terça-feira, dezembro 31, 2024

TOP 10 2024

Menções honrosas, sem ordem:

Greice, de Leonardo Mouramateus
Jurado N. 2, de Clint Eastwood
Meu Amigo Robô, de Pablo Berger
Sem Coração, de Nara Normande e Tião
Vidas Passadas, de Celine Song

Um ator: Sebastian Stan, O Aprendiz
Uma atriz: Yara de Novaes, Malu

10 - O Aprendiz, de Ali Abbasi - A história de origem de Trump composta tijolo por tijolo, da ignorância de um jovem ambicioso à obstinação de alguém que não percebe mais o quanto mente. É um perfil de personagem rigoroso, mas o que chama mais atenção é todo um retrato da Nova York yuppie em que habitavam ao mesmo tempo a Gloria de Gena Rowlands e o Gordon Gekko de Michael Douglas, e tudo o que pode existir entre os dois. Impecável panorama de uma cidade e de um país numa época sem limites, filmado com um senso de sujeira e vulgaridade que raros cineastas americanos conseguiriam imprimir. Sessão dupla: O Traidor, de Marco Bellocchio. (Claro, ou Amazon e Apple para aluguel)

9 - Queer, de Luca Guadagnino - Um filme estilhaçado, com um senso de continuidade totalmente fragmentado, típico da embriaguez. Tudo começa como um resquício de estranheza, com a montagem reproduzindo os lapsos de entendimento do protagonista sempre bêbado e drogado, até que isso ganha o primeiro plano, num terceiro ato que escancara o quanto essa fuga da vida careta é mais poderosa que qualquer outra válvula de escape, inclusive o sexo. É nessa hora final que o filme cresce, especialmente com a coragem de Guadagnino de filmar sem pudores a viagem das drogas (a cena do ano é a trip na floresta, sem dúvida). Sessão dupla: O Grande Lebowski, de Joel Coen. (ainda nos cinemas)

8 - Malu, Brasil, de Pedro Freire - Grande trio de atrizes numa peça de câmara teatral, caótica e bem carioca que vai ficando cada vez mais sombria, minuto a minuto - é um filme bem engraçado, até que não é mesmo. Enfim, um filme que Domingos talvez gostasse de ter feito. Sessão dupla: Interiores, de Woody Allen. (ainda nos cinemas)

7 - A Substância, EUA, de Coralie Fargeat - Parece uma crônica sobre Hollywood como máquina de moer gente, sim, mas é também (ou sobretudo) um filme completamente apaixonado pelos mecanismos de cinema em si - luz, cores, cortes. Superficial, mas de grande impacto visual e técnico, ou melhor, plástico. Fargeat estava bêbada de Lynch, Hitchcock, Kubrick. Sessão dupla: O Demônio de Neon, de Nicolas Winding Refn. (Mubi)

6 - O Quarto ao Lado, EUA, de Pedro Almodóvar - O primeiro longa em inglês de Almodóvar segue a tendência de sua obra recente de tirar a limpo a vida (e tudo o que nela cabe - a família, o cinema, a política) diante da mortalidade. O Quarto ao Lado é a mais depurada dessas meditações, recessivo até o ponto da paralisia, mas o amor pela arte (Hopper, Joyce, Ophuls, Huston) é um contraponto à frieza da fase atual do diretor. Sessão dupla: Visita ou Memória e Confissões, de Manoel de Oliveira. (ainda nos cinemas)

5 - O Sequestro do Papa, de Marco Bellocchio. É acadêmico, talvez até quadrado, mas não deixa também de ser um deslumbrante filme histórico, com todas as cenas uns dois tons acima do melodrama, quase uma ópera sem música. Bellocchio mapeia mais uma vez os podres da Igreja Católica para pensar como se forma uma identidade, e como a privação de uma história pessoal transforma o ser humano numa figura patética e desorientada - uma questão central no judaísmo, aliás. O filme é todo especial, mas o epílogo, minha nossa senhora. Sessão dupla: Sinônimos, de Nadav Lapíd. (Amazon Prime e Apple, aluguel)

4 - Megalopolis, EUA, de Francis Ford Coppola - Para quem pode usar o cinema como meio de especulação, os limites da vida humana não são um limite, e Coppola vai até ao passado e até o futuro imaginando toda a história da humanidade - de onde ela veio e para onde ela vai. É um filme realmente comovente na sua indisciplina megalomaníaca, pois a sua sede de imaginar é maior do que qualquer ideia de correção narrativa. Sessão dupla: Terra em Transe, de Glauber Rocha. 

3 - O Sabor da Vida, França, de Tran Ahn Hung - A princípio parece um produto perfeitamente embalado para o gosto médio de um público de arte (mais uma obra sobre os encantos da culinária francesa), mas há uma camada extra no filme todo sobre a arte como um ato devocional. Saber usar o próprio talento para afetar os sentidos de outrem é praticamente um sacerdócio. Sessão dupla: O Barba Ruiva, de Akira Kurosawa. (Amazon Prime)

2 - Os Colonos, Chile, de Felipe Gálvez - A brutalidade de uma terra sem as garantias do Estado de Direito e da ideia de Direitos Humanos. Gálvez transpôs precisamente a essência do faroeste para a "conquista" da América Latina e a consequente limpeza étnica indígena no Chile e na Argentina. A barbárie é tão mais dolorosa quanto maior a certeza da impunidade. Sessão dupla: O Atalho, de Kelly Reichart. (MUBI)

1 - Segredos de um Escândalo, EUA, de Todd Haynes - Um dos filmes mais violentos que já na vida, uma vez que os atos de dano do seu predador tornam a vitima cúmplice do próprio cativeiro, e por décadas, até um momento de clareza. Assim como no filme de Bellocchio, temos uma vida toda roubada e violentada, deixando a vítima congelada no tempo, uma criança de 40 anos. Obra de rara perversidade. Sessão Dupla: A Lei do Mais Forte, de R.W. Fassbinder. (Amazon Prime).

terça-feira, janeiro 02, 2024

TOP 10 2023

 Como sempre, considerando o calendário de Salvador (e as inevitáveis ausências de filmes importantes que perdi), lá vão os meus filmes do ano. 


10 - Holy Spider, Irã, de Ali Abbasi - Filme preciso sobre misoginia, uma história de serial killer que matava prostitutas no Irã, mas que cresce ao se manter a reencenação da violência em modo não-espetacular e ao realçar a segunda morte das vítimas, brutalizadas pelo Estado e pela sociedade machista iraniana. Sessão dupla: Kinatay, de Brillante Mendoza. 

9 - Asteroid City, EUA, de Wes Anderson - Incrível como Anderson é sempre mais bem sucedido destacando seu cinema totalmente de qualquer referência ao mundo real, em universos controlados. É assim nas animações, ou em O Grande Hotel Budapeste. Todas as gags funcionam, e, para minha surpresa, pela minha vez experimentei uma dor real num filme de Anderson, cortesia de uma fenomenal Scarlett Johansson. Sessão Dupla: Duas Garotas Românticas, de Jacques Demy. 

8 - Retratos Fantasmas, Brasil, de Kléber Mendonça Filho - KMF dribla o óbvio ao filmar a sua paixão pelos templos - salas de cinema - do Recife e pela cidade em si esquadrinhando cada pedaço filmado da capital pernambucana, seja na própria obra, na de outros cineastas ou em arquivo. É menos um filme amoroso que obsessivo, uma verdadeira história de fantasma. Sessão Dupla: Adeus, Dragon Inn, de Tsai Ming-Liang. 

7 - Os Banshees de Inisherin, Irlanda, de Martin McDonagh - Esse diretor nunca foi a minha onda, muito pelo contrário, mas essa peça sobre isolamento, melancolia e masculinidade me parece ser uma das melhores coisas a pôr em filme a  ideia de depressão ultimamente, especialmente no seu ato reflexo de auto-flagelamento, e mais especialmente ainda se você o filme do outro lado da margem, depois dessa terrível travessia. A gente sobrevive aos pedaços. Sessão Dupla: Um Momento, Uma Vida, de Sydney Pollack. 

6 - Regra 34, Brasil, de Júlia Murat - Um anti-panfleto sobre ennui, sexo e política, nessa ordem. Realmente revigorante ver um filme subverter essa lógica atual do cinema militante power point que vivemos, dando ao espectador personagens tridimensionais em situações emocionalmente complicadas, sem que qualquer reflexão social achate a sua humanidade. Cinema brasileiro, tome nota. Sessão Dupla: O Beijo da Mulher-Aranha, de Hector Babenco. 

5 - Assassinos da Lua das Flores, EUA, de Martin Scorsese - Épico íntimo sobre um genocídio a conta-gotas, com Scorsese usando uma história em particular - a dos índios do Osage County - para refletir sobre toda a trajetória dos EUA. É um filme histórico que funciona bem melhor que seu Gangues de Nova York justamente porque, quando trazido ao nivel dos personagens, o filme continua funcionando, num dueto entre um perfeitamente grotesco Leonardo DiCaprio e a hierática Lily Gladstone, que se move com o peso de todo o seu povo sobre as costas. Sessão Dupla: Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar. 

