sábado, setembro 30, 2006

Comida, diversão e arte

Em comemoração aos 50 anos da Escola de Nutrição da UFBA, estamos apresentando a mostra "O Cinema, a Comida e o Comer" com a exibição de filmes cuja temática central gira em torno da comida e do comer, seguidos de debates. O evento ocorrerá sempre as terças às 18 horas. O evento tem como apoio a Pró-Reitoria de Extensão e a Casa do Cinema.

Na programação de outubro serão exibidos os seguintes filmes:
03.10 A festa de Babette (Babettes Gaestebud, Gabriel Axel, 1987, Dinamarca), A comida enquanto celebração da vida. Debatedor: Saymon Nascimento (FACOM);
10.10 A Comilança (La Grand Bouffe, Marco Ferreri, 1973, França/Itália), A comida enquanto prazer e enquanto projeto suicida. Debatedor: Professor André Setaro (FACOM);
17.10 Tomates Verdes Fritos (Fried Green Tomatoes, Jon Avnet, 1991, EUA); A comida como fator integrativo nas desavenças humanas.Debatedor: Professor Fernando Conceição (FACOM);
24.10 Super Size Me, A Dieta do Palhaço (Super Size Me, Morgan Spurlock, 2004, EUA); A comida na sociedade de consumo como combustível mortal. Debatedor: Professor Fernando Conceição (FACOM);
31.10 O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (The Cook, the Thief, his Wife & her Lover, Peter Greenway, 1989, França/Inglaterra/Holanda). A comida como ingrediente do sexo, arte e humor negro. Debatedor: Professor André França (FTC) .

Local: Auditório de Nutrição

terça-feira, setembro 26, 2006

Faster

>>> O melhor filme que vi em agosto foi Weekend à Francesa, de Godard. Muito me irritam as freqüentes associações que fazem entre ele e um cinema debilóide, pseudo intelectual. Tudo bem que ele perdeu a cabeça em algum lugar dos anos 70, mas nesta grande fase, ninguém poderia batê-lo. Weekend é Godard endiabrado, anfetaminado, extremo - o equivalente a Desconstruindo Harry na carreira de Woody Allen. O autor em modo hard. Uma hora e quarenta minutos de alucinação nonstop, road movie do absurdo. O cômico é que o hard-Godard parece com alguns Buñuel, Via Láctea, talvez. Na comparação direta, Weekend é bem melhor.
___
>>> Setembro ainda não acabou, mas posso dizer que gostei muito de 3 filmes. Todas as Mulheres do Mundo e sua levada nouvelle vague, homem ama as mulheres, até encontrar todas em uma só: Maria Alice, ou Leila Diniz. A Conversação, filme do futuro que Coppola fez em 74, entre os dois primeiros Godfather, mas em versão Polanski. Paranóia, sangue e frio na espinha do mesmo tipo encontrado em O Bebê de Rosemary ou O Inquilino, sem o sobrenatural. As Aventuras de Robin Hood é o máximo do cinema como diversão de feira. Capa e espada com Errol Flynn, Olivia de Havilland e Claude Rains, em produção classe AAA. Nada pode ser mais divertido.
___
>>> Dos filmes lançados esse ano, observo duas idéias recorrentes. A melancolia pós-faroeste resgatada lindamente em Três Enterros e Brokeback Mountain, mas tratada com desleixo por Win Wenders em Estrela Solitária, grande decepção. Miami Vice é excessivo ao extremo, mas Michael Mann filma com tanta urgência e brutalidade que, ao invés de estranhar Colin Farrel, Jamie Foxx e Gong Li em Cidade do Leste, penso que o crime está mesmo muito sofisticado. Junto com Munique e O Jardineiro Fiel, Miami Vice mostra o mundo em perigo, enredado nas teias do terrorismo e do crime organizado. Globalização?
___
>>> Pondé, essa é a deusa contemporânea. Emmanuelle Beart, de Missão Impossível e Oito Mulheres. Boca rasgada, insinuante; corpo incomparável. Acho que bate Monica Bellucci.
___



sábado, setembro 16, 2006

New York, New York


Na página de Opinião do A Tarde de ontem, Vitor Pamplona escreveu sobre tempo e decadência de artistas, a partir do exemplo de Francis Ford Coppola. Fiquei pensando no quanto isso também vale para Martin Scorsese, contemporâneo. Vivendo no Limite, Gangues de Nova York e O Aviador são bons, maduros, mas encolhem ao ponto da insignificância em relação a New York, New York, normalmente tido como “filme menor”. Nesse caso, trata-se de uma injustiça, pois trata-se de uma obra-prima, tão potente como Taxi Driver ou Os Bons Companheiros. O diretor, agora em fase DiCaprio, não parece mais ser capaz de fazer algo no mesmo nível.
No dia da capitulação do Japão, na Segunda Guerra, Jimmy Doyle (Robert De Niro) e Francine Evans (Liza Minnelli) se conhecem em um clube de jazz: festa, confete, farra. Ele é saxofonista, ela, cantora. Ambos estiveram afastados da música, lutando na guerra, como soldado e enfermeira. A primeira hora é isso, a apresentação desse namoro, sempre pontuada por standards de Gershwin e cia, além de canções inéditas de John Kander e Fred Ebb (Chicago, Cabaret). Apesar do rigor de Scorsese, o filme não parece que vai segurar seus 163 minutos.
O fôlego vai aumentando à proporção que o caso se torna mais sério e, conseqüentemente, conflituoso. Em Scorsese, os personagens são tão intensos que não cabem no corpo, estão sempre explodindo, chocando-se uns com os outros. De Niro faz com brilhantismo esse tipo de coisa. Jimmy Doyle não deixa de ser uma versão saudável (embora perigosa) de Jake de LaMotta, ou Travis Bickle. Sua presença garante tensão constante, incômodo.


O choque entre Jimmy e Francine é potencializado pela convivência full-time, casamento e trabalho, na mesma banda. Quando Francine começa a se destacar em críticas, atraindo produtores, a tensão fica insuportável. Filme entra na rota de Nasce Uma Estrela, de George Cukor, com Judy Garland, mãe de Liza. A consagração da mulher oprime o ego do marido, que perde as estribeiras. A semelhança física e profissional entre mãe e filha só reforça a comparação.
Melodrama parece material inadequado para Scorsese, mas apesar da imagem estranhamente edulcorada, temos um legítimo filme de autor. Há a dureza habitual do diretor nesse processo de separação, em altas madrugadas e depois de algumas doses de whisky. Filme segue em crescendo de agonia até o nascimento do primeiro filho, ponto para uma virada inesperada.
Antes da violência emocional alcançar o ponto de um Touro Indomável, ocorre o divórcio. Muito tempo depois, Francine vira uma estrela, e entra em cena o grande momento do filme, mais uma prova do imenso repertório de Scorsese como cineasta e crítico. A Época da Inocência e O Aviador, por exemplo, foram traduções cinematográficas rigorosas de coisas que ele admira como espectador – o melodrama operístico de Visconti e a grande biopic clássica hollywoodiana do cinema clássico, respectivamente.


