quarta-feira, junho 24, 2009

Streep 60

Fernanda Montenegro e Katharine Hepburn, duas das melhores atrizes de todos os tempos, já manifestaram sua opinião não muito lisonjeira sobre Meryl Streep, que seria mecânica, fria, gelada, sem a emoção que caracteriza os grandes intérpretes. Concordo discordando: Streep é mesmo maquinal, mas é genial desse jeito, e sua força camaleônica vem justamente da sua precisão técnica. Ver alguns de seus melhores trabalhos é algo parecido com experimentar o espanto causado por um prodígio arquitetônico. É um fascínio pelo rigor, mas é ainda assim emocionante, estético.

Essa característica está cada vez mais evidente no trabalho da atriz, acho. Em O Diabo Veste Prada ela mói um texto ruim sílaba a sílaba, pegando aquele seu bordão "That's All" e o desdobrando em mil entonações e variações, cada uma com efeito diferente. Seu discurso sobre o "cerúleo" é um primor desse tipo de coisa, com aquele fff pronunciado em stuff, surpresa, desprezo e arrogância. No início do ano, outro trabalho fenomenal no mesmo estilo, em Dúvida, que deveria ter levado o Oscar sobre o trabalho de Kate Winslet em O Leitor, bom, mas inferior a outros grandes momentos da inglesa. No meio dessas atuações, para desmentir Hepburn e Montenegro, Streep relaxou o quanto pôde e pôs muito coração no derradeiro filme de Robert Altman, A Última Noite.

Estou falando de Streep porque ela completou 60 anos dia 22, e, apesar de alguns tweets sobre a data, senti necessidade de um top ten. O melhor de Meryl Streep em dez filmes:


10 - Entre Dois Amores


9 - Ironweed


8 - Dúvida


7 - Kramer vs Kramer


6 - O Franco Atirador


5 - O Diabo Veste Prada


4 - Um Grito no Escuro


3 - A Mulher do Tenente Francês


2 - A Escolha de Sofia


1 - As Pontes de Madison

quarta-feira, junho 17, 2009

Sexo e sangue

Embora seja frequentemente subestimado, acho que Ang Lee tá numa fase tão boa que ao ver seu último filme lançado comercialmente, Desejo e Perigo, senti aquele tipo de expectativa do erro de um grande artista, algo que tenho encarado nos filmes de Almodóvar desde que Fale Com Ela teve a dura missão de seguir Tudo Sobre Minha Mãe.

Depois de seu inebriante musical hollywoodiano O Tigre e o Dragão, do arrojada subversão do blockbuster em Hulk e da delicadeza infinita de O Segredo de Brokeback Mountain, Lee fez mais um filmaço. Desejo e Perigo é uma cacetada capaz de suspender a respiração em longos e lentos 156 minutos, dotados do mais fino classicismo presente no cinema atual.

É um filme que honra uma velha escola de épicos calculadamente contidos, cheios de uma suntuosidade de silêncios, luxuosos cenários e corpos enquadrados em planos fixos que nos melhores momentos lembram O Poderoso Chefão Parte II, de Coppola, ou O Inocente, de Visconti. Detratores podem chamar esse show não-ostentatório de academicismo. O conceito, no entanto, passa pela obediência estúpida a padrões consagrados, mas não pelo uso desses cânones com a expressividade típica da assinatura Ang Lee.



Não por acaso, esse cabo de guerra entre épico e íntimo que o filme tão bem administra é quase uma metáfora do impasse em que vivem os personagens filmados pelo diretor em todos os seus filmes. Impasse, aliás, roubado de Jane Austen, sense e sensibility, Razão e Sentimento, como no romance que Lee filmou, maravilhosamente. O filme se equilibra na corda bamba entre filmar o interno (as emoções) e o externo (a política, a sociedade e a guerra), que é a mesmo conflito da espiã da resistência chinesa e do militar colaboracionista.

Ironicamente, em seu filme mais rico e luxuoso, Lee se desvia de abordar esse conflito com os pés do lado das convenções, como fez em Razão e Sensibilidade, O Tigre e o Dragão ou Tempestade de Gelo. Por mais que pareça o contrário na primeira hora e meia, desta vez, assim como em Hulk, Lee está mais interessado no poder do corpo, da paixão e do sexo, invertendo o sentido de influência na relação público-privado.

Tony Leung e Tang Wei podem não ficar verdes, mas se entregam às mais belas e necessárias cenas de sexo em muito tempo, desgastantes batalhas sobre a cama, mais tensas que qualquer cena de ação vistas na última década. Maravilha.

>>> Deixe Ela Entrar, o tal filme sueco de vampiros que se tornou o maior cult do último ano, é mais uma reapropriação recente de histórias de trancoso off-Hollywood, e das mais felizes. Se O Orfanato partia rumo à gótica "casa do terror" e REC em direção aos zumbis, Deixa Ela Entrar revive mais uma vez o vampirismo com lentidão e lerdeza de dar inveja em M. Night Shyamalan.



O filme é um arraso de direção, cena após cena, um intrigante jogo de esconder e mostrar a violência. O diretor Tomas Alfredson investe pesado em planos abertos para acentuar o realismo de sua história fantástica e torná-la crível, mas, ao mesmo tempo, consegue não ser gráfico dentro do quadro, quase como se marcasse suas cenas de modo teatral. As sequências são todas inteligentes, principalmente a última explosão de sangue numa piscina, e o resultado final é um primor de elegância. Mesmo para quem não tem paciência para o fantastique.

quinta-feira, junho 11, 2009

John Wayne

John Wayne Pictures, Images and Photos

Esse post aqui vai pra Gabriela, que me ensinou a gostar de John Wayne ao me abrir os olhos para Rastros de Ódio. Pois é, eu vi de primeira e não entendi, e essa minha amiga que já foi definida como barbie indie (por Zezão Castro, que foi colega de redação dela no A Tarde, e mais tarde, meu colega também), de voz baixa e cabelo vermelho, ex-repórter do Dez e fanática por misses, leitora de Colette, Dostoievski, Anita Loos e F. Scott Fitzgerald (hoje ela mudou de gostos), me mostrou como aquele faroeste violento com um protagonista racista era um dos melhores filmes já feitos. Revi várias vezes o filme depois, e a cada vez mais o admiro.

