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terça-feira, outubro 14, 2008

Aquela canção do Roberto

Já que passei os últimos dois dias pensando em Roberto Carlos, duas listas para me exorcizar do cara.

10 canções emprestadas

10 - Nossa Canção (Luiz Ayrão)
9 - Outra Vez (Isolda)
8 - Não Vou Ficar (Tim Maia)
7 - Do Outro Lado da Cidade (Helena dos Santos)
6 - Muito Romântico (Caetano Veloso)
5 - Só Vou Gostar de Quem Gosta de Mim (Rossini Pinto)
4 - Canzone Per Te (Sergio Endrigo)
3 - Ai Que Saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago)
2 - Como Dois e Dois (Caetano Veloso)
1 - Maria, Carnaval e Cinzas (Luiz Carlos Paraná)

Comentários: Eu amo a gravação de "Não Vou Ficar", mas ela fica lá embaixo porque outras pessoas já fizeram melhor. As outras, não, são totalmente Roberto, mesmo Ai Que Saudades da Amélia. A versão resgatada na coletânea San Remo 1968 é linda, e mostra o que RC poderia ter sido se tivesse seguido a veia samba-bossa-nova de suas primeiras canções. Pelo mesmo motivo, "Maria, Carnaval e Cinzas" é a número um. Roberto nem faz esforço: sua voz encontra como que por instinto a tragédia da música, que aliás, é magnífica. O link que postei é prum festival da Record, versão ao vivo, emocionante. "Que fosse chamada /então como tantas / Marias de santa / Marias de flor".

As duas canções de Caetano também encontram outra face da versatilidade de RC: puxam para um som meio rock, aguitarrado, meio soul, meio jazz - música negra americana com a qual Roberto também flerta em "Jesus Cristo" (ver abaixo). "Do Outro Lado da Cidade" é uma brisa no rosto, encantadora, e o resto segue a cartilha muito bem realizada do drama de desilusão amorosa. Sobrou no último minuto: Sonho Lindo, novelão que, talvez vocês lembrem, foi emporcalhada por Paulo Ricardo e parou na trilha de uma novela do SBT.

10 canções do Roberto

10 - Você
9 - Eu Te Amo, te amo, te amo
8 - Amada, Amante
7 - Desabafo
6 - As Curvas da Estrada de Santos
5 - Fera Ferida
4 - As Canções Que Você Fez Para Mim
3 - Jesus Cristo
2 - Quero Que Vá Para Tudo Pro Inferno
1 - Detalhes

Comentários: Acho que, para mim mesmo, só uma grande surpresa. A religião tornou RC um xarope, mas "Jesus Cristo" tem uma maravilhosa vibração spiritual, que, apesar de ser tradicional, é completamente sintonizada com o espírito dos anos 70 - poderia sair daqui direto para um musical da Broadway (Godspell?), e, em seguida, influenciar o Prince de When Doves Cry. Eu acho.

Tirando "Desabafo" e "Fera Ferida", tudo está entre 65-75, por aí. É a grande fase do cara, mesmo que no final dela já tivesse virado um protótipo de tudo de ruim que seria nos 30 anos seguintes. Mesmo assim, fazia o novelão lindamente, como na épica número um: "Detalhes". A música continua imbatível, implacável como uma marreta, e sempre me traz lembranças daquele filme venenoso de Truffaut, A Mulher do Lado.

Eu falei no post anterior que boa parte dos grandes hits de RC é sobre alguém remoendo uma paixão perdida. "Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo", no entanto, é ambígua, fala mais de um amor interrompido, e não terminado. E, apesar do tema, "As Curvas da Estrada de Santos", "As Canções Que Você Fez Para Mim" e "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" recusam o tom abolerado: são as melhores canções de rock da história desse país. (Confiante).

Enfim, o número dez foi claramente a escolha mais difícil. "Você" derrotou no sprint final "Olha" e "Eu Estou Apaixonado Por Você". Nesse caso, a tristeza dilacerante venceu o otimismo e a melancolia discreta.

*Links com versões originais, na medida do possível. Se não tem link, ou não achei, ou encontrei uma versão sabotada pelo próprio RC depois que perdeu a lucidez.

domingo, outubro 12, 2008

Neste mundo desamante

Esse blog de Caetano é realmente um (bom) achado. Do último post, resolvi reproduzir isso aqui:

Falando em rei, hoje ouvi no rádio do carro a gravação de Bethânia de “Fera ferida”. Como é que Roberto fez essa canção tão extraordinária numa fase em que já não era de se esperar dele algo assim contundente? “Fera ferida” é tão boa quanto “Curvas da Estrada de Santos” e chega a bater lá em cima, em “Se você pensa”. Começa dizendo “acabei com tudo” - e nunca mais a peteca cai, em duas longas estrofes com rimas fortes para idéias fortes, indo desaguar no refrão desafiador “não vou mudar”. Esse refrão soou (e soa) como um paradoxo violento: Roberto dizendo que não muda (e explicando em tom de queixa que “esse caso não tem solução”) justamente quando estava mudando pela primeira vez em muitos anos.
Ouvir isso hoje - e na voz de Bethânia - me fez chorar. (Eu também gravei essa canção - do que muito me orgulho - mas é só uma homenagem ao grande acontecimento poético: a gravação não está à altura da música).