Em New York, New York, ele refaz apaixonadamente a idéia do musical biográfico da personagem Vicky Lester em Nasce Uma Estrela. São vinte minutos que compilam os números musicais de um filme estrelado por Francine, Happy Endings, com praticamente a mesma trama de A Star is Born, e a mesma moral dele e do New York: incompatibilidade de sucesso e amor quando os egos são muito fortes. Na trama de Happy Endings, uma lanterninha é alçada ao sucesso por um produtor da Broadway que a abandona quando ela está no topo – ele não quer se tornar o sr. Peggy Smith.
Scorsese voa no tempo para filmar coreografias em cenários estilizados, figurinos excessivos, fotografia brilhante, cheia de vermelho, do jeito que se fazia na MGM. Na verdade, não parece um filme de 77 sobre uma história passada no final dos anos 40. Não; estamos diante de algo filmado no próprio período da trama. Happy Endings descortina o que era insinuação e mostra New York, New York já era assim desde a primeira cena, coerência impecável de visual, roteiro, interpretações. Scorsese consegue fazer o que quiser por ter domínio técnico e histórico, de sua arte.
Happy Endings também deve ser o topo da carreira de Minnelli, e falamos da mulher que foi Sally Bowles em Cabaret... O que faz aqui é reviver a própria mãe, à altura. Canta, dança e interpreta em altíssimo nível, provocando comoção e tristeza ao mesmo tempo. Comoção porque performances completas como essa são muito raras. Tristeza porque sabemos que, no cinema, este foi seu último momento expressivo. A exemplo de Coppola e Scorsese, entrou em decadência. Ainda assim, parece ser a menos culpada. Nasceu 20 anos mais tarde do que deveria, numa época em que o cinema não mais a comportava.


Não bastasse esse ponto alto de música, interpretação e cinema que é o Happy Endings, Scorsese ainda nos entrega dois brindes. Minnelli canta “New York, New York” (hoje famosa na voz de Sinatra), a canção que representa o velho amor perdido no tempo. No filme, Jimmy fez a partitura e Francine, a letra. Logo depois, a cena final incrivelmente melancólica, talvez uma expressão da inutilidade de tentar renascer o amor (ou o cinema), quando seu tempo já passou.
PS.: Fui informado pelo IMDB que a versão original do filme tinha 4 horas, cortadas para 163 minutos - o que provocou a exclusão completa de Happy Endings. É claro que o filme é muito mais do que isso, mas esses 20 minutos não somente são perfeitos, mas colocam o todo sob outra dimensão. Ainda bem que existe o DVD, enfim.

Roque

XEQUE-MATE
Prioridade de Xeque-Mate (Lucky Number Slevin), de Paul McGuigan, é mais uma vez fazer o elogio da cultura pop, e assim, quem sabe, se tornar um cult para quem compartilha as referências apresentadas em seus 109 minutos. Cenários e roupas estilizados, reviravoltas no roteiro, humor negro, diálogos pretensamente irônicos e citações a discos e filmes: é o tipo de coisa produzida por gente jovem, com grande capacidade de absorver som e imagem, ressaltando na sua expressão (filme, quadrinhos, tevê) esse repertório adquirido.
Guy Ritchie (Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes), é bom exemplo de um diretor capaz de fazer isso de maneira competente. Para a maioria dos outros diretores que se aventuram em empreitadas semelhantes, isso nem de longe garante que o produto final será bom. A ganância pop costuma jogar a habilidade narrativa para terceiro plano, como é o caso dessa estréia.
Continua... (é o segundo texto)

domingo, setembro 10, 2006

Truffaut e as mulheres

Em O Homem que Amava as Mulheres, François Truffaut criou um personagem obcecado pelo sexo feminino para falar de si mesmo. Biógrafos contam histórias maravilhosas sobre isso: ele sempre se apaixonava pela estrela do filme que estava dirigindo, e talvez por isso, elas eram retratatas como deusas absolutas. Apesar disso, Roger Ebert nos lembra, todos os papéis femininos que ele criava tinham graves debilidades psicológicas, herança hitchcockiana. Tendo visto já boa parte de sua filmografia, e como ensaio para meu projeto de lista "As Mulheres Mais Espetaculares do Cinema", fiz uma compilação com minhas preferidas nos filmes do diretor.
___
10 - Delphine Seyrig como Fabienne Tabard, em Beijos Proibidos
Antoine Doinel - personagem alter-ego de Truffaut em 5 filmes - já está casado e trabalha como detetive particular. Seu caso: o dono de uma loja de sapatos quer saber porque os funcionários lhe odeiam. Doinel passa a trabalhar disfarçado na loja, mas suas investigações são atrapalhadas pela presença de Fabienne Tabard, mulher do comerciante. Mesmo sem a beleza impressionante do tempo do Marienbad, charme não falta a Seyrig.

____
9 - Bernadette Lafont como Camille Bliss, em Uma Jovem Tão Bela Como Eu
Camille está presa por assassinato, e é entrevistada por um estudante de sociologia preparando um texto para pós-graduação. O filme é uma comédia, e se sustenta nas travessuras sexuais de Camille, a garota meio burra, mas que sabe usar seus dotes físicos. Esses dotes são amplamente explorados por Truffaut. Se o filme fosse bom, o papel cairia bem numa Marilyn Monroe. Lafont não chega a tanto, mas faz sua parte.

___
8 - Catherine Deneuve como Marion Steiner, O Último Metrô
Na Segunda Guerra Mundial, Deneuve é um atriz envolvida com um colega de peça, enquanto tenta esconder o marido judeu dos nazistas que ocupam a França. Filme morno, cuja única graça é a intensidade de Deneuve como mulher infiel. Poucas vezes esteve tão elegante, discreta. Sua agonia casa muito bem com a ambientação fria, nebulosa. Perfeita pra uma versão de Fim de Caso.

___
7 - Jacqueline Bisset como Julie, em A Noite Americana
Bisset é belíssima, mas não deixa de ser a protagonista mais insípida de Truffaut. A deusa dele nesse filme é o próprio cinema; os personagens, acessórios. Valentina Cortese e Nathalia Baye se destacam, mas nenhuma delas é a musa, a protagonista do filme dentro do filme, a "estrela americana". Mesmo que o papel não ajude, Bisset conquista seu espaço só por aparecer na tela.

