Gosto desse filme, mas prefiro o original, cuja pudicícia é muito mais greeniana que a sensualidade escaldante do remake. Julianne Moore é emotiva e expressiva, mas como superar a sutileza contida e contrita de Deborah Kerr, vivendo a ultra-atormentada Sarah Miles? Perto dela o Bendrix de Johnson pode se apagar um pouco, mas registra bem. Aliás, Johnson está em outro filme de que gosto muito, A Lenda dos Beijos Perdidos, de Vincente Minnelli, mas é eclipsado por Gene Kelly em sua melhor atuação.
sábado, dezembro 13, 2008
Fim de caso
Gosto desse filme, mas prefiro o original, cuja pudicícia é muito mais greeniana que a sensualidade escaldante do remake. Julianne Moore é emotiva e expressiva, mas como superar a sutileza contida e contrita de Deborah Kerr, vivendo a ultra-atormentada Sarah Miles? Perto dela o Bendrix de Johnson pode se apagar um pouco, mas registra bem. Aliás, Johnson está em outro filme de que gosto muito, A Lenda dos Beijos Perdidos, de Vincente Minnelli, mas é eclipsado por Gene Kelly em sua melhor atuação.
sábado, novembro 08, 2008
A Noite do Iguana
Isso tudo sem mencionar Ava Gardner. Nunca vi A Condessa Descalça, o auge de sua carreira, mas impressão sobre ela foi sempre a de uma mulher deslumbrante, mas uma não-atriz, no sentido pejorativo do termo. Neste filme, sob a direção de Huston, e já passada da juventude, ela despeja uma maravilhosa sensualidade madura, humana e desglamourizada - linda e mediterrânea, meio Irene Papas, meio Sophia Loren.
sexta-feira, maio 09, 2008
O melhor do cinema...
O primeiro dos filmes foi O Segredo das Jóias, noir famoso pela participação de Marilyn Monroe. Há mais fama do que mérito - ela ainda está apagada, verde, sem a presença e a potência dramática que teria no seu último filme, justamente dirigido por Huston, Os Desajustados. Mas tudo bem, se há um papel feminino que importe é o de Jean Hagen, a maravilhosa Lina Lamont de Cantando na Chuva, em registro totalmente diferente. Somem a voz estridente e a presença caricata, entram uma atuação sincera e de cara lavada, crua. Muito boa.
Ainda assim, estamos na beirada do filme. A princípio, O Segredo das Jóias não parece segurar a reputação que tem, de ser uma das obras-primas do diretor. Talvez não seja mesmo, mas o filme cresce imensamente à medida que a trama evolui. No começo, o plano de um assalto. Depois, a execução. Por fim, o acerto de contas.
Ao contrário de outros filmes do gênero que são geniais do início ao fim - como Rififi, de Jules Dassin, ou Homens em Fúria, de Robert Wise -, O Segredo das Jóias só revela sua amplitude na parte final. Huston retoma o tema da ambição fracassada que faz parte de dois de seus filmes mais importantes, O Falcão Maltês, e O Tesouro de Sierra Madre. A diferença é que o tom cáustico dos longas anteriores é atenuado e substituído pela nobreza da derrota, num lance quase fordiano.
Sem querer estragar o que não dá para arruinar, a parte final é ancorada justamente nisso, no fracasso coletivo. Na mais bela cena, o ladrão veterano assiste a uma garota dançar ao som do jukebox, enquanto a polícia espera do lado de fora do bar. Cena nostálgica e melancólica, mas principalmente doce.
O filme dois da maratona, embora tido quase como menor dentro da carreira do grande mestre, é tão forte quanto O Segredo das Jóias. O Céu Por Testemunha é um exemplar justamente do outro grande tema dos filmes de Huston: ser estrangeiro.
Deborah Kerr e Robert Mitchum são uma freira e um fuzileiro isolados numa ilha do Pacífico Sul durante a Segunda Guerra Mundial. Só têm um ao outro, rola clima, etc, mas nunca em um nível que ataque a inteligência do espectador. É tudo muito sutil, e vemos crescer e tomar forma na tela uma relação que é, acima de tudo, de amizade, apesar da tensão sexual. O filme se sustenta na relação de um homem e uma mulher, e, para um grande diretor, isso basta.
