quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Razão, sensibilidade, etc

Ontem assisti a um filme incrível. Uma mesa, duas pessoas conversando, plano contraplano. Isto é Meu Jantar Com André, de Louis Malle. O André do título é André Gregory, ator e diretor de teatro que conta a seu amigo Wallace Shawn episódios da crise existencial que atravessou nos últimos cinco anos. Na verdade, André e Wally existem de verdade, em carne e osso, e somente reencenam na tela conversas que tiveram por causa de sua amizade. Ou seja, o filme passa perto de um docudrama, ou uma dessas simulações do Linha Direta, com a diferença que os atores escrevem os diálogos e interpretam a si mesmos. Engenhoso? Simples, na verdade. A graça do filme provém única e exclusivamente do prazer de ver duas pessoas inteligentes expondo idéias e pontos de vista de maneira inteligente.



Wallace Shawn (esq) e André Gregory

É um dos melhores filmes de Louis Malle, diretor que venho descobrindo em duas caixas de DVD que importei da Inglaterra depois de juntar um dinheiro. Nos últimos dias, vi também Lacombe Lucien, Os Amantes, Trinta Anos Esta Noite e Zazie no Metrô. Somente este último me soa como uma nota falsa, mas não consegui pegar ainda o que raios define Malle como autor. Também já tinha visto Ascensor Para o Cadafalso e Atlantic City, filmes que adoro, e no conjunto, sempre tenho a sensação de ele atira para todos os lados – comédia, suspense – com diferentes tipos de tratamento, mas sempre acerta no alvo. Basta? Claro.

(Vi Meu Jantar com André numa cópia em Divx, sem legendas. Quando acabei de ver o filme, procurei o roteiro para tirar umas dúvidas no inglês, e achei esta transcrição. Li tudo de novo. Excelente diversão para um momento de tédio intelectual.)

***

No meio da longa conversa (110 minutos) de Wally e André, um dos dois menciona tangencialmente Razão e Sensibilidade, de Jane Austen. Uma vez que não posso relê-lo agora, decidi pegar a adaptação pro cinema de Ang Lee. Já havia visto o filme duas vezes, na época do Vhs, mas nunca me pareceu tão brilhante como desta vez. Claro, há de se considerar a perfeição do material de origem, mas há um senso de aplicação em cada plano, cada cena, sempre com a luz certa, com o corte preciso, que me faz pensar que pouca gente conseguiu fazer essa transição entre mídia literária e cinematográfica com tanta destreza. O filme é o livro, sem ser literário. O espírito austeniano de contenção e observação está todo lá, sem que para isso o diretor descarregue em off toneladas de excertos do original.



Kate Winslet, tão perfeita quanto possível

Outro ponto que tive prazer em observar, mais uma vez, foi Kate Winslet, claro. Ela fica com a parte final do título – sensibilidade – sem cair, graças a Deus, na histeria inadequada que a maioria das atrizes emprestaria ao papel. Se pensamos no obra de diretores em seu conjunto, vale enquadrar o trabalho de Winslet num padrão autoral. De certa maneira, ela é especialista em criar instabilidade somente com sua presença. Cada close sem eu rosto cria certa tensão nesse universo de protocolo e correção britânicos. Muito bom.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Suburbia

O tempo sempre dá razão aos bons filmes. Pecados Íntimos, de Todd Field, e Férias de Amor, de Joshua Logan, têm a mesma preocupação com a infelicidade e a apatia dos americanos médios, e o poder do sexo como propulsor de mudanças. Estão separados por mais de 50 anos. A diferença é que o filme conservador é o novo, indie, e não o produtão da Columbia.
Enquanto no filme de Logan duas pessoas se arriscam na vida, sozinhos, casados, no dia seguinte ao que se conheceram, Pecados Íntimos poda seus personagens numa lição de moral muito da improvável. Enfim, talvez as pessoas fossem mais livres nos anos 50.
Ainda assim, com todos os problemas, Pecados Íntimos é intrigante. Cena a cena, é incômodo, anormal. Pode não ser redondo no todo, mas pelo menos é capaz de despertar o espectador da indiferença. E, claro, há Kate Winslet, a melhor atriz de língua inglesa desde Meryl Streep.
Sem tempo, termino o post com a fantástica cena de sexo de Férias de Amor, com William Holden e Kim Novak.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

nip/tuck

>>> Dia desses, folheava O Prazer dos Olhos, de Truffaut, quando descobri porque ele escalou Isabelle Adjani para A História de Adele H.: “É a única atriz que já me fez chorar na frente de uma televisão”. Nunca chorei vendo tv, mas fiquei muito abalado essa madrugada, vendo um episódio de Nip/Tuck em DVD.

A amante do médico Sean McNamara, protagonista da série, sofre de câncer em fase terminal, e decide se matar. Sean, na base do “They Shoot Horses, Don't They?”, apóia a decisão, e todo o episódio mostra delicadamente todo o processo – a decisão, o ato, o enterro, e a confissão do médico para a mulher. Numa época em que a regra geral do cinema americano é a sutileza de hipopótamo, acompanhar uma série desenvolver esse tipo de idéia com tanta desenvoltura me faz pensar no cinema brasileiro mais popular, tão vilipendiado por parecer com tv. Se tivesse o nível de algumas coisas da tv americana, estaria uns vinte níveis acima do atual.

Faz pensar também em uma atriz do porte de Joely Richardson (a mulher traída), filha da grande Vanessa Redgrave. Por seu trabalho magnífico, Joely não disputou nenhum Oscar, prêmio que ultimamente tem caído de pára-quedas nas mãos de Renee Zellweger e Reese Witherspoon. Pior para o cinema.

>>> A direção desta série é tão confiante que, em toda a seqüência do suicídio, das cartas de despedida ao sufocamento no saco plástico, a trilha é Rocket Man, de Elton John. Não fica brega, e isso me lembra de três momentos cinematográficos que usaram a música de Elton John de maneira sensacional.