___
6 - Julie Christie como Clarisse e Linda, em Fahrenheit 451
Como Christie se tornou um símbolo sexual tão forte? Vítor Pamplona explica: "mais importante não é ser bonita - é comportar-se como se fosse". Christie era bela sim senhor, mas foi sua "presença" que garantiu supremacia sobre mulheres muito mais bonitas. Nos olhares, gestos, voz, a moça magrela ficava deslumbrante. Não à toa foi a Lara de Dr. Jivago, e Mrs. Miller em Quando os Homens são Homens. Fahrenheit 451 se passa no futuro (onde os livros são proibidos), Christie faz jornada dupla como a esposa alienada e a amante esperta de um policial que descobre a literatura.

___
5 - Françoise Dorleac como Nicole, em Um Só Pecado
Irmã de Catherine Deneuve falecida precocemente, Dorleac é uma aeromoça que aparece para iluminar a vida de um professor de literatura em viagem a Lisboa. Iluminar é a palavra certa. Dorleac domina o P&B como uma diva do cinema mudo, mas sem as teatralidades: frágil, adulta, apaixonante. Vale dizer que pouca coisa de Truffaut é melhor do que esse filme delicado e sutil sobre paixão, adultério e vingança. Nada a ver com novela mexicana.

___
4- Isabelle Adjani como Adele Hugo, em A História de Adele H.
A filha de Victor Hugo viaja para os Estados Unidos atrás de um amor não-correspondido, sofre com as seguidas rejeições, faz várias loucuras, até perder o controle das faculdades mentais. O papel é dificílimo e o filme, pesado. Truffaut precisava de uma atriz intensa. Viu Adjani num teatro e, diz a lenda, escreveu-lhe uma apaixonada carta, cujo trecho mais célebre é: "Você merece ser filmada todos os dias, inclusive aos domingos".

___
3 - Claude Jade como Christine Doinel, em Domicílio Conjugal
A maravilhosa esposa de Antoine Doinel é um encanto sem fim, desde Beijos Proibidos. Ela já começa Domicílio Conjugal feliz da vida,passando em várias lojas, somente para corrigir os vendedores: "Mademoiselle, não. Madame!" Somente o comportamento meio insano de Doinel para justificar suas infidelidades. Quem tem uma mulher dessa em casa não precisa de mais nada na vida. No filme, ele corrige o erro a tempo, e ruma para um dos finais mais felizes já vistos.

___
2 - Jeanne Moreau como Catherine, em Jules e Jim
O filme deveria se chamar Catherine: Jules e Jim apenas gravitam em torno dessa mulher louca, intensa, arrebatadora. Mulher complexa, cheia de nuances, nada fácil: impossível de ser contida, sexual e emocionalmente. Moreau não deixa pedra sobre pedra do espectador - seria essa a melhor interpretação da história? A boca amarga, o olhar hipnótico, enquanto canta "Le Tourbillon de la Vie". Muito boa a história de Milton Nascimento com Jules e Jim. Viu quatro vezes seguidas, no mesmo dia, e compôs por dias sem parar, sob efeito da poesia da coisa toda.

___
1 - Fanny Ardant como Mathilde Bauchard, A Mulher do Lado
Em A Mulher do Lado o adultério vira crime - Ardant é a mulher ao mesmo tempo frágil e perigosa; pode causar danos a si mesma e a quem ama, mas não pode evitar, arrebatada de amor. Nunca pudica, ela é o exemplo perfeito do amor espalhado por todo o corpo - não somente em sua vontade de expressá-lo fisicamente pelo sexo, mas também como uma doença. Já viram isso antes? Ela desmaia de amor, tamanha a tensão. Seus estados ficam alterados, irradiando paixão nos cabelos, nas pernas, nos olhos insinuantes.
O engraçado é que ela hoje é tão bonita como há 30 anos. Alguém viu 8 Mulheres?

Obs.: Fora da disputa: De Repente, Num Domingo; A Sereia do Mississipi, O Garoto Selvagem, As Duas Inglesas e o Amor, O Quarto Verde; O Amor em Fuga.

Mais fotos de Ardant:





quarta-feira, agosto 30, 2006

Você, de quem nunca estou distante

(Antes de começar, um aviso: os comentários estão liberados para não-usuários do Blogger. Valeu, Tiago)
Você, de quem nunca estou distante

Não consigo lembrar de como era antes de conhecer você. Será que sempre fui como sou hoje? Lembro-me de estar perdido. Tenho certeza disso. Vagando. Indo de uma mulher para outra. Ficando, às vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que a perplexidade delas era maior que a minha. Pelo menos, era o que parecia. Mas não me lembro de me sentir tão nervoso antes, tão desgastado. Eu as observava de uma certa distância, tomando banho de esponja em suas pias, raspando bolas negras com lâminas de barbear, movendo-se como rainhas em câmara lenta. Então, elas se tranformavam nas garotas de antigamente, com risadinhas nervosas e dobrando as pernas longas sob o corpo. O modo como andavam com passos macios com os saltos altos e depois sacudiam o cabelo como os cavalos agitam a cauda.
Mas de você, não guardo nenhuma distância. A cada movimento seu, sinto como se viajasse em sua pele. cada olhar seu para fora da janela é como se estivesse completamente sozinha e sonhando com outros tempos. Não adianta balançar meus braços, acenando. Agora está tudo ao contrário.

Shepard

Este é um dos contos de Sam Shepard em Cruzando o Paraíso, livro mencionado no antepenúltimo post. Não passa perto dos melhores, mas é curto suficiente para ser digitado. Além disso, dá pra ver nele algumas coisas de que gosto muito em Shepard. Para começar, esse ponto de vista masculino, meio perturbado por uma ou duas histórias de amor que já teve na vida - inesquecíveis, mas perdidas em algum lugar. Talvez algo truffautiano? Tem outro conto com o mesmo tipo de romantismo, muito bom, chamado Pele Fina; imagino que traduzido de Soft Skin, o mesmo título americano do atordoante Um Só Pecado, do diretor francês.
Aqui, ele parece no modo Roberto Carlos de escrita: a mesma coisa do amor perdido, de maneira clara, simples, talvez óbvia, mas muito efetiva - e RC é bem mais impactante. Ainda assim, esse cenário banheira e banho de esponja não deixa de me lembrar que Shepard escreveu Crônicas de Motel, o livro no qual Win Wenders se baseou para fazer Paris, Texas. O filme é a mediana perfeita no tempo entre O Indomado (1963) e Brokeback Mountain (2005) - histórias sobre tempo perdido no hostil Mid-West em ponto de vista completamente masculino e solitário, pós-faroeste. É esse o clima dos contos de Cruzando o Paraíso, discretamente lírico, cheio de histórias sobre pais e filhos, homens abandonados, mulheres que querem viver, quartos de hotel de beira de estrada.

