segunda-feira, dezembro 18, 2017

Melhores de 2017

Scorsese disse certa vez que nunca termina o filme. Ele simplesmente o abandona. Com listas é a mesma coisa - cansei de ver filmes deste ano e estou oficialmente abandonando 2017. Minha lista de melhores do ano segue abaixo, e pronto. Normalmente eu escrevo um ou dois parágrafos sobre cada filme, mas olha, esse ano eu comecei a escrever e só saiu Moonlight. Os outros que me perdoem.

(Eu tava guardando notas sobre o filme para um ensaio posterior, mas também estou abandonando essa pretensão agora. Vamos ver se o filme sai do sistema)

*

1 - Moonlight, de Barry Jenkins

Passei o ano inteiro querendo escrever um texto que dê conta desse filme sem glorificá-lo pela sua importância extra-cinematográfica, e muito menos puni-lo por isso, mas chega o momento em que simplesmente nos conformamos com a existência dessas reações extremas e esperamos que o tempo ilumine a sua pujança.

Ainda assim, cabe pontuar que pra mim o mérito de Moonlight foi cinematográfico desde o dia 1, já que a administração da tensão insuportável entre os corpos no quadro e da tensão interna que cada um desses corpos carrega é, no meu, entender, a definição exemplar de uma mise-en-scene vigorosa.

Essa tensão é isolada como um gene no DNA, e trazida para o primeiro plano da experiência do filme em todas as suas cenas - é como se 122 anos depois, com milhares de tentativas, alguém tenha conseguido expressar cinematograficamente a sensorialidade da experiência queer (ou de certa experiência queer), resumida nesse "não caber no corpo" que o filme explora tão bem.

(A tensão a que me refiro é perfeitamente ilustrada em ONe Step Ahead, na trilha, cantada por Aretha Franklin: Just one step ahead is a step too far away from you.)

Vejam, citar esse ponto de vista específico não é desautorizar outros pontos de vista que não veem Moonlight em primeira pessoa, e sim tentar iluminar as decisões cinematográficas de um filme muitas vezes visto (apressadamente) como publicitário, sobretudo devido à homenagem aberta do filme ao cinema de Wong Kar-Wai e Hou Hsiao-Hsien.

Cada ruído de imagem, cada anteparo que nos separa dos personagens, cada distorção de som imagem - tudo isso é muito mais que um ímpeto de edulcoração, e sim um reflexo natural de um plano coerente de ilustração de uma experiência, a de não estar em paz de dentro para fora e de fora para dentro. O cinema é o caleidoscópio eu-mundo dessa relação.

Quando o filme avança violentamente em direção a seu desfecho, essa tensão é reduzida a seu essencial, e, portanto maximizada. Há um trecho lindo no Antes de Pôr-do-Sol em que Julie Delpy e Ethan Hawke estão numa van pelas ruas de Paris, e a Delpy vai encostar a mão no cabelo do Hawke, mas recua.

O último ato de Moonlight é esse minuto do filme de Linklater amplificado à última potência, com outros fatores bem específicos impedindo o toque, com as palavras que não saem sem dor da boca de Trevante Rhodes, e com esses corpos, fartos de não caberem em si, transbordando em suores numa mesa de restaurante ou, de modo marcante, numa polução noturna, talvez o momento mais romântico visto numa tela de cinema desde As Pontes de Madison.

Ah, os outros filmes?

2 - Z - A Cidade Perdida, de James Gray
3 - Silêncio, de Martin Scorsese
4 - Toni Erdmann, de Maren Ade
5 - Personal Shopper, de Olivier Assayas
6 - Corra, de Jordan Peele
7 - Até o Último Homem, de Mel Gibson
8 - Joaquim, de Marcelo Gomes
9 - Fragmentado, de M. Night Shyamalan
10 - Martírio, de Vincent Carelli

Calendário de estreias comerciais em Salvador, claro.

segunda-feira, novembro 20, 2017

A Velocidade Terrível da Queda



Em resposta a um repórter da Folha de S. Paulo que lhe perguntava se o verdadeiro massacre sofrido pelo protagonista do seu novo livro era uma reação aos homens estúpidos do mundo artístico da zona sul carioca, Fernanda Torres disfarçou, e foi existencial: "Eu castigaria qualquer um. As coisas me vêm com ironia; a vida é trágica". A Glória e Seu Cortejo de Horrores, o seu segundo romance, é de uma virulência sem fim, mas a sua navalha, ao ferir os seus personagens, não os despe de humanidade. A vida é trágica - este violência não é nada pessoal.

Admirador ferrenho de Fim, a estreia quase acidental de Fernanda Torres na literatura, eu cheguei a essa obra nova com o medo terrível de estar diante de uma fraude, da evidência de que a qualidade estarrecedora do livro anterior fosse sorte de principiante. Não é. Acompanhando a imprensa, até agora não achei nenhuma crítica de verdade ao livro, como se até o resenhismo mais maldoso tivesse medo de se aproximar. Como lidar com o fato de que uma atriz talentosa, filha de dois "monstros sagrados" da tv, teatro e cinema brasileiro, ainda por cima escreva de modo espetacular e publique dois dos melhores romances deste século no país? 

Não é uma hipérbole, é disso mesmo que estamos falando, e já que estamos no terreno do reconhecimento do talento e do privilégio que esse talento - mais um - representa, é bom dizer que o misto de desencanto carioca e ironia perturbadora faz com que Fernanda Torres mereça ser mencionada como pertencente ao mesmo veio literário que Machado de Assis. 

Não se trata aqui de comparar os dois - não seria justo - mas de perceber como esse romance pontiagudo opera de modo muito parecido ao do mestre da Rua de Matacavalos. No fundo, a tragédia da vida é mais evidente quando uma existência é contada em fast-forward, como Machado e Fernanda fazem, em cenários parecidos, mas separados por pouco mais de um século. O humor que transborda do texto parece bater em falso, propositadamente - em vez da gag, o que se evidencia é um profundo entendimento do patético. 

É como se os eventos da vida, reduzidos ao essencial, revelem sempre a sua face mais deprimente, por melhores que sejam os momentos isolados, ou mais vívida a lembrança de alegrias marcantes. Um grande momento do livro é o transe do protagonista, um ator, na memória do seu maior sucesso no teatro, num papel em uma peça de Tchekhov. É embriagante, mas é um átimo, e as consequências mostram que até mesmo as alegrias acabam por reverter-se para o mal. Um casamento de 15 anos, espetacularmente narrado em algumas páginas, rompe-se num segundo, num momento preciso, sem que o texto faça qualquer esforço para torná-lo um grande momento. Até os lances decisivos da vida têm a marca da banalidade.  

Além dessa nuvem massiva de pessimismo que se abate sobre as nossas cabeças durante a leitura, chama muito a atenção o fato de Fernanda Torres ser tão desenvolta narrando em primeira pessoa as agruras de um personagem tão masculino. É incrível - parece que o fato de ser atriz faz com que ela se ponha precisamente no lugar de qualquer outra pessoa, e o gênero nem de longe é uma barreira. Apesar da familiaridade do cenário - Rio, artistas, teatro - o texto tem uma precisão muito específica do que é ser homem, algo que ela já tinha logrado com maestria em Fim.   

Essa precisão, por outro lado, não se manifesta em diálogos, como se esperaria de uma atriz que começou a escrever ficção como uma peça de teatro. A ação é interna, mas cheias de marcas de oralidade. O livro é um relato não dito, represado. Está todo na mente do seu protagonista, como se Fernanda, antes de escrever um romance, estivesse compondo uma personagem e levando essa composição às últimas consequências. Há atores que criam histórias para as personagens que interpretam - Fernanda desenvolve romances inteiros para personagens que nunca vai interpretar. 