  • O momento de confraternização no ônibus em Quase Famosos, todos juntos cantando Tiny Dancer.

  • A poesia de Christian em Moulin Rouge, Your Song.

  • A mesma Your Song, usada por Lars von Trier em seu melhor filme, Ondas do Destino. A cada passagem de capítulo dessa história de amor de três horas, o diretor coloca um clássico romântico com algumas paisagens de fundo. Numa das últimas passagens, quando o filme alcança níveis insuportáveis de tristeza, a canção de Elton John dá o arremate.


>>> Sem tv a cabo em casa, meu contato com séries é limitado, e só agora despertei para a possibilidade de ver algumas em DVD. Nip/Tuck começa de maneira sensacional, tem elenco à prova de balas, é engraçado, triste e cínico, mas justamente depois desse episódio maravilhoso, a série cai num abismo. A crise da amizade, do casamento e da relação entre pais e filhos dá lugar a uma subtrama besta envolvendo traficante de drogas. O tom explícito em que as cirurgias são filmadas deixam de impressionar. Não vou ver a segunda temporada. Ao menos não tão cedo.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Ser feliz é ter dinheiro

Assim que for lançado em DVD, À Procura da Felicidade vai ser exibido em palestras, seminários e cursos de MBA para executivos. Trata-se do filme mais descaradamente empresarial do cinema americano desde o bom Erin Brockovich, de Steven Soderbergh. Mais uma vez, a velha lenga-lenga de pessoas teimosas que começam pobres e, depois de duas horas de projeção, estão em outro nível financeiro. É impossível não telegrafar tudo a partir do letreiro de abertura: “baseado em uma história real”.

Entre a miséria total e a felicidade – leia-se, dinheiro – Chris Gardner (Will Smith) vive em uma corrida de obstáculos. A mulher o abandona, ele fica com o filho, é despejado, despejado de novo, seu negócio não dá certo, e Gardner não pára de correr. Ele é americano e não desiste nunca.

Além de determinado, é inteligente. Sempre foi excelente em matemática na escola, e decide, sem nenhuma experiência, ser corretor no mercado financeiro. A única chance de se infiltrar neste mundo é passar por um rigoroso processo de estágio – não remunerado.

A falta de dinheiro, claro, constrói o lado “tocante”, do filme. Pai e filho dormem na rua, num banheiro de metrô, num abrigo público – e sobe “Bridge Over Trouble Water” (clássico de Simon & Garfunkel) na trilha. Num momento ultra-americano, um coro arrebatador canta um spiritual, aquelas canções evangélicas que geralmente são o primeiro passo na carreira de intérpretes de jazz com voz potente. Jesus está olhando por você. Não desista. Cada cena do filme poderia ser desdobrada em uma palavra de ordem num curso de motivação: “se você tem um sonho, proteja-o”.


Se qualquer sinopse provoca reação negativa de espectadores mais experimentados, o filme passa por cima de preconceitos como um rolo compressor. O diretor Gabriele Muccino empacota seu filme com ritmo impecável, montagem dinâmica, música animada – e o mais difícil, sem causar rejeição. Na verdade, a segurança e a determinação do filme em contar bem essa história chega a causar simpatia, mesmo que seus valores sejam muito discutíveis. O ímpeto de Gardner é quase igual ao do diretor, em seu primeiro projeto em Hollywood. Muccino parece não querer deixar escapar sua chance de fazer muito dinheiro.

Obviamente, faltou citar a carta mais alta na manga do diretor – Will Smith, pela segunda vez indicado ao Oscar de melhor ator. Sempre ajustado para o máximo de energia, Smith se vira com o pé nas costas pelos desvios cômicos e dramáticos da trajetória do personagem. Num insight perfeito, Smith trouxe o próprio filho Jaden para o papel de Chris Gardner Jr. A química sustenta o filme. Thandie Newton, a mulher que Bernardo Bertolucci amou em seu Assédio, some logo no início, desglamourizada.

No fim das contas, a grande questão do filme é saber se a extrema eficiência deste tipo de artesanato consegue fazer perdoar a celebração ininterrupta do poder aquisitivo como fonte de felicidade. Numa cena incrível, Gardner passa pela frente da empresa de corretores, e a narração, cândida: “Todos são tão felizes aqui”. Todos os personagens ricos fazem o tipo boa praça, levam os filhos para assistir futebol americano, são sempre receptivos e simpáticos. O filme é completamente acrítico em relação a este mundo – postura diametralmente oposta a do longa argentino-espanhol O Que Você Faria?, ou do não muito bom Psicopata Americano.

Se a sensação final não é de irritação, talvez seja porque, ao invés de uma mente maligna que tem o dinheiro como deus, À Procura da Felicidade passa idéia de absoluta ingenuidade, típica de certo tipo de formação cultural americana. O filme não ofende porque não parece premeditadamente mal-intencionado; apenas tem um horizonte de pensamento muito estreito. Está fazendo muito sucesso.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Babel

Texto meu, publicado originalmente no Coisa de Cinema:


Se Amores Brutos e 21 Gramas são exemplos de filmes cujo impacto diminui bastante com o tempo, Babel (EUA, 2006), terceiro longa de Alejandro Gonzalez Iñarritu, já parece bem flácido antes mesmo que acabe a projeção. Em nenhuma de suas obras anteriores, ficou tão evidente o descompasso entre a paixão com que o diretor defende suas idéias e o crédito que seu pensamento realmente merece.

A principal idéia que percorre o cinema do mexicano é o bordão “tudo está conectado”. Amores Brutos e 21 Gramas mostravam a vida de pessoas de uma mesma cidade que não se conheciam unidas por acidentes de carro. Em Babel, o nível de pretensão sobe tanto que não basta uma pequena extensão de território. O efeito borboleta tem que dominar o mundo.

Assim, a história se desdobra. dois garotos marroquinos atiram contra um ônibus de turistas somente para testar o alcance da bala. Uma turista americana é atingida, e o marido vai tentar desesperadamente salvar sua vida. A polícia marroquina corre atrás dos responsáveis pelo incidente, logo tido por autoridades internacionais como terrorismo.