(Depois desse parágrafo Gabriela podia me responder a mesma coisa que aquela garota que o personagem de Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa atormenta numa festa, enumerando seus círculos pessoais: "No, that was wonderful. I love being reduced to a cultural stereotype")

Pois bem, hoje é o aniversário de 30 anos de morte de John Wayne, esse ator maravilhoso, com sua cara talhada em pedra, cheia de rasgos trágicos, que foi ganhando impacto na tela não pela diferença de papéis, mas pela acumulação dessa sua presença única e inimitável, mesmo que pensemos os filmes de fora de ordem.

Como não associar a campanha militar de Marcha de Heróis à destruição do casamento de Rio Grande? O amor não-realizado de Ethan Edwards, de Rastros de Ódio, não é o mesmo de Tom Doniphon, de O Homem Que Matou o Facínora? John Wayne não era versátil, mas conseguiu criar múltiplas dimensões de um mesmo tipo, e era por isso que quanto mais filmes como ele a gente vê, mas ele parece real.

Gabriela, versada em John Wayne, me disse algumas vezes que ele parecia de fato uma pessoa conhecida, e é por isso que sentimos tanto carinho por ele na tela. Eu, ao menos, sinto, e a dor transmitida por ele quando sua voz metálica grita Martha depois daquela chacina promovida pelos índios é das maiores emoções do cinema.

sexta-feira, junho 05, 2009

Apresentação de personagens

Ida:

A única jaça na beleza de Ida era o comprimento excessivo dos braços, graças ao qual, talvez, ela derrotara o ex-marido tantas vezes na mesa de bilhar, jogo em que ela manifestava uma superioridade que era, em sua opinião, uma das causas do ressentimento manifestado por Beale através de atos de violência física. O bilhar era a maior realização de Ida, e a primeira distinção mencionada sempre que seu nome vinha à baila. Fora algumas linhas muito alongadas, tudo que poderia ser grande, e que embelezava muitas mulheres por sê-lo, nela era, com uma única exceção, mencionado e admirado por sua pequenez. Esta exceção eram os olhos, que, embora medíocres quanto ao tamanho, conseguiam extravasar as modestas medidas naturais; sua boca, por outro lado, era quase imperceptível, e com freqüência faziam-se apostas referentes à medida de sua cintura. Era uma pessoa que, quando saía - e saía sempre - causava, onde quer que fosse, a impressão de ser vista com freqüência, ou mesmo de abusar do direito de ser vista, de modo que, nos lugares habituais, seria um tanto vulgar admirá-la abertamente. Apenas os estranhos o faziam; porém estes, para o deleite dos habituados, faziam-no com ênfase: era uma manifestação inevitável da condição de forasteiro.

Beale:


Beale Farange dispunha de adornos naturais, uma espécie de fantasia composta de uma barba loura e abundante, brunida como um peitoral dourado, e dentes sempre reluzentes, que os longos bigodes eram penteados de modo a não ocultar e que lhe davam, em todas as situações possíveis, um ar de alegria de viver. Na juventude fora encaminhado para a diplomacia, e estivera temporariamente vinculado, sem salário, a uma missão diplomática, circunstância essa que lhe permitia dizer, com freqüência: "No tempo em que eu estava no Oriente...". Porém a história contemporânea, ao que parecia, não precisara de seus préstimos, passara por ele célere e deixara-o perpetuamente em Piccadilly. Todos sabiam o quanto ele tinha - apenas duas mil e quinhentas libras. À pobre Ida, que já dera cabo de tudo que tinha, agora só restavam a carruagem e o tio paralítico. Este velho desgraçado, como costumava ser qualificado, era supostamente dono de uma fortuna considerável. O futuro da menina estava garantido, graças a uma herança deixada por uma madrinha astuta, uma falecida tia de Beale: os pais só tinham acesso aos rendimentos.


Estou aqui roubando a ideia de Gabi, e seus trechos da semana / quinzena / mês. Os dois trechos acima estão no mesmo parágrafo, logo nas primeiras páginas de Pelos Olhos de Maisie, de Henry James. Tradução de Paulo Henriques Britto.

domingo, maio 31, 2009

Livros do exílio #4

Os dois últimos livros que li foram escritos por mulheres. Correntezas, da inglesa Penelope Fitzgerald, venceu o Man Booker Prize em 1979, época em que a autora ainda não havia partido para seus mais famosos romances históricos. A marca maior de Correntezas é uma delicadeza bem plácida, retrato da comunidade de moradores de veleiros à beira do rio Tâmisa, onde a própria Fitzgerald viveu parte da adolescência. É um livro certamente generoso, franco e amoroso com seu grupo de personagens, mas falta algum toque de gênio que o destaque de outras histórias mínimas bem contadas.

Mais desafiador é Chéri, de Colette, livro frequentemente irritante na frivolidade de seu chá com biscoito, mas capaz de mostrar um alcance bem maior que o insinuado inicialmente pela sua carcaça. Começa com uma sucessão de cafés da manhã e visitas para o chá entre ex-prostitutas de meia idade, agora convertida em respeitáveis cortesãs, cada uma delas equipada com um amante pelo menos 20 anos mais novo.



Colette

O forte de Colette não é mesmo o estilo, e seu frufru de salão é de uma banalidade tão grande que chega a ser difícil prender a atenção - ingleses parecem ter muito mais texto para segurar esse tipo de coisa, acho. A obra ganha força, no entanto, por sua abordagem frontal de coisas como sexo, tesão e envelhecimento, e o livro só melhora quando passa a ser uma peça de câmara (ou alcova, melhor dizendo): dois amantes de seis anos percebem que o que viveram era muito mais que cama & diversão, mas algumas coisas infelizmente não têm volta.

Deve estrear até o fim do ano no Brasil a adaptação de Stephen Frears para o cinema. Se o original é alguma indicação, Michelle Pfeiffer vai ter o melhor papel da carreira desde a Mulher Gato.

quinta-feira, maio 21, 2009

Nouvelle Vague 50 anos: TOP 20

Alguns cadernos de cultura já publicaram nos últimos meses edições especiais dedicadas ao cinquentenário da nouvelle vague. No entanto, por mais que alguns filmes anteriores a maio de 59 sejam associados ao "movimento", a explosão da nova onda se dá mesmo com a exibição de Hiroshima, Meu Amor, Acossado e Os Incompreendidos no Festival de Cannes daquele ano.