A marca da tragédia sem sentido - sim, ela cita a passagem shakespereana do som e a da fúria no romance, por sinal, muito erudito em referências, mas jamais reverente - pode não desaparecer em nenhuma página, mas se há algo que redime a experiência dessa leitura de ser um mergulho unidimensional na depressão é o entendimento de que se a arte não muda o fato de que a existência é um horror, ao menos dá as pessoas algum alento para enfrentar a vida. O epílogo dessa história de derrocada - mais uma vez, espetacularmente bem escrito - mostra que esse alento não é pouca coisa. É tudo o que temos.  










quarta-feira, outubro 11, 2017

Cineastas que odeiam pessoas infestaram a programação de Cannes 2016

(O texto abaixo seria originalmente publicado num projeto de jornalismo em Portugal, mas a coisa não andou e o texto ficou velho. Hoje Lembrei dele, e como os filmes já começaram a circular, resolvi publicar)

Se o cinema pode ser considerado um termómetro dos sentimentos do mundo e se o festival de Cannes permite, por amostragem, encontrar padrões dentro destes sentimentos, o diagnóstico encontrado a partir da última edição do evento, no mês passado, sugere uma sensação colectiva de desencanto e falência da crença nas instituições que mantêm a nós, humanos, organizados em sociedade. Os flashes e os vestidos continuaram lá em todo o esplendor, mas a cada vez que as luzes do Grand Théatre Lumière se apagaram, foi reforçada uma ideia muito consistente de que esta humanidade já se encontra numa curva descendente, muito próxima do seu apocalipse.

O pessimismo generalizado desse festival, no entanto, não é apenas uma constatação sobre o estado das coisas no mundo, mas sim o reflexo de um gesto activo de cineastas - especialmente da Europa - de culpar o homem pelo seu próprio ocaso. Nos filmes apresentados em competição em Cannes, inclusivamente no vencedor da Palma de Ouro, The Square, observa-se um empenho em pôr a espécie humana no microscópio, no seu pior ângulo. Foi um festival de realizadores-deuses, a julgar personagens segundo a sua superioridade moral desencantada, num esforço que transcende a misantropia e tende ao sadismo.

Tal empenho foi valorizado pelo júri presidido por Pedro Almodóvar (de quem se esperaria escolhas mais humanistas, aliás), em suas diversas formas de apresentação. O sueco The Square, de Ruben Östlund, o vencedor da Palma de Ouro, é uma comédia sobre brancos privilegiados de classe média alta que frequentam o universo da arte moderna. São todos ridículos, sem excepções, mas bom, o ridículo talvez seja a forma mais leve de descrença.

Por exemplo, o austríaco Michael Haneke, um veterano nessa técnica de moer pobres humanos para extrair pontos de visto, ressurgiu com Happy End, um filme no qual, ainda na sequência de créditos iniciais, uma criança mata um hamster de estimação e atenta contra a vida da própria mãe. É só o começo das actividades nessa máquina de tortura de duas horas, e desta vez, ao contrário do que ocorre em alguns dos seus filmes, como Caché, não há a mínima possibilidade de empatia. O russo Andrey Zvyagintsev, que apresentou Loveless (o título já diz tudo), aposta na mesma seara: o ser humano não presta.

Nenhum desses filmes, no entanto, se iguala ao monstruoso húngaro Jupiter’s Moon, uma fantasia que foi um passo além e deu o nomes aos bois causadores de tanto mal-estar: a situação política da Europa. No filme, de Kornel Mundrunczó, um refugiado sírio que tenta atravessar a fronteira da Hungria, é alvejado duas vezes por um polícia, mas em vez de morrer, adquire o super-poder da levitação. Um médico em desgraça que conhece o refugiado vai usar o milagre como forma de ganhar dinheiro.

Jupiter’s Moon, de todos, pinta um cenário de horror na Hungria, que parece aqui rivalizar com as Filipinas do realizador Brillante Mendoza como o pior lugar da Terra - só que em plena União Europeia. Não basta a canalhice generalizada. Tudo ainda precisa ser sujo e miserabilista como nos primeiros filmes de Alejandro González Iñarritu. Alegorias bíblicas que quase igualam os refugiados a versões de Jesus Cristo só pioram a situação, por sua obviedade.

Entre todos esses filmes de horror, no entanto, é preciso salvar o também russo A Gentle Creature, de Sergei Loznitsa, outra longa-metragem infernal sobre burocracia, mas que consegue não dirigir a sua fúria contra pessoas ao transformá-las apenas em ícones de um mal maior, o Estado. Não é uma alegoria subtil, especialmente quando os representantes do Estado partem para a violência física contra os cidadãos, mas dado que o objectivo de A Gentle Creature não é falar sobre gente, e sim sobre confronto entre instâncias de poder, o filme é muito bem-sucedido ao mostrar todos os dentes, de forma feroz, contra o regime Putin. É um grande filme político.

Todo esse universo de descrença, no entanto, ganhou síntese num filme mais humanista, mas que retrata bem este momento em que a Europa está sob ataque. Em In The Fade, de Fatih Akin, uma mulher casada com um turco perde o marido e o filho num atentado perpetrado por neonazis. A justiça lhe falha, e ela parte para a vingança. É uma história simples, digna de Charles Bronson, mas mostra como o pensamento liberal e de esquerda se aproxima perigosamente do vale-tudo e da retaliação não institucional quando é ameaçado.

Esse bloco de filmes do mal acabou por minimizar outras expressões artísticas avulsas surgidas na competição do festival, e também fora dela, em mostras paralelas. As duas únicas longas-metragens em português do festival, o português A Fábrica do Nada, de Pedro Pinho, e o brasileiro Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa, tiveram pouca repercussão. Filmes africanos passaram em branco.

E mesmo dentro do mainstream do festival, a discussão tecnológica a respeito da não exibição nos cinemas dos dois filmes da Netflix empanou a discussão sobre a qualidade dessas mesmas obras. The Meyerowitz, de Noah Baumbach, pode ir directo para o inferno das comédias sub-Woody Allen, mas Okja, do coreano Bong Joon-Ho, é uma joia, que vai perder muito ao ser visto apenas em televisões, tablets e telemóveis.

Nenhum dos filmes da competição, no entanto, igualou-se a três doces filmes fora de concurso. A primeira grande lufada de bom gosto veio na abertura da Quinzena dos Realizadores, com Um Beau Soleil Interieur, da francesa Claire Denis, adaptado dos Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Barthes. Trata-se de um filme lindo sobre amar, ver os relacionamentos falharem e continuar tentando amar. Juliette Binoche, toda coração, sexo e lágrimas, prova mais uma vez ser a melhor actriz do mundo.

Entre os veteranos, aos 88 anos, a também francesa Agnès Varda uniu-se ao fotógrafo JR (o seu nome verdadeiro nunca foi confirmado) para o belo documentário Visages Villages, na qual ambos reproduzem em grande escala em paredes e muros imagens das pessoas que habitam os seus locais. É um filme sobre memória e permanência, num mundo que insiste em transformar em efêmeras as relações das pessoas e dos seus lugares. Por fim, acima de tudo, houve o filme póstumo de Abbas Kiarostami, uma coleção de 24 tableaux abstratos que pode ter, sem exageros, o final mais belo da história do cinema.
Tais obras, na sua convicção de filmar gente e arte de coração aberto, foram o que fizeram o Festival de Cannes ser um pouco mais suportável diante de tanta vontade de afirmar o fracasso humano. Que bom que há quem pense que nós, enquanto espécie, ainda temos jeito.



domingo, março 26, 2017

A Mais Longa Jornada


Muitas vezes as obras-primas são descobertas por acaso. Comprei esse livro há quase 15 anos, num antigo sebo de Salvador, o Berinjela. Havia visto filme Retorno a Howards End, comprei o livro, e achei esse do mesmo autor. Nesse ínterim, li Howards End, Passagem Para a Índia, e, pra mim, o até então melhor livro de Forster, Um Quarto Com Vista.

Há uma semana, depois da experiência desastrosa de um romance nebuloso de um fluxo de consciência incrivelmente mal escrito - O Ocaso dos Pirilampos, de Adriano Mixinge - lembrei da limpidez absoluta do texto de Forster e tirei esse livro da estante.

O Que A Mais Longa Jornada tem a oferecer é muito mais do que um texto de primeira qualidade. O livro é uma bela meditação sobre a nossa passagem nesse mundo, o conceito de legado e obra, e o quanto vale a pena dedicar o único tempo que temos à construção de algo que fique para a posteridade.

Os pólos dessa meditação são dois irmãos, um legítimo, outro bastardo, que não sabem da existência do parentesco. Há certamente intriga nesse drama familiar clássico, mas Forster dedica muito mais que metade das mais de 300 páginas do seu livro às ruminações das suas personagens a respeito de cada momento da vida.