4 - EO, Polônia, de Jerzy Skolimowski - Corajosa tentativa de refazer o Au Hasard Balthazar de Bresson na Europa em guerra do século 21. À medida que o burro protagonista cruza fronteira após fronteira sofrendo brutalidade depois de brutalidade, cai a ficha de que esse é o filme mais pungente sobre essa era em que milhares estão mortos no fundo do Mediterrâneo ou vivendo vidas miseráveis no continente, como sub-humanos. Sessão Dupla: Em Trânsito, de Christian Petzold. 

3 - Sem Ursos, Irã, de Jafar Panahi. Continua impossível para Panahi não apenas não fazer cinema, mas os obstáculos que lhe são impostos pelo regime iraniano fazem com que ele seja obrigado a pensar sobre o ato de fazer cinema, a responsabilidade de filmar e os limites da arte num país sem liberdade - ou em qualquer país. Incrivelmente ele continua reinventando essas reflexões sem se repetir. Sessão Dupla: O Paraíso Deve Ser Aqui, de Elia Suleiman. 

2 - A Esposa de Tchaikovsky, Rússia, de Kirill Serebrennikov. Hoje no exílio após um período de perseguição política e prisão domiciliar, Serbrennikov mostra - hasteia - o dedo do meio contra o regime de Putin com um filme apaixonadamente queer. Curiosamente, a esposa de Tchaikovsky, cuja vontade de reverter a sexualidade do marido confunde-se com a erotomania à Adele H., é quase uma alegoria da decadência dessa Rússia que tenta esconder o que impossível, ou talvez uma mostra de que há paixões que nunca se apagam, não importa o tamanho do martírio. Emocionante e suntuoso. Sessão Dupla: Sedução da Carne, de Luchino Visconti. 

1 - Afire, Alemanha, de Christian Petzold. Mais um filme sobre o ocaso europeu, não apenas nesse top 10, mas na carreira de Petzold, que agora encena seu apocalipse continental como se num filme de férias de Rohmer. No fim das contas, e do filme, talvez seja essa a única possibilidade de redenção do europeu, a arte. É tudo o que lhe resta (e à Europa). Sessão Dupla: Estranho Acidente, de Joseph Losey. 

sexta-feira, dezembro 30, 2022

TOP 10 - 2022

Vamos lá. Com o "fim" da pandemia o circuito voltou à normalidade e muita coisa boa finalmente chegou aos cinemas. Então o TOP 10 do ano volta, seguindo o calendário comercial brasileiro/soteropolitano + streaming. Todos os filmes dessa lista passaram no cinema em Salvador. Para normalizar o top 10, não incluo aqui coisas que só entraram esse ano mas que listei no ano passado.

10 - Encontros, de Hong Sang-Soo, Coreia do Sul. Uma paixão de verão e várias possibilidades de realização ou não dessa paixão. O coreano dessa vez apresenta um esqueleto de dos seus filmes com apenas uma hora de duração, e deixa a impressão de que há várias cenas e sequências faltando, mas no fundo ele só está flexionando seus músculos ficcionais com elipses incríveis e deliberadas. Sim, é um "exercício de estilo", um mérito formal, mas continua impressionando. Pontos bônus pela estreia no mesmo ano de A Mulher Que Fugiu, o seu filme mais WoodyAlleniano.
Sessão dupla: Brigitte e Brigitte, de Luc Moullet.

9 - Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, de Radu Jude, Romênia. Esse aqui é um ataque terrorista contra a Romênia, mas poderia ser contra o Brasil. É um filme frontal de um modo até infantil na desconstrução das instituições e costumes de um país a ponto de dedicar 1/3 da sua projeção a um dicionário de verbetes, mas a força da agressividade suplanta algumas simplificações. Como se não fosse suficiente, é o filme definitivo sobre a pandemia: enquanto gente morre como moscas, pessoas fazem uma inquisição a uma professora que teve um filme de sexo vazado.
Sessão dupla: O Fim do Homem Cordial, de Daniel Lisbôa

8 - A Mulher de um Espião, de Kiyoshi Kurosawa, Japão. Gélido thriller de espionagem na Segunda Guerra no Japão. O que chama a atenção aqui é que em geral esses filmes são um jogo de mentiras, mas aqui a surpresa vem do fato de que as personagens são sinceras nos seus sentimentos e motivações. A elegância suprema da forma-cinema.
Sessão Dupla: Desejo e Perigo, de Ang Lee.

7 - Elvis, de Baz Luhrmann, EUA/Austrália. Baz refaz o seu filme de sempre, usando Elvis como cavalo para suas meditações habituais sobre o pacto mefistotélico da celebridade (e do amor pela audiência), sempre selado com a frase mais cruel dos espetáculos: the show must go on. O controverso estilo do diretor encontra a figura perfeita para fugir da burocracia do mais chato dos gêneros, a biografia musical. Tudo em Elvis é maior que a vida e ainda assim não parece excessivo.
Sessão Dupla: Lola Montés, de Max Ophuls.

6 - Nope, de Jordan Peele, EUA. O amor pela parafernália do cinema num senhor filme sobre espetáculo, props, objetos de cena, com personagens que são dublês, contra-regra etc. É praticamente um faroeste sem armas, ou melhor, um faroeste cujas armas são máquinas de fotografar e filmar.
Sessão Dupla: Hatari!, de Howard Hawks.

5 - Il Buco, de Michelangelo Frammartino, Itália. Frequentemente descrito como uma "experiência espiritual", esse filme me parece o oposto. Ao recriar a expedição que chegou ao fundo do terceiro buraco mais profundo da superfície da Terra, Frammartino captura não um silêncio transcendente, mas materialista. O tempo que o diretor dedica a cada imagem é o necessário para que elas existem como são em filme, e não para extrair nenhum significado terceiro. Uma história paralela da morte de morador local não é uma metáfora religiosa, e sim uma confirmação naturalista: somos todos minerais.
Sessão Dupla: O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini.

4 - Marte Um, de Gabriel Martins, Brasil. Os conflitos da família brasileira num cinema que encontra a sua escala emocional exata, desde a terrível vontade de escapar da realidade - o espaço sideral, o futebol - até os laços humanos que tornam a vida não apenas suportável, mas até mesmo bonita, apesar dos pesares. Trabalho de precisão.
Sessão Dupla: Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirzsman

3 - Decisão de Partir, de Park Chanwook, Coreia do Sul. Um filme todo reciclado a partir de partes recicladas de origem evidente, mais uma prova evidente da permanência do Vertigo de Hitchcock, com sua femme fatale trágica e assassinatos em lugares altos. Park, no entanto, parece estar aqui em modo romântico, porque a sua história de amor entre o detetive e a criminosa, na qual um sabe os defeitos do outro mas não consegue se afastar, é hitchcockiana mas filtrada por Truffaut. Melhor final do ano.
Sessão Dupla: A Sereia do Mississipi, de François Truffaut.

2 - Memória, de Apichatpong Weerasethakul, Colômbia/Tailândia. Esse é quase um espelho de Il Buco: em vez de olhar para o centro da terra de forma materialista, o diretor olha pro céu pra expandir a sua espiritualidade, não mais contida ao budismo da sua Tailândia natal, mas livre de limitações geográficas, encontrando os mistérios da vida na Amazônia colombiana e no céu. É como se seu registro encontrasse o panteísmo total, abraçando o universo.
Sessão Dupla: Não consigo pensar em nada parecido.

1 - Avatar: O Caminho da Água, de James Cameron, EUA. Um simplíssimo jogo de gato e rato com um vilão psicopata-imortal, mas gloriosamente filmado por um dos maiores diretores de ação de todos os tempos. São três horas e 10 minutos de uma inacreditável montanha russa. Não sei como, mas Cameron mantém seu dínamo em movimento tirando da cartola as coreografias mais rocambolescas para filmar lutas, perseguições, corridas e, melhor de tudo, o assombro pela natureza, mesmo que seja construída em computador. É bizarro, mas Cameron é capaz de fazer a audiência chorar com uma espécie de monstro em forma de baleia num mar de videogame. Enfim, é o cinema reduzido ao essencial, mas paradoxalmente na sua forma mais excessiva.
Sessão dupla: A General, de Buster Keaton.