As aspas em movimento no parágrafo anterior são mais que justificadas quando pensamos os filmes no todo. Não há muita unidade entre eles, ou alguma característica temática específica. No entanto, essa sede de liberdade e leveza que os une é incontornável.

Por esse aspecto fluido de identificação, elaborei minha lista de preferidos abaixo de maneira completamente pessoal, sem me preocupar muito com os critérios de inclusão. Por exemplo: Quem Matou Leda?, de Chabrol, me soa muito mais próximo dos filmes recentes do diretor do que dos que ele fazia na época, como As Simplórias, que veio logo depois e é 100% NV. Louis Malle não era do "grupo", mas não tem quem me diga que Ascensor Para o Cadafalso não é NV. E se eu não sinto nada especial por Paris Nos Pertence, de Jacques Rivette, ele obviamente não aparece aqui. Enfim, só botei um limite no tempo: 1958-1964.

20 - As Simplórias, de Claude Chabrol
19 - Uma Mulher é Uma Mulher, de Jean-Luc Godard



Anouk Aimée, em Lola

18 - Lola, de Jacques Demy
17 - Nas Garras do Vício, de Claude Chabrol
16 - A Moça da Padaria, de Eric Rohmer
15 - Uma Mulher Casada, de Jean-Luc Godard



Françoise Brion, em A Imortal

14 - A Imortal, de Alain Robbe-Grillet
13 - Viver a Vida, de Jean-Luc Godard
12 - Acossado, de Jean-Luc Godard
11 - Trinta Anos Esta Noite, de Louis Malle



Brigitte Bardot, em O Desprezo

10 - O Desprezo, de Jean-Luc Godard
9 - Um Só Pecado, de François Truffaut
8 - Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda



Jeanne Moreau, em Ascensor Para o Cadafalso

7 - Ascensor Para o Cadafalso, de Louis Malle
6 - Os Incompreendidos, de François Truffaut
5 - Jules e Jim, de François Truffaut
4 - O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais
3 - Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy



Davos Hanich, um corpo cai em La Jetée

2 - La Jetée, de Chris Marker

e o número 1:



Hiroshima, Mon Amour, de Alain Resnais

domingo, maio 17, 2009

Filmes do Exílio #7

O melhor filme que vi esse ano até agora é de 1965, francês, dirigido por Agnès Varda. As Duas Faces da Felicidade redefiniu para mim o que é intimidade e ternura no cinema. Há uma longa cena no meio da projeção que leva ao limite a capacidade de proximidade e sintonia entre duas pessoas. Não é o sexo, mas o pós-sexo: a alegria difícil de controlar por estar junto, a vontade de prolongar o momento e perceber, ao mesmo tempo, sua fragilidade.

É como aquela sensação filmada por Almodóvar em Carne Trêmula, de Francesa Neri cheirando o corpo antes de entrar no chuveiro, ou o carinho nos pés de Encontros e Desencontros - só que amplificada, estendida, quase que criando um novo ápice de carinho. Dura uns dez minutos (mais? menos? é fácil perder a noção), e Varda nem tem medo de colocar a palavra ali no meio. Um diálogo que não tem nada de "foi bom pra você?", mas de "foi e é muito bom pra mim estar com você". É lindo, sensível, sensacional.



Se essa cena em si merece destaque, não é por desnível em relação ao resto do filme: em 79 minutos, Varda faz chover uma nuvem embriagante de lirismo, à moda de seu marido Jacques Demy, só que menos pessimista e sem efeito alegórico. Um homem ama a mulher, filhos, cidade, trabalho. Aí encontra outra outra mulher, que passa a amar também, alcançando uma plenitude não-prevista em qualquer convenção, ao mesmo tempo que continua amando tudo o que já tinha antes: "a felicidade funciona por adição".

Esse equilíbrio acaba não durando, afinal há sempre o fantasma do acaso, mas sempre pode-se recuperar de volta a alegria perdida. Ser feliz afinal de contas é saber lidar com os desastres que aparecem no caminho, sem medo da tristeza, da perda, e do luto. Faz parte.



Varda filma essa ode à vida em cada detalhe, usando seu talento fotográfico para eternizar e valorizar cada momento desses de felicidade em planos lindos, arrebatadores, mas não preciosistas. O filme vai mudando o seu esquema de cores, fica todo vermelho, todo azul, todo amarelo - cada tom para uma emoção.

Tem todo um rigor na tela, algo que impede que sua direção de arte e fotografia tomem o controle, mas que tira da técnica o essencial para estabelecer as sensações que ela, Varda, quer deixar no ar. O caminho mais fácil seria comparar esse filme a alguma obra-prima do excesso, mas eu acho que é justamente o contrário. Entre Wong Kar-Wai e Robert Bresson, Varda está mais para Bresson. Só que em colorido explosivo.

***

O segundo melhor filme que vi esse ano é japonês. Minha introdução ao cinema de Mikio Naruse aconteceu com Quando Uma Mulher Sobe as Escadas, minidrama feminista de 1960, outro tour de force de delicadeza nipônica sobre a transição brusca do país do feudalismo para o século 20, e a mulher no meio disso tudo.



Para se situar dentro de referências orientais, o filme de Maruse é tematicamente irmão das obras "contemporâneas" e agressivas de Kenji Mizoguchi, especialmente seu último longa, Rua da Vergonha. Temos o mesmo universo noturno e as mulheres entertainers, mas se Mizoguchi ia direto ao assunto falando da vida de prostitutas, Naruse prefere centrar seu filme na hostess de um bar, tentando equilibrar sua dignidade entre os assédios dos clientes e a necessidade de aparentar e manter um padrão de vida luxuoso.

Em tom, no entanto, Naruse é marcadamente mais sóbrio, bem distanciado do melodrama, quase jazzy. O Ozu urbano de Early Spring ou Crepúsculo em Tóquio seria referência pela câmera fixa, mas ainda assim uma referência imprecisa, porque Naruse tem uma assinatura só dele. É crítico, mas controlado, sem tragédia, mas cheio de uma agonia discreta.

quinta-feira, maio 14, 2009

TOP 10 Cannes

Mais um Festival de Cannes começou nesta quarta-feira, estabelecendo o que vamos querer ver nos próximos 12 meses, ou mais, a depender da velocidade das distribuidoras. Esse ano a seleção é forte: traz de volta ícones como Tarantino e Lars von Trier, ressuscita Jane Campion e dá mais uma chance a eternos perdedores da premiação, como Michael Haneke e Almodóvar. E ainda tem Coppola, Tsai Ming-Liang, Hirokazu Kore-eda e todo um manu de primeira linha. Resta saber se os filmes vão sobreviver às expectativas. Mas alguma obra-prima no meio vai ter, com certeza.