Harry Dean Stanton em Paris, Texas


Agora um pouco de orelha: Sam Shepard nasceu em 1943, em Fort Sheridan, Illinois; dramaturgo já escreveu mais de 45 peças, tendo vencido o prêmio Pulitzer em 1979 por Buried Child. Foi indicado ao Oscar de melhor ator codjuvante por Os Eleitos, adaptação sem falhas da obra-prima de Tom Wolfe. Vive hoje com Jessica Lange, com quem tem dois filhos.

Moral da história: preciso ver urgentemente Estrela Solitária, de Win Wenders, atualmente em cartaz em alguma Sala de Arte. Shepard escreve e atua, no papel de um astro de faroeste que abandona um set de filmagem para se encontrar com um filho que não conhecia.

domingo, agosto 27, 2006

Hong Kong, Meu Amor

Depois de passagem apressada pelos cinemas baianos no início do ano, 2046 - Os Segredos do Amor, de Wong Kar-wai, volta a cartaz, na Sala Walter da Silveira. Para quem não conhece o diretor, a carta de apresentação é um romantismo sem fim, que foge de modelos melodramáticos tradicionais para apostar em uma relação com os sentidos do espectador. Mais uma vez nos anos 60, Kar-wai nos apresenta as várias histórias de amor de Chow Mo-Wan, jornalista estilo café, cigarro e ventilador de teto que busca em todas as mulheres a sua paixão não resolvida por Su Li Zhen - paixão mostrada em Amor à Flor da Pele, de 2000. Da complicada tapeçaria dessas histórias de amor, ficam o cheiro, o som, o clima... Nesses dois filmes - e no seu episódio para Eros - o diretor está praticamente fundando um movimento artístico de um homem só, o sessentismo.
Essa tendência extrapola trilha e decoração de interiores e passa para o campo referencial - revisão de diretores revelados mais ou menos nessa época. Amor à Flor da Pele tinha um forte teor Truffaut, em sua metade Hitchcock, filmando o amor como a tensão e rigor de um crime: A Mulher do Lado é uma referência, também por causa da relação adúltera entre vizinhos. 2046 vai em direção a Alain Resnais. Em seus filmes mais famosos, Hiroshima Mon Amour e O Ano Passado em Marienbad, Resnais conta histórias de amor com tempo e espaços estilhaçados, histórias narradas segundo a lógica da memória. 2046, na mesma escola, perde a noção temporal (viajando pra passado, futuro e futuro distante) e geográfica (Cingapura, Tailândia, quartos de hotel), desafiando qualquer tentativa de arrumação linear. O motor do filme é a recordação.


O interessante disso tudo é que o vocabulário cinematográfico sofisticado de Kar-Wai não o restringe a fazer um cinema de citações, como alguns filmes de Brian de Palma. Cada imagem é completamente autoral, ficando a semelhança com outros autores em nível temático e estrutural. Por autoral, nesse caso, entenda-se o detalhismo fotográfico, de cores que parecem inventadas em cenários e figurinos ultra-texturizados, recursos de edição que quase sempre atrasam o olhar, para que possamos ver com mais atenção cada uma das deusas orientais que passam pela vida do protagonista. Cabe destacar o apuro visual da concepção das histórias futuristas de Chow Mo-Wan, capaz de gerar uma imagem que fica para sempre: a andróide que aprendeu a amar, somente para fracassar, olhando pela janela, triste. Acusações de super-estetização devem ser descartadas, pois todo a minúcia na composição de cada imagem converge pra conteúdo humano do filme – não há excesso, distração.
Por toda essa fome de imagem, a Sala Walter não é o melhor lugar pra ver o filme, embora seja muito melhor do que uma tevê, por exemplo. Numa sala com projeção e som impecáveis, o filme não acontece só na tela; dá pra sentí-lo nas mãos, pés, ao redor da cabeça. De Amor à Flor da Pele para 2046, Kar-wai passou a adotar o formato Cinemascope, em que a largura é 2,35 maior que a altura - cinema totalmente retangular. A imagem crescem para os lados e pra frente; meio que abraça o espectador. 2046 tem o poder espacial de uma instalação. É pra esse tipo de filme que serve o adjetivo "sensorial", tão banalizado.
Na verdade, a eloqüência com que Kar-Wai entende a memória através desse tipo de detalhe físico tem tanto poder que é capaz de alterar a perspectiva de um espectador mais propenso à experiência do filme. Um olhar trocado por um casal amigo durante um almoço cotidiano; a tristeza de um amigo em fim de caso; a mulher com a cabeça encostada no vidro do ônibus, ao seu lado. Por algum tempo (dias? meses?) dá pra viver num mundo 2046.
Em tempo: O título é uma referência ao quarto que abrigou o romance secreto de Amor à Flor da Pele, projetado por Chow Mo-Wan em suas histórias sci-fi como o ano onde elas acontecem.

domingo, agosto 20, 2006

Fassbinder, Malick


Sem tempo para escrever, vou mencionar dois filmes que vi recentemente e me deixaram de olhos bem abertos:

Lili Marlene, talvez meu filme preferido de Rainer Werner Fassbinder. Projetão, direção de arte, elenco internacional - o que normalmente diluiria um cineasta radical, é para Fassbinder uma oportunidade de ser mais aplicado ainda na sua paixão pelos melodramas de Douglas Sirk. O corte do filme é Hollywood, mas sem perder uma vírgula da crítica e do ceticismo fassbinderiano (e sirkiano). Agora, como o filme foi rodado em inglês e posteriormente dublado em alemão, o DVD da Versátil deveria ter o áudio original.