A empregada da mulher baleada nos Marrocos quer ir ao México, para assistir ao casamento de seu filho. Por causa do acidente, leva os filhos do casal na viagem, e se complica na volta pra casa. Há também uma adolescente japonesa surda-muda que não parece ter muito a ver com isso tudo. O roteiro tira da cartola uma conexão na história somente para defender sua tese: tudo está conectado.



Iñarritu e o roteirista Guillermo Arriaga (do incrivelmente sutil Três Enterros, de Tommy Lee Jones) provavelmente têm razão em insistir com tanta ênfase essa teoria. Isso vende muito. É o tipo de charlatanismo que as pessoas querem ouvir, afinal, essa força superior que nos une anula o livre-arbítrio e permite a remissão de todas as culpas. Ninguém é responsável - “não sou má, só fiz uma coisa estúpida”, diz um personagem. Todo mundo é vítima, todo mundo chora, e o poder de identificação disso é imenso.

Não deixa de ser estranho que um filme com tanta mão pesada tenha os melhores trabalhos dos colaboradores do diretor. Rodrigo Prieto, fotógrafo, e Stephen Mirrione, montador, parecem melhorados pelo trabalho nos muito elegantes Brokeback Mountain e Boa Noite e Boa Sorte, respectivamente. A imagem não briga com o que está na tela, as situações humanas não precisam mais disputar espaço com os técnicos.

Pena que sejam essas situações que revelam o equívoco de Iñarritu e Arriaga. Tentando filmar esse elo invisível, eles encaram os personagens de cima, e perdem o primeiro plano. A preocupação estrutural destrói o ponto forte de seus filmes, a serviço de um ponto de vista bastante tolo.

No final do filme, vem o símbolo perfeito deste tipo de equívoco. Duas pessoas se abraçam, a câmera se afasta (via efeito digital) e mostra o céu iluminado de uma grande cidade ao som da música indecentemente piegas de Gustavo Santaolalla – fade to black. Pronto. Ainda há esperança e dá pra viver neste mundo globalizado.

Não vem ao caso discutir o teor desta “mensagem”. Qualquer comercial de televisão pode dizer a mesma coisa. O problema é que esse tipo de conteúdo associado a um tratamento exagerado soa como o pior dos best-sellers de auto-ajuda. Para quem não chorar, só resta a náusea. Babel recebeu sete indicações ao Oscar, incluindo filme, direção e roteiro.

sábado, janeiro 27, 2007

terça-feira, janeiro 23, 2007

Yakult não quer dizer "saúde"


Quem manda não checar as informações. Graças a uma nota de alguma revista VIP Exame antiga, repeti durante muito tempo que Yakult significa "saúde" em esperanto. Contei isso pra Tiago no sábado, e não é que ele escolheu essa curiosidade como título de um post? Fui verificar na internet, e só achei informação semelhante em um lugar. Em todos os outros sites, Yakult significa, obviamente, iogurte.

domingo, janeiro 14, 2007

Play it again


Enquanto tomava café, vi um trecho de Páginas da Vida. Mal olho para a televisão, mas desta vez, surpresa: Marta (Lília Cabral), uma vilã escrota – me informam as capas de revistas – chorava com o reencontro de Ilsa e Rick em Casablanca. Ilsa (Ingrid Bergman) entra no bar e vê o velho conhecido pianista Sam, e lhe pede As Time Goes By.
Depois de hesitar, Sam toca e canta a canção. Rick (Humphrey Bogart), o dono do bar, repreende Sam – As Time Goes By é tabu, música proibida que embalou o romance com Ilsa em Paris, anos antes. Rick então percebe a velha amada, com os olhos explodindo de brilho, sobe a música incidental de Max Steiner. Abaixo, a troca de olhares neste momento:


Cena linda, mas incapaz de fazer alguém chorar na primeira vez que a vê. A essa altura do filme, ainda não se sabe do passado de Ilsa e Rick juntos. Por isso, vários críticos já disseram, este momento é mais forte a partir da segunda vista. Passamos a compartilhar o segredo deles dois. As notas de As Time Goes By já nos remetem à linda história de amor que, na montagem do filme, só aparece por volta dos 50 minutos, depois de um longo flashback, introduzido fotogramas depois da seguinte imagem:


Falei no post anterior do clássico romântico Carta de Uma Desconhecida, de Max Ophuls. O roteirista desse filme é Howard Koch, vencedor do Oscar por Casablanca, em cuja equipe se integrou especialmente para construir o flashback em Paris. A viúva Ilsa amou Rick, com quem planejou uma fuga. Os alemães invadem a cidade: “Será um canhão, ou meu coração batendo?”. Horas mais tarde, Ilsa descobre que o marido militante da resistência estava vivo. Rick ficou esperando na estação de trem, com uma carta que nada explicava.
A frase do canhão é célebre, mas a maior parte das outras citações brilhantes de Casablanca é de responsabilidade dos irmãos Epstein. Foram eles que construíram o clima cínico da cidade marroquina, onde todos os personagens têm língua afiada. Falas sensacionais: “Sou um pobre policial corrupto”,“Como líder das atividades ilegais em Casablanca, sou um homem influente e respeitado” ou a trágica “Os alemães vestiam cinza; você estava de azul”, lembrança de Rick da última vez que viu Ilsa.
O nariz de cera é para avisar que Bogart completa 50 anos de morto neste domingo. Leia mais aqui.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Caminhos do melodrama


Dentre as pessoas que conheço, todas que viram se emocionaram com Tarde Demais Para Esquecer, melodrama dos anos 50 com Cary Grant e Deborah Kerr. Eles se conhecem em um navio, onde desfrutam de belo romance. Ao fim da viagem, marcam encontro no alto do Empire State Building, dentro de seis meses. Precisam do tempo para rearrumar suas vidas. Na data marcada, ela não aparece. Foi atropelada quando se dirigia ao prédio.

