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sexta-feira, janeiro 08, 2010

Os injustiçados + Avatar

Lista é sempre aquela coisa. A gente faz somente para se arrepender logo depois. Não vou alterar o Saymon Awards, mas, além do pesar pelo monte de coisa que eu não vi, não posso deixar de registrar o arrependimento por nem ter considerado na hora de fazer a lista duas coisas de que gostei muito ano passado.

A primeira é o deslumbrante Deixa Ela Entrar, um filme que atualiza toda a mitologia vampiresca para um corte impecavelmente nórdico, tanto no seu ritmo muito mais lento e calculado, quanto na delicadeza com que esse cinema costuma tratar os sentimentos, mesmo os mais sutis. Quase 20 anos depois, não tem como negar em Deixa Ela Entrar o DNA da obra-prima Minha Vida de Cachorro nesse relato dos ritos de passagem da infância à adolescência.

>>> O outro filme é menos popular, mas é igualmente convicto e apaixonado por seu ponto de vista de cinema, um ponto de vista que privilegia a forma, o espetáculo, a grande narrativa hollywoodiana em sua versão mais opulenta. Em Austrália, depois de três filmes sensacionais margeando as popices contemporâneas filtradas por todas as mídias e artes ao mesmo tempo, Baz Luhrmann firmou o foco no cinema e pôs pra fora deliberadamente seu repertório histórico numa tirada de chapéu ao glorious technicolor, breath-taking cinemascope & stereophonic sound.



É um filme que tem martelado minha cabeça - só sumiu na hora da lista - e o que tinha a dizer sobre ele foi mais ou menos cuspido numa discussão no orkut, onde postei os três parágrafos a seguir. Como não vou conseguir me articular melhor, reposto aqui:

"Sempre associei o cinema dele a uma coisa quase circense de conseguir se equilibrar mesmo em altíssima velocidade, não só em sua formatação cinematográfica, câmera, edição, clip, mas também à capacidade inflar o banal e o superficial rumo a uma estarração dessa superficialidade.

"Tem uma frase do Inácio na crítica de Maria Antonieta que passou a me perseguir quando eu penso em Baz Luhrmann. Inácio adora o filme, mas reclama que Kirsten Dunst não é superficial o suficiente para a personagem, e é assim que eu penso em Luhrmann, tendo atingido esse grau de superficialidade suficiente para que seus filmes sejam balões de gás ultraimpactantes.

"E o curioso é que este impacto acaba por comentar a superficialidade de que deveria fazer parte, mas não faz, justamente pela inteligência de sua metalinguagem. Nada solene, aliás, mas agressiva, uma autofagia doida do cinema sobre o cinema que tem um par menos nervoso e mais elegante em Brian de Palma".

Enfim, ele continua filmando com uma fome incrível de imagem, tirando grandes cenas a partir de um roteiro que é um praticamente um nada, mas um nada que pede pra ser filmado em grande escala. Pode-se usar essa ideia justamente para criticá-lo – glorificação do vazio, entronização do pastel de vento –, mas acho que o sentido da avaliação é contrário. A manipulação da forma torna o cinema tema de si mesmo e revela mais uma vez um diretor ciente de seu poder ao conduzir a relação das pessoas com a mentira, a fantasia e a arte.

Mesmo tendo renegado o filme, chama a atenção a preciosa atuação de Nicole Kidman, atriz que não tem medo de fazer a southern belle texana com sotaque britânico, à moda de Vivien Leigh. Faz tempo que ela, quase sempre formidável, não aparecia na tela com tanto vigor, consciente do poder de seu megaestrelato e da função deste em um filme tão empenhadamente fake.

Depois de suas exaustivas três horas – as melhores três horas que Hollywood nos proporciona desde o maravilhoso King Kong de Peter Jackson – resta a pergunta: e agora, Baz Luhrmann? Sua carreira ficou num enigma, e seus veios parecem esgotados pela própria energia aplicada em cada um de seus filmes: poderá ele voltar ao musical depois de Moulin Rouge? Seu pós-modernismo não já era passé desde Romeu + Julieta? Como poderá filmar em Hollywood mode após Austrália? Esperamos que a resolução deste impasse não seja a repetição, mas outra tomada de risco.

>>> Também em três horas de delírio hollywoodiano, aproveito pra mencionar o desbunde do Avatar de James Cameron. O filme é super, mais uma prova do imenso talento de Cameron a conduzir ação/aventura, talento inabalado mesmo com férias de dez anos desde Titanic - por sinal, um excelente thriller.