Para relembrar o que de melhor o Festival já premiou, minhas dez palmas de Ouro preferidas (sempre com a ressalva de várias não vistas, claro):


10 Barton Fink, de Ethan & Joel Coen (1991)


9 Blow-Up, de Michelangelo Antonioni (1967)


8 Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami (1997)


7 Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (1979)


6 O Leopardo, de Luchino Visconti (1963)


5 A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)


4 O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot (1953)


3 Otelo, de Orson Welles (1952)


2 Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy (1964)


1 A Doce Vida, de Federico Fellini (1960)

domingo, maio 10, 2009

Voo livre

Cleópatra é um dos filmes mais incríveis que vi nos últimos tempos. Incrível porque inacreditável, situado numa dimensão paralela, quase alien. O tom dessa revisão da história egípcia no Brasil passa longe do desfile de escola de samba que Hollywood faria nos anos 50, sob responsabilidade de Cecil B. DeMille.

Bressane é etéreo, reflexivo, calmo até mesmo na linda estilização de cenários e figurinos e o uso brilhante de exteriores, quase sempre um mar que não vai dar em lugar nenhum fazendo as vezes do Rio Nilo, algo próximo a Boom!, de Joseph Losey. A direção de arte é tão brilhante que o filme lembra os esforços de Orson Welles em filmar época sem dinheiro algum, apostando mais em ideias visuais do que em reconstituição.



Essas ideias, aliás, garantem ao filme pelo menos uns dez momentos de antologia, desde o já clássico close-up na vagina pintada de preto de Alessandra Negrini (que termina no mesmo loop que Hitchcock fez no olho de Janet Leigh em Psicose - será uma piada?) até o assassinato de Júlio César numa escada, agressivamente montado e musicado. Fotografia de Walter Carvalho é um assombro, provavelmente seu melhor trabalho, junto com Lavoura Arcaica.

Negrini, fora de controle, e Miguel Falabella, teatral e absurdamente preciso, estão em sintonia perfeita com esse filme atordoante, difícil mas inegavelmente fascinante. É realmente um alívio ver que ainda há espaço para esse tipo de voo livre no cinema brasileiro. Sensacional.

quarta-feira, maio 06, 2009

Redimindo Christiane Torloni

Tudo bem que os jogos não passam ao vivo, o Jornal Nacional é de madrugada (e gravado), e os programas passam sempre com atraso, seja de um dia, como no caso das novelas, ou de uma semana ou mais (Video Show, Jô, Huck). Ainda assim, a Globo Internacional tem uma programação melhor que a da Globo regular, que vemos no Brasil.

O principal motivo para isso é o tamanho reduzido dos intervalos (menos anunciantes), o que causa uma necessidade de um número maior de programas, que vêm importados das tvs a cabo parceiras, como Multishow e GNT. Não que isso seja lá grande coisa, mas é melhor que a velha Sessão da Tarde. Sem contar que há a oportunidade de rever atrações que, no Brasil, não serão exibidas mais nunca.

Logo que cheguei aqui, o cartaz do Vale a Pena Ver de Novo era O Cravo e a Rosa, definitivamente a melhor novela da Globo desde Renascer, e último trabalho completo de Walter Avancini. Como as reprises de folhetim também passam no sábado, o Vale a Pena tem programação diferente do Brasil. Agora, ainda estamos vendo Mulheres Apaixonadas, e com sorte, podemos ficar livres de Senhora do Destino.



Sobre Mulheres Apaixonadas em especial, a reprise está sendo uma grata surpresa. Quando vi no horário das oito, a novela não me parecia tão boa, especialmente por causa da chatice politicamente correta das "campanhas" de Manoel Carlos: respeito aos idosos, alcoolismo, mulheres que amam demais... E principalmente o primeiro passo sobrenatural da garota que vê o anjo da morte, situação patética que culminaria no fantasma que perturba Lilia Cabral em Páginas da Vida.

Pois bem, isso tudo é chato, mas concentrar-se nisso nubla o fato de que o núcleo central da novela é realmente muito bom. Christiane Torloni foi muito criticada na época por sua Helena fraca, indecisa, claudicante, em oposição às mulheres mais fortes e carismáticas interpretadas por Regina Duarte, e principalmente, por Vera Fischer, inesperadamente firme em Laços de Família.

A fraqueza projetada por Torloni, vejo agora era justamente a melhor coisa da novela. Temos uma Helena mais humana, vulnerável, falha, de composição muito mais próxima a um personagem de cinema do que das reduções típicas da tv brasileira. Helena empurra um casamento com a barriga, decide se separar sem muita convicção - excelente um capítulo inteiro dedicado a recaída dela com o personagem de Tony Ramos, Téo -, depois firma os pés e sabota deslealmente o relacionamento de seu antigo amor do passado, claro, o indefectível José Mayer. Torloni teve na mão a Helena mais difícil de defender, e saiu inteira, muito melhor do que a caricatura de perua que encara atualmente, na terrível Caminho das Índias.

De resto, Mulheres Apaixonadas tem a força agradável daquele vagar manoelino, uma escrita sem história quase sempre bem azeitada. Pouca coisa realmente acontece, além das polaróides cotidianas do classe média alta carioca. Que bom, enfim, que nos textos de Manoel Carlos não acontece "nada": ele transformou em constante e meio de expressão o pesadelo de todo telenovelista, a "barriga". Criou, numa tv cansada e repetitiva, algo mais ou menos original.

***

Em registro totalmente oposto, o da intriga rocambolesca, a TV Pública de Angola exibe a também excelente Força de um Desejo, de Gilberto Braga, com o último lampejo de magnetismo verdadeiro de Malu Mader, acompanhada de elenco afiadíssimo: Fábio Assunção, Cláudia Abreu, Marcelo Serrado, Reginaldo Faria, Selton Mello, uma surpreendente Lavíni Vlasak, e claro, a veneranda Nathália Thimberg.