Tarde Demais Para Esquecer

Profissional e competente, Tarde Demais Para Esquecer tem horda feroz de fãs, liderados pela cineasta Nora Ephron. Em seu longa mais famoso, Sintonia de Amor, Nora dedicou alguns diálogos para homenagear o “clássico”, filme preferido da personagem de Meg Ryan. No Oscar seguinte, Deborah Kerr, seis vezes perdedora na categoria melhor atriz, recebeu prêmio especial.
Não estou incluído no grupo de adoradores deste melodrama. Há certa inadequação nos astros. Grant tem sempre a dose certa de charme engatilhada para a hora exata, mas só rende completamente em papéis cômicos, onde consegue chegar aos níveis de cinismo adequados a sua personalidade. Bom exemplo é sua participação em Cupido é Moleque Teimoso, do mesmo diretor Leo McCarey. Kerr é boa, e só. Ainda não havia chegado nos limites dramáticos de Pelo Amor de Meu Amor, adaptação de Fim de Caso, de Graham Greene. A lembrança da Sarah Miles de Kerr praticamente empalidece todos seus outros personagens.
Fora isso, o filme é correto. Taí o problema: para quem não tem afeição especial por esta fórmula eficiente, Tarde Demais Para Esquecer passa como desfile apático e nota dez da Imperatriz Leopoldinense. Melodrama, gênero problemático, só gosto quando sai da linha e toma direções inesperadas, seja na trama ou na condução. Claro, isso é uma idiossincrasia. Exemplo: gosto de faroestes de qualquer jeito, tradicionais ou revolucionários. Melodramas precisam de “um plus a mais”.
Na verdade, os melhores melodramas não sabem que são. Exemplo: Um Certo Capitão Lockhart ou Winchester 73, de Anthony Mann, tirando a cota de índios e tiroteios, não deixam de ser tragédias familiares. Aliás, o tratamento estóico de diretores de westerns sempre funciona nos melos. Ao invés da música alta, contenção para delinear os sentimentos. Vide: As Pontes de Madison, de Clint Eastwood, ou Brokeback Mountain, de Ang Lee, histórias de amor sem notas de excesso.

Celia Johnson e Trevor Howard em Desencanto: um grande amor acaba quando o trem chega; uma amiga aparece e atrapalha a despedida.

A receita, aliás, também é bem usada por diretores ingleses. O grande David Lean fez de Desencanto o clássico do adultério inglês, mudo e abafado numa estação de trem. James Ivory, no seu melhor momento, fez Vestígios do Dia, sobre o amor de um mordomo pela governanta de uma casa nobre, relacionamento perdido numa névoa de obrigações sociais e senso de dever. O livro no qual é baseado, de Kazuo Ishiguro, também é magnífico. Nos Estados Unidos, coisa muito parecida no duo Edith Wharton e Martin Scorsese em A Época da Inocência.

Dorothy Malone e Rock Hudson, atores da exemplar frieza de Douglas Sirk

Ainda mais interessante, embora não exatamente melhor, é o cinema de Douglas Sirk e R.W. Fassbinder. Usam todos os artifícios chavões do gênero, como música alta e apelo ao fake em direção de arte e figurinos excessivos, mas seus filmes parecem obter justamente o efeito contrário: o mínimo de emoção. Coisas como Palavras ao Vento ou O Desespero de Veronika Voss se vestem de inofensiva pele de cordeiro para analisar com bastante crueldade seus objetos de interesse: para Sirk, família; para Fassbinder, as relações pessoais na Alemanha diante do fundo político pré pós e durante o nazismo.
Em direção diversa da contenção ou do excesso estéril, o melodrama que quer realmente emocionar, mas a dosagem dos elementos do gênero é tão desproporcionalmente grande que os filmes parecem dizer muito mais do que o que está na tela. Exemplos deste tipo de viagem pessoal: Moulin Rouge e Romeu + Julieta, de Baz Luhrmann, brilhantes histórias de amor, mas também filmes eloqüentes sobre entretenimento e arte.

Tony Leung e Maggie Cheung em Amor à Flor da Pele

Reunindo um pouco destas três tendências, Wong Kar-Wai, autor de apaixonados e contidos romances, filmados com linguagem artificial e fake, que por vezes parece falar muito mais sobre nostalgia e memória do que sobre relações amorosas. Em território parecido, o deslumbrante formal de Max Ophuls, cineasta extremamente apaixonado pelos alucinantes movimentos de câmera, mas com sensibilidade apurada o suficiente para não tornar seus filmes estéreis exercícios de estilo. Ophuls fez com Carta de Uma Desconhecida o maior melodrama que já vi.

Joan Fontaine e Louis Jordan na obra-prima Carta de Uma Desconhecida

Todos estes caminhos são alternativas ao profissionalismo mediano de Tarde Demais Para Esquecer. Claro, que não se considere este texto uma dispensa do filme de McCarey somente baseado em comparações com outras coisas. É tudo questão de preferência. Maçãs, laranjas. Há quem enxergue o sublime na boa execução de Tarde Demais Para Esquecer. Eu fico aborrecido.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Amendoeira


Gosto muito do MPBismo dos Los Hermanos. Ao contrário de vários amigos, não acho o 4 chato. A combinação de mar, morenas e barcos rende excelentes letras, que podem não bater as do Ventura, mas hipnotizam com seu nível de elaboração. Adoro o efeito sibilante de “Condicional”, cheia daquelas seqüências de palavras com “s”: doces deletérios, asas nos teus pés. As palavras complicadas de Paquetá, ou o epicismo de Dois Barcos – à primeira vista, entediante, logo arrebatadora. A suavidade do ritmo novo, menos roqueiro, casa perfeitamente com a agradável maresia do disco.