O tom é leve, aventuresco, inteligente, com aquele mesmo charme de The African Queen, não por acaso, Uma Aventura na África, título nacional. Mitchum e Kerr, aliás, em nada devem a Bogart e Kate Hepburn. Mitchum brilha no seu melhor papel de leading man, cavalheiro completo sem perder um fio da presença masculina, e sempre deixando nas entrelinhas um passado sugerido do personagem: orfanato, reformatórios, Marinha - solidão e paz acalmada, esperteza e bravura.
Kerr retoma o hábito uns doze anos depois do grande papel em Narciso Negro. Naquele filme ela era uma freira isolada no Nepal, acho, enfrentando todos os mistérios e a tensão que não vem de lugar nenhum - só do ambiente (se tivesse havido alguma adaptação de Passagem Para a Índia nessa época, não haveria melhor escolha para o papel de Adela Quested). Em O Céu Por Testemunha, a tensão é mais leve, e Kerr se vira imprimindo charme delicado a um personagem que deve ser contido, com o corpo coberto o tempo inteiro. Se há uma atriz que sabe trabalhar nas minúcias, é ela.
No fim, fica o grande prazer de ver esse timaço trabalhando, cada um no seu elemento, todos atingindo fácil a perfeição. Filmão.
quinta-feira, outubro 18, 2007
Se Débora quer que o Gregory peque
Anunciaram na manhã de hoje a morte de Deborah Kerr, 86. Seis indicações ao Oscar, perdeu todas, mas ganhou uma estatueta honorária quando Sintonia de Amor fez uma homenagem ao seu maior sucesso, o weepie Tarde Demais Para Esquecer. O romance na tela com Cary Grant garante até hoje suspiros apaixonados, mas particularmente, não gosto. Envelheceu, ficou choroso.
Outro sucesso de Kerr foi A Um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann, que tem a cena do beijo na praia. Filme quadrado, mal azeitado, dramalhão, que tem entre seus inúmeros deméritos uma atuação muito ruim de Frank Sinatra, que, claro, venceu o Oscar. A piada é de que Sinatra teria conseguido o papel com a ajuda de suas conexões com a máfia, episódio reproduzido em O Poderoso Chefão na historinha de Johnny Fontane.
Pois bem, o Imdb conta em 52 filmes a carreira de Kerr, muita coisa hoje difícil de achar. Deixa eu ver o que mais vi: Quo Vadis, épico barato roubado pelo histrionismo de Peter Ustinov no papel de Nero; o Júlio César de Joseph L. Mankiewicz, onde ela some diante de Marlon Brando, James Mason e John Gieguld... O gigantesco musical O Rei e Eu, onde ela mais uma vez se deixa ofuscar; desta vez, por Yul Brynner. Há também a divertida elegância de Do Outro Lado, o Pecado, de Stanley Donen. O filme não é lá essas coisas, mas Kerr se diverte à vontade como uma decadente lady inglesa, fazendo par novamente com Cary Grant.
As grandes atuações de Kerr estão em outros filmes: Narciso Negro, incrível e sombrio filme de Powell + Pressburger, ainda nos 40, sobre freiras isoladas numa região remota da Ásia; Bom Dia Tristeza, milimetricamente perfeita como a formal Anne Larson, vítima das intrigas de uma adolescente mimada. O resultado é trágico.
Deborah Kerr em Os Inocentes, de Jack Clayton
Do que vi, a melhor interpretação fica entre Os Inocentes, adaptação impecável (roteiro de Truman capote) de Jack Clayton da novella A Volta do Parafuso, de Henry James, e Pelo Amor de Meu Amor, primeira versão do Fim de Caso de Graham Greene para o cinema, dirigida por Edward Dmytryk.
Nesses dois filmes, os cacoetes hollywoodianos que ela adquiriu na passagem pela América dão lugar a um sutil minimalismo, a nuances perceptíveis em falhas na fala, olhares delicadamente desviados... Há aquela sensação permanente de que há sempre uma emoção interna, abafada. Kerr é magistral nessas atuações baseadas no não-dito, coisa tão tipicamente inglesa.