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Atualmente a Globo Internacional reprisa uma das melhores minisséries da Globo nos anos 90, Engraçadinha. Ontem passaram o capítulo da transa de Claudia Raia e Alexandre Borges na chuva. Algumas coisas de que me lembro muito dessa minissérie: a) direção inspirada, com câmera solta, na mão, por Denise Saraceni; b) uso perfeito da narração em off, especialmente a do personagem de Paulo Betti e seus pensamentos escrotos; c) Maria Luísa Mendonça genial no personagem homossexual mais forte já visto na tv brasileira, sem nenhum tique cômico.

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Não tenho paciência mas abri um Twitter...

segunda-feira, maio 04, 2009

Domingos bloga

Não tenho paciência para Twitter. Se é preciso ler coisas escritas por "famosos", que ao menos tenha a substância de um blog. Por exemplo, Domingos (de) Oliveira, o gênio diretor dos meus filmes brasileiros preferidos, tanto o de todos os tempos (Todas as Mulheres do Mundo) quanto os recentes (Separações, Juventude). Ele tem um blog e eu não sabia.

Escreve às laudas, cinco ou seis de uma vez. Não tem foco, fala de tudo e de si mesmo, e ainda arruma espaço para falar de política cultural. Assim como nos filmes, o melhor de Domingos é a parte confessional, pessoal, reflexiva (no sentido duplo eternizado pela Magda de Sai de Baixo: "Vou pra frente do espelho refletir um pouco". Kenneth Branagh filmou a cena do Ser Ou Não Ser de seu Hamlet também na frente de um espelho, vale lembrar).

Enfim, há histórias incrivelmente sensacionais, e aquela capacidade de soltar umas verdades na cabeça da gente como se fosse aforismo barato. O cara escreve bem até em versão rascunho, como nesse blog, que é um prazer. Sincero, ele sabe disso, e cita uma crítica de Pedro Butcher: "Pode-se não gostar dos filmes de Domingos de Oliveira, mas não se pode não gostar de Domingos de Oliveira".

Minha frase preferida: A arte é a vida sem as partes chatas.

domingo, maio 03, 2009

Livros do exílio #3

Estou há praticamente um mês tentando me livrar desse aclamado À Sombra do Vulcão, de Malcolm Lowry, mas, por mais que eu tente, as páginas não acabam. Imagine ler um livro em que todos os parágrafos são como esse:

Numa pressa tremenda e no mais amical dos ânimos, partiram todos para Tomalín. Hugh, até certo ponto consciente de seus drinques também, ia ouvindo num sonho a voz do Cônsul divagar - Hitler, prosseguiu este, quando pisaram na Calle Nicaragua - que poderia ter estado a um andar abaixo da alameda da casa, se ele antes ao menos tivesse demonstrado um interesse por ela -, simplesmente desejava exterminar os judeus para deter a posse de arcanos como os que eram encontráveis ali bem por trás deles nas suas prateleiras de livros - quando de repente o telefone tocou.


E tem muitos fãs, ora. Anthony Burgess, do sensacional Laranja Mecânica e autor de A Literatura Inglesa, diz na contracapa que esse livro é "uma obra-prima faustiana". Eu só comprei porque me caiu na mão uma cópia da adaptação pro cinema, do venerando John Huston, e decidi ler o original antes, já que tem tanto prestígio... Bom, já cheguei a menos de 50 páginas do final, não dá pra desistir - até porque eu nunca desisto.

terça-feira, abril 28, 2009

Filmes das férias

Não levava muita fé em Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro do ano passado. O presidente do júri era o chatola de esquerda Sean Penn e o filme escolhido veio rotulado com a pecha de olhar-multicultural-contemporâneo, quase sempre uma desculpa patronal para o politicamente correto. De boas intenções o inferno está cheio, sabemos. Além disso, só conhecia do diretor Laurent Cantet seu Em Direção ao Sul, que definitivamente não me impressionou.



Bom, nada melhor que estar errado. Entre Les Murs é praticamente a realidade na cara da gente, cheia de complexidades, nuances, detalhes mínimos. Ser "real" e bom não é melhor que ser "artificial" e bom, mas é muito mais raro: tentar fazer do cinema espelho da vida por reprodução e semelhança é tarefa árdua, hercúlea, impossível.

Para ter sucesso na empreitada, Cantet se restringe a um único ambiente, a sala de aula, e aposta todas as fichas no diálogo entre seus não-atores, que interpretam a si mesmos. A realidade vem 100% através das palavras, e a ficção "baseada em fatos reais" vira documentário. Não, não vira, mas o artifício é muito bem logrado. O que me leva a pensar que cinema é sempre e somente artifício - transparente ou não. Enfim, o filme é nota 10. Melhor do ano?

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Há de se ter um pouco de paciência com Sempre Bela, a "sequência" (bote aspas aí) de A Bela da Tarde, de Luis Buñuel, assinada pelo centenário cineasta português Manoel de Oliveira. Não é difícil se irritar com as longas conversas de Michel Piccoli com o bartender sobre os eventos ocorridos há 40 anos no filme anterior, uma obra que, aliás, parece ser à prova de qualquer tempo.



Os diálogos especulam e criam certezas sobre o que Buñuel insinua ou mesmo não faz questão nenhuma de entender, e boa parte das palavras desse Sempre Bela são dedicadas a traçar o perfil psicológico de uma mulher que estava além desse tipo de coisa. Coisa tão inútil quando defender um paper sobre o filme num simpósio sobre perversões sexuais.

Deneuve não voltou, ainda bem, e é substituída por Bulle Ogier sem seu brilho etéreo e glacial. No final da curta projeção, o filme interrompe as elucubrações e acaba bruscamente. Parece que Oliveira não estava interessado em revelar nada sobre a obra original - mas por que, então, tanta conversa jogada fora sobre a personalidade e as motivações de Séverine? Eu não consigo admirar ver Oliveira filmar tinta secando, mas não posso negar que, de alguma maneira, esse aparenmte equívoco tem seu encanto.

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Quem lê esse blog regularmente sabe de duas coisas: a) detestei A Troca e b) sou um admirador do cinema de Clint Eastwood. Ao ver Gran Torino, sou lembrado de outra verdade. Clint jamais erra duas vezes seguidas e o filme novo tem tudo o que faltava ao anterior. Mais precisamente, aquele senso perfeito de tempo e narração que caracteriza a obra do diretor, uma escrita seca e límpida que eleva clichês a um patamar superior, muitas vezes trágico.