Caetano é louco, mas é sábio. Roberto Carlos foi durante muito tempo brilhante, mas mesmo quando caiu de produção sempre foi capaz de surtos de genialidade, justamente como Fera Ferida.

A canção é um exemplo do que RC sabe fazer de melhor - letras sobre amores destruídos, vistos à sombra do tempo. O topo deste sentimento é a fenomenal e canônica Detalhes, cada vez mais a minha música preferida dele, mas passa também por outros clássicos como À Distância, As Curvas da Estrada de Santos, 120... 150... 200 km por hora e As Canções Que Você Fez Para Mim. Também se estende a letras que não são de Roberto, mas que se tornaram dele de maneira irreversível: Como Vai Você, Outra vez e Canzone Per Te.

É engraçado passar nesse tema até mesmo em canções sobre amores ainda não totalmente destruídos. A origem de todas essas músicas que citei pode ser a tormenta de Desabafo:

Por que me arrasto aos seus pés?
Por que me dou tanto assim?
E por que não
peço em troca?
Nada de volta pra mim?...


Fora disso, RC tem outras lindas canções muito subestimadas do amor ainda verde, antes de entrar em modo de auto-destruição. Eu Estou Apaixonado por Você:

Fico esperando um minutinho
Mesmo que seja só pra ganhar um beijinho
Rapidamente e depressa dizer
Que eu estou apaixonado


Já em Amada Amante, um caso raro de promessa de eternidade, de relacionamento forte e maduro, sem fim à vista:

Neste mundo desamante
Só você amada, amante
Faz o mundo de nós dois

quinta-feira, outubro 02, 2008

Nossa canção

Tenho certa suscetibilidade a algumas coisas impopulares, normalmente consideradas de mau gosto. Eu acredito piamente no romantismo de alguns filmes e cenas bregas. Nunca vi Forças do Destino até o fim; aliás, só vi trechos. Não sei o nome do diretor, roteirista, nada. Só sei que Ben Affleck está viajando para se casar e encontra Sandra Bullock num trem. O filme tem um bela fotografia.

Um fragmento dessa confusão me chamou a atenção, na frente da tv, numa Sessão da Tarde dessas que a gente vê pela metade: o ex-namorado da noiva de Affleck quer impedir o casamento, e canta para ela a "música do casal", numa voz terrível e desafinada, como último apelo. A canção é "Against All Odds", de Phil Collins, clássico dos cursinhos de inglês. A menina do filme fica balançada.



Há outros exemplos de inserção de música amplamente tida como brega em filmes muito mais sólidos do que imagino que Forças do Destino seja. "More Than This", do Roxy Music, cantada em karaokê numa das cenas mais lindas do incomensuravelmente sutil Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, é desconcertante. Vejam os olhares de Bill Murray e Scarlett Johansson... Acabei de ouvir a canção na versão original no YouTube, e provavelmente é só a boa lembrança do filme, mas... Pra meter o pé na jaca de vez, nos vídeos relacionados há uma versão do Roxy Music para Jealous Guy, de John Lennon. Não cheguem perto, porque é muito bom.

Eu podia continuar dando exemplos disso aqui, mas acho melhor parar com o grande Lars von Trier. Em sua obra-prima Ondas do Destino, ele divide a historinha em capítulos, do mesmo jeito que fez com Dogville. Cada passagem de capítulo dessas é feita com canções pop sobre imagens épicas de paisagens nórdicas - provável presságio do rompante divino com que o diretor nos presenteia no desfecho.



Quando os parafusos já estão todos apertados ao limite e ficamos próximos do sufocamento emocional, fica difícil não sair do eixo com Your Song, de Elton John, abrindo o momento definitivo dessa história de amor e sacrifício. O engraçado é que a idéia original de LvT era usar Life on Mars, de David Bowie, mas, exceto na versão dinamarquesa, a canção foi removida por problemas com direitos autorais.

Por que estou postando isso? Há uma idéia equivocada de que Caetano Veloso é adepto do mau gosto, por causa de suas recentes reciclagens do cancioneiro brega-popular. Ouvindo "Moça", de Wando, na voz de Caetano, só posso achar o contrário. As interpretações de Caetano destroem as versões originais e trazem essas músicas à luz de uma interpretação que não tem nada de simplória, e mantém o poder de emocionar sem apelar pro descabelamento. Não há nada de mau gosto nisso. O melodrama de Caê é de fina estampa.