Isso tudo é pra dizer que não consigo entender a aclamação de Amendoeira, composição de Marcelo Camelo para seu tio-avô Bebeto Castilho, escolhida por Daniel Piza como a melhor do ano. Música bonita, mas dessa vez parece realmente que Camelo caiu num “bom gosto” estranho, no pior sentido – o que justificaria uma gravação de Emílio Santiago, por exemplo. Apesar de suas qualidades, Amendoeira é a real merecedora das restrições que a maioria das músicas do 4 recebe injustamente. Para escutar a música, clique aqui.

terça-feira, dezembro 26, 2006

No Calor da Noite


Quem observa os links à direita já sabe que não escrevo mais para o Drops de Anis, e agora faço parte do Coisa de Cinema. Ainda não produzo a quantidade de textos que gostaria, mas já estão postadas impressões sobre alguns filmes. Por esses dias, tento escrever sobre Miami Vice, o melhor filme que vi este ano, e que acabou de sair em DVD. Nessa luta, fui atrás de Fogo Contra Fogo, filme de Michael Mann produzido em 1995.


Heat (seu título original) é famoso pelo raro encontro Al Pacino – Robert De Niro, polícia e ladrão numa complexa trama em Los Angeles. Épico de três horas, por incrível que pareça, me lembra Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Mais do que os tiros e perseguições, Heat dá importância às tentativas de administrar vida privada com atividades profissionais desgastantes, nas quais a morte é o básico da rotina – e sempre sobra um crime brutal pra dar a dose extra de estresse. Na noite de Natal, a cena do tiroteio na saída do banco me deixou transtornado. Não há nada de apologético àquela violência. A cena pode cumprir sua função narrativa num filme policial, mas Mann faz cada tiro ser sofrido. Nenhuma morte é gratuita, e o impacto é imenso.
Pacino é perfeito, De Niro também, perdidos em complicações afetivas em L.A., mas o filme é forte em humanidade até o último coadjuvante. Impressionante, neste aspecto, a eloqüência com que Mann destrincha as diversas relações amorosas dos homens com suas companheiras. Pacino tanta segurar as pontas do casamento; De Niro quer uma mulher para dividir a folga que vai conseguir por meio do grande assalto; e assim sucessivamente. Talvez daí a semelhança entre as obras de Mann e Anderson: são grandes painéis de pessoas em crise emocional. Se para Mann importam os laços conjugais, Anderson se interessa por ligações paternais. A força é de suas produções é a mesma.
Aliás, Mann também é magistral na construção da amizade entre os integrantes de cada grupo. Policiais e bandidos são quase espelhados. A cena em que os dois líderes conversam sobre o futuro num café e o final maravilhoso me lembram algo saído de algum clássico samurai.

sábado, dezembro 16, 2006

Esse desespero é moda em 75


Essa semana foram divulgados os indicados ao Globo de Ouro, sinal que o Oscar tá chegando. Coisa mais fácil do mundo é detonar a premiação, antro de frivolidades, gênios esnobados, vencedores medíocres. Tudo a ver, mas isso só vale de uns 25 anos para cá, quando os únicos "best picture" que são/serão clássicos não enchem uma mão: Os Imperdoáveis e Menina de Ouro, de Clint Eastwood, talvez Amadeus, de Milos Forman.

Os Imperdoáveis ganhou o Oscar em 1993

Antes disso, pode-se reclamar do pouco caso com Hitchcock, Kubrick e Altman, mas esse último tem razão: “ A Academia gosta de sapatos, e eu vendo luvas”, ou algo assim. Enfim, questão de adequação ao espírito da coisa. Quem pode reclamar da rejeição de Psicose quando uma obra-prima absoluta como Se Meu Apartamento Falasse é consagrada no mesmo ano?
Vendo no IMDB algumas premiações, os anos 70 provavelmente foram os mais corajosos, entre vencedores e indicados. O Poderoso Chefão 1 e 2, Operação França, Um Estranho no Ninho, Perdidos na Noite, Noivo Neurótico Noiva Nervosa, O Franco Atirador venceram o prêmio principal. Laranja Mecânica, Barry Lyndon, Um Dia de Cão, MASH, Cabaret, A Conversação, Tubarão, Gritos e Sussurros, Rede de Intrigas, Taxi Driver, todos finalistas de melhor filme. Isso sem contar com os premiados na categoria filme estrangeiro: Fellini, Kurosawa, Buñuel, Costa-Gavras, Truffaut.

O Poderoso Chefão ganhou o Oscar em 1973

Pode não ter sido a melhor década do Oscar, mas nunca filmes difíceis e autorais foram tão premiados. O melhor desses anos foi 75, premiação referente ao ano anterior. Basta pôr a lista de direção: Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão Parte 2; Bob Fosse, Lenny; Roman Polanski, Chinatown; François Truffaut, A Noite Americana; John Cassavetes, Uma Mulher Sob Influência. Ano seguinte: Milos Forman, Federico Fellini, Robert Altman, Stanley Kubrick e Sidney Lumet. Sensacional, mas a década teve, para compensar, duas das piores vitórias da história. Rocky e Kramer vs Kramer bateram Taxi Driver, Rede de Intrigas, Apocalypse Now e All That Jazz. Aliás, depois de Kramer, começou o período negro do Oscar, que jamais conseguiu se recuperar. Não somente a qualidade dos filmes diminuiu bastante, mas o prêmio não consegue valorizar as pérolas que aparecem ocasionalmente – claro, pérolas acessíveis, nada muito experimental, já que a Academia gosta de sapatos, é bom lembrar. Só assim para entender a predileção por Crash em prejuízo da delicadeza espetacular de Brokeback Mountain ou atordoamento político de Munique.

O Segredo de Brokeback Mountain não ganhou o Oscar de 2006

Melhor coisa para fazer com o Oscar. Pegar listas antigas e ir vendo os filmes premiados e indicados. O catálogo é muito bom. De 80 para cá, a saída é ignorar e tentar se divertir com a festa, que já se sabe, tem muito pouco a ver com qualidade cinematográfica.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Douglas, Minnelli

Kirk Douglas chegou aos 90. No final deste post, a mensagem de aniversário. Antes disso, queria lembrar que ele é muito mais do que um movie star. Participou de filmes magníficos como Glória Feita de Sangue, de Kubrick, e Fuga ao Passado, de Jacques Tourneur, mas foi ator maior que a vida pelo menos duas vezes: em Chaga de Fogo, de William Wyler, e Sede de Viver, de Vincente Minnelli, interpretando Van Gogh. A força e a intensidade de espírito exibida nestes papéis tem tudo a ver com a conclamação de aniversário.