Gran Torino é, então, da mesma estirpe de Menina de Ouro e As Pontes de Madison, filmes cujo mérito é sobretudo do trabalho de direção de Eastwood, um (bom) Hemingway das câmeras e das moviolas, que pega esse aparente história de amizade e transformação e vira de cabeça para baixo, tirando dali a velha preocupação com as máculas deixadas pelo convívio com a violência caracaterísticas a seus personagens.

O poder arrasador de Gran Torino não está em sua história ou moral, mas apenas na sua manifestação cinematográfica, num terror quase técnico. Os abismos estão no indizível e intransmutável em palavras, em cenas e sequências que são encadeadas de modo a sugerir que o filme segue rumo a algo que não pode ser bom, sem que essa sensação venha do texto ou do diálogos. Quando está em seus grandes dias, Clint consegue conferir uma gravidade verdadeira, terrível e inigualável a tudo que filma, e isso é um elogio.

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Já o elogio que sobra para O Casamento de Rachel não é grave, mas "bonzinho". De novo as boas intenções: o filme tem coração aberto e vontade de ser humano, mas o material aqui simplesmente tem voltagem zero, inferior até mesmo a algumas novelas. Irmãs brigam, gritam, se abraçam, e o final tenta nos convencer de que essa coisa com câmera na mão chega de alguma maneira perto de John Cassavetes, mas só com muito boa vontade para embarcar na comparação. Anne Hathaway é muito boa, mas mantenho meu Oscar pessoal para a Meryl Streep de Dúvida.

sexta-feira, abril 24, 2009

Bar Sur

Estava achando Buenos Aires muito pouco romântica, mas no meio de um show de tango na Milonga Ideal, num lindo salão de inspiração francesa iluminado só com o básico, entra uma bailarina de traços orientais, de kimono, e se mostra tão intensa quanto as outras colegas argentinas. Caiu a ficha. A última coisa muito romântica vinda daquelas bandas foi dirigida por um chinês, Wong Kar-Wai, e se chama Felizes Juntos.

Na noite seguinte, fui ao Bar Sur, onde WKW rodou sua obra-prima, mas não levei a câmera. O lugar virou um ponto de shows de tango para turistas, meio armado, mas o cenário apertado de prédio antigo-decadente com aquele chão xadrez, somado à excelência da música e bailarinos mantêm o interesse para além das memórias do filmão de 90 e poucos. Fica na Estados Unidos, uma ruazinha de pedra em San Telmo:

Bar Sur

Mas em quatro dias de Buenos Aires, percebi que, se os filmes argentinos contemporâneos passam praticamente ao largo da tradição de passionalidade pela qual o país é famosa, eles o fazem porque estão em sintonia com a vida das pessoas hoje lá. Os porteños que conheci me pareceram bem mais próximos de personagens de Juan José Campanella do que dos protagonistas das letras de tango, uma gente boa meio inconsciente do conjunto maravilhoso de prédios do século 19 que predomina na cidade - ou talvez, uma gente tão integrada a esse cenário que não se destaca dele.

Estão todos vivendo na corda bamba, tentanto levar a vida em meio a sucessivas crises, e ainda com certo estilo. Antes da paixão, o cotidiano - mas talvez essa conclusão seja realmente óbvia. Enfim, voltei de lá gostando mais ainda de filmes como Abraço Partido e Leis de Família, de Daniel Burman, Clube da Lua e O Filho da Noiva, de Campanella, e Família Rodante, de Pablo Trapero. São filmes que sabem o que está acontecendo.

sexta-feira, abril 10, 2009

Enfim, Julia Roberts

Tirando os filmes da série Danny Ocean, Julia Roberts estava há algum bom tempo longe das telas em seu modo superstar. Como senti falta! Ninguém tinha tanto carisma quanto ela no final dos anos 90. O Casamento do Meu Melhor Amigo e Um Lugar Chamado Notting Hill têm cadeira cativa no meu panteão de filmes maravilhosamente descartáveis. Junte-se a essa lista o "drama" Erin Brockovich - cuja única razão de existir é a explosão de stardom de La Roberts - e temos a maior sequência de magnetismo hollywoodiano desde o final do sistemas de estúdios.

Pois bem, foi uma longa década sem Julia, mas agora ela está de volta com Duplicity (Dupla Sedução aqui em Angola, Duplicidade no Brasil), e caramba, ela continua com todos os poderes em máxima voltagem. Julia ainda sabe apertar a boca enorme na hora certa com cara de séria, seduzir com o olhar sem nunca chegar perto da vulgaridade e projetar aqui e ali uma melancolia cheia de charme. Isso sem falar naquela gargalhada contagiante em breathtaking cinemascope & stereophonic sound. É como o amigo Vitor Pamplona diz: "Julia Roberts não é bonita, mas se comporta como se fosse". Tá feita a mágica.



Pena que o filme não se entregue completamente à tarefa de ser um veículo para a atriz nem desista de vez de ser puro cinemão. O diretor Tony Gilroy é o roteirista da excelente série Jason Bourne. Seu primeiro filme na direção, Conduta de Risco, é um show de sobriedade e clima, e descontrói um astro do porte de George Clooney com muita segurança.

Em Duplicity, os pontos altos vêm justamente quando Gilroy relaxa e deixa Julia Roberts ser Julia Roberts ao lado de seu interesse romântico, o mesmo Clive Owen de Closer. Muito boas as cenas de romance em Dubai, Roma, Londres e até mesmo Cleveland... Quando o filme entra na trama de conspiração de megacorporações, há uma tensão mal resolvida entre o thriller e sátira, sem aquela desenvoltura embasbacante de Soderbergh na série Ocean. Gilroy não chega perto, e parece apenas dirigir com um pouco de prisão de ventre, sem arrebatar a plateia por suas qualidades de produtão ou pelas suas impressoes digitais de autoria. Isso talvez explique o fracasso de bilheteria nos Estados Unidos. Veredicto: o filme é ok para bom. Julia Roberts é dez.

sexta-feira, abril 03, 2009

Filmes do exílio #6

Sempre que é preciso um pouco de humanidade e conforto na vida, pode-se apelar para John Cassavetes. Não porque ele tenha feito filmes fáceis ou de autoajuda, mas porque construiu uma obra cheia de grandes pérolas sobre gente, em seus altos e baixos, na alegria e na tristeza. Nenhum diretor foi tão generoso quanto Cassavetes, e o resultado só pode ser um: acaba o filme e não nos sentimos mais sozinhos.