Dias de Paraíso tem todas as qualidades que dão carga para detratores desqualificarem Terrence Malick como cineasta hippie: lentidão, marola, paz. Eu gosto, e desse filme especialmente - uma história de amor em algum lugar entre O Destino Bate à Sua Porta e Os Desajustados. A trama é a mesma de As Asas da Pomba. Casal planeja aproximação com uma pessoa rica e com pouco tempo de vida, que deve ser seduzida e deixar sua fortuna para usufruto dos golpistas. O problema, tanto aqui como no romance de Henry James, é que surge uma paixão sem futuro entre escroque e vítima. De qualquer jeito, qualquer sinopse apressada não dá conta de anunciar a delicadeza letal da coisa toda. Sam Shepard, como o fazendeiro moribundo é perfeito. Estou lendo um livro de contos dele, Cruzando o Paraíso, cujo tom é o mesmo desse filme, bem bom.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Dia dos Pais


Um filme para celebrar o dia dos pais, e não é O Poderoso Chefão:

Rio Grande é o último filme da trilogia de John Ford sobre a cavalaria americana; os dois primeiros são Sangue de Heróis (e não Herói, como quer a Warner) e Legião Invencível. John Wayne é o Tenente-Coronel Kirby Yorke, encarregado de treinar recrutas. Um dos novatos é seu filho, que ele não vê desde que se separou da mulher Kathleen, a genial Maureen O'Hara. Quando a base enfrenta o perigo Apache, ela aparece para resgatar o filho, que se alistou contra sua vontade. O garoto decide ficar, mesmo sob ataque, para aprender com o pai o que é ser um homem de verdade. Numa cena discreta e linda, o Ten Cel Yorke decide não interferir numa briga em que o filho se mete. Instinto vs linha de conduta + orgulho: Wayne é brilhante.

Na verdade, não sei porque cito esse filme, porque a relação homem-mulher é bem mais importante no todo: temos dois adultos que se amam, mas foram afastados pela guerra - tema sempre de alta voltagem para cineastas hábeis. A relação ausente pai-filho é um efeito daninho da guerra para o casal. Ainda assim, a vontade de recuperar o tempo perdido manifestada em tons austeros e discretos, é tão potente que eu fico com essa coisa na cabeça, o tempo em que os homens não expunham suas emoções e mesmo assim eram capazes de amar e respeitar. Grande filme.

sábado, agosto 12, 2006

Reset

EDITADO: Vi o filme, dez.

Vejam a notícia abaixo. Era bom demais para ser verdade. Filmes que tenho esperado há muito tempo, passando no Aeroclube, a dez minutos de caminhada de onde moro... Pois é, acabei de chegar em casa, porque fui ver Caché, de Michael Haneke, e a cópia "não chegou". Sem nenhum anúncio na porta, nenhum cartaz, nada. Eu pego a fila, ansioso pelo filme, e a bilheteira simplesmente me informa que "a cópia não chegou". Eu devia ganhar um ingresso pra ver qualquer outro filme, pelo transtorno. Enfim, muito frustrante.

09/08/06
Cinema de Arte ganha sessão na programação do UCI Aeroclube
do A Tarde On Line
A partir desta sexta, 11, o cinema UCI do Aeroclube passa a integrar o circuito de exibição "Cinema de Arte". Este projeto, que já está em vigor em Maceió, Fortaleza e Recife, trará na sua estréia o drama "Cachê", de Michael Heneke, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes 2005.O "Cinema de Arte" foi fundado em 1963 pelo cineclubista cearense Darcy Costa. Em sua programação estão previstas as exibições dos filmes "O Homem Urso", de Werner Herzog; "A Criança", dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2005; "Factótum – Sem Destino", de Bent Hamer, adaptação do romance de Charles Bukowski; "Pais, Filhos & etc", de Michel Boujenah; "Neste Mundo", de Michael Winterbottom, ganhador do Urso de Ouro do Festival de Berlim-2003 e do Bafta de Melhor filme estrangeiro; e a Mostra Lucas Belvaux, composta pelos filmes "Acordo Quebrado", "Em Fuga" e "Um Casal Admirável".
A programação do Cinema de Arte acontece na sextas, às 21h; sábados, às 19h30 e na Faixa Nobre de segunda a quinta-feira, às 19h30.

quarta-feira, agosto 09, 2006

A Mulher do Lado


Já faz algum tempo que quero publicar uma lista das mulheres mais sensacionais do cinema, mas tenho me detido por nunca ter visto Assassinos, de Robert Siodmak. Paulo Francis tem uma história ótima com esse filme, que criou o mito Ava Gardner. Já vi outras coisas com ela, mas, por enquanto, mantenho a lista em suspenso.

Escrevo hoje por causa de uma observação em relação às mulheres que costumo lembrar nessa lista: algumas ficaram marcadas por um tipo de papel, o da educadora sexual. Algo entre quarenta anos, experiente, exercendo um misto de autoridade e atração sobre garotos incautos - a Jocasta sem impedimentos, diriam os psicanalistas.

Esse perfil costuma ser bem popular com os cinéfilOs, porque geralmente aparece em flashbacks melancólicos e romãnticos, ao som de uma música evocativa. Não se trata só de educação sexual, mas de educação sentimental também, rito de passagem. Minhas preferidas, com a ressalva de que não vi Malèna, de Giuseppe Tornatore. A exuberante Monica Bellucci faz o papel título, a Segunda Guerra de fundo, música de Ennio Morricone - deve ser um clássico do gênero. Minhas duas preferidas, afinal:
Jennifer O'Neill, em Verão de 42

O'Neill é Dorothy, uma dona de casa esperando por notícias do front de seu marido soldado na ilha de Nantucket, onde um grupo de garotos passa férias e luta pela primeira experiência sexual. Herman, o escolhido, sempre te ajuda a bater pregos, carregar compras, e fazer outros serviços domésticos - até que chega o ponto em que a próxima tarefa é saciar a carência emocional de Dorothy.


Cínicos podem identificar na personagem uma variação do perfil passivo-agressivo construído por Woody Allen para Mia Farrow em Maridos e Esposas - a mulher que nunca se manifesta, mas sempre obtém o que quer, fazendo todos acreditarem que ela nunca quis nada. Acho que não é o caso.
Dorothy é muito mais que um objeto sexual, porque sua sensualidade vem principalmente do fato de que ela é ao mesmo tempo cativante e frágil. Muito mais que a perda da virgindade - e a cena de sexo aqui é linda, de uma delicadeza sem limites - o que o filme mostra é o despertar do primeiro amor, sem perspectivas, mas arrebatador. O sexo vem como conseqüência.
O material é perfeito pra Robert Mulligan, de O Sol é Para Todos, outro eloqüente retrato de pessoas lembrando experiências marcantes em sua formação pessoal - e outra história real.
Obs.: a) a música embriagante é de Michel Legrand. b) na cena do cinema, o filme em cartaz é A Estranha Passageira, outro conto de educação sentimental.

Anne Bancroft, em A Primeira Noite de um Homem

Como diz meu colega Flávio Costa, "Mrs. Robinson é quintessência da mulheres balzaquianas no cinema". Ela administra durante 35 minutos uma verdadeira tortura em Benjamin Braddock (Dustin Hoffmann), filho adolescente de uma família amiga. Não que Benjamin fosse gay, ou tivesse horror a sexo. O problema é que ela era casada; mas, uma vez versada e escolada na vida, age com o maior sangue frio na sua sedução, o que o pobre garoto mal pode suportar. Muita tensão.