Sede de Viver

Falei em Vincente Minnelli, permitam-me mais uma digressão. Estava meio entediado neste sábado com Um Dia em Nova York, de Gene Kelly e Stanley Donen, quando a lembrança de outro filme entrou na minha cabeça, e não saiu mais. A Lenda dos Beijos Perdidos é um filme nada perfeito. Música imemorável, dança sem ritmo, mas é de uma melancolia intolerável. Gene Kelly encontra por acaso uma passagem secreta para um vila escocesa parada no tempo, há 200 anos. Essa passagem só é aberta uma vez a cada 100 anos – e Kelly fica perdido de amor por Cyd Charisse, mas não pode vê-la nunca mais depois que o portal é fechado.

Gene Kelly e Cyd Charisse: felicidade com hora marcada para acabar

Esqueça Em Algum Lugar do Passado. Esse falso musical de Minnelli é mais uma prova de seu refinadíssimo tato para melodramas. No auge da depressão, Kelly chega a infernos dificilmente tocados pelo diretor em filmes até mais redondos, como Deus Sabe Quanto Amei, Assim Estava Escrito e o já citado Sede de Viver. Muitíssimo subestimado.
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Kirk Douglas Editorial for His 90th Birthday, Saturday, December 9th
LOS ANGELES, Dec. 8 /PRNewswire/ -- My name is Kirk Douglas. You may know me. If you don't ... Google me. I was a movie star and I'm Michael Douglas's dad, Catherine Zeta-Jones' father-in-law, and the grandparents [sic] of their two children. Today I celebrate my 90th birthday.
I have a message to convey to America's young people. A 90th birthday is special. In my case, this birthday is not only special but miraculous. I survived World War II, a helicopter crash, a stroke, and two new knees.
It's a tradition that when a "birthday boy" stands over his cake he makes a silent wish for his life and then blows out the candles. I have followed that tradition for 89 years but on my 90th birthday, I have decided to rebel. Instead of making a silent wish for myself, I want to make a LOUD wish for THE WORLD.
Let's face it: THE WORLD IS IN A MESS and you are inheriting it. Generation Y, you are on the cusp. You are the group facing many problems: abject poverty, global warming, genocide, AIDS, and suicide bombers to name a few. These problems exist, and the world is silent. We have done very little to solve these problems. Now, we leave it to you. You have to fix it because the situation is intolerable.
You need to rebel, to speak up, write, vote, and care about people and the world you live in. We live in the best country in the world. I know. My parents were Russian immigrants. America is a country where EVERYONE, regardless of race, creed, or age has a chance. I had that chance. You are the generation that is most impacted and the generation that can make a difference.
I love this country because I came from a life of poverty. I was able to work my way through college and go into acting, the field that I love. There is no guarantee in this country that you will be successful. But you always have a chance. Nothing should interfere with it. You have to make sure that nothing stands in the way.
When I blow out my candles -- 90! ... it will take a long time ... but I'll be thinking of you.
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sexta-feira, dezembro 01, 2006

Um Grande Garoto / Novembro

Estou sem tempo para escrever com calma. Apelo para a fórmula de Nick Hornby (nunca li) e posto três top-5.

Hoje, 1 de dezembro, é aniversário de Woody Allen. Ao contrário da maioria das pessoas, acho a década de 90 do diretor excelente. Sua carreira parece que só desandou entre Trapaceiros e Melinda e Melinda, e nem tenho tanta certeza, porque perdi o recheio dessa parte supostamente ruim: Igual a Tudo Na Vida, O Escorpião de Jade e Dirigindo no Escuro. Na minha escala Woody, os dois primeiros se afastam dos seguintes, e Mariel Hemingway e o diálogo final acabam desequilibrando a favor de Manhattan (embora o desfecho ao som de What's This Thing Called Love em Maridos e Esposas seja de uma crueldade infernal).

5 – Tiros na Broadway
4 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
3 – Desconstruindo Harry
2 – Maridos e Esposas
1 – Manhattan


Mariel Hemingway, neta de Ernest: "É preciso confiar nas pessoas"
Criador de grandes papéis femininos, Allen quase sempre trabalhou com um grupo fixo de atrizes, duas delas, “musas na tela e na vida real. As cinco melhores interpretações em seus filmes.

5 – Gena Rowlands, A Outra
4 – Dianne Wiest, Tiros na Broadway
3 – Diane Keaton, Um Misterioso Assassinato em Manhattan
2 – Geraldine Page, Interiores
1 – Judy Davis, Maridos e Esposas

Judy Davis enlouquecendo.

Agora, meu top 5 mensal. De vinte e nove filmes vistos em novembro, destaco:
5 - Curva do Destino, de Edgar Ulmer

4 - O Criado, de Joseph Losey

3 - Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah

2 - A Mulher Infiel, de Claude Chabrol

1 - Hara-kiri, de Masaki Kobayashi


Tanta coisa para falar desses filmes, mas deixa para lá.

sábado, novembro 18, 2006

Sonos Eternos


Três filmes recentes muito me aborreceram: Sin City, Dália Negra e Verdade Nua. Motivo: se vendem como revisões estilizadas do cinema noir, mas não passam de delírios formais, sem a dureza e crueldade do estilo, tão forte em filmes como A Dama de Shangai ou Pacto de Sangue, por exemplo. Partindo do mesmo princípio, não deveria admirar À Beira do Abismo, de 1946.