sexta-feira, dezembro 31, 2021

TOP 5 - 2021

 TOP 5 - 2021

2021 foi um ano de retomar a cinefilia, mas ainda não tenho muito a noção do que seja um calendário de filmes elegíveis. Só comecei a ir ao cinema há alguns poucos meses, e vi coisas com distintas datas de lançamento no mundo. Decidi, portanto, fazer um top 5 (roubando), cujo critério de elegibilidade se resume em dois itens:
a) lançamento mundial em 2020 ou 2021
b) vi pela primeira vez em 2021, não importa onde.
5) Nomadland, de Chloe Zhao, e Cry Macho, de Clint Eastwood
Dois faroestes (Zhao talvez não saiba disso) sobre a falência da América como lugar, como terra-natal, com cidades morrendo e personagens à deriva. Eastwood prefere o estrangeiro, e como tem o faroeste como gênero (e a própria imagem como mito) a explorar, prefere dar um final feliz a este e a todos os seus cowboys, mas longe de casa, do outro lado da fronteira. A protagonista de Zhao ecoa os anos longe de casa de Ethan Edwards em Rastros de Ódio, de John Ford. Fern e Ethan voltam à casa vazia onde seus amores morreram, e decidem voltar para a estrada, sem rumo. Filmes exemplares em iconografia.
Sessão tripla: esta é a mesma América da família errante de O Peso de um Passado, de Sidney Lumet.
4) Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar, e O Que Ficou Para Trás, de Remi Weeks.
Almodóvar parte do melodrama mais raiz, o da mãe que não quer perder o seu filho e é capaz de tudo para isso. Weekes trabalha com o horror de uma família que muda para uma casa nova assombrada por espíritos. Dois exercícios de gênero bem básicos e bem feitos, elevados porque espelham os fantasmas da História, desaparecidos em valas comuns ou no fundo do oceano.
Sessão tripla: A Europa em seus loop de guerras e refugiados de Em Trânsito, de Christian Petzold.
3) Titane, de Julia Ducournau, e Ataque dos Cães, de Jane Campion
Dois contos sobre duos de personagens que tateiam para acessarem um ao outro. A ambiguidade sexual é uma vulnerabilidade transformada em arma em jogos que podem ser emocionais (Ducournau) ou eróticos (Campion). No comando dos dois filmes, mulheres que se negam a clichês de sutileza feminina na direção, com mão firme e pesada para servir com convicção a seus projetos estéticos.
Sessão tripla: Gente abrasiva que sequer consegue se tocar, apesar da atração, em O Homem Ferido, de Patrice Chéreau.
2) Drive My Car, de Ryusuke Hamaguchi
O bem japonês processo de elaboração do luto, mas aqui instrumentalizando a arte, fundamental porque nos dá narrativas de espelho à vida, guia a cura das feridas, sem no entanto representar uma fuga. Curiosamente, o carro do filme onde os personagens conversam e acertam as contas é uma metáfora de um consultório de psicanálise, mas também de um palco.
Sessão dupla: O caminho é através da dor, não ao redor, como em Poesia, de Lee Chang-Dong
1) Benedetta, de Paul Verhoeven
Nada como a catarse de ir ao cinema e em vez de ver um filme, encarar uma montanha russa de duas horas. O jogo de poder, sexo e fé entre as mulheres de um convento é um excelente material para as provocações de Verhoeven, mas o impacto do filme é sobretudo formal, da sustentação de uma narrativa no último volume, em que cada cena reconfigura o filme do modo mais inesperado, sem qualquer medo do ridículo, com convicção absoluta na carnalidade que movimenta as peças desse jogo de xadrez. Verhoeven é isso, o triunfo do cinema como experiência à flor da pele.
Sessão dupla: Explosões na cabeça e no coração entre pessoas confinadas, como em Paixões Que Alucinam, de Samuel Fuller.
(Eu vi ano passado e só estreou agora, inesperadamente. Não consegui colocar no top 10 deste ano, não consigo pensar como uma experiência 2021, mas que GRANDE filme é Undine, de Christian Petzold. Está em cartaz em Salvador).

domingo, março 17, 2019

A Casa Que Jack Construiu:


1) Espero sinceramente que Lars Von Trier esteja em suicide watch. É um filme final com todas as letras, como o 24 Frames de Kiarostami, ou o A Prairie Home Companion, de Altman, com a diferença de que LVT parece estar se esvaindo sem nenhuma paz. É um filme agônico pra ele.
2) E é um filme agônico para nós, também. É provavelmente o pior filme dele, mesmo contando o computadorizado The Boss of it All - parece que agora ele está fazendo um filme ruim, mas com todo o empenho possível, algo que nem sempre é o caso. Ele disse que escreveu Anticristo com apenas 10% da inteligência que tem, se não me engano.
3) A Casa Que Jack Construiu é um filme de síntese, mas são duas horas e meia de reafirmação da crueldade humana e de um niilismo juvenil, tudo isso num formato de diálogo grego entre o protagonista e o diabo, algo que coloca a obra nessa leva de nouvelle vague do power point, em que diretores montam uma tese e usam a dramaturgia quase como uma concessão para ilustrar essa tese, apenas porque não queriam mostrar ao público apenas uma Ted Talk (faltam a todos a coragem de Malle e seu Meu Jantar Com André). Comparem o LvT com Vice, de Adam McKay - são basicamente o mesmo filme. Só falta o laser sobre os slides travestidos de ficção.
4) É curioso como LvT pode estar na merda, mas o ego continua gigantesco. A "autocrítica" aqui não de fato é uma autocrítica; o tom autodepreciativo é mais uma qualidade, "vejam como não me levo a sério". No final das contas, até isso se esvai quando ele escancara que está fazendo uma defesa da própria carreira, com um medley de cenas de seus filmes anteriores, sempre das cenas mais cruéis - quanta cabotinagem! Nem a queda ao inferno é um julgamento de verdade, é um acidente.
5) Acho que não vale a pena cobrar o diretor pela falta de sutileza ao comparar seus filmes com assassinatos. LvT nunca foi sutil. Ele é o tipo de gente que faz um filme sobre depressão e transforma a doença num planeta gigante que vai provocar o apocalipse, planeta esse chamado de MELANCOLIA, um filme bem ruim, aliás. Ele botou sinos no céu para sinalizar um milagre, e o filme - Ondas do Destino - era brilhante.
6) A questão não é a qualidade da metáfora - que, aliás, já rendeu um dos melhores filmes do mundo, A Tortura do Medo, de Michael Powell -, mas a falha completa em transformar essas ideias em cinema. Depois de 15 minutos de masturbação intelectual sobre temas batidos e rebatidos nos filmes dele mesmo, a sensação é de um gigantesco "quem se importa?", e ainda faltam duas horas e meia.
7) No mais, deixo vocês com Douglas Sirk.


quarta-feira, dezembro 26, 2018

Melhores de 2018


Ia ver mais alguns filmes antes de fechar a lista de fim de ano, mas acho que não teria o distanciamento para avaliar bem esses retardatários em relação aos que já se consolidaram na minha cabeça. Então fica aqui o registo dos meus filmes preferidos do ano, tendo em conta o que passou nos cinemas em Salvador (é o calendário que eu sigo). Não conto streaming, e claro, perdi coisas importantes devido ao rarefeito mercado caboverdiano.

Meus dez filmes:

10) Projeto Flórida, de Sean Baker - O grande humanismo americano travestido de filme infantil. Excluídos filmados com paixão, mas sem romantismo. Sessão dupla: A Noite dos Desesṕerados, de Sydney Pollack.

9) Piripkura, de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge - O ponto de partida é o "documentário indígena", mas a chegada é num filme profundo e filosófico. Aqueles dois índios Piripkura que vivem sem dominar o fogo e mantendo-no aceso não deixam de representar toda a humanidade vivendo num planeta extremamente frágil. Sessão dupla: First Reformed, de Paul Schrader.

8) Burning, de Lee Chang-Dong - O filme mais misterioso e hipnótico do ano, forte como um sonho ruim. É de se admirar a virada de chave do diretor, um mestre do melodrama que deixa de usar a violência como catalisador de lágrimas, substituindo-as por calafrios. Sessão Dupla: Cure, de Kiyoshi Kurosawa.

7) Me Chame Pelo Seu Nome, Luca Guadagnino - Mais um tijolinho na parede de grandes histórias de amor queer que o cinema americano trouxe nessa década, como Carol e Moonlight. Esse aqui lembra mais o filme de Van Sant, em que a riqueza e o isolamento de classes propiciam a alienação necessária para uma paixão dedicada. O mundo fica do lado de fora mesmo. Ultra sensorial. Sessão Dupla: Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai.

6) As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas - Esse aqui é a posta do ano. Dutra e Rojas ficaram conhecidos pelo cinema de planos medidos a régua e precisão absoluta de roteiros. Aqui, eles pegam esse controle todo e mandam à merda no meio do filme, se arriscando num terror barroco e sem limites. O final é a cara do Brasil 2018. Lindo. Sessão dupla: Psicose, de Alfred Hitchcock.

5) O Amante Duplo, de François Ozon - Nada mais divertido que thriller sensual, aqui tirado diretamente do manual Instinto Selvagem. Se o filme já é insinuante na sua trama sexual sem limites, quando vampiriza a psicanálise para justificar viradas delirantes de roteiro, fica melhor ainda. Sessão Dupla: Vestida Para Matar, de Brian de Palma.

4) Visages Villages, Agnes Varda e JR - Nenhum filme amou tanto gente quanto esse, uma exaltação do sentimento de pertencimento das pessoas a seus lugares, e como esse pertencimento define a identidade de uma comunidade. Varda lucidíssima aos quase 90, com um coração enorme. Sessão Dupla: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho.

3) Ilha dos Cachorros, de Wes Anderson - Para um cineasta tão obcecado por controle como Anderson, nada melhor que a animação para que exercite todos os seus TOCs de simetria. O filme é um espetáculo visual apuradíssimo, ainda mais radical do que o padrão Anderson, extraindo um crescendo de gags incríveis a partir de nada mais que enquadramentos e composição. Filme-lego. Sessão Dupla: Playtime, de Jacques Tati.

