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sábado, dezembro 13, 2008

Fim de caso

Morreu Van Johnson, aos 92 anos. Não tenho memória afetiva nenhuma dele, a não ser pelo fato de ele interpretou Maurice Bendrix, o personagem supremo de Graham Greene, na primeira versão para o cinema de The End of The Affair (ou Pelo Amor de Meu Amor, no Brasil), dirigida por Edward Dmytryk. A refilmagem de 1999 é amplamente aclamada, ainda mais por ter sido comandada por Neil Jordan, cineasta altamente capaz - fez Entrevista Com O Vampiro e Traídos Pelo Desejo.



Johnson e Kerr, Maurice e Sarah

Gosto desse filme, mas prefiro o original, cuja pudicícia é muito mais greeniana que a sensualidade escaldante do remake. Julianne Moore é emotiva e expressiva, mas como superar a sutileza contida e contrita de Deborah Kerr, vivendo a ultra-atormentada Sarah Miles? Perto dela o Bendrix de Johnson pode se apagar um pouco, mas registra bem. Aliás, Johnson está em outro filme de que gosto muito, A Lenda dos Beijos Perdidos, de Vincente Minnelli, mas é eclipsado por Gene Kelly em sua melhor atuação.

sábado, novembro 08, 2008

A Noite do Iguana

Por que raios eu nunca tinha visto A Noite do Iguana, de John Huston? Merten já havia mencionado a grande cena desse filme, mas ainda assim, ela vem como um trator. O padre desequilibrado interpretado por Richard Burton está amarrado numa rede, para não se matar. Deborah Kerr é uma solteirona, artista mambembe, que havia conhecido o padre no mesmo dia.


O padre e a blasfêmia
Burton pergunta à solteirona se ela já teve experiências "amorosas". Ela havia tido duas. Kerr detalha, em close, como deu um berro quando um colega de classe pôs a mão em seu joelho dentro do cinema. A segunda - Kerr ainda em close-up - foi durante uma viagem em Hong Kong, quando um homem pediu uma peça de roupa da solteirona após pagar um preço generoso por um de seus quadros. Ela aceita, e entrega a peça, enquanto o pagante está de olhos fechados.

Kerr: close-up
O brilhantismo dessa cena resume o melhor de um certo cinema falado feito nos Estados Unidos, inimitável. O que está em jogo, em 100% do tempo, é a palavra e o ator, e John Huston tem confiança absoluta nessas coisas que hoje estão fora de moda. Mas, como achar um texto tão magnífico como esse, assinado por Tennessee Williams? Onde encontrar uma atriz com a desenvoltura de uma Deborah Kerr, sustentando um close bergmaniano desses sem apelar pro silêncio? Velho, datado e empoeirado como esse filme supostamente é, o resultado é de tirar o fôlego. Cinco estrelas, fechadas.

Sem amarras

Isso tudo sem mencionar Ava Gardner. Nunca vi A Condessa Descalça, o auge de sua carreira, mas impressão sobre ela foi sempre a de uma mulher deslumbrante, mas uma não-atriz, no sentido pejorativo do termo. Neste filme, sob a direção de Huston, e já passada da juventude, ela despeja uma maravilhosa sensualidade madura, humana e desglamourizada - linda e mediterrânea, meio Irene Papas, meio Sophia Loren.

sexta-feira, maio 09, 2008

O melhor do cinema...

... é passar quatro horas vendo dois filmes seguidos de John Huston. Na seqüência, assisti a dois filmes dele da década de 50, e, cada um a seu modo, possuem a assinatura de grande autor. Justo ele, que dizia filmar qualquer coisa e não ter estilo algum. Para mim, esse tipo de auto-depreciação faz parte da postura dele, desligada, cool, às vezes grave, ultra-masculina.

O primeiro dos filmes foi O Segredo das Jóias, noir famoso pela participação de Marilyn Monroe. Há mais fama do que mérito - ela ainda está apagada, verde, sem a presença e a potência dramática que teria no seu último filme, justamente dirigido por Huston, Os Desajustados. Mas tudo bem, se há um papel feminino que importe é o de Jean Hagen, a maravilhosa Lina Lamont de Cantando na Chuva, em registro totalmente diferente. Somem a voz estridente e a presença caricata, entram uma atuação sincera e de cara lavada, crua. Muito boa.

Ainda assim, estamos na beirada do filme. A princípio, O Segredo das Jóias não parece segurar a reputação que tem, de ser uma das obras-primas do diretor. Talvez não seja mesmo, mas o filme cresce imensamente à medida que a trama evolui. No começo, o plano de um assalto. Depois, a execução. Por fim, o acerto de contas.



Corrida para lugar nenhum: Jean Hagen e Sterling Hayden

Ao contrário de outros filmes do gênero que são geniais do início ao fim - como Rififi, de Jules Dassin, ou Homens em Fúria, de Robert Wise -, O Segredo das Jóias só revela sua amplitude na parte final. Huston retoma o tema da ambição fracassada que faz parte de dois de seus filmes mais importantes, O Falcão Maltês, e O Tesouro de Sierra Madre. A diferença é que o tom cáustico dos longas anteriores é atenuado e substituído pela nobreza da derrota, num lance quase fordiano.