O filme de Howard Hawks é estrelado por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tem roteiro do Nobel William Faulkner. É baseado no primeiro romance de Raymond Chandler, O Sono Eterno, já estilisticamente impecável, de trama muito complicada e melancólica. Hawks e Faulkner seguem à risca o plot de Chandler, mas sacrificam o clima soturno do escritor. Fiquei com a impressão de que a confusão de tiroteios e chantagens é só pretexto para, de vinte em vinte minutos, termos um diálogo espetacular entre Bogart e Bacall. Aliás, nem sombra do detetive dos livros Philip Marlowe. Em cena, Bogart é Bogart, Bacall é Bacall, mas representam a si mesmos maravilhosamente.


Temos então um noir bastardo, uma mistura de policial com diálogos de comédia romântica – versão super sexy. Isso faz de À Beira do Abismo um filme ruim? Não. É excelente. Diversão classe AAA, violência inofensiva e final com picos impensáveis de charme. Está quase no mesmo patamar da outra obra-prima de Faulkner-Hawks-Bogart-Bacall, Uma Aventura na Martinica, livre adaptação de Ter ou Não Ter, de Hemingway. Aliás, ainda sobre À Beira do Abismo: Dorothy Malone, atriz vencedora do Oscar de coadjuvante em 57 pela performance genial em Palavras Ao Vento, de Douglas Sirk, faz ponta, interpretando uma esperta atendente de livraria, de óculos.


Conclusão: problema dos três filmes recentes citados no início não é exatamente diluir o estilo que reverenciam, mas oferecer muito pouco em troca.
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>>> No post anterior, sobre Volver, esqueci um detalhe interessante. Vários críticos colocam Kenji Mizoguchi num molde oriental de diretores do estilo de George Cukor e Joseph L. Mankiewicz, especialistas em mulheres, e fortes influências para Pedro Almodóvar. Dá para fazer uma ponte direta entre o espanhol e o japonês. Volver usa um efeito muito tradicional do cinema japonês, a convivência cotidiana entre vivos e mortos, que, sem paz, voltam como fantasmas. Volver e Contos Da Lua Vaga não somente exploram essa relação sobrenatural, mas são fortes ensaios sobre a resistência feminina a momentos adversos.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Velhos novos

Volver

Almodóvar enfileira mais um grande filme na seqüência que começou com Carne Trêmula, em 98. Volver, ao contrário dos dois últimos, não é sobre homens, e tem alto nível de humor. Celebra a força das mulheres, capazes de se reerguer do nada e superar tudo – transformam a tragédia em combustível, o fundo do poço em mola de propulsão. Acho que a frase é do próprio Almodóvar, mas se aplica a Woody Allen, Antonioni, Bergman, George Cukor, etc. “Gosto de filmar mulheres porque elas têm mais pedaços”. Talvez não, e o espanhol já foi capaz de mostrar a complexidade do mundo masculino. Mas, em Volver, ninguém duvida que ele sabe tudo de mulher. Dos seus filmes sobre mulher, esse é o melhor, mais humano, e mais plácido também. Ele chegou no ponto da carreira de pensar na morte, e usa o exemplo do afeto feminino para celebrar o perdão e a reconciliação. Lelouch falou sobre Spielberg depois do lançamento de E.T., mas a sugestão é perfeita para o momento:”Ele não deveria ganhar Oscars, e sim o Nobel da Paz”. (Almodóvar, mesmo em versão simples e enxuta continua muito apaixonado por cinema. Depois de fazer Tudo Sobre Minha Mãe para Bette Davis, Volver é homenagem a Joan Crawford: o drama de mãe e filha vem todo de Alma Em Suplício, de Michael Curtiz, e Almodóvar supera o filme antigo. Na televisão, já perto do fim, Belíssima, de Visconti).

Os Infiltrados

Para Scorsese, Os Infiltrados é ponto alto depois de dois filmes infelizes, e, como quase sempre, tem um magnífico ensemble masculino. Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Matt Damon e Leonardo DiCaprio se envolvem num complicado jogo de espionagem de polícia e ladrão no submundo de Boston. Violência corre solta, e Scorsese acerta em cheio no personagem desequilibrado do excelente DiCaprio. Ele é o ponto de distanciamento da selvageria dominante, e o que impede o filme de ser “só” mais um filme de ação bem realizado. Aliás, bem realizado é pouco, filme é um primor de roteiro e montagem – ou seja, administração da história. Tensão explode. Ainda assim, a expectativa de um novo Cassino pode provocar um pé atrás. Pena não ver Joe Pesci, os travellings, os offs superpostos... Mas o que ele já fez é muito bom.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Outubro

Cinco melhores filmes que vi em outubro:

5 - O Dia do Chacal, de Fred Zinnemann


4 - O Pagamento Final, de Brian de Palma

3 - Danton - O Processo da Revolução, de Andrzej Wajda



2 - Os Inocentes, de Jack Clayton


1 - Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes

sábado, novembro 04, 2006

Laços de família

>>> Vi ontem Estrela de Fogo, filme de Don Siegel estrelado por Elvis Presley. O cantor é Pacer, mestiço que vive com pai e irmão brancos, e mãe índia. Quando os kiowas começam a lutar contra os brancos, os dois lados pedem a Pacer uma tomada de posição. A intransigência tem muito a ver com os Estados Unidos. A preocupação principal de Siegel é o que sobra da família depois de tanta violência. A tragédia inevitável nada tem de racista. A impossibilidade da miscigenação não é apresentada como lição, mas como comentário político dos mais pessimistas.


Muitos faroestes são construídos assim: a violência não existe para fins de entretenimento. A morte é elemento de pressão, para que o diretor pense as relações humanas num ambiente hostil. Em clássicos do porte de Um Certo Capitão Lockhart, A Face Oculta, ou no maior dos westerns, Os Brutos Também Amam, os laços que importam são familiares. A não contar as convenções de gênero, o que separa esses filmes dos melodramas de Douglas Sirk?
>>> Dia de Finados foi centenário de nascimento de Luchino Visconti. Coincidência perfeita: Visconti foi o cineasta da decadência, e o caminho provável de todos os seus filmes é a morte, o fim. Ninguém registrou dessa maneira o processo de declínio e destruição - de relações humanas (Obsessão, O Inocente) e políticas (O Leopardo, Ludwig). Rocco e Seus Irmãos é seu filme mais influente. Visconti mistura literatura russa e ópera para construir o épico do povo.
A família pobre tentando sobreviver em Milão, Rocco imaculado ganhando dinheiro na violência cotidiana do boxe, separado do irmão volúvel pelo amor da prostituta Nadia - é o auge do roteiro no cinema. Junta o inconciliável: o ambiente neo-realista, mas tratamento de grande melodrama. Era Uma Vez na América também não é neo-realista, mas não existiriam sem a lição de Visconti: levar a suntuosidade narrativa para as paixões violentas do mundo de verdade.


O Poderoso Chefão é herdeiro do Rocco, mas também tem os dois pés em O Leopardo. "As coisas devem mudar para continuarem as mesmas", é o dito de Tancredi para o Princípe de Salina, seu tio. Visconti filma uma morte social, eterna adaptação da aristocracia aos novos poderosos. Vito Corleone, acuado e antiquado, abre o caminho para o filho Michael. Este se torna mais poderoso que o pai, às custas de seu valor fundamental: a família. Assim, voltamos ao Rocco.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Faixa Nobre do Esporte

UPDATE: O sufoco que o time tomou da Holanda me fez sentir falta do time velho. O passe não saiu, Carol ficou meio hesitante, e onde está a bola de segurança para resolver. Sassá, cada vez melhor, entrou e não fez feio. Pena que Mari tenha saído. Não tava muito bem, mas é porque o lugar dela é mesmo como oposto. Contra os Estados Unidos, ela entrou no final do primeiro set na inversão do 5-1, já que Renata não se destacou muito nos últimos jogos. Sobre os EUA, onde está Logan Tom?

Fui até as duas da manhã lendo. Ligo a televisão, e, grata surpresa, a Globo transmite o Campeonato Mundial Feminino de Vôlei. Pena que essas competições são sempre no Japão, e provocam horário proibitivo. Ainda assim, prazer absoluto ver a geração de Zé Roberto jogar, mesmo contra o Cazaquistão.
Dizem que é bom time, e deu calor nos Estados Unidos (perdeu de 3 a 2) na primeira rodada, liderado pela ponta Pavlova – incríveis 40 pontos. O problema do jogo contra o Brasil é que a equipe ex-soviética desistiu, poupando-se para quando tivesse mais chances. Pavlova foi sacada no final do primeiro set. Mari, Sheila, Jaqueline, Fabiana, Walewska e Carol não deram chances: 3 a 0, com parciais de 25-17, 25-13 e 25-16.
O melhor foi ver a seleção completamente azeitada, mesmo sem Fofão, que sofreu lesão leve. Há quatro anos, na Alemanha, Marco Aurélio Motta levou o Brasil pro mundial com muitas dessas jogadoras, depois que veteranas abandonaram o time. Paula Pequeno, Sassá e Sheila, entre outras, foram até às quartas, onde perderam para a China num dramático 3 a 2.
Depois do quarto lugar (das veteranas) nas Olimpíadas, o time novo tem varrido todos os títulos, e chegou ao hexa no Grand Prix. A geração anos 90/início dos 2000 jogava no tempo da vantagem, com atacantes de força e bola alta: Ana Moser, Virna, Elisângela, Raquel, Érika. O Brasil tentava ser um misto de mais leve de Rússia e Cuba – o dream team tricampeão olímpico de Regla Bell e Mireya Luis.
O novo vôlei está mais adaptado ao tempo da China, time que ganhou cada vez mais projeção depois do vice-olímpico em Atlanta, até a medalha de ouro em Atenas. É um vôlei muito marcado pela tradição oriental da velocidade, só que jogadoras altas e muita força de ataque. A geração Zé Roberto,entrou nesse tempo. Todas as bolas são de grande velocidade – é como se todo mundo jogasse no ritmo da musa Leila.
Jaqueline, Sassá e, principalmente Sheila arrebentam nesse estilo, e ainda são capazes de “resolver” as bolas complicadas, embora sem a potência da geração passada. Para o desafogo o Brasil conta com Mari, minha jogadora brasileira preferida da atualidade. Ela não aparece muito em jogos fáceis, e seu estilo é bastante frio, mas quando o jogo precisa de braço, não há competição. Lembro da semifinal de Atenas, contra a Rússia. O Brasil perdeu e Mari errou a última bola, mas já tinha feito 37 pontos.
Enquanto essas partidas decisivas não chegam, Zé Roberto faz bem em dar rotatividade ao time. Contra o Cazaquistão todas as reservas jogaram. Entre elas a ex-titular Paula Pequeno, que esteve afastada da seleção por conta de gravidez. Renata, a jogadora com braço mais pesado do time, ainda tem um tempo muito Bernardinho, mas é perfeita pra movimentar o time durante as inversões da diagonal da levantadora. (Eu a vi jogar aqui em Salvador pelo antigo BCN, durante a Copa Salonpas. Foi a melhor atacante da competição, batendo Virna, do mesmo time, que foi melhor pontuadora).
Enfim, acho que o Brasil tem tudo pra levar seu primeiro ouro mundial, e colocar de vez o time feminino em pé de igualdade em títulos com a equipe masculina. Os grande adversários devem ser os suspeitos de sempre: China, Rússia e Cuba, agora renovada, e com uma atacante do nível do dream team, Calderón Diaz. Comendo pelas bordas, a atual campeã, Itália Zebra em 2002), além de novidades, como Sérvia. O time eslavo não tema tradição de sua equipe masculina, mas surpreendeu nas duas primeiras rodadas, batendo justamente Cuba e Itália. O campeonato está só começando.
(Eu sempre gostei muito de esporte, pela TV. Sou órfão da Faixa Nobre do Esporte, da Band. Assistia até campeonato de sinuca.)