Lugares, tempo, costume e pessoas são descritos com um indolente e arguto senso de observação. Fatos importantes que mudam as peças de lugar nesse jogo vêm sempre abruptamente, em cortes secos, como um choque deliberadamente calculado para refletir as surpresas da vida e a sua falta de lógica.

A oposição entre os irmãos, antes de um antagonismo, é sobretudo o abismo de diferença entre dois pontos de vista. De um lado, um acadêmico de filosofia obcecado em escrever ficção, que cede às convenções da vida e enterra os seus planos justamente por aderir a instituições que refletiriam a segurança da existência: Deus, o casamento, um emprego, dinheiro. Do outro, a explosão sensorial e anti-convencional do bastardo, bêbado, libertino, impulsivo, ateu convicto.

Apesar de estruturar o seu romance como uma oposição clássica austeniana (razão e sensibilidade, orgulho e preconceito), Forster ambiciona mapear o que une os irmãos, não o que os separa, os pequenos detalhes indispensáveis que fazem do mundo um lugar muito mais cinza do que os extremos de uma discussão existencial.

No fundo, sobra a santidade dos sentidos, a terra sagrada, a aproximação possível entre a finitude ("quando um homem morre é como se nunca houvesse existido") e o caráter milagroso desse pequeno intervalo de vida que existe fragilmente, e que pode acabar a qualquer momento, e de forma aleatória, como frequentemente acontece no livro.

Entrando na esfera da especulação, não deixa de ser um resumo da vida do próprio autor bem antes que ela tivesse se desenvolvido. Forster escreveu o seu último livro 46 anos antes de morrer. Segundo os seus diários, perdeu a inspiração logo após perder a virgindade, já perto dos 40 anos, com um soldado ferido na I Guerra Mundial (apesar disso, ainda publicaria, anos depois, Passagem Para a Índia).

O desfecho do livro, portanto, parece antecipar a vida posterior do autor, que largou a ficção e escolheu a militância humanista secular ateísta e uma intensa vida sexual pelos bas-fonds de Londres. No entanto, ao contrário do seu protagonista, cujos contos são recusados por deixarem claro que quem os redigiu não viveu a vida de verdade, Forster foi capaz de entender e escrever sobre a existência antes de usufruir dela com plenitude. E quando a plenitude chegou, sobrou o silêncio na arte.

sábado, março 11, 2017

Silêncio, o livro

Aproveitando a estreia do Scorsese novo, que todo mundo parece ter odiado - não vi ainda - deixo aqui a recomendação do romance fenomenal que inspirou o filme. Silêncio foi escrito pelo japonês católico Shusaku Endo, mas a sua profundidade é bem maior que os limites de uma religião.

Uma vez, ao falar sobre o seu livro Reparação, Ian McEwan disse que a vida era muito difícil para um ateu, porque não havia um Deus para perdoá-lo. O repórter replicou: sustentar uma fé deve ser igualmente difícil, não? McEwan deu de ombros, com um "oh, please, don't get me started".

Endo escreve justamente sobre isso, sobre a dificuldade de sustentar essa fé, e o seu golpe de mestre é conduzir essa fé com o alicerce do cristianismo apenas para, nos momentos finais, reafirmar a sua crença em Deus com a renegação dos dogmas.

O Deus de Endo se manifesta no outro, no ato de compaixão, e, no limite, num ato de apostasia. A ausência de Deus é frequentemente ilustrada como a indiferença do universo.

A tese de Endo é que se o universo acaba nos limites do corpo individual do homem, e se este homem é capaz de encontrar empatia em outro homem - parte do todo capaz inclusive do sacrifício - esse universo não pode ser tão indiferente assim.

Pra mim, é uma ideia bela e profunda, sobre a qual é possível meditar por meses, e digo isso como alguém auto-identificado como agnóstico, e que simplesmente não consegue tirar esse livro da cabeça.

Diante dessas ambições, as discussões sobre o colonialismo que levou aqueles padres até os confins do Oriente para disseminar a religião parecem minúsculas, liliputianas. Shusaku Endo não está falando de política, e sim de toda a nossa existência.

(A tradução da Planeta infelizmente não é direta do japonês, como costumam ser as da Estação Liberdade. Ainda assim o texto corre fluido e impactante).

domingo, fevereiro 26, 2017

Moonlight



Talvez seja fácil dispensar Moonlight como mais uma história de formação, um coming of age de minorias (negro, queer), mas o filme me parece bem mais que isso. É um filme sobre a instância sensorial e sensual dessa formação, do poder dos sentidos como construção de uma identidade, em vez do pensamento.

É por isso que o filme é todo fragmento, e nem tô falando da sua estrutura de tríptico: cada cena vem depois da outra como se houvesse um mundo de elipses entre cada uma delas, e como se o que fixasse os momentos que vemos fossem sobretudo momentos do corpo: o silêncio, o sangue na boca, as palavras que não correspondem à imagem, uma mão agarrando um punhado de areia.


Fazia tempo que eu não via alguém filmar corpos humanos tão bem assim, com tanta expressão. É um cinema antropocêntrico, do gesto, do detalhe desse gesto, cujo padrão de referência me parece ser o Wong Kar-Wai dos anos 90. É algo que o diretor Barry Jenkins nos faz relembrar com a inserção da versão de Caetano Veloso para Currucucu Paloma, que estava em Felizes Juntos bem antes do Fale com Ela de Almodóvar, curiosamente outro filme muito importante sobre o corpo.

Essas presenças humanas incendeiam Moonlight do início ao fim, com esses filtros que chamam a atenção apenas o suficiente para o realce de sensações, e logo em seguida parecem discretos, como se houvesse todo um mundo de emoções que vão sempre permanecer fora da tela - não no extracampo, mas nas elipses.

Os personagens vão mudando de corpo com a troca dos atores em cada uma das fases, mas tudo permanece orgânico, porque o filme deixou desde o início o espaço para que completemos as lacunas entre uma cena e outra, entre um intérprete e outro.

E o filme nos deixa ainda preencher as lacunas dentro de uma mesma cena. O segmento final do filme talvez contenha as imagens mais sensuais que vejo em muito tempo, sem que absolutamente nada aconteça, e de um jeito que a tensão sexual se converte milagrosamente em algo bem mais profundo e delicado.

É um filme de imagens todas essenciais, onde vemos apenas o que precisa ser visto e nenhum segundo a mais. Pessoalmente, a minha imagem preferida é de André Holland fumando do lado de fora do seu restaurante. Dá pra sentir o cheiro da fumaça do lado de cá da tela.

sábado, fevereiro 25, 2017

La La Land

La La Land taí provando pra gente que um filme pode até dar as suas vaciladas, mas se consegue um final matador, o impacto do todo aumenta exponencialmente. Sensacional aquele número final, uma mistura improvável de Sinfonia de Paris com A Última Tentação de Cristo, um momento raro de sucesso no filme de dar pungência ao número musical, uma razão de ser.

Na maior parte do tempo, o filme não consegue sustentar a ideia de ser um musical, ou seja, os números estão ali para seguir um conceito. Não é assim que um musical funciona. Pra você pôr uma pessoa cantando em vez de pensando, ou falando, o filme tem que convencer de que a intensidade de cada momento é mesmo inevitável, e de que só a música dá conta. Você pode ter um fiapo de história, mas se a música se fizer sentir como inevitável ou a encenação de uma emoção pedir e implorar por essa suspensão da realidade, o musical vai dar certo.

No caso de La La Land, achei o todo meio cambaleante, a começar pela oportunidade perdida dos dois primeiros números. Tenho a impressão de que como ninguém mais filma musical, os diretores perderam a noção de coisas básicas.

Tipo: você para um viaduto pra filmar e decide fazer tudo em plano sequência, de perto. Como diria Trump, WRONG! O filme perde totalmente a noção de espaço e a gente fica implorando por um plano aberto grande, que só vem quando a música tá no fim. A mesma coisa pro número da festa: na hora da cena explodir, o cara mergulha a câmera na piscina e ninguém vê patavinas. SAD!