Sem querer estragar o que não dá para arruinar, a parte final é ancorada justamente nisso, no fracasso coletivo. Na mais bela cena, o ladrão veterano assiste a uma garota dançar ao som do jukebox, enquanto a polícia espera do lado de fora do bar. Cena nostálgica e melancólica, mas principalmente doce.

O filme dois da maratona, embora tido quase como menor dentro da carreira do grande mestre, é tão forte quanto O Segredo das Jóias. O Céu Por Testemunha é um exemplar justamente do outro grande tema dos filmes de Huston: ser estrangeiro.

Deborah Kerr e Robert Mitchum são uma freira e um fuzileiro isolados numa ilha do Pacífico Sul durante a Segunda Guerra Mundial. Só têm um ao outro, rola clima, etc, mas nunca em um nível que ataque a inteligência do espectador. É tudo muito sutil, e vemos crescer e tomar forma na tela uma relação que é, acima de tudo, de amizade, apesar da tensão sexual. O filme se sustenta na relação de um homem e uma mulher, e, para um grande diretor, isso basta.



Se a Deborah quer que o Robert peque

O tom é leve, aventuresco, inteligente, com aquele mesmo charme de The African Queen, não por acaso, Uma Aventura na África, título nacional. Mitchum e Kerr, aliás, em nada devem a Bogart e Kate Hepburn. Mitchum brilha no seu melhor papel de leading man, cavalheiro completo sem perder um fio da presença masculina, e sempre deixando nas entrelinhas um passado sugerido do personagem: orfanato, reformatórios, Marinha - solidão e paz acalmada, esperteza e bravura.

Kerr retoma o hábito uns doze anos depois do grande papel em Narciso Negro. Naquele filme ela era uma freira isolada no Nepal, acho, enfrentando todos os mistérios e a tensão que não vem de lugar nenhum - só do ambiente (se tivesse havido alguma adaptação de Passagem Para a Índia nessa época, não haveria melhor escolha para o papel de Adela Quested). Em O Céu Por Testemunha, a tensão é mais leve, e Kerr se vira imprimindo charme delicado a um personagem que deve ser contido, com o corpo coberto o tempo inteiro. Se há uma atriz que sabe trabalhar nas minúcias, é ela.

No fim, fica o grande prazer de ver esse timaço trabalhando, cada um no seu elemento, todos atingindo fácil a perfeição. Filmão.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Se Débora quer que o Gregory peque

Anunciaram na manhã de hoje a morte de Deborah Kerr, 86. Seis indicações ao Oscar, perdeu todas, mas ganhou uma estatueta honorária quando Sintonia de Amor fez uma homenagem ao seu maior sucesso, o weepie Tarde Demais Para Esquecer. O romance na tela com Cary Grant garante até hoje suspiros apaixonados, mas particularmente, não gosto. Envelheceu, ficou choroso.

Outro sucesso de Kerr foi A Um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann, que tem a cena do beijo na praia. Filme quadrado, mal azeitado, dramalhão, que tem entre seus inúmeros deméritos uma atuação muito ruim de Frank Sinatra, que, claro, venceu o Oscar. A piada é de que Sinatra teria conseguido o papel com a ajuda de suas conexões com a máfia, episódio reproduzido em O Poderoso Chefão na historinha de Johnny Fontane.


Pois bem, o Imdb conta em 52 filmes a carreira de Kerr, muita coisa hoje difícil de achar. Deixa eu ver o que mais vi: Quo Vadis, épico barato roubado pelo histrionismo de Peter Ustinov no papel de Nero; o Júlio César de Joseph L. Mankiewicz, onde ela some diante de Marlon Brando, James Mason e John Gieguld... O gigantesco musical O Rei e Eu, onde ela mais uma vez se deixa ofuscar; desta vez, por Yul Brynner. Há também a divertida elegância de Do Outro Lado, o Pecado, de Stanley Donen. O filme não é lá essas coisas, mas Kerr se diverte à vontade como uma decadente lady inglesa, fazendo par novamente com Cary Grant.

As grandes atuações de Kerr estão em outros filmes: Narciso Negro, incrível e sombrio filme de Powell + Pressburger, ainda nos 40, sobre freiras isoladas numa região remota da Ásia; Bom Dia Tristeza, milimetricamente perfeita como a formal Anne Larson, vítima das intrigas de uma adolescente mimada. O resultado é trágico.

Deborah Kerr em Os Inocentes, de Jack Clayton

Do que vi, a melhor interpretação fica entre Os Inocentes, adaptação impecável (roteiro de Truman capote) de Jack Clayton da novella A Volta do Parafuso, de Henry James, e Pelo Amor de Meu Amor, primeira versão do Fim de Caso de Graham Greene para o cinema, dirigida por Edward Dmytryk.

Nesses dois filmes, os cacoetes hollywoodianos que ela adquiriu na passagem pela América dão lugar a um sutil minimalismo, a nuances perceptíveis em falhas na fala, olhares delicadamente desviados... Há aquela sensação permanente de que há sempre uma emoção interna, abafada. Kerr é magistral nessas atuações baseadas no não-dito, coisa tão tipicamente inglesa.