Não bastasse a pressão de ter que tomar várias decisões que definirão a sua vida, Benjamin ainda tem que inaugurar sua vida sexual com extremo jogo de cintura para não revelar sua ligação clandestina - enquanto não está chocado pela descontrução da imagem da matrona de família que Mrs. Robinson deveria ser. Benjamin é praticamente convocado a satisfazer os desejos da senhora, é mais uma frente de pressão. Somente quando conhece a filha de Mrs. Robinson, consegue se realizar de uma maneira, digamos, livre. Aí é uma pena que, como escreveu Kléber Mendonça Filho, a pistoleira agressiva e implacável pareça se acomodar.
Obs.: a) Bancroft tinha 36 anos, e Dustin Hoffman 30 quando fizeram o filme. b) outra boa definição de Mrs. Robinson é feita por Miguel Falabella: "Ela é o próprio Estados Unidos, imperialista; quer por quer, e vai lá, come o garoto". c) Doris Day recusou o papel. Somente Ruy Castro acha que a loura seria uma escolha mais acertada. d) mais uma vez a música é fundamental. "Mrs. Robinson", de Simon & Garfunkel, é uma das melhores canções da história, e provavelmnte a melhor já escrita para um personagem de cinema.
As outras:

Separando essas duas, diametralmente opostas em comportamente, mas igualmente importantes na construção do imaginário Jocasta, estão outras mulheres dignas de nota:
>>> Irene Papas em Zorba, o Grego: é um papel menor, e Irene não é muito bonita, mas tem fogo o suficiente para hipnotizar o escritor tímido de Alan Bates. Ele já não era nenhum mocinho, mas na sua embalagem paletó-gravata-livros, parecia ser mesmo virgem.
>>> Grazyna Szapolowska em Não Amarás. Ela é uma prostituta que fascina um garoto residente em um prédio vizinho. Ele espiona, segue, inventa mil subterfúgios para estar perto. Ela descobre, e a chapa esquenta.
>>> Magali Noel, em Amarcord. Em mais um filme de reminiscências (falsas, no caso de Fellini), Magali Noel é Gradisca, a obsessão dos garotos da cidade de Rimini, também durante a Segunda Guerra. Eles vêem com os olhos, lambem a testa; em uma cena incrível, um dos garotos tenta alguma coisa num cinema vazio.
Em tempo: clique aqui para ver a letra de "Mrs. Robinson"

sexta-feira, agosto 04, 2006

Short Cuts

Durante o tempo em que não atualizei esse blog, pensei várias vezes em cancelá-lo. Sempre tenho vontade de escrever, mas falata o tempo para escrever do jeito que eu quero: aqueles posts grandes, com ambição analítica... Resolvi continuar, mas vou mudar o formato. Escrevo menos, em flashes, uma vez que minha capacidade "analítica" é superficial e acabo produzindo mastodontes sem nenhuma consistência. Agora, vamos às coisas sobre as quais eu quis comentar nesse intervalo:
>>> Os Olhos Sem Rosto, de Georges Franju, é um grande filme. Suspense clínico, surpreendentemente gráfico para a época que foi feito, traz as marcas que eu costumo identificar nos exemplares franceses do gênero, seja literatura ou cinema: as mortes difíceis, por armas brancas ou contusão - nunca vemos pistolas ou revólveres; as pessoas sangram, morrem penosamente; o clima de bruma, nebuloso, por oposição ao sol californiano. Perturbadora a precisão do filme: um médico retira o rosto de mulheres dopadas para fazer um transplante na sua filha, que tem queimaduras graves devido a um acidente de carro. Franju nos ganha pela perversidade da situação. Todo mundo fica indefeso diante de um médico, que se for um louco como é o caso, pode fazer o que quiser. Tudo é muito branco; e a música de Maurice Jarre, tétrica.

>>> Alida Valli, que sempre achei uma das mais belas mulheres da história, está desglamurizada em Os Olhos Sem Rosto. Desse jeito, é claro que ela não bate a Garbo (copm quem era comparado), e provavelmente não bateria mesmo nos seus melhores momentos. Garbo, como dizia Vinicius de Moraes, era uma mulher-orquídea. Apesar disso, continuo a preferir Valli, que não faz a vítima chata. Seuis papéis são sempre arriscados, interessantes, complexos. Como mulher, é terrena, sensual, enquanto Garbo é divina demais. Por falar nisso, também vi Alida Valli por esses dias em La Luna, de Bertolucci, já velha, mas bela.
>>> Eu havia comentado em um post anterior que não conhecia muito o cinema de Bertolucci. Pois bem: vi três filmes dele, e o que mais gostei foi com certeza Assédio, de 99. Uma obra-prima de romantismo e delicadeza, sempre valorizando o silêncio, a capacidade de dizer tudo com o olhar, criando climas intensos só com a presença de dois personagens numa sala. Ajuda muito ter Thandie Newton, linda e sexy. Outra coisa: como Bertolucci é bem observador... Assédio nem precisava, mas é uma excelente visão do mundo globalizado. A Roma onde se passa o filme é uma cidade de expatriados, com vários idiomas. A sensação de ser estrangeiro acentua a solidão, fragiliza e torna os personagens vulneráveis - para o amor, no caso.

>>> Dois colegas meus viram filmes diferentes, mas na verdade viram a mesma coisa. O Poderoso Chefão é Rocco e Seus Irmãos. Trata-se de dois dos filmes mais eloquentes em termos de narrativa tradicional na história do cinema. São extremamente literários, com grandes roteiros, e fazem como poucos o retrato da desintegração da família com tintas épicas. São épicos sem grandes heróis, vilões e conquistas. Enfim, épicos humanos, épicos da gente.
>>> Eu havia prometido um comentário sobre Páginas da Vida, mas não estou assistindo.