A sorte do filme é que as baladas são boas, City of Stars é um chiclete mental avassalador e que essa atmosfera Jacques Demy tem mesmo um grande charme. A construção da aproximação do casal tem o momento genial do planetário, com aquele passeio pelo espaço que não deixa de ser uma versão sideral do passeio pelo Central Park de Fred Astaire e Cyd Charisse em The Bandwagon.

O filme se arrasta um pouco no meio e os conflitos da historinha de boy meets girl parecem artificiais, algo que só percebemos porque faltaram pelo menos mais duas canções ali no meio, de preferência um showstopper com algum bom coadjuvante, o que o filme praticamente não tem. Enfim, eu gostei da coisa toda mais como conceito do que como execução, mas nem de longe é um mau filme.

E, voltando ao final, eu gosto especialmente como ele funciona como uma ilustração literal da ideia do musical como reconstrução do mundo real, como se fosse uma coisa política. O escapismo não é alienante, é um ato de revolta, mas, vejam, no final a realidade acaba transbordando. Sejam pelos desencontros da vida, como nesse caso, sejam por motivos mais frontalmente políticos, como a guerra da Argélia para Os Guarda-Chuvas do Amor, a realidade sempre assombra. O cor-de-rosa do musical no fundo não nos quer fazer esquecer dessas agruras, e sim realçar por oposição tudo o que é terrível na existência.

Hidden Figures, Fences

Eu gostei de Hidden Figures. É um tipo bem especial de cinemão que anda meio em extinção, a tal Sessão da Tarde para adultos. Com diferentes graus de seriedade, é aquele tipo de filme com adultos protagonistas, vivendo problemas mais ou menos de adultos, mas dentro de uma área de segurança hollywoodiana que faz com que nada muito desafiador seja visto na tela no sentido formal, e com conflitos sempre reconhecíveis. Luta contra o sistema. Falta de reconhecimento. Superação de obstáculos. Etc.

Hidden Figures é isso, e também um filme de mulher forte. Não vai ter super-herói, mas vai ter machismo (e no caso, racismo), e todas as tintas das personagens que não são protagonistas sem bem traçadas. Há a rival racista, o engenheiro preconceituoso, o chefe de bom caráter. Não tem muita nuance, e mesmo a violência (para isso, ver Selma) é mantida a uma distância segura.

Enfim, isso aqui é mais um de uma longa linhagem que vem de filmes como Erin Brockovich, Nos Bastidores da Notícia, Norma Rae, Alice Não Mora Mais Aqui. É perfeitamente inofensivo, mas é o tipo de produto perfeitamente inofensivo com gente que não costuma ser protagonista de produtos perfeitamente inofensivos como esse. Isso faz com que, além de perfeitamente inofensivo, em 2017 ele seja um filme necessário. Não à toa, foi um sucesso absoluto de bilheteria. É redondinho.

*

Fences: teatro filmado daqueles superantiquados, mas devidamente ancorado numa atuação monumental de Denzel Washington, talvez no grande momento da sua carreira. Ele não baixa o tom da transição do palco para a tela e defende um personagem maior que a vida com notável aplomb. Sua fala parece maníaca; sua mania de grandeza, insuportável. Mas de repente vem o silêncio e é impossível olhar para qualquer outro lugar da tela. A sua presença se impõe.

Viola Davis repete a sua rotina com excelência, com o célebre catarro e tudo na hora do choro. Ela vai ganhar o Oscar, mas será uma das maiores marmeladas da história. Não é coadjuvante nem aqui nem na China.

Infelizmente, ao contrário de outros teatros filmados recentes - como os dois últimos filmes de Polanski - não há mais nada o que dizer do filme além dos atores. Não sei se foi preguiça ou otimização, mas não há uma imagem sequer que chame atenção na coisa toda.

Jackie

Jackie é o segundo filme de Pablo Larraín no qual vemos a necropsia de um chefe de Estado assassinado. O primeiro foi Post Mortem, no qual, no acto final, o escrivão protagonista regista as observações do médico legista de Salvador Allende, mais um cadáver no meio do monte de corpos que inunda o ato final do longa de 2010, praticamente um perturbador filme de zumbi.

Não vi o primeiro longa dele, Fuga, mas de Tony Manero em diante, Larraín orbita os momentos decisivos da política em diferentes distâncias. Em Tony Manero, Post Mortem e O Clube, está a consequência das mudanças bruscas na História na vida das pessoas comuns. Em No e Neruda, ele se aproxima dos protagonistas dessas mudanças. Agora, nos Estados, um Jackie, ele parece fazer um zoom-in direto para o centro do mundo, com um filme sobre a morte de John Kennedy.

Apesar do título, não é um filme sobre Jackie, e sim sobre o luto e a resiliência. Jackie é apenas um símbolo, um avatar desse luto, uma vez que, como confessa a um padre, no fundo ela está tão distanciada daquele homem quanto o povo americano, apesar de ter dois filhos com ele. O que importa a Jackie, e ao filme, é a construção de um legado, o jeito como a história de um homem vai ser construída e eternizada.

A construção do filme nos relatos de Jackie a jornalistas (um entrevistador, as câmeras que percorrem a Casa Branca antes da morte de Kennedy, a vontade de Jackie de ser vista com o vestido manchado pelo sangue do marido) sintetiza isso, a história como mise-e-scène. Nada se sabe sobre Jackie ao final desses 100 minutos, além da sua vontade de construir o lugar do marido e a sua despedida (e ponto de partida, na verdade) na história americana.

Natalie Portman, dirigida a atuar no limite do artifício, é uma representação perfeita desse teatro. Ela não convence como Jackie, mas não precisa convencer; ela representa um ícone, o que faz todo o sentido para as ambições do filme.

Esse momento definitivo quando se decide como a história será escrita tem, mais uma vez as tintas de horror e, ao mesmo tempo, o gelo que Larraín imprime à sua obra. A trilha sonora sobe aqui e ali, assustadora, a câmera percorre e frequenta esses bastidores, a edição retalha esses dias decisivos em fragmentos essenciais. Belo filme.

sábado, dezembro 31, 2016

top 10 2016

Eu ia ver mais dois filmes antes de completar essa lista, mas é injusto, ver apenas para dar um veredito relâmpago. Foi mal, Hong; foi mal, Bellocchio. Bom, os dez filmes então a seguir, mas antes, cinco menções honrosas, sem ordem:

Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-eda
O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
O Demônio Neon, de Nicolas Winding Refn
Brooklyn, de John Crowley
Neruda, de Pablo Larraín

Agora sim:

10 - Belos Sonhos, Itália, de Marco Bellocchio - Paulo Francis dizia que Gritos e Sussurros era o mais mais terrível de todos, porque era sobre a morte da mãe. Bellocchio faz esse filme da descrição de Francis, só que sem tangentes. A perda sempre deixa fantasmas, e às vezes nem o cinema os exorciza.
Sessão dupla: Bambi, de David Hand

9 - A Academia das Musas, Espanha, de José Luís Guerin - Um instigante filme falado, quase todo em closes, sobre as relações das pessoas com a arte, e sobre os limites invisíveis entre a vida e a ficção. Falar sobre arte não é um exercício um intelectualoide, e sim um esforço de entender a nós mesmos, como humanos.
Sessão dupla: Shirin, de Abbas Kiarostami.

8 - Elle, França, de Paul Verhoeven - Ultradesconfortável thriller de Verhoeven, que ao longo da sua carreira sempre nos fez cruzar as pernas de nervoso. Um estuprador usa sexo como arma, a vítima se defende e ataca o mundo à sua volta com um sarcasmo inclemente. Não é um filme fácil de ver, e de decodificar. Cada riso vem com culpa, Huppert e Verhoeven vêm com fúria, sem deixar prisioneiros.
Sessão Dupla: Juste Avant la Nuit, de Claude Chabrol

7 - Os Oito Odiados, EUA, de Quentin Tarantino -O Dogville de Tarantino, composto com o mesmo gusto em construir tensão e desmontar personagens, em longos e delicados capítulos, com a falta de pressa de um sádico. O cinema transborda desse teatro filmado.
Sessão dupla: Dogville, de Lars von Trier

6 - Cemitério do Esplendor, Tailândia, de Apichatpong Weerasethakul - Mais um filme estranhíssimo de Joe sobre essa paz que um certo modo de vida e pensamento em parte da Ásia forja, mesmo quando tudo ao redor parece entrar em colapso. A glória de tempos passados, por exemplo, é algo que pode ser revisitada com um pouco de imaginação, e, talvez, fé num cicerone, que pode ser um personagem que guia outro por um palácio presente em outras vidas, ou o próprio diretor, que nos abre esse universo de gente resiliente. Nada permanece, tudo permanece.
Sessão Dupla: A Cidade das Tristezas, de Hou Hsiao-Hsien.