2) Deixe a Luz do Sol Entrar, de Claire Denis - Parece uma comédia romântica, mas é um filme muito triste sobre errar e errar - nos dois sentidos - , de relacionamento e relacionamento, em busca de uma completude. É baseado em Barthes, mas lembra Woody Allen. O final, um encontro inédito entre Juliette Binoche e Gerard Depardieu, é a a cena mais bem atuada da década. Sessão Dupla: Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira.

1) Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans - É difícil dizer isso com precisão num país que produz mais de 200 longas por ano, como o Brasil, mas esse aqui é o filme político mais bem logrado no país nesse século. Um filme com a câmera na altura do olhar do povo, e não de cima pra baixo, maior que ele, ou de baixo pra cima, condescendente. É preciso. Aliás, é gritante a qualidade do texto disso aqui - sincero, humano, mais jamais "superescrito". E a direção de tudo, que não quer ser realista, ou transparente - é um filme cujos recursos narrativos são deliberados, evidentes, mais ou menos como em As Boas Maneiras. Sessão Dupla: As Maravilhas, de Alice Rohrwacher.

segunda-feira, dezembro 18, 2017

Melhores de 2017

Scorsese disse certa vez que nunca termina o filme. Ele simplesmente o abandona. Com listas é a mesma coisa - cansei de ver filmes deste ano e estou oficialmente abandonando 2017. Minha lista de melhores do ano segue abaixo, e pronto. Normalmente eu escrevo um ou dois parágrafos sobre cada filme, mas olha, esse ano eu comecei a escrever e só saiu Moonlight. Os outros que me perdoem.

(Eu tava guardando notas sobre o filme para um ensaio posterior, mas também estou abandonando essa pretensão agora. Vamos ver se o filme sai do sistema)

*

1 - Moonlight, de Barry Jenkins

Passei o ano inteiro querendo escrever um texto que dê conta desse filme sem glorificá-lo pela sua importância extra-cinematográfica, e muito menos puni-lo por isso, mas chega o momento em que simplesmente nos conformamos com a existência dessas reações extremas e esperamos que o tempo ilumine a sua pujança.

Ainda assim, cabe pontuar que pra mim o mérito de Moonlight foi cinematográfico desde o dia 1, já que a administração da tensão insuportável entre os corpos no quadro e da tensão interna que cada um desses corpos carrega é, no meu, entender, a definição exemplar de uma mise-en-scene vigorosa.

Essa tensão é isolada como um gene no DNA, e trazida para o primeiro plano da experiência do filme em todas as suas cenas - é como se 122 anos depois, com milhares de tentativas, alguém tenha conseguido expressar cinematograficamente a sensorialidade da experiência queer (ou de certa experiência queer), resumida nesse "não caber no corpo" que o filme explora tão bem.

(A tensão a que me refiro é perfeitamente ilustrada em ONe Step Ahead, na trilha, cantada por Aretha Franklin: Just one step ahead is a step too far away from you.)

Vejam, citar esse ponto de vista específico não é desautorizar outros pontos de vista que não veem Moonlight em primeira pessoa, e sim tentar iluminar as decisões cinematográficas de um filme muitas vezes visto (apressadamente) como publicitário, sobretudo devido à homenagem aberta do filme ao cinema de Wong Kar-Wai e Hou Hsiao-Hsien.

Cada ruído de imagem, cada anteparo que nos separa dos personagens, cada distorção de som imagem - tudo isso é muito mais que um ímpeto de edulcoração, e sim um reflexo natural de um plano coerente de ilustração de uma experiência, a de não estar em paz de dentro para fora e de fora para dentro. O cinema é o caleidoscópio eu-mundo dessa relação.

Quando o filme avança violentamente em direção a seu desfecho, essa tensão é reduzida a seu essencial, e, portanto maximizada. Há um trecho lindo no Antes de Pôr-do-Sol em que Julie Delpy e Ethan Hawke estão numa van pelas ruas de Paris, e a Delpy vai encostar a mão no cabelo do Hawke, mas recua.

O último ato de Moonlight é esse minuto do filme de Linklater amplificado à última potência, com outros fatores bem específicos impedindo o toque, com as palavras que não saem sem dor da boca de Trevante Rhodes, e com esses corpos, fartos de não caberem em si, transbordando em suores numa mesa de restaurante ou, de modo marcante, numa polução noturna, talvez o momento mais romântico visto numa tela de cinema desde As Pontes de Madison.

Ah, os outros filmes?

2 - Z - A Cidade Perdida, de James Gray
3 - Silêncio, de Martin Scorsese
4 - Toni Erdmann, de Maren Ade
5 - Personal Shopper, de Olivier Assayas
6 - Corra, de Jordan Peele
7 - Até o Último Homem, de Mel Gibson
8 - Joaquim, de Marcelo Gomes
9 - Fragmentado, de M. Night Shyamalan
10 - Martírio, de Vincent Carelli

Calendário de estreias comerciais em Salvador, claro.

segunda-feira, novembro 20, 2017

A Velocidade Terrível da Queda



Em resposta a um repórter da Folha de S. Paulo que lhe perguntava se o verdadeiro massacre sofrido pelo protagonista do seu novo livro era uma reação aos homens estúpidos do mundo artístico da zona sul carioca, Fernanda Torres disfarçou, e foi existencial: "Eu castigaria qualquer um. As coisas me vêm com ironia; a vida é trágica". A Glória e Seu Cortejo de Horrores, o seu segundo romance, é de uma virulência sem fim, mas a sua navalha, ao ferir os seus personagens, não os despe de humanidade. A vida é trágica - este violência não é nada pessoal.

Admirador ferrenho de Fim, a estreia quase acidental de Fernanda Torres na literatura, eu cheguei a essa obra nova com o medo terrível de estar diante de uma fraude, da evidência de que a qualidade estarrecedora do livro anterior fosse sorte de principiante. Não é. Acompanhando a imprensa, até agora não achei nenhuma crítica de verdade ao livro, como se até o resenhismo mais maldoso tivesse medo de se aproximar. Como lidar com o fato de que uma atriz talentosa, filha de dois "monstros sagrados" da tv, teatro e cinema brasileiro, ainda por cima escreva de modo espetacular e publique dois dos melhores romances deste século no país? 

Não é uma hipérbole, é disso mesmo que estamos falando, e já que estamos no terreno do reconhecimento do talento e do privilégio que esse talento - mais um - representa, é bom dizer que o misto de desencanto carioca e ironia perturbadora faz com que Fernanda Torres mereça ser mencionada como pertencente ao mesmo veio literário que Machado de Assis. 

Não se trata aqui de comparar os dois - não seria justo - mas de perceber como esse romance pontiagudo opera de modo muito parecido ao do mestre da Rua de Matacavalos. No fundo, a tragédia da vida é mais evidente quando uma existência é contada em fast-forward, como Machado e Fernanda fazem, em cenários parecidos, mas separados por pouco mais de um século. O humor que transborda do texto parece bater em falso, propositadamente - em vez da gag, o que se evidencia é um profundo entendimento do patético. 

É como se os eventos da vida, reduzidos ao essencial, revelem sempre a sua face mais deprimente, por melhores que sejam os momentos isolados, ou mais vívida a lembrança de alegrias marcantes. Um grande momento do livro é o transe do protagonista, um ator, na memória do seu maior sucesso no teatro, num papel em uma peça de Tchekhov. É embriagante, mas é um átimo, e as consequências mostram que até mesmo as alegrias acabam por reverter-se para o mal. Um casamento de 15 anos, espetacularmente narrado em algumas páginas, rompe-se num segundo, num momento preciso, sem que o texto faça qualquer esforço para torná-lo um grande momento. Até os lances decisivos da vida têm a marca da banalidade.  

Além dessa nuvem massiva de pessimismo que se abate sobre as nossas cabeças durante a leitura, chama muito a atenção o fato de Fernanda Torres ser tão desenvolta narrando em primeira pessoa as agruras de um personagem tão masculino. É incrível - parece que o fato de ser atriz faz com que ela se ponha precisamente no lugar de qualquer outra pessoa, e o gênero nem de longe é uma barreira. Apesar da familiaridade do cenário - Rio, artistas, teatro - o texto tem uma precisão muito específica do que é ser homem, algo que ela já tinha logrado com maestria em Fim.   

Essa precisão, por outro lado, não se manifesta em diálogos, como se esperaria de uma atriz que começou a escrever ficção como uma peça de teatro. A ação é interna, mas cheias de marcas de oralidade. O livro é um relato não dito, represado. Está todo na mente do seu protagonista, como se Fernanda, antes de escrever um romance, estivesse compondo uma personagem e levando essa composição às últimas consequências. Há atores que criam histórias para as personagens que interpretam - Fernanda desenvolve romances inteiros para personagens que nunca vai interpretar. 