>>> Música na minha cabeça:

Fico esperando

um minutinho

mesmo que seja

só pra ganhar um beijinho

rapidamente

de "Eu Estou Apaixonado Por Você", de Helena dos santos, gravada por Roberto Carlos no 1966

quarta-feira, julho 19, 2006

Kathleen Turner


Esse post é dedicado a Kathleen Turner, espetacular femme fatale em Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan.


terça-feira, julho 18, 2006

O nome do jogo

Não conheço muito Bertolucci, não li o romance, mas se tem um título de filme/livro que não tiro da cabeça é O Céu Que Nos Protege. Não exatamente em português; em inglês, o The Sheltering Sky passa uma dimensão épica e ao mesmo tempo intimista, de maneira econômica - três palavras. Mérito dessa terminação -ing, geralmente associada ao gerúndio que pode ser colocada depois de quase todas as palavras em inglês, criando uma infinidade de adjetivos. O português é mais rígido, o -ing às vezes é -ante (Intriguing = Intrigante), mas não há muito o que fazer com "proteger", por exemplo, pra conservar a economia original. O Céu Protetor? Não. "Protegente" não existe. Aí aparece o "que", palavra feia que tira a beleza de uma frase tornandom óbvia a explicação ou a caracterização.
The Sheltering Sky.
Isso me lembra outros títulos que já me fascinaram, conhecendo ou não as obras que eles batizam. Às vezes no original, às vezes na tradução, essas são sonoridades, formas, letras que me atraem:
Fale Com Ela
Ascensor Para o Cadafalso
Música Para Camaleões
The Wings of the Dove
The Postman Always Rings Twice
Eu Receberia de Seus Lindos Lábios as Piores Notícias
A Conversação
A Faca na Água
The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby
A Noiva Estava de Preto
Aliás, chegar em Truffaut é bom pra lembrar dos excelentes títulos que Godard deu a seus filmes. Ninguém batiza filme como ele. Vejamos:
1 - Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela
2 - Viver a Vida
3 - Salve-se Quem Puder (A Vida)
4 - Elogio do Amor
5 - O Desprezo
6 - Masculino Feminino
7 - Uma Mulher é Uma Mulher
E por aí vai, sem falar na tradução de À Bout de Souffle, o excelente (título e filme) Acossado, da qual ele não teve culpa.

sexta-feira, junho 23, 2006

Crime e Castigo

Não se vocês sabem, mas abri um blog somente para registro dos filmes que vejo. É claro que é também um exercício de ego, mas sempre que dou uma passada de olhos pela lista percebo a validade de mantê-la no ar. Só de olhar o título, consigo reaver impressões do impacto e da força de alguns filmes.
Pois bem, revendo essa lista, não consigo tirar da cabeça a idéia de que A Sangue Frio, de Richard Brooks foi a melhor coisa que vi esse ano. Nada conseguiu me deixar tão estupefato, me pegar desse jeito. O final traz imagens pra levar pro resto da vida: as gotas de chuva escorrendo na janela e se refletindo no rosto de Robert Blake, como lágrimas; o baque surdo do enforcamento e fade-to-black, sem créditos finais.


A Sangue Frio é uma adaptação do livro clássico de Truman Capote sobre a chacina de uma família no interior do Kansas, onde o autor mistura técnicas de ficção com reportagem para criar (segundo ele) a novela de não-ficção. Capote tem um estilo agudo, seco, mas eu, pessoalmente não consigo achar esse livro a melhor coisa que o chamado novo-jornalismo produziu. Excelente, mas com certeza fica ofuscado diante dos textos de Gay Talese ou de Os Eleitos, uma senhora reportagem que também contou com elementos de ficção, escrita por Tom Wolfe.
O que Richard Brooks faz com essa matéria-prima é inventar a forma ideal de se filmar literatura russa (com a qual ele já havia lidado numa adaptação rara de Os Irmãos Karamazov): a radicalização do expressionismo realista (kammerspiel) característico de F. W. Murnau. O preto e branco cheio de extremos e a secura dramática que enche a tela de crueldade se adequam genialmente ao material. Poucas vezes a sombra no cinema realmente refletiu os abismos da alma - só nos melhores filmes noir, como Fuga ao Passado, também de influência expressionista.
Um off aparece no final, resumindo os anos de espera no corredor da morte, narrado por um ator que personifica outro escritor que não é Capote. Este off sugere uma das mais brilhantes uniões de eloquência cinematográfica com eloquência literária. A tragédia parece precisar da narração, deixando aí a impressão de que se existe um texto capaz de dar conta dessa tragédia, é o da literatura russa clássica. Capote não é Dostoievski, mas imagens de Brooks dão ao seu texto essa dimensão, em proporções fílmicas.
Escrever "imagens de Brooks" é injusto sem citar o nome do fotógrafo Conrad Hall, oscarizado por Butch Cassidy, Beleza Americana e Estrada Para Perdição. O que Brooks e Hall compõem é o melhor dos álbuns do meio-oeste americano, típicos dos anos 60, desde Os Desajustados e O Indomado. Esses filmam formam, junto com A Última Sessão de Cinema, Essa Mulher é Proibida, entre outros, a linhagem de investigação da vida em Utah, Kansas, Texas. O que aconteceu com o povo que não tem mais nada a conquistar, índios a matar, perdidos como engrenagens girando em falso nesse território estéril? Os recentes Brokeback Mountain e Três Enterros são digníssimos herdeiros desse clássicos.

Manoel vai pro inferno?

Já estão no ar as vinhetas de Páginas da Vida, nova novela de Manoel Carlos. Só ele pra me fazer assistir novela das oito: a última que tive estômago para assistir, e com todos os problemas, foi Mulheres Apaixonadas. Antes, Laços de Família, o melhor esforço do horário desde A Indomada. Isso acontece pela incrível sucessão de lixo produzida pelos nada inspirados Silvio de Abreu, Aguinaldo Silva, Gilberto Braga e até Benedito Ruy Barbosa.
Este último é de longe o melhor autor de novelas, o cara que fez Renascer e O Rei do Gado, mas nada produz de inédito - tanto Sinhá Moça quanto Cabocla são adaptações que as filhas dele fizeram de textos antigos, já filmados. Mad Maria, uma porcaria, havia sido escrita há vinte anos, e Esperança... Bem, Benedito estava tão doente que teve de abandonar o barco, mas tenho a solitária impressão de que, pelo que vi, Esperança foi uma novela subestimada. Luiz Fernando Carvalho, o diretor, fez experimentações ousadas, havia uma elaboração técnica de verdade (esqueça Jayme Monjadim, farsante). E apesar do sotaque de Ana Paula Arosio, o último capítulo começava de maneira incrível. Arosio nua, câmera a mostrando lateralmente, se levantava da cama onda havia se deitado com Reynaldo Gianechinni, um off cinematográfico inesperado explicava a separação.

Manoel Carlos

Mas voltando a Manoel Carlos e a Páginas da Vida: as impressões não são muito animadoras. É evidente a interferência da mão pesada de Monjardim na paleta do cores, em alguns ângulos, a música parece ficar mais alta. Manoel Carlos, que funcionava muito bem com Ricardo Waddington com o tom leve cotidiano, tudo muito azul e branco, bossa nova muito bem usada, agora corre o risco de ver sua novela transformada num melodramão cheio de lirismo de botequim, pseudo-artístico.
Regina Duarte também já não parece uma boa escolha pro papel habitual de Helena. Perfeita em História de Amor, a campanha do "eu tô com medo" desgastou sua imagem, ainda mais com a provável vitória de Lula no primeiro turno.
Bom, se não funcionar, o jeito é abandonar de vez a ficção televisiva, ao menos até Luiz Fernando Carvalho dirigir alguma coisa, ou quem sabe Carlos Lombardi entregar outra obra-prima revolucionária no horário das sete, como Kubanacan. Enquanto isso, tv só pra jornal e esporte.

sábado, junho 17, 2006

Um dia gatinha manhosa eu pego você

Depois de ver Meus Dois Carinhos confirmei a impressão que após Picnic, Vertigo e Sortilégio de Amor. Não há mulher como Kim Novak, a mais sexy do cinema. Não bastasse o corpão, os traços perfeitos, ela projeta uma vulnerabilidade irresistível. Sempre olha pra baixo, fala rouco, não encara nunca, insegura, cheia de problemas existenciais, como uma atriz francesa fazendo filme com Kieslowski. Talvez não. Seu tipo é exuberante demais pra isso. Ela merece diretores que registrem seu caminhar felino, manhoso, sua movimentação preguiçosa, blasè - no melhor sentido que esta palavra pode ter.
Vale ver qualquer filme com ela - mesmo Meus Dois Carinhos, que de bom só tem ela e a música, de Rodgers & Hart. Pobre Rita Hayworth, que completa um triângulo amoroso com Frank Sinatra. Hayworth só pega no P&B, e pouca gente foi tão deslumbrante quanto ela no striptease de Gilda, ou em Bonita Como Nunca. Competindo com Kim Novak, no colorido que lhe desfavorece, já sem o vigor da juventude e com alguns figurinos que demonstram sua inferioridade física, Hayworth não tem a menor chance.



*********

Outro tipo de beleza presente num filme que vi recentemente é a de Grace Kelly em Alta Sociedade. Menos humana, mais deusa, aristocrata, princesa. Elegante, num mundo ideal seria a esposa e Novak, a amante. Neste filme em particular ela atua direitinho, mas não tem a arrogância irritante que Katharine Hepburn imprimiu ao papel no original, Núpcias de Escândalo. Hepburn pode ser muito melhor atriz, mas isso não importa muito. Basta olhar pra Grace Kelly:


E ficar olhando.

Se bem que às vezes, quando o filme é muito ruim (Gilda?), ficar olhando pruma atriz bonita não basta. Alta Sociedade tem bons atores (embora todos sejam inferiores aos de Núpcias de Escândalo), e a música de Cole Porter. Now You Has Jazz e Little One estão entre as minhas canções preferidas de musicais.

sexta-feira, junho 16, 2006

A voz d'Ella

Hoje é aniversário de morte de Ella Fitzgerald. Morreu em 1996.
Posso escrever com segurança que a voz d'Ella é a minha preferida entre todos os cantores que já ouvi. Há uma história que Ruy Castro conta em Saudades do Século XX que não me lembro direito, mas é mais ou menos assim: um crítico preferia Billie Holliday a Ella Fitzgerald porque pensava que, quando ambas cantavam sobre a ausência do homem amado, Billie parecia abandonada para sempre enquanto o companheiro de Ella havia somente ido à padaria. Isso porque enquanto Billie era famosa por sua vida desregrada e sua voz sofrida, Ella era "correta" e era tecnicamente perfeita. Como se ser perfeita fosse demérito (!), como se a perfeição fosse incapaz de emocionar (!).
Na verdade, na sua habilidade, Ella conseguia comover interpretando desde a mundanidade de Love For Sale até a sofisticação de You're the Top - isso só pra ficar só no universo de Cole Porter. Por isso, mesmo maravilhosa, Billie Holiday foi preterida em seu favor para o projeto da Verve de gravação dos songbooks dos grande compositores americanos, como os irmãos Gershwin, Rodgers & Hart e Jerome Kern. O resultado é genial.

segunda-feira, junho 12, 2006

YES & NO

YES






NO



Na verdade nada contra o All Star por ele mesmo, nem a favor do Kichute. Não sei qual é mais confortável, nunca usei All Star e Kichute só há muito tempo atrás. O que quero fazer aqui é usar esse julgamento sem critério justamente para falar mal dessa praga de julgamentos sem critérios de música, filmes, etc, cujo símbolo máximo é esse tênis, o All Star.
Aliás, padrão de julgamento tem sim: o ser ou não ser pop. Não à toa, essa palavra de três letras anda pipocando no jornalismo cultural brasileiro e no pseudo jornalismo cultural brasileiro mais ainda. O grau de apropriação (diluição, na maioria das vezes), o nível de referência a outros signos, ou seja, o quanto uma obra é legal, o quanto ela é cool, é o que hoje anda determinando o que é bom ou ruim.
Não condeno aqui obras que por acaso caiam dentro dessa guarda-chuva all star. Vamos pensar, discutir, ver se ser pop realmente diz alguma coisa sobre qualidade. Pop pode ser muito bom ou muito ruim. Parece óbvio, mas dá uma lida na SET. Se for pra discutir os próprios padrões de avaliação críticos, melhor ainda.

quinta-feira, junho 08, 2006

Poe + Teshigahara

Só para registro:
Estou lendo em ritmo muito irregular as Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe, edição capa dura da Abril, a mais completa. Depois de ter me decepcionado com as chatas aventuras de Auguste Dupin e ter me maravilhado com quase todos os outros contos (Berenice, principalmente), chego a O Poço e o Pêndulo.
Não quero conspurcar o conto com um comentário ligeiro e irrefletido, mas mesmo eu que leio muito pouco o formato conto consigo perceber porque muita gente diz que este é o melhor de todos, por todo o sempre.
Se o menciono aqui é por causa de uma pulga na orelha que não me deixa em paz: estou convencido de uma sintonia entre o conto e o filme A Mulher de Areia, de Hiroshi Teshigahara, tanto que no meu filme interior O Poço e o Pêndulo teria um ator japonês e seria em P&B. Deve ser porque são dois ensaios sobre confinamento e fuga quimérica, com os algozes no alto do poço / buraco com o controle absoluto da situação. No fundo, são duas narrativas que passam pela questão do sadismo em embalagem terror psicológico, seja lá o que isso for - mas eu sei que tanto o conto quanto o filme se encaixam perfeitamente no rótulo.
Tem mais coisa em comum, não sei o que é.