5 - Aquarius, Brasil, de Kleber Mendonça Filho - Um amigo dia desses reclamou que esse era um filme "de tese". Eu discordo. É um filme de sentidos, de pequenas construções de significado que têm um potente efeito cumulativo para quem se interessa pelo Brasil contemporâneo, mas também sobre gente, intimidade e identidade. Mais do que um filme sobre uma mulher, é um filme sobre uma cultura intelectual e política brasileira, com todas as suas contradições, sob ataque.
Sessão Dupla: Isto Não é um Filme, de Jafar Panahi e Motjaba Mirtahmasb

4 - O Que Está Por Vir, França, de Mia Hansen-Love - um hino de amor à vida, da celebração de cada um dos seus momentos. Para cada perda, uma nova possibilidade; para cada ausência, uma chance de liberdade. Isabelle Huppert mais uma vez monumental.
Sessão Dupla: Poesia, de Lee Chang-Dong.

3 - Sieranevada, Romênia, de Cristi Puiu - Um país que cabe num apartamento, micropolítica e macroafetos em três horas exasperantes. Assim como Aquarius, um filme sobre pessoas e os espaços que elas ocupam.
Sessão dupla: Dez, de Abbas Kiarostami

2 - Julieta, Espanha, de Pedro Almodóvar - Já escrevi pelo menos três vezes sobre esse filme, mas sempre há algo mais a dizer. O filme é resultado de um projeto acabado de cinema ao mesmo tempo popular e racionalizado, intelectualmente. É um melodrama rasgado sobre conflitos de mãe e filha, mas é uma tragédia grega, passada como sempre em família, sobre a equivalência entre morte e ostracismo. Quando alguém próximo morre, a dor é infernal, mas é igualmente ruim quando a morte é em vida, pois fica evidente o tempo que se perde.
Sessão dupla: As Memórias de Marnie, de Hiromasa Yonebayashi

1 - Carol, EUA, de Todd Haynes - Foi o primeiro filme que vi este ano, e ele nunca saiu dessa posição. Conto impecavelmente clássico e grande filme de amor sobre viver de verdade e representar uma imagem, mais uma da coleção de obras-primas de Haynes, o melhor diretor americano vivo. Em mais uma versão do seu sirkiano teatro do subúrbio, o diretor ancora o filme numa inexcedível Cate Blanchett, que compõe um personagem que atua o tempo todo, e nem mesmo a paixão despe a sua carcaça - ainda assim, as emoções transbordam, como na genial cena do acordo judicial, um momento digno de uma Bette Davis, uma Joan Crawford. O seu maneirismo é perfeito para o filme, que encontra na excelente Rooney Mara a plateia ideal pro show-off de Blanchett.
Sessão dupla: Vitória Amarga, de Edmund Goulding

sexta-feira, dezembro 23, 2016

O Que Está Por Vir

Aproveitem essa semana de Natal para ver essa joia chamada O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Love, no Glauber e no Paseo. É um filme perfeito para o Natal, porque reafirma relações humanas e empatia como as coisas mais importantes dessa vida, só que sem as toneladas de açúcar que um filme americano dedicaria a essa história, por exemplo.

A história em questão é uma crise de maturidade de uma professora de filosofia, casada com outro professor de filosofia, e às voltas com a doença da mãe, um divórcio a caminho e os filhos fora de casa. Parece, na descrição, um filme-cabeção, mas só os franceses para navegarem pelas águas tormentosas de mil referências intelectuais de forma natural, sem a sensação incômoda de name-dropping ou de citações gratuitas. Essa é simplesmente a vida destas pessoas, e pronto.

O filme se desenvolve nesses pequenos dramas cotidianos, mas numa cena em que a protagonista lê uma passagem de Blaise Pascal, a gente percebe o quanto esses microconflitos nos fazem humanos, pequenos na sabedoria mas imensos na capacidade de sonhar e imaginar. É um filme que, sem se posicionar desta maneira abertamente, propõe a filosofia como consolo para as loucuras da vida, talvez do mesmo jeito que Poesia, de Lee Chang-Dong, defendia a arte como refúgio.

O filme coreano me veio uma ou duas vezes na cabeça, não por apenas ser uma história de uma mulher sexagenária, mas pela defesa de uma beleza possível da vida, não por negação da dor, mas pela superação das dificuldades através da dor. Numa cena milagrosa, vemos a gloriosa Isabelle Huppert chorando no ônibus (choro esse testemunhado por outra passageira, que fica algo comovida), e de repente, começa a rir ao mesmo tempo diante de uma coincidência que observa pela janela.



A vida inteira cabe no choro e no riso simultâneo de Huppert, numa atuação que ainda mais espetacular quando se tem em conta de que a mesma atriz ressuscitou a sua gélida persona chabroliana para o Elle, de Verhoeven, com renovada desenvoltura. Que mulher é essa? Provavelmente é a melhor atriz do mundo, junto com outra que também vemos neste filme, numa cena em que a personagem da Huppert vai ao cinema - o momento mais prazeroso que vimos numa tela este ano.

domingo, novembro 13, 2016

Hacksaw Ridge



É realmente impossível ver e pensar o filme novo de Mel Gibson, uma história real sobre um herói de guerra que se recusava a pegar em armas, e não pensar nesses Estados Unidos que elegeram Donald Trump.

Um filme tão agressivo na defesa das boas almas de coração simples da América profunda, num momento desse, não tem como ser visto de outra forma, especialmente quando o centro da questão toda, a tal objeção de consciência, e usada até hoje para que conservadores religiosos se recusem a atender homossexuais em alguns estados, por exemplo - inclusive no estado do vice de Trump, Mike Pence.

O filme não tem como não ser uma resposta à América democrata, quando na sua conclusão um dos personagens abertamente diz que não se deve rir de convicções, não importa quais sejam.

Apesar de ser baseado numa história real, e do mais puro heroísmo, não há como se separar um filme do seu tempo, e esse tempo é hoje. Nessa luz, o herói sulista não deixa de refletir aquele tipo de hipócrita que quer participar da guerra, mas sem sujar as mãos, tão circunspecto na sua moral. É um elogio do princípio, não importa a teleologia da coisa.

Esse texto não é um julgamento sobre aquele cara, mas sobre o cara do filme que existe pra defender essa visão de mundo de Mel Gibson. Hacksaw Ridge é uma propaganda do cristianismo como há muito não se vê, e apesar do seu herói ser adventista, a redenção vinda da catarse e da violência extrema é típica do catolicismo de Gibson.

Não deixa de ser curiosa a interpretação quase bovina de Andrew Garfield no papel principal, com aquela graça divina que se encontra no olhar das bestas, como bem nos ensinou Bresson, um católico que expressava a sua fé no cinema de modo oposto ao de Gibson, com extrema depuração e atenção ao essencial das coisas do mundo.

Dito isso tudo (e não apesar disso), assim como aquele grand guignol bíclico chamado A Paixão de Cristo, Hacksaw Ridge é um filme formidável.

quarta-feira, novembro 09, 2016

A Assassina



Resolvi pôr um pouco de beleza no meu dia para curar a ressaca e finalmente vi A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien. Beleza tem, e muita, e do tipo especial e massacrante que só alguém com o nível de depuração na carreira que Hou alcançou pode nos proporcionar.

É o filme ideal para curar os olhos, um passeio de imagem incrível para imagem incrível, de um jeito que o projeto parece se tratar de uma exposição num museu, e não dum filme. Não digo isso pejorativamente. O caso é que Hou faz tempo que não é ou nunca foi um contador de histórias; ele é um contador de ambiências, de universos.

É por isso que o filme mantém o interesse apesar de ser aparentemente ancorado numa conturbada intriga palaciana da dinastia sei lá o quê do século 8 chinês, com um outro desvio para uma cena de ação aqui e ali.