A marca da tragédia sem sentido - sim, ela cita a passagem shakespereana do som e a da fúria no romance, por sinal, muito erudito em referências, mas jamais reverente - pode não desaparecer em nenhuma página, mas se há algo que redime a experiência dessa leitura de ser um mergulho unidimensional na depressão é o entendimento de que se a arte não muda o fato de que a existência é um horror, ao menos dá as pessoas algum alento para enfrentar a vida. O epílogo dessa história de derrocada - mais uma vez, espetacularmente bem escrito - mostra que esse alento não é pouca coisa. É tudo o que temos.  










quarta-feira, outubro 11, 2017

Cineastas que odeiam pessoas infestaram a programação de Cannes 2016

(O texto abaixo seria originalmente publicado num projeto de jornalismo em Portugal, mas a coisa não andou e o texto ficou velho. Hoje Lembrei dele, e como os filmes já começaram a circular, resolvi publicar)

Se o cinema pode ser considerado um termómetro dos sentimentos do mundo e se o festival de Cannes permite, por amostragem, encontrar padrões dentro destes sentimentos, o diagnóstico encontrado a partir da última edição do evento, no mês passado, sugere uma sensação colectiva de desencanto e falência da crença nas instituições que mantêm a nós, humanos, organizados em sociedade. Os flashes e os vestidos continuaram lá em todo o esplendor, mas a cada vez que as luzes do Grand Théatre Lumière se apagaram, foi reforçada uma ideia muito consistente de que esta humanidade já se encontra numa curva descendente, muito próxima do seu apocalipse.

O pessimismo generalizado desse festival, no entanto, não é apenas uma constatação sobre o estado das coisas no mundo, mas sim o reflexo de um gesto activo de cineastas - especialmente da Europa - de culpar o homem pelo seu próprio ocaso. Nos filmes apresentados em competição em Cannes, inclusivamente no vencedor da Palma de Ouro, The Square, observa-se um empenho em pôr a espécie humana no microscópio, no seu pior ângulo. Foi um festival de realizadores-deuses, a julgar personagens segundo a sua superioridade moral desencantada, num esforço que transcende a misantropia e tende ao sadismo.

Tal empenho foi valorizado pelo júri presidido por Pedro Almodóvar (de quem se esperaria escolhas mais humanistas, aliás), em suas diversas formas de apresentação. O sueco The Square, de Ruben Östlund, o vencedor da Palma de Ouro, é uma comédia sobre brancos privilegiados de classe média alta que frequentam o universo da arte moderna. São todos ridículos, sem excepções, mas bom, o ridículo talvez seja a forma mais leve de descrença.

Por exemplo, o austríaco Michael Haneke, um veterano nessa técnica de moer pobres humanos para extrair pontos de visto, ressurgiu com Happy End, um filme no qual, ainda na sequência de créditos iniciais, uma criança mata um hamster de estimação e atenta contra a vida da própria mãe. É só o começo das actividades nessa máquina de tortura de duas horas, e desta vez, ao contrário do que ocorre em alguns dos seus filmes, como Caché, não há a mínima possibilidade de empatia. O russo Andrey Zvyagintsev, que apresentou Loveless (o título já diz tudo), aposta na mesma seara: o ser humano não presta.

Nenhum desses filmes, no entanto, se iguala ao monstruoso húngaro Jupiter’s Moon, uma fantasia que foi um passo além e deu o nomes aos bois causadores de tanto mal-estar: a situação política da Europa. No filme, de Kornel Mundrunczó, um refugiado sírio que tenta atravessar a fronteira da Hungria, é alvejado duas vezes por um polícia, mas em vez de morrer, adquire o super-poder da levitação. Um médico em desgraça que conhece o refugiado vai usar o milagre como forma de ganhar dinheiro.

Jupiter’s Moon, de todos, pinta um cenário de horror na Hungria, que parece aqui rivalizar com as Filipinas do realizador Brillante Mendoza como o pior lugar da Terra - só que em plena União Europeia. Não basta a canalhice generalizada. Tudo ainda precisa ser sujo e miserabilista como nos primeiros filmes de Alejandro González Iñarritu. Alegorias bíblicas que quase igualam os refugiados a versões de Jesus Cristo só pioram a situação, por sua obviedade.

Entre todos esses filmes de horror, no entanto, é preciso salvar o também russo A Gentle Creature, de Sergei Loznitsa, outra longa-metragem infernal sobre burocracia, mas que consegue não dirigir a sua fúria contra pessoas ao transformá-las apenas em ícones de um mal maior, o Estado. Não é uma alegoria subtil, especialmente quando os representantes do Estado partem para a violência física contra os cidadãos, mas dado que o objectivo de A Gentle Creature não é falar sobre gente, e sim sobre confronto entre instâncias de poder, o filme é muito bem-sucedido ao mostrar todos os dentes, de forma feroz, contra o regime Putin. É um grande filme político.

Todo esse universo de descrença, no entanto, ganhou síntese num filme mais humanista, mas que retrata bem este momento em que a Europa está sob ataque. Em In The Fade, de Fatih Akin, uma mulher casada com um turco perde o marido e o filho num atentado perpetrado por neonazis. A justiça lhe falha, e ela parte para a vingança. É uma história simples, digna de Charles Bronson, mas mostra como o pensamento liberal e de esquerda se aproxima perigosamente do vale-tudo e da retaliação não institucional quando é ameaçado.

Esse bloco de filmes do mal acabou por minimizar outras expressões artísticas avulsas surgidas na competição do festival, e também fora dela, em mostras paralelas. As duas únicas longas-metragens em português do festival, o português A Fábrica do Nada, de Pedro Pinho, e o brasileiro Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa, tiveram pouca repercussão. Filmes africanos passaram em branco.

E mesmo dentro do mainstream do festival, a discussão tecnológica a respeito da não exibição nos cinemas dos dois filmes da Netflix empanou a discussão sobre a qualidade dessas mesmas obras. The Meyerowitz, de Noah Baumbach, pode ir directo para o inferno das comédias sub-Woody Allen, mas Okja, do coreano Bong Joon-Ho, é uma joia, que vai perder muito ao ser visto apenas em televisões, tablets e telemóveis.

Nenhum dos filmes da competição, no entanto, igualou-se a três doces filmes fora de concurso. A primeira grande lufada de bom gosto veio na abertura da Quinzena dos Realizadores, com Um Beau Soleil Interieur, da francesa Claire Denis, adaptado dos Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Barthes. Trata-se de um filme lindo sobre amar, ver os relacionamentos falharem e continuar tentando amar. Juliette Binoche, toda coração, sexo e lágrimas, prova mais uma vez ser a melhor actriz do mundo.

Entre os veteranos, aos 88 anos, a também francesa Agnès Varda uniu-se ao fotógrafo JR (o seu nome verdadeiro nunca foi confirmado) para o belo documentário Visages Villages, na qual ambos reproduzem em grande escala em paredes e muros imagens das pessoas que habitam os seus locais. É um filme sobre memória e permanência, num mundo que insiste em transformar em efêmeras as relações das pessoas e dos seus lugares. Por fim, acima de tudo, houve o filme póstumo de Abbas Kiarostami, uma coleção de 24 tableaux abstratos que pode ter, sem exageros, o final mais belo da história do cinema.
Tais obras, na sua convicção de filmar gente e arte de coração aberto, foram o que fizeram o Festival de Cannes ser um pouco mais suportável diante de tanta vontade de afirmar o fracasso humano. Que bom que há quem pense que nós, enquanto espécie, ainda temos jeito.



domingo, março 26, 2017

A Mais Longa Jornada


Muitas vezes as obras-primas são descobertas por acaso. Comprei esse livro há quase 15 anos, num antigo sebo de Salvador, o Berinjela. Havia visto filme Retorno a Howards End, comprei o livro, e achei esse do mesmo autor. Nesse ínterim, li Howards End, Passagem Para a Índia, e, pra mim, o até então melhor livro de Forster, Um Quarto Com Vista.

Há uma semana, depois da experiência desastrosa de um romance nebuloso de um fluxo de consciência incrivelmente mal escrito - O Ocaso dos Pirilampos, de Adriano Mixinge - lembrei da limpidez absoluta do texto de Forster e tirei esse livro da estante.

O Que A Mais Longa Jornada tem a oferecer é muito mais do que um texto de primeira qualidade. O livro é uma bela meditação sobre a nossa passagem nesse mundo, o conceito de legado e obra, e o quanto vale a pena dedicar o único tempo que temos à construção de algo que fique para a posteridade.

Os pólos dessa meditação são dois irmãos, um legítimo, outro bastardo, que não sabem da existência do parentesco. Há certamente intriga nesse drama familiar clássico, mas Forster dedica muito mais que metade das mais de 300 páginas do seu livro às ruminações das suas personagens a respeito de cada momento da vida.

Lugares, tempo, costume e pessoas são descritos com um indolente e arguto senso de observação. Fatos importantes que mudam as peças de lugar nesse jogo vêm sempre abruptamente, em cortes secos, como um choque deliberadamente calculado para refletir as surpresas da vida e a sua falta de lógica.

A oposição entre os irmãos, antes de um antagonismo, é sobretudo o abismo de diferença entre dois pontos de vista. De um lado, um acadêmico de filosofia obcecado em escrever ficção, que cede às convenções da vida e enterra os seus planos justamente por aderir a instituições que refletiriam a segurança da existência: Deus, o casamento, um emprego, dinheiro. Do outro, a explosão sensorial e anti-convencional do bastardo, bêbado, libertino, impulsivo, ateu convicto.

Apesar de estruturar o seu romance como uma oposição clássica austeniana (razão e sensibilidade, orgulho e preconceito), Forster ambiciona mapear o que une os irmãos, não o que os separa, os pequenos detalhes indispensáveis que fazem do mundo um lugar muito mais cinza do que os extremos de uma discussão existencial.

No fundo, sobra a santidade dos sentidos, a terra sagrada, a aproximação possível entre a finitude ("quando um homem morre é como se nunca houvesse existido") e o caráter milagroso desse pequeno intervalo de vida que existe fragilmente, e que pode acabar a qualquer momento, e de forma aleatória, como frequentemente acontece no livro.

Entrando na esfera da especulação, não deixa de ser um resumo da vida do próprio autor bem antes que ela tivesse se desenvolvido. Forster escreveu o seu último livro 46 anos antes de morrer. Segundo os seus diários, perdeu a inspiração logo após perder a virgindade, já perto dos 40 anos, com um soldado ferido na I Guerra Mundial (apesar disso, ainda publicaria, anos depois, Passagem Para a Índia).

O desfecho do livro, portanto, parece antecipar a vida posterior do autor, que largou a ficção e escolheu a militância humanista secular ateísta e uma intensa vida sexual pelos bas-fonds de Londres. No entanto, ao contrário do seu protagonista, cujos contos são recusados por deixarem claro que quem os redigiu não viveu a vida de verdade, Forster foi capaz de entender e escrever sobre a existência antes de usufruir dela com plenitude. E quando a plenitude chegou, sobrou o silêncio na arte.

sábado, março 11, 2017

Silêncio, o livro

Aproveitando a estreia do Scorsese novo, que todo mundo parece ter odiado - não vi ainda - deixo aqui a recomendação do romance fenomenal que inspirou o filme. Silêncio foi escrito pelo japonês católico Shusaku Endo, mas a sua profundidade é bem maior que os limites de uma religião.

Uma vez, ao falar sobre o seu livro Reparação, Ian McEwan disse que a vida era muito difícil para um ateu, porque não havia um Deus para perdoá-lo. O repórter replicou: sustentar uma fé deve ser igualmente difícil, não? McEwan deu de ombros, com um "oh, please, don't get me started".

Endo escreve justamente sobre isso, sobre a dificuldade de sustentar essa fé, e o seu golpe de mestre é conduzir essa fé com o alicerce do cristianismo apenas para, nos momentos finais, reafirmar a sua crença em Deus com a renegação dos dogmas.

O Deus de Endo se manifesta no outro, no ato de compaixão, e, no limite, num ato de apostasia. A ausência de Deus é frequentemente ilustrada como a indiferença do universo.

A tese de Endo é que se o universo acaba nos limites do corpo individual do homem, e se este homem é capaz de encontrar empatia em outro homem - parte do todo capaz inclusive do sacrifício - esse universo não pode ser tão indiferente assim.

Pra mim, é uma ideia bela e profunda, sobre a qual é possível meditar por meses, e digo isso como alguém auto-identificado como agnóstico, e que simplesmente não consegue tirar esse livro da cabeça.

Diante dessas ambições, as discussões sobre o colonialismo que levou aqueles padres até os confins do Oriente para disseminar a religião parecem minúsculas, liliputianas. Shusaku Endo não está falando de política, e sim de toda a nossa existência.

(A tradução da Planeta infelizmente não é direta do japonês, como costumam ser as da Estação Liberdade. Ainda assim o texto corre fluido e impactante).

domingo, fevereiro 26, 2017

Moonlight



Talvez seja fácil dispensar Moonlight como mais uma história de formação, um coming of age de minorias (negro, queer), mas o filme me parece bem mais que isso. É um filme sobre a instância sensorial e sensual dessa formação, do poder dos sentidos como construção de uma identidade, em vez do pensamento.

É por isso que o filme é todo fragmento, e nem tô falando da sua estrutura de tríptico: cada cena vem depois da outra como se houvesse um mundo de elipses entre cada uma delas, e como se o que fixasse os momentos que vemos fossem sobretudo momentos do corpo: o silêncio, o sangue na boca, as palavras que não correspondem à imagem, uma mão agarrando um punhado de areia.


Fazia tempo que eu não via alguém filmar corpos humanos tão bem assim, com tanta expressão. É um cinema antropocêntrico, do gesto, do detalhe desse gesto, cujo padrão de referência me parece ser o Wong Kar-Wai dos anos 90. É algo que o diretor Barry Jenkins nos faz relembrar com a inserção da versão de Caetano Veloso para Currucucu Paloma, que estava em Felizes Juntos bem antes do Fale com Ela de Almodóvar, curiosamente outro filme muito importante sobre o corpo.

Essas presenças humanas incendeiam Moonlight do início ao fim, com esses filtros que chamam a atenção apenas o suficiente para o realce de sensações, e logo em seguida parecem discretos, como se houvesse todo um mundo de emoções que vão sempre permanecer fora da tela - não no extracampo, mas nas elipses.

Os personagens vão mudando de corpo com a troca dos atores em cada uma das fases, mas tudo permanece orgânico, porque o filme deixou desde o início o espaço para que completemos as lacunas entre uma cena e outra, entre um intérprete e outro.

E o filme nos deixa ainda preencher as lacunas dentro de uma mesma cena. O segmento final do filme talvez contenha as imagens mais sensuais que vejo em muito tempo, sem que absolutamente nada aconteça, e de um jeito que a tensão sexual se converte milagrosamente em algo bem mais profundo e delicado.

É um filme de imagens todas essenciais, onde vemos apenas o que precisa ser visto e nenhum segundo a mais. Pessoalmente, a minha imagem preferida é de André Holland fumando do lado de fora do seu restaurante. Dá pra sentir o cheiro da fumaça do lado de cá da tela.

sábado, fevereiro 25, 2017

La La Land

La La Land taí provando pra gente que um filme pode até dar as suas vaciladas, mas se consegue um final matador, o impacto do todo aumenta exponencialmente. Sensacional aquele número final, uma mistura improvável de Sinfonia de Paris com A Última Tentação de Cristo, um momento raro de sucesso no filme de dar pungência ao número musical, uma razão de ser.

Na maior parte do tempo, o filme não consegue sustentar a ideia de ser um musical, ou seja, os números estão ali para seguir um conceito. Não é assim que um musical funciona. Pra você pôr uma pessoa cantando em vez de pensando, ou falando, o filme tem que convencer de que a intensidade de cada momento é mesmo inevitável, e de que só a música dá conta. Você pode ter um fiapo de história, mas se a música se fizer sentir como inevitável ou a encenação de uma emoção pedir e implorar por essa suspensão da realidade, o musical vai dar certo.

No caso de La La Land, achei o todo meio cambaleante, a começar pela oportunidade perdida dos dois primeiros números. Tenho a impressão de que como ninguém mais filma musical, os diretores perderam a noção de coisas básicas.

Tipo: você para um viaduto pra filmar e decide fazer tudo em plano sequência, de perto. Como diria Trump, WRONG! O filme perde totalmente a noção de espaço e a gente fica implorando por um plano aberto grande, que só vem quando a música tá no fim. A mesma coisa pro número da festa: na hora da cena explodir, o cara mergulha a câmera na piscina e ninguém vê patavinas. SAD!

A sorte do filme é que as baladas são boas, City of Stars é um chiclete mental avassalador e que essa atmosfera Jacques Demy tem mesmo um grande charme. A construção da aproximação do casal tem o momento genial do planetário, com aquele passeio pelo espaço que não deixa de ser uma versão sideral do passeio pelo Central Park de Fred Astaire e Cyd Charisse em The Bandwagon.

O filme se arrasta um pouco no meio e os conflitos da historinha de boy meets girl parecem artificiais, algo que só percebemos porque faltaram pelo menos mais duas canções ali no meio, de preferência um showstopper com algum bom coadjuvante, o que o filme praticamente não tem. Enfim, eu gostei da coisa toda mais como conceito do que como execução, mas nem de longe é um mau filme.

E, voltando ao final, eu gosto especialmente como ele funciona como uma ilustração literal da ideia do musical como reconstrução do mundo real, como se fosse uma coisa política. O escapismo não é alienante, é um ato de revolta, mas, vejam, no final a realidade acaba transbordando. Sejam pelos desencontros da vida, como nesse caso, sejam por motivos mais frontalmente políticos, como a guerra da Argélia para Os Guarda-Chuvas do Amor, a realidade sempre assombra. O cor-de-rosa do musical no fundo não nos quer fazer esquecer dessas agruras, e sim realçar por oposição tudo o que é terrível na existência.

Hidden Figures, Fences

Eu gostei de Hidden Figures. É um tipo bem especial de cinemão que anda meio em extinção, a tal Sessão da Tarde para adultos. Com diferentes graus de seriedade, é aquele tipo de filme com adultos protagonistas, vivendo problemas mais ou menos de adultos, mas dentro de uma área de segurança hollywoodiana que faz com que nada muito desafiador seja visto na tela no sentido formal, e com conflitos sempre reconhecíveis. Luta contra o sistema. Falta de reconhecimento. Superação de obstáculos. Etc.

Hidden Figures é isso, e também um filme de mulher forte. Não vai ter super-herói, mas vai ter machismo (e no caso, racismo), e todas as tintas das personagens que não são protagonistas sem bem traçadas. Há a rival racista, o engenheiro preconceituoso, o chefe de bom caráter. Não tem muita nuance, e mesmo a violência (para isso, ver Selma) é mantida a uma distância segura.

Enfim, isso aqui é mais um de uma longa linhagem que vem de filmes como Erin Brockovich, Nos Bastidores da Notícia, Norma Rae, Alice Não Mora Mais Aqui. É perfeitamente inofensivo, mas é o tipo de produto perfeitamente inofensivo com gente que não costuma ser protagonista de produtos perfeitamente inofensivos como esse. Isso faz com que, além de perfeitamente inofensivo, em 2017 ele seja um filme necessário. Não à toa, foi um sucesso absoluto de bilheteria. É redondinho.

*

Fences: teatro filmado daqueles superantiquados, mas devidamente ancorado numa atuação monumental de Denzel Washington, talvez no grande momento da sua carreira. Ele não baixa o tom da transição do palco para a tela e defende um personagem maior que a vida com notável aplomb. Sua fala parece maníaca; sua mania de grandeza, insuportável. Mas de repente vem o silêncio e é impossível olhar para qualquer outro lugar da tela. A sua presença se impõe.

Viola Davis repete a sua rotina com excelência, com o célebre catarro e tudo na hora do choro. Ela vai ganhar o Oscar, mas será uma das maiores marmeladas da história. Não é coadjuvante nem aqui nem na China.

Infelizmente, ao contrário de outros teatros filmados recentes - como os dois últimos filmes de Polanski - não há mais nada o que dizer do filme além dos atores. Não sei se foi preguiça ou otimização, mas não há uma imagem sequer que chame atenção na coisa toda.

Jackie

Jackie é o segundo filme de Pablo Larraín no qual vemos a necropsia de um chefe de Estado assassinado. O primeiro foi Post Mortem, no qual, no acto final, o escrivão protagonista regista as observações do médico legista de Salvador Allende, mais um cadáver no meio do monte de corpos que inunda o ato final do longa de 2010, praticamente um perturbador filme de zumbi.

Não vi o primeiro longa dele, Fuga, mas de Tony Manero em diante, Larraín orbita os momentos decisivos da política em diferentes distâncias. Em Tony Manero, Post Mortem e O Clube, está a consequência das mudanças bruscas na História na vida das pessoas comuns. Em No e Neruda, ele se aproxima dos protagonistas dessas mudanças. Agora, nos Estados, um Jackie, ele parece fazer um zoom-in direto para o centro do mundo, com um filme sobre a morte de John Kennedy.

Apesar do título, não é um filme sobre Jackie, e sim sobre o luto e a resiliência. Jackie é apenas um símbolo, um avatar desse luto, uma vez que, como confessa a um padre, no fundo ela está tão distanciada daquele homem quanto o povo americano, apesar de ter dois filhos com ele. O que importa a Jackie, e ao filme, é a construção de um legado, o jeito como a história de um homem vai ser construída e eternizada.

A construção do filme nos relatos de Jackie a jornalistas (um entrevistador, as câmeras que percorrem a Casa Branca antes da morte de Kennedy, a vontade de Jackie de ser vista com o vestido manchado pelo sangue do marido) sintetiza isso, a história como mise-e-scène. Nada se sabe sobre Jackie ao final desses 100 minutos, além da sua vontade de construir o lugar do marido e a sua despedida (e ponto de partida, na verdade) na história americana.

Natalie Portman, dirigida a atuar no limite do artifício, é uma representação perfeita desse teatro. Ela não convence como Jackie, mas não precisa convencer; ela representa um ícone, o que faz todo o sentido para as ambições do filme.

Esse momento definitivo quando se decide como a história será escrita tem, mais uma vez as tintas de horror e, ao mesmo tempo, o gelo que Larraín imprime à sua obra. A trilha sonora sobe aqui e ali, assustadora, a câmera percorre e frequenta esses bastidores, a edição retalha esses dias decisivos em fragmentos essenciais. Belo filme.

sábado, dezembro 31, 2016

top 10 2016

Eu ia ver mais dois filmes antes de completar essa lista, mas é injusto, ver apenas para dar um veredito relâmpago. Foi mal, Hong; foi mal, Bellocchio. Bom, os dez filmes então a seguir, mas antes, cinco menções honrosas, sem ordem:

Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-eda
O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
O Demônio Neon, de Nicolas Winding Refn
Brooklyn, de John Crowley
Neruda, de Pablo Larraín

Agora sim:

10 - Belos Sonhos, Itália, de Marco Bellocchio - Paulo Francis dizia que Gritos e Sussurros era o mais mais terrível de todos, porque era sobre a morte da mãe. Bellocchio faz esse filme da descrição de Francis, só que sem tangentes. A perda sempre deixa fantasmas, e às vezes nem o cinema os exorciza.
Sessão dupla: Bambi, de David Hand

9 - A Academia das Musas, Espanha, de José Luís Guerin - Um instigante filme falado, quase todo em closes, sobre as relações das pessoas com a arte, e sobre os limites invisíveis entre a vida e a ficção. Falar sobre arte não é um exercício um intelectualoide, e sim um esforço de entender a nós mesmos, como humanos.
Sessão dupla: Shirin, de Abbas Kiarostami.

8 - Elle, França, de Paul Verhoeven - Ultradesconfortável thriller de Verhoeven, que ao longo da sua carreira sempre nos fez cruzar as pernas de nervoso. Um estuprador usa sexo como arma, a vítima se defende e ataca o mundo à sua volta com um sarcasmo inclemente. Não é um filme fácil de ver, e de decodificar. Cada riso vem com culpa, Huppert e Verhoeven vêm com fúria, sem deixar prisioneiros.
Sessão Dupla: Juste Avant la Nuit, de Claude Chabrol

7 - Os Oito Odiados, EUA, de Quentin Tarantino -O Dogville de Tarantino, composto com o mesmo gusto em construir tensão e desmontar personagens, em longos e delicados capítulos, com a falta de pressa de um sádico. O cinema transborda desse teatro filmado.
Sessão dupla: Dogville, de Lars von Trier

6 - Cemitério do Esplendor, Tailândia, de Apichatpong Weerasethakul - Mais um filme estranhíssimo de Joe sobre essa paz que um certo modo de vida e pensamento em parte da Ásia forja, mesmo quando tudo ao redor parece entrar em colapso. A glória de tempos passados, por exemplo, é algo que pode ser revisitada com um pouco de imaginação, e, talvez, fé num cicerone, que pode ser um personagem que guia outro por um palácio presente em outras vidas, ou o próprio diretor, que nos abre esse universo de gente resiliente. Nada permanece, tudo permanece.
Sessão Dupla: A Cidade das Tristezas, de Hou Hsiao-Hsien.

5 - Aquarius, Brasil, de Kleber Mendonça Filho - Um amigo dia desses reclamou que esse era um filme "de tese". Eu discordo. É um filme de sentidos, de pequenas construções de significado que têm um potente efeito cumulativo para quem se interessa pelo Brasil contemporâneo, mas também sobre gente, intimidade e identidade. Mais do que um filme sobre uma mulher, é um filme sobre uma cultura intelectual e política brasileira, com todas as suas contradições, sob ataque.
Sessão Dupla: Isto Não é um Filme, de Jafar Panahi e Motjaba Mirtahmasb

4 - O Que Está Por Vir, França, de Mia Hansen-Love - um hino de amor à vida, da celebração de cada um dos seus momentos. Para cada perda, uma nova possibilidade; para cada ausência, uma chance de liberdade. Isabelle Huppert mais uma vez monumental.
Sessão Dupla: Poesia, de Lee Chang-Dong.

3 - Sieranevada, Romênia, de Cristi Puiu - Um país que cabe num apartamento, micropolítica e macroafetos em três horas exasperantes. Assim como Aquarius, um filme sobre pessoas e os espaços que elas ocupam.
Sessão dupla: Dez, de Abbas Kiarostami

2 - Julieta, Espanha, de Pedro Almodóvar - Já escrevi pelo menos três vezes sobre esse filme, mas sempre há algo mais a dizer. O filme é resultado de um projeto acabado de cinema ao mesmo tempo popular e racionalizado, intelectualmente. É um melodrama rasgado sobre conflitos de mãe e filha, mas é uma tragédia grega, passada como sempre em família, sobre a equivalência entre morte e ostracismo. Quando alguém próximo morre, a dor é infernal, mas é igualmente ruim quando a morte é em vida, pois fica evidente o tempo que se perde.
Sessão dupla: As Memórias de Marnie, de Hiromasa Yonebayashi

1 - Carol, EUA, de Todd Haynes - Foi o primeiro filme que vi este ano, e ele nunca saiu dessa posição. Conto impecavelmente clássico e grande filme de amor sobre viver de verdade e representar uma imagem, mais uma da coleção de obras-primas de Haynes, o melhor diretor americano vivo. Em mais uma versão do seu sirkiano teatro do subúrbio, o diretor ancora o filme numa inexcedível Cate Blanchett, que compõe um personagem que atua o tempo todo, e nem mesmo a paixão despe a sua carcaça - ainda assim, as emoções transbordam, como na genial cena do acordo judicial, um momento digno de uma Bette Davis, uma Joan Crawford. O seu maneirismo é perfeito para o filme, que encontra na excelente Rooney Mara a plateia ideal pro show-off de Blanchett.
Sessão dupla: Vitória Amarga, de Edmund Goulding

sexta-feira, dezembro 23, 2016

O Que Está Por Vir

Aproveitem essa semana de Natal para ver essa joia chamada O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Love, no Glauber e no Paseo. É um filme perfeito para o Natal, porque reafirma relações humanas e empatia como as coisas mais importantes dessa vida, só que sem as toneladas de açúcar que um filme americano dedicaria a essa história, por exemplo.