Se o lado montanha russa é de ficar embasbacado - a maioria absoluta dos blockbusters aventurescos me causa um tédio infernal -, essa história de futuro do cinema é forçação. Não adianta ter a tecnologia de ponta mais desgraçada do mundo que isso não significa nada diante de uma narrativa que é quase Errol Flynn, um capa e espada dos anos 30 mais bem equipado, e pronto.

Nada contra isso, aliás, super a favor, mas, futuro, futuro mesmo, tá muito mais nas Ervas Daninhas de Resnais. Tá ali uma sessão à prova de naftalina.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Cinco vezes Winslet

Quando se afirma que Kate Winslet é a melhor atriz de língua inglesa de sua geração, a frase não é apenas mais um superlativo banal da crítica, usado em excesso para quem merece e quem não merece. A prova é a carreira da moça, rica em grandes interpretações, e marcada pela rebeldia e paixão dos personagens que ela escolheu viver. Sua presença na tela é a mais agressivamente magnética do cinema americano-britânico desde Jane Fonda. Cinco destaques pessoais:



Razão e Sensibilidade, de Ang Lee - Nesse maravilhoso filme chá-com-biscoito, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, Winslet é Marianne Dashwood, o contraponto apaixonado e sensível de sua irmã Elinor, Emma Thompson, um monumento de sensatez e alter-ego da escritora Jane Austen, que escreveu o romance original. Quem leu esse clássico sabe que Winslet acerta todas as notas de sua inconsequente heróina romântica, ainda mais quando o texto que tem nas mãos foi tão brilhantemente adaptado pela própria Emma Thompson.



Hamlet, de Kenneth Branagh - Num filme de quatro horas, e com um elenco que reúne Branagah, Derek Jacobi, Julie Christie, Jack Lemmon, Charlton Heston, John Gieguld, John Mills, Timothy Spall, Rosemary Harris em grandes e pequenos papéis, é de Winslet a cena mais forte e intensa. Sua Ofélia destrói qualquer possível lembrança de Jean Simmons no mesmo papel na versão de Laurence Olivier, especialmente no momento em que, já louca e internada, sai vagando pelo quarto, cantando. Uma atriz cinematográfica que sabe ser teatral quando é preciso, sem temer o excesso.



Titanic, de James Cameron - Personagem sem grandes desafios, a não ser segurar o público pela mão numa roleta russa de quatro horas. A eficiência desse mecanismo ("James Cameron deveria ter ganho o Oscar de Engenharia Naval", disse Arnaldo Jabor, sem perceber o acerto de sua pretensa ofensa) depende sobretudo das duas primeiras horas, em que o carisma de Winslet prepara o público para sofrer por ela quando o navio começa a afundar e o filme a mostrar sua extrema eficiência como thriller - pois o diretor é Cameron e esse filme nada mais que é um Exterminador do Futuro de adrenalina, para seu próprio bem, aliás. Winslet não seguiu esse caminho, mas seria uma excelente leading lady na melhor tradição do cinema clássico, uma perfeita Olivia deHavilland para o Errol Flynn de Leonardo DiCaprio.



Fogo Sagrado, de Jane Campion - Naquele que é seu melhor trabalho até hoje, Winslet interpreta uma garota puerilmente encantada com a Índia. A família chama um especialista para curá-la da nova religião, pela qual a garota está obcecada. Os dois ficam sozinhos numa casa isolada para o processo de cura, e, como não podia deixar de ser num filme de Jane Campion, a mulher vira o jogo e mostra a sua força, subjugando seu oponente sexualmente. Por mais que, ao abrir mão da poesia e da sutileza que usou em O Piano, sua política sexual revele-se antiquada, Campion extrai de Winslet uma atuação completamente dedicada e entregue, seja nas batalhas verbais ou nas cenas de sexo com o já sexagenário Harvey Keitel. Numa sequencia para não ser esquecida, despe-se de qualquer vaidade e anda em nu frontal em direção à câmera, enquanto a urina desce entre suas pernas. A transgressão não é motivada pela ostentação da rebeldia, mas pela absoluta necessidade da personagem. Grande interpretação, mesmo que num filme irregular.



Pecados Íntimos, de Todd Field - Em outro filme que sofre com um flagrante conservadorismo ao final de sua projeção, Winslet eleva o resultado final com sua dona-de-casa insatisfeita e infeliz. O personagem seria um clichê ambulante se a atriz não abordasse essa frustração sobretudo em sua dimensão sexual, sugerindo tesão e vontade de sexo a cada cena, e, melhor ainda, sem transformar isso em caricatura ou comicidade.