Essa trama movimentada - do que tipo que irritaria o mestre de Hou, Ozu - está no filme no entanto quase que como um objeto de cena, uma desculpa, algo que de fato nem precisamos entender, ou a que o filme não dedica atenção especial.

Eu gosto do filme, aliás o filme é um prazer absoluto, mas ao fim de uma hora e quarenta minutos, fica uma sensação incômoda de desinteresse também pelas pessoas; é um filme quase despido de humanidade, já que "gente" só interessa como composição de tableaux.

Não é um filme estéril - o efeito plástico que conjura empolga por ser tão gritantemente uma criação humana, por ter um ponto de vista, uma assinatura. Por outro lado, os Hou que eu amo de verdade (os dos anos 80, especialmente Tempo de Viver e Tempo de Morrer, ou Poeira no Vento ou A Cidade das Desilusões) não davam essa sensação de estar a um passo de ser uma instalação artística.

O filme ganhou um prêmio muito bem dado de direção no festival de Cannes do ano passado, aliás. É basicamente isso, um diretor acima do que o filme é, de fato.

(Ressalva gigantesca de que o filme grita para ser visto no cinema, e eu vi numa tv. Grande, até, mas uma tv. Ficou bom tempo em cartaz em Salvador, pena que não bateu com as minhas datas)

terça-feira, julho 26, 2016

Phoenix




Tá sendo bem difícil tirar esse filme Phoenix, de Christian Petzold, da cabeça. Speak Low, que pra mim era só mais um standard, tornou--se moldura de uma das cenas mais acachapantes da história ao mesmo tempo em que foi arruinada para todo o sempre, porque será impossível dissociá-la do rosto de Nina Hoss. Perdi a conta de quantas vezes escutei a canção por esses dias.

Nas últimas duas semanas tenho lido um monte de textos sobre o filme, e 90 por cento deles dizem que se trata de uma atualização de Vertigo, e eu também pensei nisso imediatamente, mas hoje o filme já me bate como um filme-irmão de A Pele Que Habito, de Almodóvar, só que devidamente adequado a esse rigoroso e duro corte alemão, no qual tudo é seco, despido, mínimo.

Nos dois filmes temos pessoas vivendo com o outro rosto que não o seu de nascença, com sérios problemas de identidade. Em Phoenix, em especial, me chama a atenção o processo de negação da identidade, em direções opostas.

Nelly quer ser a que era antes da guerra, quer acreditar no amor do seu marido ariano, quer arranjar desculpas para a sua delação, enquanto o marido se recusa a ver a nova mulher na sua frente como a antiga - tem de ser outra pessoa - mas (inconscientemente?) a atira rumo à identidade anterior. Para quem é aquela farsa?

Os personagens demoram horrores para se libertar das suas negações, como se a ficção encenada por eles mesmos fosse a única saída para continuar a viver até que as feridas se fechem. (Yann Martel escreveu um livro brilhante sobre isso, A Vida de Pi). É ainda mais impressionante como, num detalhe especialmente cruel, à personagem que insiste encarar a verdade sem desviar o olhar, só resta o suicídio.

Em Tudo Sobre Minha Mãe, Agrado dizia que as pessoas são mais autênticas quanto mais se parecem com aquilo que sempre quiseram ser. E quando isso é impossível? E quando esse caminho rumo à identidade é roubado, violentado, abreviado? É daí que vem a força de A Pele que Habito e de Phoenix em suas cenas finais: aprender a ser outra pessoa diferente do que se é - no seu cerne - e tomar outro caminho pode ser o maior dos traumas.

quinta-feira, julho 07, 2016

O tempo de Almodóvar





Já escrevi pelo menos duas vezes sobre Julieta, o doloroso filme de Almodóvar que estreia amanhã no Brasil, mas nas duas vezes deixei passar uma coisa que continua me chamando a atenção não só nesse filme, mas em toda a fase "madura" do diretor, que, dizem, começou há 20 anos com A Flor do Meu Segredo. Eu queria na verdade de falar que essa tal maturidade do diretor tem uma relação direta com a maneira com a qual ele passou a pensar o tempo dos seus filmes. Não o ritmo, o tempo mesmo, o Tempo.

O plano da imagem é de Fale Com Ela, ainda o maior de seus filmes, e é uma prova da paixão do diretor pelo livro As Horas, de Michael Cunningham, que ele queria ter adaptado (que pena, poderia ter nos poupado daquele filme). Isso me chama a atenção porque é o livro (que não li, mas que tento perceber por meio da adaptação) é uma história em três tempos, e quando um personagem de um tempo invade o outro temos um panorama de uma vida inteira.

Aí você para pensar em como essa dispersão das suas histórias em diversos tempos tem sido comum em praticamente todos os filmes dele dos últimos vinte anos (vamos fingir que Os Amantes Passageiros não existiu). As suas histórias não são lineares, e sim temos personagens presos em labirintos temporais sofisticados, quase sempre com a lógica de repercurtir ações passadas meses ou anos depois das maneiras mais tortas e inesperadas.

Esses filmes são todos muito fortes porque no final das contas temos a sensação de, a partir da seleção desses momentos-chave, vemos a vida inteira dessas pessoas na nossa frente, ás vezes desde o nascimento, como em Carne Trêmula, ou na infância, na idade adulta e no reflexo dessa idade adulta dentro de um filme, como em Má Educação.

Quando escrevi sobre Abraços Partidos (o pior filme "adulto" do diretor), eu pensei ver nessa teia temporal uma vontade de refletir sobre a memória, mas hoje acho que não. O passado em Almodóvar nunca vira memória; na verdade, o preço das nossas ações é vivo e está conosco o tempo todo, do mesmo jeito que os mortos de Mizoguchi, por exemplo, continuam ao lado dos vivos.

Em Julieta, o filme que estreia esse fim de semana - e que o facebook friend Fernando Vasconcelos chamou de "um As Horas que presta" -, Almodóvar alcança um refinamento nesse projeto de "panoramas de vida" que permite-lhe não apenas um retrato pessoal e único, com todos os sofrimentos e angústia que acumulamos, mas expande esse terror para a ideia de família, como numa sina. A gente muitas vezes repete os tropeços dos nossos pais, que serão repetidos pelos nossos filhos.

E como já escrevi sobre o filme, a principal consequência em não romper essa inevitabilidade é que a morte fecha todos os caminhos de volta, e só sobra o silêncio. No fundo, é como dizia García Márquez: "as estirpes condenadas a cem anos de solidão não terão uma segunda oportunidade sobre a terra". Que se aproveite antes que seja tarde.

Mais: 



sábado, junho 04, 2016

Julieta, As Memórias de Marnie



Em Má Educação, de Pedro Almodóvar, dois personagens atormentados pela sombra de um assassinato entram numa sala de cinema onde está em cartaz um festival de filmes noir. Na saída, um diz para o outro: por que todos os filmes falam sobre a gente?

Em Cannes, vi o último filme do mesmo Almodóvar, Julieta, um filme doloroso sobre os abismos que se criam entre pessoas que se amam e os silêncios que as separam. Hoje eu vi (acabei mesmo de ver) a animação japonesa As Memórias de Marnie, de Hiromasa Yonebayashi, que é basicamente o mesmo filme que Julieta, outra obra sobre pessoas ligadas por laços familiares e sentimentais que não conseguem se comunicar. Em ambos os filmes, Julieta e As Memórias de Marnie, me senti como a personagem de Má Educação: todos os filmes falam sobre mim.


Por mais que eu enxergue imensas qualidades nesses filmes, sinto imensa dificuldade em saber quando a minha admiração estética acaba e quando começa a pura e simples identificação ou o choque de ver a própria história numa tela de cinema, com as mesmas dores, as mesmas zonas sombrias.

Cheguei a Angola há sete anos. Meu pai só soube que eu estava aqui alguns meses depois, e demorou até que conseguisse falar comigo devido a barreiras que eu mesmo pus e sustentei. Anos depois, numa viagem curta a Belém - numa fase difícil, quando finalmente me percebi adulto, descobri que um dia eu iria morrer e resolvi acertas algumas pontas soltas da vida antes de seguir em frente -, meu pai me contou a mesma história. Ele havia simplesmente desaparecido de Belém e ganhou o Brasil pouco depois da adolescência, sendo redescoberto apenas anos depois na Bahia.