A história em questão é uma crise de maturidade de uma professora de filosofia, casada com outro professor de filosofia, e às voltas com a doença da mãe, um divórcio a caminho e os filhos fora de casa. Parece, na descrição, um filme-cabeção, mas só os franceses para navegarem pelas águas tormentosas de mil referências intelectuais de forma natural, sem a sensação incômoda de name-dropping ou de citações gratuitas. Essa é simplesmente a vida destas pessoas, e pronto.

O filme se desenvolve nesses pequenos dramas cotidianos, mas numa cena em que a protagonista lê uma passagem de Blaise Pascal, a gente percebe o quanto esses microconflitos nos fazem humanos, pequenos na sabedoria mas imensos na capacidade de sonhar e imaginar. É um filme que, sem se posicionar desta maneira abertamente, propõe a filosofia como consolo para as loucuras da vida, talvez do mesmo jeito que Poesia, de Lee Chang-Dong, defendia a arte como refúgio.

O filme coreano me veio uma ou duas vezes na cabeça, não por apenas ser uma história de uma mulher sexagenária, mas pela defesa de uma beleza possível da vida, não por negação da dor, mas pela superação das dificuldades através da dor. Numa cena milagrosa, vemos a gloriosa Isabelle Huppert chorando no ônibus (choro esse testemunhado por outra passageira, que fica algo comovida), e de repente, começa a rir ao mesmo tempo diante de uma coincidência que observa pela janela.



A vida inteira cabe no choro e no riso simultâneo de Huppert, numa atuação que ainda mais espetacular quando se tem em conta de que a mesma atriz ressuscitou a sua gélida persona chabroliana para o Elle, de Verhoeven, com renovada desenvoltura. Que mulher é essa? Provavelmente é a melhor atriz do mundo, junto com outra que também vemos neste filme, numa cena em que a personagem da Huppert vai ao cinema - o momento mais prazeroso que vimos numa tela este ano.

domingo, novembro 13, 2016

Hacksaw Ridge



É realmente impossível ver e pensar o filme novo de Mel Gibson, uma história real sobre um herói de guerra que se recusava a pegar em armas, e não pensar nesses Estados Unidos que elegeram Donald Trump.

Um filme tão agressivo na defesa das boas almas de coração simples da América profunda, num momento desse, não tem como ser visto de outra forma, especialmente quando o centro da questão toda, a tal objeção de consciência, e usada até hoje para que conservadores religiosos se recusem a atender homossexuais em alguns estados, por exemplo - inclusive no estado do vice de Trump, Mike Pence.

O filme não tem como não ser uma resposta à América democrata, quando na sua conclusão um dos personagens abertamente diz que não se deve rir de convicções, não importa quais sejam.

Apesar de ser baseado numa história real, e do mais puro heroísmo, não há como se separar um filme do seu tempo, e esse tempo é hoje. Nessa luz, o herói sulista não deixa de refletir aquele tipo de hipócrita que quer participar da guerra, mas sem sujar as mãos, tão circunspecto na sua moral. É um elogio do princípio, não importa a teleologia da coisa.

Esse texto não é um julgamento sobre aquele cara, mas sobre o cara do filme que existe pra defender essa visão de mundo de Mel Gibson. Hacksaw Ridge é uma propaganda do cristianismo como há muito não se vê, e apesar do seu herói ser adventista, a redenção vinda da catarse e da violência extrema é típica do catolicismo de Gibson.

Não deixa de ser curiosa a interpretação quase bovina de Andrew Garfield no papel principal, com aquela graça divina que se encontra no olhar das bestas, como bem nos ensinou Bresson, um católico que expressava a sua fé no cinema de modo oposto ao de Gibson, com extrema depuração e atenção ao essencial das coisas do mundo.

Dito isso tudo (e não apesar disso), assim como aquele grand guignol bíclico chamado A Paixão de Cristo, Hacksaw Ridge é um filme formidável.

quarta-feira, novembro 09, 2016

A Assassina



Resolvi pôr um pouco de beleza no meu dia para curar a ressaca e finalmente vi A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien. Beleza tem, e muita, e do tipo especial e massacrante que só alguém com o nível de depuração na carreira que Hou alcançou pode nos proporcionar.

É o filme ideal para curar os olhos, um passeio de imagem incrível para imagem incrível, de um jeito que o projeto parece se tratar de uma exposição num museu, e não dum filme. Não digo isso pejorativamente. O caso é que Hou faz tempo que não é ou nunca foi um contador de histórias; ele é um contador de ambiências, de universos.

É por isso que o filme mantém o interesse apesar de ser aparentemente ancorado numa conturbada intriga palaciana da dinastia sei lá o quê do século 8 chinês, com um outro desvio para uma cena de ação aqui e ali.

Essa trama movimentada - do que tipo que irritaria o mestre de Hou, Ozu - está no filme no entanto quase que como um objeto de cena, uma desculpa, algo que de fato nem precisamos entender, ou a que o filme não dedica atenção especial.

Eu gosto do filme, aliás o filme é um prazer absoluto, mas ao fim de uma hora e quarenta minutos, fica uma sensação incômoda de desinteresse também pelas pessoas; é um filme quase despido de humanidade, já que "gente" só interessa como composição de tableaux.

Não é um filme estéril - o efeito plástico que conjura empolga por ser tão gritantemente uma criação humana, por ter um ponto de vista, uma assinatura. Por outro lado, os Hou que eu amo de verdade (os dos anos 80, especialmente Tempo de Viver e Tempo de Morrer, ou Poeira no Vento ou A Cidade das Desilusões) não davam essa sensação de estar a um passo de ser uma instalação artística.

O filme ganhou um prêmio muito bem dado de direção no festival de Cannes do ano passado, aliás. É basicamente isso, um diretor acima do que o filme é, de fato.

(Ressalva gigantesca de que o filme grita para ser visto no cinema, e eu vi numa tv. Grande, até, mas uma tv. Ficou bom tempo em cartaz em Salvador, pena que não bateu com as minhas datas)

terça-feira, julho 26, 2016

Phoenix




Tá sendo bem difícil tirar esse filme Phoenix, de Christian Petzold, da cabeça. Speak Low, que pra mim era só mais um standard, tornou--se moldura de uma das cenas mais acachapantes da história ao mesmo tempo em que foi arruinada para todo o sempre, porque será impossível dissociá-la do rosto de Nina Hoss. Perdi a conta de quantas vezes escutei a canção por esses dias.

Nas últimas duas semanas tenho lido um monte de textos sobre o filme, e 90 por cento deles dizem que se trata de uma atualização de Vertigo, e eu também pensei nisso imediatamente, mas hoje o filme já me bate como um filme-irmão de A Pele Que Habito, de Almodóvar, só que devidamente adequado a esse rigoroso e duro corte alemão, no qual tudo é seco, despido, mínimo.

Nos dois filmes temos pessoas vivendo com o outro rosto que não o seu de nascença, com sérios problemas de identidade. Em Phoenix, em especial, me chama a atenção o processo de negação da identidade, em direções opostas.

Nelly quer ser a que era antes da guerra, quer acreditar no amor do seu marido ariano, quer arranjar desculpas para a sua delação, enquanto o marido se recusa a ver a nova mulher na sua frente como a antiga - tem de ser outra pessoa - mas (inconscientemente?) a atira rumo à identidade anterior. Para quem é aquela farsa?

Os personagens demoram horrores para se libertar das suas negações, como se a ficção encenada por eles mesmos fosse a única saída para continuar a viver até que as feridas se fechem. (Yann Martel escreveu um livro brilhante sobre isso, A Vida de Pi). É ainda mais impressionante como, num detalhe especialmente cruel, à personagem que insiste encarar a verdade sem desviar o olhar, só resta o suicídio.

Em Tudo Sobre Minha Mãe, Agrado dizia que as pessoas são mais autênticas quanto mais se parecem com aquilo que sempre quiseram ser. E quando isso é impossível? E quando esse caminho rumo à identidade é roubado, violentado, abreviado? É daí que vem a força de A Pele que Habito e de Phoenix em suas cenas finais: aprender a ser outra pessoa diferente do que se é - no seu cerne - e tomar outro caminho pode ser o maior dos traumas.