Moskowitz & Minnie

As obras dele são tão fortes que se alojam na mente como se fossem pessoas queridas, e não longas em celuloide - ideia brilhantemente defendida por Inácio Araújo numa dessas tripinhas que escreve na Folha ao falar sobre o lindo último filme do mestre, que retornava a cartaz na tv a cabo: "Por onde andava Amantes?". Inácio reclamava a presença do filme-amigo, claro.

Semana passada vi pela primeira vez Minnie & Moskowitz, uma coisa linda e arrasadora e real sobre como as pessoas devem mesmo é ficar junto de quem amam, mesmo que isso não seja fácil.

>>> O Cangaceiro, de Lima Barreto, é um bom filme, talvez apenas prejudicado pelo incensamento promovido por Moniz Vianna, que o considerava o maior longa brasileiro da história, em detrimento da obra radical de Glauber nos anos 60. O filme de Barreto é certinho, muito bem feito, e dribla qualquer lembrança daquele remake com Paulo Gorgulho e Luiza Tomé... O filme tem azeite, tempo, métrica, é um mérito técnico, nota dez de escola de samba. Isso não faz uma obra-prima.

>>> Nos fórums do IMDB um cara abriu um tópico na página de Nouvelle Vague, de Godard: "Alguém me explica esse filme?". Young American... É Godard, cara, não é pra entender, e sim para admirar o efeito. Parece papo de "arte conceitual", mas a graça de Godard é se perder nesse labirinto discursivo com cara de ficção, mas que, no fundo - já disseram alguns críticos - são documentários sobre o estado de alma do diretor. Godard é um dos poucos cineastas que conseguem transformar um brainstorm sobre tudo em algo interessante, mesmo que desconexo. Ele teria o melhor twitter de todos os tempos.



Delon, e o braço torcido de Godard

O engraçado de Nouvelle Vague é a presença de Alain Delon. Acho que foi Gabi que escreveu isso, mas ele era bonito demais para a nouvelle vague, o movimento. No filme de 1990, foi Godard que teve de dar o braço a torcer, já que Delon, mesmo 30 anos depois, não perdeu a presença e o poder de sedução que mascaravam o fato de que ele era excelente ator. O filme é uma chatice divertida.

sexta-feira, março 27, 2009

Filmes do exílio #5

Para quem acha que a sensibilidade de Clint Eastwood começou a aflorar apenas nos anos 90, nada melhor para mudar de opinião que assistir a seu longa mais obscuro, o belíssimo Interlúdio de Amor, de 73, terceira empreitada do astro na direção, após Perversa Paixão e O Estranho Sem Nome. Breezy, no original, é um surpreendente e delicado filme de amor, que já deixava todas as pistas da existência futura de um Menina de Ouro, ou de sua obra-prima, As Pontes de Madison.

A historinha não podia ser mais simples e batida: garanhão de meia idade encontra garota hippie de mente aberta, e os dois desenvolvem um relacionamento baseado em oposições: rico/pobre, jovem/velho, formal/informal. Como sempre nos filmes de Eastwood, a trama é só um detalhe: o brilhantismo vem do tratamento estoico, minimalista, completamente despido de excessos. São coisas que fazem com que o filme nem tome conhecimento de sua estrutura alicerçada em clichês. Fica apenas a força da verdade que no fundo há em todo lugar-comum.

Vendo esse filme me peguei algumas vezes pensando em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, uma obra superior. A lembrança vem menos da situação velho/moça do que da confiança dos dois filmes na interação entre as pessoas, na falta de pressa do ritmo dos diálogos, e, claro, dos silêncios. Kay Lenz não resistiria a uma comparação com Scarlett Johansson, mas o rosto de pedra do galã hollywoodiano William Holden fala horrores sobre vida, desalento e segunda chance, tanto quanto o trabalho aclamado de Bill Murray.




Holden, aliás, é o típico caso de ator subestimado pela sua beleza, mas era muito mais que um musculoso all-american boy. Billy Wilder sabia o quanto ele podia ser cínico e lhe deu três grandes papéis, em Crepúsculo dos Deuses, Sabrina e Inferno nª17. Entertanto, no filme de Eastwood sua atuação se aproxima do andarilho fracassado de Férias de Amor: mesmo sendo bem-sucedido na vida, os traços do personagem de Holden passam uma sensação de amargor e tempo perdido da maneira mais generosa possível - o charme e presença de megastar ainda estão intactos, claro.

Apesar de ter uma relação pai/filha e não homem/mulher, o filme de Eastwood mais próximo de Interlúdio de Amor é Menina de Ouro: os temas são praticamente os mesmos, com a diferença de que o diretor envelheceu e deixou marcas mais duras no filme, tornando tudo mais sombrio. A violência que brutaliza as pessoas em Interlúdio de Amor é apenas sentimental, e, em Menina de Ouro, assume uma dimensão física, via boxe. São escolhas diferentes: em 1973 o instável final feliz - "tomara que essa relação dure pelo menos um ano" - é tão belo quando a melancolia do treinador de boxe, a torta de limão, e a lembrança da pessoa amada.

>>> Já sabemos que Isabelle Huppert é a melhor atriz - ou intérprete, de todos os sexos - do mundo em atividade, mas sua carreira é tão prolífica que não se pode afirmar com certeza qual o ponto mais alto deste currículo. Até uns dias atrás eu achava que era a ilustração da alma doente de A Professora de Piano: a mulher amada, mas que nunca aprendeu a amar, vive de relações emocionalmente destrutivas e associa sexo a dor e violência. Michael Haneke matou a charada: nenhum outro ator pode ser tão realista no sofrimento e, ao mesmo tempo, aparentar tanta frieza e intelectualismo.



Em Um Assunto de Mulheres, no entanto, Huppert se supera. É tudo aquilo que Haneke descreveu, e muito mais, com notas de alegria, ironia, sensualidade, divismo... O personagem é dos mais bem escritos da História, exige talentos de A a Z: dona de casa insatisfeita, bissexual reprimida, começa a fazer abortos para ganhar um dinheirinho por fora. Pouco a pouco, liberta-se de todas as restrições morais. Aluga os quartos dos filhos para prostitutas, redescobre o gosto pelo sexo masculino de maneira selvagem e vulgar (sem abandonar a bissexualidade, claro) e desfruta do prazer de poder comprar o que gosta. Ao mesmo tempo, esforça-se para ser uma boa mãe, joga a empregada para cima do marido, e tem uma ou outra inquietação pelas almas das crianças abortadas.