Não conto isso aqui para transformar a minha história em melodrama nem para pedir compaixão - está tudo resolvido, na medida do possível. Muito pelo contrário, faço isso para afirmar a potência e o poder de comunicação e reflexão desses filmes. Não acredito, mesmo, que a minha relação de admiração com eles fosse tão diferente caso eu tivesse uma outra história pessoal, mas me parece um fato de que ter essa história cria um atalho para que esses filmes batam certo e rápido.

Woody Allen quis desdizer o ditado e escreveu no roteiro de Maridos e Esposas que a vida imita a televisão ruim. Talvez, mas acho que a arte, sim, imita e amplifica a vida, e assim, muitas vezes nos dá a dimensão exata das escolhas que fazemos e do nosso lugar no mundo a partir dessas escolhas.

Julieta estreia no Brasil em 7 de Julho. Será o grande filme desse ano. As Memórias de Marnie entrou em cartaz ano passado em várias capitais, incluindo Salvador, e acabou de sair em dvd e bluray pela Califórnia Filmes. Também pode ser encontrado no site de torrents mais próximo.

segunda-feira, maio 23, 2016

Cannes 2016

cobrir cannes foi uma experiência foda, que mudou a minha perspectiva sobre um monte de coisas, do cinema, da vida em geral, da minha própria vida, da minha carreira como jornalista, enfim. foram 30 filmes, mas foi muito mais do que a soma desses filmes. 
se o resultado disso em quinze textos não traduz a riqueza dessas quase duas semanas, a culpa é minha, mas tem ideias soltas nesse textos das quais eu gosto, e que valem a pena ser lidas, se me dão um direito de ser um pouco cabotino.
muito obrigado por ter acompanhado!
vamos lá:
Premiação: http://www.redeangola.info/apesar-da-competicao-forte-juri-da-palmares-desastroso/
The Last Face, de Sean Penn, Forushande, de Ashgar Farhadi, e Elle, de Paul Verhoeven: http://www.redeangola.info/africa-presente-na-competicao-como-cenario-de-filme-de-sean-penn/
The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn, Bacalaureat, de Christian Mungiu, e Juste le Fin du Monde, de Xavier Dolan: http://www.redeangola.info/dinamarques-nicolas-winding-refn-apresenta-o-filme-choque-do-festival/
La Fille Inconnue, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Personal Shopper, de Olivier Assayas, e Umi Yorimo Mada Fukako, de Hirokazu Kore-eda: http://www.redeangola.info/os-mortos-sem-nome-numa-europa-ferida/
Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, e Ma' Rosa, de Brillante Mendonza: http://www.redeangola.info/o-filme-e-sua-circunstancia/
Julieta, de Pedro Almodóvar, e Loving, de Jeff Nichols: http://www.redeangola.info/luto-abandono-racismo-resiliencia/
Hissein Habré, Une Tragédie Chadienne, de Mahamat-Saleh Haroun, Mimosas, de Oliver Laxe, e Cinema Novo, de Eryk Rocha: http://www.redeangola.info/documentario-pede-justica-para-as-vitimas-de-hissain-habre/
Patterson, de Jim Jarmusch, Mal de Pierres, de Nicole Garcia, Agassi, de Park Chanwook: http://www.redeangola.info/uma-pequena-obra-prima-de-jarmusch/
Toni Erdmann, de Maren Ade, American Honey, de Andrea Arnold, e The BFG, de Steven Spielberg: http://www.redeangola.info/cannes-apresenta-mulheres-palma/
Neruda, de Pablo Larraín, e Money Monster, de Jodie Foster: http://www.redeangola.info/a-arte-vence-a-opressao-numa-joia-vinda-do-chile/
Ma Loute, de Bruno Dumont, e Rester Vertical, de Alain Guiraudie: http://www.redeangola.info/participacao-francesa-comeca-com-sexo-e-surrealismo/
I, Daniel Blake, de Ken Loach: http://www.redeangola.info/em-meio-ao-circo-vida-real/
Eshtebak, de Mohamed Diab: http://www.redeangola.info/em-meio-ao-circo-vida-real/
Café Society, de Woody Allen, e Sieranevada, de Cristi Puiu: http://www.redeangola.info/woody-allen-abre-cannes-em-clima-de-nostalgia/
+ Entrevista (rápida) com Mahamat-Saleh Haroun: http://www.redeangola.info/especiais/mahamat-saleh-haroun/
Cotação final, com os filmes em ordem de preferência:
Julieta, de Pedro Almodóvar *****
Patterson, de Jim Jarmusch *****
Aquarius, de Kleber Mendonça Filho *****
Neruda, de Pablo Larraín ****1/2
Sieranevada, de Cristi Puiu ****
Elle, de Paul Verhoeven ****
The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn ****
Personal Shopper, de Olivier Assayas ****
Ma Loute, de Bruno Dumont ****
Toni Erdmann, de Maren Ade ****
Loving, de Jeff Nichols ****
After the Storm, de Hirokazu Kore-eda ***1/2
Eshbetak, de Mohamed Diap ***1/2
Bacalaureat, de Christian Mungiu ***
Forushande, de Ashgar Farhadi ***
Agassi, de Park Chanwook ***
Hissein Habré, de Mahamat-Saleh Haroun ***
La Fille Inconnue, dos irmãos Dardenne ***
Money Monster, de Jodie Foster ***
I, Daniel Blake, de Ken Loach **1/2
Cinema Novo, de Eryk Rocha **1/2
Rester Vertical, de Alain Guiraudie **1/2
Ma Rosa, de Brillante Mendoza **
Café Society, de Woody Allen **
Mal de Pierres, de Nicole Garcia *
The BFG, de Steven Spielberg *
Juste le Fin du Monde, de Xavier Dolan *
Mimosas, de Oliver Laxe *
American Honey, de Andrea Arnold BOLA PRETA
The Last Face, de Sean Penn BOLA PRETA GIGANTE

terça-feira, abril 05, 2016

O centenário de Gregory Peck

Gregory Peck não é o meu ator preferido, mas talvez seja o astro do cinema clássico que eu mais gosto. Ele entra em cena e os filmes ganham uma mistura quase paradoxal de charme e gravidade. É ele o ator-símbolo da luta pelas boas causas no cinema, aquele que era sempre advogado ou jornalista, mas também era a elegância em pessoa, o dono da finesse rara num ator de sempre saber a palavra certa, a inflexão econômica para não apenas transmitir o que o seu personagem precisa, mas para fazer com que todo mundo à sua volta não apenas o admire, mas por ele se apaixone.

Numa década marcada pelo furacão Marlon Brando, como os anos 50, ele conseguia projetar o seu magnetismo sem pingar uma gota de suor. É como uma se suas feições de pedra e o seu corpo sempre trajado num terno impecável o tornassem ao mesmo tempo invisível e o centro das atenções. Por isso que é tão difícil definir: todos os atores da sua época áurea (45-65), como Brando, Lancaster, Newman são definidos por traços físicos. Gregory Peck, acima de tudo é presença.

Claro que hoje, no seu centenário de nascimento, todo mundo se lembra daquele que foi escolhido o maior herói do cinema americano, o idealista advogado Atticus Finch de O Sol É Para Todos, que ousa defender um homem negro acusado de estupro em pleno sul racista e atrasado. Amo o livro e o filme e Peck nos dois (li o livro depois e é impossível não imaginá-lo em todas as páginas), mas o meu Peck do coração é o jornalista malandro de A Princesa e o Plebeu.

Repórter falido da sucursal de um jornal americano em Roma, Peck encontra por acaso uma princesa em fuga, Audrey Hepburn. Ele tem uma pauta gigantesca nas mãos, e finge não conhecê-la para servir de cicerone pelas ruas da capital italiana e conseguir uma reportagem incrível. Sua decisão no final, cheia de beleza e dignidade dão uma inesperada lição de ética e jornalismo mesmo dentro de uma das melhores comédias românticas da história - talvez a melhor, com sua licença, Lubitsch. Há o jornalismo, mas a vida passa na frente.

