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domingo, dezembro 13, 2009

Algumas notas sobre Abraços Partidos

Sim, este é o pior filme de Almodóvar desde que ele consolidou sua fase madura, lá pelos idos de Carne Trêmula, em 97. O cara continua um encenador genial, cheio de ideias maravilhosas para grandes cenas e imagens arrebatadoras, como a lágrima no tomate, os carros vistos de cima, armas pintadas e quadros e fotografias rasgadas. Vez em quando o filme tem um desses espasmos de genialidade, mas Abraços Partidos acaba não funcionando no cena-a-cena porque o Almodóvar grande roteirista parece ter saído de férias.

Estruturalmente, o filme é completamente mal-arquitetado, dividido em duas partes das quais apenas uma funciona: o flashback é um vulcão de paixões e desejo, crueldade e violência; a trama contemporânea é morna, patina numa terrível falta de assunto, e, para tentar manter-se de pé, afunda-se ainda mais em revelações de novela mexicana em mesa de bar e no café da manhã. Quando um personagem fica sabendo quem é o verdadeiro pai, por exemplo, nem o ator que o interpreta parece acreditar na tolice da cena.

Isso sem contar com a auto-indulgência de Almodóvar em relação a um monte de gordura do filme, como um longo diálogo sobre um filme de vampiros que não vai a lugar nenhum, ou a reaproximação do protagonista de seu antigo assistente de direção. Mas, enfim, tirando a decisão final da remontagem e a cena em que o cineasta tenta sentir o amor do passado numa imagem projetada, todo o segmento contemporâneo poderia ir para a lata do lixo.



Apesar de uma série de falhas evidentes, no entanto, Abraços Partidos torna-se algo instigante quando o observamos dentro da carreira de Almodóvar e o que ele representa em termos de indício do que está por vir nesta filmografia. Ao contrário do que fez no maravilhoso Volver, onde, diga-se a verdade, o cineasta tocava notas que já dominava completamente, o diretor tenta desta administrar um material fora de sua zona de conforto, reduzindo o humor ao máximo e buscando embrenhar-se no melodrama sem o seu contrabalanço habitual de exuberância e emoção.

Assim como Má Educação, Abraços Partidos é um melô sem lágrimas, premeditamente seco. Cabe um parêntese aqui para tentar mapear essa guinada sombria do diretor. Uma vez perguntaram-lhe quem eram os três maiores diretores da história e ele respondeu: Billy Wilder, Billy Wilder e Billy Wilder. Se no início da carreira, parecia interessar-se mais pelo escracho de Quanto Mais Quente Melhor, The Fortune Cookie ou Beija-me Idiota, Almodóvar parece inclinar-se agora a outra fase de seu mestre, responsável por coisas como Crepúsculo dos Deuses, Pacto de Sangue e A Montanha dos Sete Abutres.

Pode-se argumentar que este novo Almodóvar é menos Almodóvar que o de Volver, ou Kika, mas estes filmes secos do diretor são tão puro sangue quanto as comédias escrachadas e o os melodramas lacrimejantes: a diferença que a maldade, para o cineasta, está quase que confinada a uma dimensão cinematográfica ("As pessoas só caem das escadas no cinema") e por isso seus exemplares puramente noir - Abraços Partidos e Má Educação - são filtrados pela figura de um protagonista diretor de cinema e filmes dentro de filmes. A vilania e a crueldade se transformam em metalinguagem.

Por outro lado, apesar de andar por territórios que ainda não explorou com tanto afinco, Abraços Partidos é marcante por não deixar de conter todos os temas essenciais do Almodóvar recente, mesmo que em tom diferente. Assim como Tudo Sobre Minha Mãe, Má Educação e Fale Com Ela, é um filme dedicado ao poder da arte sobre as pessoas, e sobre como elas agem influenciadas pelas marcas deixas por filmes, peças, a música e dança, seja como espectadores ou como criadores. Enfim, a função da arte como reflexo e refúgio.

Além das pessoas e da arte, o terceiro item dessa equação: o tempo. Até como resultado de seu próprio da consciência de seu envelhecimento, Almodóvar tem feito cada vez mais filmes em várias dimensões temporais, quebra-cabeças narrativos em múltiplos tempos que se coadunam para judar a definir os personagens, como nos romances de Ian McEwan, escritor que admira. Almodóvar fica velho e faz filmes cada vez mais sobre o passado: a violência enfrentada por Raimunda, a peça e o amor de Manuela na juventude, o romance de Enrique e Angel, o filme destruído de Mateo Blanco...

Abraços Partidos é definitivamente o pior desses roteiros, mas ilustra bem a tendência da obra futura de Almodóvar. Mesmo com pontos fora da curva em tom e qualidade, como esse novo filme, o diretor continuará preso dentro de seu cinema particular, e o tema dos filmes deste cinema particular, no fundo, é a memória. Almodóvar está se transformando em Resnais.

domingo, novembro 09, 2008

Lubitsch não faria

Agora entendo o fracasso de Beija-me Idiota, de Billy Wilder. O filme não é nada fácil: carro de cantor famoso e mulherengo quebra numa cidadezinha pequena. O compositor local decide hospedá-lo, como é muito ciumento, decide brigar com a mulher - que é fã do cantor para tirá-la de casa por uma noite, e a substituiu por uma prostituta. A certa altura da projeção, os papéis se invertem de vez, a esposa vai parar no trailer da prostituta. Essa troca de papéis chega a ser consumada sexualmente, isso em 1960 e poucos. O filme é uma comédia.



Ligações perigosas

Não tinha como dar certo: a própria chegada aos anos 60 torna cenários e ambientação mais realista, que não casa nem um pouco com a graça farsesca que Billy Wilder imprime no seu roteiro. Por outro lado, o filme tem níveis inéditos de grosseria. Mesmo nos filmes mais sexualizados que Wilder havia feito até então, não há piadas como "Não é muito grande, mas é limpa" - uma referência de duplo sentido feita pelo compositor, quando mostra a sua casa à prostituta.

Wilder, que tinha uma plaquinha no escritório dizendo "What would Lubistch do?", nunca se afastou tanto de seu mestre. Beija-me Idiota tem a sutileza de uma jamanta. É um filme extremamente ácido e agressivo, tanto que fica a dúvida: é bom pela coragem ou ruim pelo exagero? Em DVD.