É tanta coisa para administrar, variações, altos e baixos, e jamais percebemos qualquer deslize ou insegurança. O trabalho é absolutamente coeso e natural, sem que Huppert se entregue em qualquer cena à gritaria ou ao excesso. A mulher é um monstro e consegue até mesmo dobrar um diretor do porte de Chabrol, em seus melhores dias. O filme é muito bom, mas às vezes parece que o cineasta está a serviço da atriz e não o contrário.

>>> Georges Franju é um Bresson do mal: utiliza os artifícios de luz branca, atores robóticos e sons puros para sugerir a presença do Diabo, e não de Deus. Judex, de 63, é um show de cinema fantástico dentro dessa moldura de "depuração". O enredo pode ser complicado e absurdo, à beira do Batman, mas o tratamento é admiravelmente monocórdio, lento, fascinante, e insuportavelmente perverso. Nos filmes de Franju as pessoas não morrem de tiro, mas caem de grandes alturas ou são golpeadas com armas brancas. Judex não é tão redondo e macabro quanto o obrigatório Os Olhos Sem Rosto, mas tem diversas cenas de antologia. Como essa:

segunda-feira, março 23, 2009

Milk

Dá para perceber que Sean Penn é sempre genial logo em uma das primeiras cenas de Milk, que lhe deu o segundo Oscar, no mês passado. A cantada em James Franco é sensacional tanto pela surpresa (Penn nunca faz nada igual) quanto pela precisão com que ele cria o gay levemente caricato, sozinho em sua noite de aniversário. Nenhum traço de afetação é exterior à afetação do próprio personagem. É para aplaudir, porque são raros os atores que conseguem alcançar essa perfeição de composição.

Por outro lado, o filme não parece criar maiores desafios para o ator além da elaboração dessa carcaça. É como se o trabalho de Penn fosse todo pré-filme, consistindo em apenas dominar a caracterização e passar pela projeção como outra pessoa, sem muita variação - algo semelhante ao magnífico trabalho de mímica de Jamie Foxx em Ray, e diferente do show de Philip Seymour Hoffmann em Capote, que não apenas era o personagem, mas ia crescendo cena a cena na administração de conflitos dos mais complicados.



Depois que nos acostumamos com o Penn versão homo, a surpresa acaba. Não por culpa dele, mas o filme entra num trilho sindicato-movie bem tradicional, em que os problemas de Milk se resumem basicamente aos altos e baixos políticos, e Penn só precisa sustentar a mesma nota - já alcançada antes do filme começar - com uma ou outra cena mais forte.

Se eu tivesse uma cédula do Oscar na mão, não pensaria duas vezes e marcaria meu voto em Mickey Rourke, por um O Lutador, um trabalho que, ao contrário do vencedor, surpreende o filme todo e tem uma dimensão corporal realmente emocionante, que vai bem além da perfeição técnica de Penn.

Dito isso, eu gosto do filme de Milk, o filme, mesmo que seu estilo quadradão me pareça pouco estimulante na carreira de um diretor que vinha de quatro saltos sem rede seguidos: Gerry, Elefante, Últimos Dias e Paranoid Park. Ainda assim, Milk é muito bem feito, claro produto de um diretor completamente identificado com o material que filma. Tem coração.

PS.: Excelentes coadjuvantes, aliás.

sexta-feira, março 20, 2009

Livros do exílio #2

Ler Irresistível Paixão reajustou minha visão sobre a obra de Elmore Leonard - o cara pode ser gênio do diálogo e do humor absurdo em seus policiais modernos e divertidos, mas quando ele resolve adicionar um componente romântico a essa mistura, uau... Esse livro é o mesmo que gerou o melhor filme de Steven Soderbergh, homônimo, com Jennifer Lopez e George Clooney, indicado ao Oscar de roteiro adaptado.

Lemos, então, o maravilhoso jogo de sedução em versão integral, expansão do lero descontraído entre a agente federal e o ladrão de banco presos num porta-malas, ambos fãs de Três Dias do Condor, aquela joia de ação dos anos 70. Karen Cisco e Jack Foley queriam apenas ter se conhecido em outra ocasião, longe das obrigações profissionais. Talvez eles tenham uma chance na noite fria de Detroit, quem sabe...

A melhor coisa de tudo isso é perceber, ao fim da leitura, que não estamos diante de apenas mais uma apresentação de um virtuose do verbo, mas de algo realmente delicado sobre pessoas, sentimento, com especial atenção para o lado feminino desse quase relacionamento.



Lopez e Clooney na adaptação: now that's chemistry

Já tinha ficado maravilhado com o estonteante romance de Maximum Bob, abortado para efeito máximo de tristeza - isso tudo no meio de assaltos, tiroteios e roubos estapafúrdios. Em Bandidos, a presença maravilhosa de uma ex-freira combatente em alguma Guerra Civil da América Central trazia tempero inesperado a um gênero tão marcadamente misógino.

Para confirmação do respeito do autor pelas complexidades das pessoas, e principalmente, das mulheres, basta lembrar que Jackie Brown, de Tarantino, também veio de um original seu. JB é realmente o melhor filme do diretor, aquele em que os diálogos estão menos a disposição de cinefilia referencial que de uma ou duas intenções românticas entre dois quarentões cheios de tempo livre para conversar sobre nada em especial. Um arraso.

Talvez esse componente seja colateral na literatura de Leonard, mas juntando as peças, ele ganha dimensões realmente intrigantes, que colocam pequenos detalhes soltos de algumas obras sob nova perspectiva. Ler vários livros de um mesmo autor serve mesmo para isso, não?

>>> A Varanda do Frangipani, de Mia Couto. Ganhei de presente do amigo João Pitombo, que morou aqui em Angola ano passado, e disse que esse livro me ajudaria a respirar a África de verdade. Talvez eu devesse ter esperado mais para ter começado a leitura, porque há um claro desajuste entre o livro e mim, como se eu estivesse verde para ele.

Sua narrativa me parece completamente alien, nem sempre de maneira interessante, e por vezes próxima de clichês de realismo fantástico há muito esgotados por Gabriel García Marquéz. Provável, no entanto, que eu não tenha entendido nada.