Vê-lo como um ídolo de matinê não significa dessexualizá-lo. Como bem lembra Martin Scorsese na sua série sobre o cinema americano, existe uma sexualidade em Hollywood antes e depois de Duelo Ao Sol. Quem o vê explodindo de tesão ao lado de uma igualmente incandescente Jennifer Jones percebe que além do astro digno e elegante, há um ator capaz de fervor e fúria, mas sem transformar isso em tique, como os descendentes menos talentosos de Brando.

Outro papel dele que adoro, também com William Wyler na direção (o mesmo de A Princesa e o Plebeu), é o protagonista de Da Terra Nascem os Homens, um raro faroeste na sua filmografia e na do cineasta de Ben-Hur. A figura citadina e democrata de Peck entra em conflito imediato com o interior sem leis do filme, onde as coisas se resolvem a tiro. Num plano maravilhoso no duelo do desfecho ele pisca o olho fazendo a mira, mas decide não matar o oponente. Ele estava acima daquela selvageria, mas jamais parece arrogante. É apenas o homem que anuncia a mudança para tempos melhores.

No sistema de estúdio os atores raramente eram desafiados e cada um tinha a sua área de atuação. O que fazia Peck tão cativante é justamente isso: ele se especializou em ser nas telas um arauto da tolerância.




segunda-feira, janeiro 04, 2016

Melhores 2015

Eu ia tentar ver mais algumas coisas antes de fechar essa lista, mas quer saber, é só uma lista, estou de férias, e posso deixar o que falta para depois, incluindo o que está em cartaz em Salvador agora (sorry, Trapero, Kawase, Garrel). Sem contar que eu já perdi um monte de coisa que queria ter visto mesmo e não tive chance, de Larraín a Domingos de Oliveira, de Alvaro Brechner a Andrew Haigh.
Antes disso, fica a ressalva de que a lista poderia ser melhor se tivessem entrado realmente em circuito as obras-primas Bird People, de Pascale Ferran, e o ultra incompreendido Blackhat, de Michael Mann. Os dois filmes passaram em sessões especiais em Salvador (o meu critério é ter entrado em cartaz na cidade em 2015).
Mas vamos lá fechar isso.
10 - A História da Eternidade, Brasil, de Camilo Cavalcanti
Ainda não sei se realmente gosto desse filme, mas ele é em partes tão forte e impressionante - embora consciente demais disso - que vale o voto de confiança, mesmo que o todo pareça desconjuntado e demasiado auto-importante. Mas vamos lá, é um filme de estreia, e bem promissor.
Sessão dupla: Japão, de Carlos Reygadas.
9 - O Conto da Princesa Kaguya, Japão, de Isao Takahata
O retorno do mestre de O Túmulo dos Vaga-lumes numa mistura de fantasia e melodrama que identifica imediatamente a tradição feminista e empática com as mulheres do cinema japonês. Esse conto é sobre uma princesa que se recusa a ser um objeto, mesmo que, no final das contas, até a intervenção divina lhe mostre que ela não tem muita escolha.
Sessão dupla: A Imperatriz Yang Kwei-Fei, de Kenji Mizoguchi.
8 - Três Lembranças da Minha Juventude, França, de Arnaud Desplechin
Desplechin voltou menos elétrico e mais nostálgico de um cinema bêbado de nouvelle vague. É derivativo, sim, mas o cara continua pondo tanto coração no que faz que o seu cinema ainda funciona, mesmo que esse arrebatamento de cartas de amor pareça já anacrônico nos anos 80/90. Desplechin deve boa parte do sucesso do filme à descoberta desse ator novo, Quentin Dolmaire, um proto Louis Garrel destinado ao estrelato. Bônus: todo o maravilhoso preâmbulo em Belarus, que faz o filme parecer que vai ser outra coisa.
Sessão dupla: As Duas Inglesas e o Amor, de François Truffaut.
7 - As Maravilhas, Itália, de Alice Rohrbacher
Num ano forte em cinema de referência, a teuto-italiana Rohrbacher reconjura intacta a dureza e a humanidade neorrealista na história das meninas de uma família numa Itália árida e pobre. Seguindo os passos de Reality, de Matteo Garrone, a televisão entra como um trator nessa realidade, do mesmo jeito que um dia o cinema o fez (no Belíssima, de Visconti, por exemplo). Com uma mão bem leve, Rohrwacher parece mais pessimista e amarga: o populismo televisivo é só um furacão efêmero, não muda nada.
Sessão Dupla: Pai Patrão, dos irmãos Taviani.
6 - Divertida Mente, EUA, de Pete Docter
Uma volta à forma da Pixar no seu conceito mais ambicioso. Em vez de antromorfizar o mundos dos peixes, dos insetos ou dos carros, dessa vez eles foram para dentro do cérebro humano, desvendar os mecanismos da depressão. O seu ponto de vista, no entanto, está longe de ser infantil. O filme está consciente da importância de coisas como o sacrifício, o luto e a importância de por vezes ceder à tristeza para que seja possível uma recuperação. Belo e profundo.
Sessão dupla: Poesia, de Lee Chang-Dong
5 - O Amor é Estranho, EUA, de Ira Sachs
Deixe a Luz Acesa já era um filme promissor pela honestidade com que lidava com a vida LGBT no hoje em dia, mas esse filme novo avança ainda mais casas no entendimento dessa vida em tempos em que batalha cultural está em grande parte, encaminhada. Sobra um sentimento mais universal, da perda que é se ver separado de um companheiro de 40 anos, e da necessidade física de estar perto de quem se ama. Não deixa de ser uma normatização, mas por outro lado, essas decisões do filme evidenciam o quanto, no fundo, somos todos muito mais iguais do que diferentes, sejamos heteros, homos, bis, etc. O importante - sempre, e para todos - é estar junto que quem amamos. Bem bonito e delicado.
Sessão dupla: Longe Dela, de Sarah Polley
4 - Mapa Para as Estrelas, de David Cronenberg
O melhor Cronemberg desde Spider, engraçado, irônico, virulento, sombrio e quase apocalíptico. Me parece que ele finalmente se encontrou depois de uma abandonar as agruras do corpo e se focar em exercícios de gênero bem recebidos, mas estranhamente contidos, como o quase-faroeste Marcas da Violência ou aquele gelado teatro filmado sobre Freud e Jung. Eu gosto muito de Cosmópolis, mas ele é quase um ensaio para esse filme novo, cheio de múltiplos pontos de vista sobre o porque desse mundo estar dando tão errado. Mapas Para Estrelas é o seu primeiro filme feito nos Estados Unidos, e ele ataca a indústria cinematográfica sem deixar prisioneiros.
Sessão Dupla: Rede de Intrigas, de Sidney Lumet.
3 - Foxcatcher, de Bennett Miller
Bennett Miller, um diretor muito melhor que a sua reputação, aprendeu uma ou duas coisas com Truman Capote ao fazer aquele filme sobre a reconstituição do escritor do assassinato de uma família do interior dos Estados Unidos. O que ele faz aqui não deixa de ser a mesma coisa, é reconstruir um crime a partir de todos os seus detalhes e das suas mentes doentes, com frieza clínica. Atores impossivelmente perfeitos, aliás, com o destaque para Mark Ruffalo, numa cena em que aparece a dar um depoimento para um documentário.
Sessão dupla: O Indomado, de Martin Ritt.
2 - Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg
Os dois primeiros dessa lista são filmes gêmeos, praticamente. Em Ponte de Espiões, Spielberg parece promover a importância do diálogo para a manutenção da civilização e do pacto social que nos impede de explodir uns aos outros - algo que ele já havia começado a tratar em Caminho de Guerra e Lincoln. Os olhos spielbergueanos continuam excelentes para filmar de acidentes de aviões a cenas de tribunal, mas isso é apenas a superfície de um filme que busca no teatro e nos papéis de cada um uma metáfora para o convívio entre humanos.
Sessão Dupla: Da Terra Nascem os Homens, de William Wyler.
1 - Timbuktu, de Abdehrramane Sissako
Timbuktu, por sua vez, é um filme sobre a falta de diálogo e sobre o estrago que o fim da possibilidade de conversar provoca. Não há conversa com os radicais, não há razoabilidade, não há arte, não há vida nem diversão; sobram apenas radicalismos e fundamentalismos. O modo magistral de Sissako encenar a implosão dessa civilização faz de Timbuktu não apenas o filme-desastre do ano, mas o filme do ano tout-court.
Sessão dupla: Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola.