça na Greta Garbo dos filmes, sempre fascina mais o encantamento dos outros por sua figura éterea. Se a Garbo chata, chorosa e melodramática de Anna Karenina, Grande Hotel e boa parte de Ninochtka mina minha paciência, a Garbo urbana e novaiorquina parece ser bem mais interessante. Duas histórias que não canso de repetir. 1) Paulo Francis, sempre ele, conta a história sensacional da pré-estréia de A Bela e Fera, de Jean Cocteau, cujo público era somente Garbo, senhora de uma sala vazia. O filme acaba, o monstro vira príncipe e a atriz sueca, já aposentada, reclama: “Quero a minha fera de volta!”. 2) Mastroianni narra seu primeiro encontro com a diva, que pediu para conhecê-lo. A primeira fase dela: “Italian shoes?”
Volto a Garbo pelo filtro de Truman Capote, escritor que dosa perfeitamente melancolia e frivolidade. Acabo de ler Os Cães Ladram, meio que para me recuperar do sofrimento físico e psicológico de Os Sertões, clássico do jornalismo (e da narrativa) negligenciado por mim até então. Entre os grandes momentos do livro – e Capote é muito mais gênio em histórias curtas do que em A Sangue Frio -, esse terno e carinhoso texto, dentro do capítulo Nova York, segmento “Cor Local”. Para Gabriela e Fernanda:


“Vi Garbo duas vezes na semana passada, uma no teatro, onde ela sentou ao meu lado, e num antiquário da Terceira Avenida. Quando menino sofri uma série de problemas, passando muito tempo de cama, dedicando a maior parte do tempo a escrever uma peça de teatro a ser estrelada pela mulher mais linda do mundo, e era assim que eu descrevia a srta. Garbo na carta que acompanhava o texto. Mas nem a peça nem a carta foram comentadas, e por muito tempo guardei um ressentimento desesperado, que nunca mais passou, até a outra noite quando, num sobressalto do coração, identifiquei a mulher sentada ao meu lado. Foi uma surpresa vê-la tão pequena, tão vividamente colorida: como Loren McIver disse, com traços assim a gente nem espera que venha cor, também.
Alguém perguntou: "Você acha que ela é inteligente?". Isso me pareceu uma pergunta ultrajante; sério, importa para alguém se ela é inteligente ou não? Sem dúvida basta que um rosto assim exista, embora a própria Garbo possa ter chegado ao ponto de lamentar a trágica responsabilidade de possuí-lo. Não tem graça nenhuma seu desejo de ficar sozinha; claro que deseja isso. Imagino que seja o único momento em que ela não se sente só: se a pessoa percorre um caminho circular, guarda sempre uma certa melancolia, mas não se lamenta em público.
Ontem, no antiquário, ela andava de um lado para outro, observando tudo atentamente, sem se interessar no fundo por nada, e por um momento maluco, pensei em falar com ela, só para ouvir sua voz, sabe; o momento passou, graças a Deus, e ela seguiu até a porta e saiu. Aproximei-me da janela e a vi andando apressada pela rua azulada, ao entardecer, com seus passos saltitantes, longos. Na esquina, ela hesitou, como se não se soubesse para que lado queria ir. As luzes da rua foram acesas, um reflexo criou subitamente na avenida uma parede branca: com o vento a fustigar seu casaco, e sozinha, Garbo, ainda a mulher mais bonita do mundo, Garbo, o símbolo, caminhou diretamente para ela.”
Tradução de Celso Nogueira.


quinta-feira, outubro 12, 2006

O americano, os europeus


Luiz Carlos Merten tem falado muito sobre a necessidade do espectador (ou leitor, ouvinte, etc) ser co-autor do filme. Fazer pontes, criar referências que talvez só sejam válidas para ele próprio, mas que estimulam o raciocínio e apuram o olhar. Desde que vi O Novo Mundo, de Terrence Malick, não consigo deixar de associá-lo com Henry James, escritor norte-americano do século XIX. Ele passou seus últimos anos na Inglaterra, e, na fase final de livros gigantescos, criou prosa muito peculiar. Escrevia grande volume de texto para acontecimentos mínimos. Passava à margem de eventos, pulava os fatos mais importantes da trama, somente para insinuar o invisível. Nesta página, Paulo Francis, provavelmente inspirado por Thomas Hardy, fala da fúria escondida em monossílabos, subentendidos e entrelinhas.


Chego ao filme de Malick, a princípio, pela narrativa. Abstraindo as diferenças entre cinema e literatura, O Novo Mundo apresenta a mesma desarticulação linear, pela montagem. Não se trata de confundir a historinha de maneira formalista, mas de conseguir provocar o máximo de sentimento com o máximo de economia, sem escrever/filmar menos. Quase tudo da última fase de James tem mais de 500 páginas; O Novo Mundo tem 135 minutos, e, se não fosse o corte do estúdio, teria quase três horas.
No filme, o romance entre a nativa Pocahontas e o britânico Capitão Smith (cenário: início da colonização inglesa nos Estados Unidos) existe praticamente sem diálogo, no idílio e no abandono. Quando há o reencontro, a comunicação acontece sem a intervenção inútil da palavra. O ponto alto desta sensação jamesiana é o relacionamento de Pocahontas com John Rolfe, o marido que a acolhe depois da volta de Smith para a Europa. Eles convivem carinhosamente com o fantasma de outro amor fracassado, em silêncio, amparados pelo carinho que sentem um pelo outro.


Pensei que a comparação ficava nisso, mas o tipo de conflito mostrado aqui, de amor, inocência e dever social no século XVII, é muito parecido com o que se vê em livros como Retrato de Uma Senhora ou A Taça de Ouro, 200 anos depois. Nestes romances, americanos ingênuos são manipulados amorosamente por ingleses inteligentes ou compatriotas escolados. A relação, claro, passa longe do maniqueísmo, porque algozes são sempre suscetíveis a paixões mortais, e vítimas tomam o controle da situação, revelando inteligência insuspeita. Mesmo fazendo mal aos outros, ninguém é ruim – e todo mundo perde, discretamente. James, cosmopolita e quase apátrida, é cínico; Malick, “americanamente”, limpa essa perfídia relativa, mas os incidentes internacionais ainda estão lá. O final é perfeito: o amor enterrado para sempre a partir de um acordo calado.
Dias de Paraíso, de 78, também reforça minha viagem. Apesar do cenário Faulkner, a trama é idêntica à de Asas da Pomba. No romance, Kate Croy e Merton Desher precisam de dinheiro para ficarem juntos. Kate aproxima o amante de uma ricaça americana em fase terminal, para que ele possa herdar sua fortuna. No filme, Bill (Richard Gere) aproveita a paixão de um fazendeiro por sua namorada Abby, e planeja um golpe arriscado. No livro e no cinema, o mesmo paradoxo: o understatement excessivo e arrebatador.
Vejam, leiam. Se não concordarem, ao menos terão visto/lido coisas inesquecíveis.

domingo, outubro 08, 2006

Flop


Depois de muita expectativa, Dália Negra chega aos cinemas como um dos piores filmes de Brian De Palma. Problema não é exatamente roteiro confuso, mas a incrível preguiça do diretor. Há um momento muito bom: a descoberta do corpo mutilado da starlet mostrada ao mesmo tempo em que acontece violento tiroteio. De resto, direção desconfortavelmente genérica. Nada dos travellings delirantes que o deixaram famoso e tornaram seus filmes verdadeiras declarações de amor ao movimento e a fluidez das imagens. A câmera, sempre insinuante em Dublê de Corpo e O Pagamento Final (só pra usar dois exemplos aleatórios), parece não existir.

De Palma é grande cinéfilo, tanto que transformou sua filmografia em reorganização das obras que o marcaram, além de retratos do processod e criação da imagem. Dália Negra é oportunidade perdida. Essa revisão do film noir põe a perder a alma do estilo, em prol de perversão mal administrada ao ponto em que conflitos beiram sempre o ridículo, o posudo. Prefiro infinitamente O Homem Que Não Estava Lá, dos irmãos Coen, um show de forma que não perdeu o ponto de vista seco e cruel da vida. Ainda assim, há Hilary Swank, luminosa.

sexta-feira, outubro 06, 2006

A imagem da imagem da imagem da imagem

(texto provavelmente cabeção e pessoal demais pra justificar minha admiração por Vestida Para Matar. não tenho ainda as palavras para melhor definir as idéias. então, caro leitor, considere essas linhas como um ensaio de um texto melhor, que escreverei daqui a dez anos)
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Brian de Palma não filma, edita. Do mesmo modo que um editor de televisão buscando imagens para um programa jornalístico, ele trabalha sempre com material já visto, retrabalhando o arquivo. Vestida Para Matar, de 1980, é o maior exemplo desse comportamento. Há uma mulher de meia-idade esfaqueada (Angie Dickinson) no elevador do prédio de seu amante. Keith Gordon, o filho nerd, investiga o crime com a ajuda da única testemunha (Karen Allen) e do psicólogo da morta. Puro pretexto. Desde a primeira tomada, propondo perigo no chuveiro, De Palma guia o espectador através de cenas inteiras de Hitchcock.
Um Corpo Que Cai, A Sombra de Uma Dúvida e Janela Indiscreta passam pelos olhos, além de Psicose o tempo todo, em estrutura de roteiro, imagens, música. O ritmo sinfônico vem da obra-prima Marnie, com travellings atrás de mulheres criminosas em contra-plongée. Não se trata mais de citação: Vestida Para Matar existe no território da reciclagem precisa de peças avulsas. Quem não tem o repertório, verá um policial meio absurdo e muito tenso, mas não terá acesso ao essencial do diretor.


De Palma não oferece mensagens ou interpretações psicanalíticas, como o mestre Hitchcock. O americano fica com a preocupação com a forma e o tesão por objetos ópticos e de gravação. Em Um Tiro na Noite, ele usa Blow-Up, o filme-forma de Antonioni, para falar de si mesmo: técnico de som em busca do grito perfeito. Recria a cena de O Passageiro - Profissão: Repórter em que uma câmera gira sem parar num quarto, e confunde três tempos de ação através do áudio.
Vestida Para Matar é só imagem. Parte da contribuição para o desvendamento do crime vem das máquinas fotográficas programadas do garoto geek. O testemunho do crime é filtrado por um espelho. Daí a diferença entre criador e criatura. Hitchcock, artificial ao extremo, é obcecado pela instrumento óptico orgânico, o olho. Veja a primeira tomada de Vertigo, projeção do filme dentro do globo ocular. James Stewart não vai acreditar nos sentidos – vê o que é impossível, sobrenatural.


De Palma, por sua vez, situa suas obras dentro da câmera, pondo em dúvida o velho clichê de que um artista usa a vida real como matéria-prima de expressão. De Dublê de Corpo a Femme Fatale, o importante é mediado por espelhos, lunetas, radares e redes de circuito interno. Imagem da imagem da imagem da imagem. Roteiro, atores, diálogos, verossimilhança? De Palma ri na cara disso tudo, colocando helicópteros em túneis e coisas do tipo.
Fica a pergunta: por que tanto formalismo não é esterilizante? Há a resposta fácil. Domínio do ofício, que lhe permite convencer com filmes de gênero de grande apelo. Por outro lado, Deus me perdoe por citar Marshall McLuhan em público, mas os sentidos colonizados tecnologicamente já são pão dormido teórico – o que reafirma o clichê citado no parágrafo anterior. De Palma não faz nada extra-terreno. Um Tiro na Noite, Dublê de Corpo e Vestida para Matar são obras onde esse pensamento é expresso com maior eloqüência – em especial, o último, pela carga de paixão. Um filme para o mestre, um filme para o cinema.


Depois dessa trilogia, vieram os anos 80 e 90, onde “fazer referências” virou praga tão grande quanto o All Star ou Backstreet Boys. Filmes sem graça tentam distrair o público parando tudo para “citar”. Há honrosas exceções, mas demorou até 2002 pra termos um longa tão interessado em forma(tividade?). Moulin Rouge é ainda mais ambicioso que Vestida Para Matar – além do cinema, arrebanha música, teatro, ópera e literatura. Mas isso é outra história.