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domingo, dezembro 28, 2008

De volta

Enfim, Salvador, depois de dez dias a passeio em São Paulo e no Rio. Em Sampa, fui duas vezes ao cinema, e só. Gomorra, bom panorama italiano da atuação da Camorra napolitana. Cenas brutais, violência inesperada, mas cheia de uma secura que não há nas versões mais americanizadas e talvez pop dos filmes de máfia. Ainda assim, um pouco superestimado.



Um Conto de Natal é outra jóia do francês Arnaud Desplechin, que há quatro anos entregou um dos filmes da década, top 5. O novo longa não é tão forte quanto Reis e Rainha, mas traz de volta a humanidade contagiante característica às obras do cineasta - são duas horas e meia de "gente", com todas as suas complexidades, méritos, defeitos e cinzas. Catherine Deneuve tem um grande papel, e Mathieu Amalric continua sendo o melhor ator do mundo.

quarta-feira, outubro 22, 2008

A Questão Humana

Não sou especialmente entusiasta de Luiz Zanin Oricchio (o grande crítico do Estadão é Luiz Carlos Merten, um louco apaixonado por filmes, à prova de ponto parágrafo), mas ele acertou em cheio quando definiu A Questão Humana, de Nicolas Klotz, como o modelo acabado de cinema político contemporâneo. A alma do negócio é ser evasivo: o filme não tem interesse em amarrar suas pontas, fazer discursos ou apontar o dedo a ninguém, mas é absolutamente insuportável, e deixa o espectador com o coração pesado no caminho para casa.

Simon Kessler é psicólogo do setor de RH da filial francesa de uma multinacional alemã, o responsável pela demissão bem sucedida de 1,2 mil pessoas no plano de reestruturação da empresa. Um de seus chefes pede uma avaliação psicológica do diretor geral, que estaria tendo estranhas crises de tristeza.

No fim das contas, Kessler vai descobrir uma ligação da empresa com a engenharia do nazismo e dos campos de concentração. O diretor assistente, por usa vez, foi uma das crianças do programa de adoção criado por Himmler, e tem associações com uma organização de extrema direita.


Ainda assim, com tudo isso nas mãos, o filme recusa corajosamente o thriller. O encadeamento dessas informações é vago, sem relações de causa e efeito. A similiridade entre a neutralização da linguagem empresarial e a do nazismo existe, mas não é acentuada. A Questão Humana prefere deixar as pontas desse novelo soltas: o que interessa é a implosão emocional de seu protagonista, que ocorre à medida que descobre mais informações sobre o passado da multinacional, mas não exatamente por causa disso - até porque o filme passa longe do excesso de dados dos filmes de teoria da conspiração, como JFK, de Oliver Stone.

A impressão final é de que a ligação com o nazismo é apenas um estopim para que a convivência com a desumanização empresarial necessária ao trabalho do RH finalmente faça mal a Simon Kessler. Filmando um inferno gelado em tons frios de azul e ritmo nada condescendente com a platéia - A Questão Humana é longo, lento e deliberadamente exaustivo - Klotz vai muito mais longe que o bom similar americano Conduta de Risco (Michael Clayton), de Tony Gilroy.

O passaporte para o inferno de A Questão Humana, aliás, é o maravilhoso ator Mathieu Amalric, aquele homem que, sem exagero, entregou uma das melhores atuações dos últimos 20, 30 anos, em Reis e Rainha. Seu desafio no filme de Klotz - a representação de uma falência pessoal sem quê nem porquê exatos, arcos de personagem ou motivação - é cumprido sem esforço aparente. O cara é um gênio.

Sugestão para sessão dupla: O Que Você Faria? (O Método Grumholm), de Marcelo Piñeyro, já em DVD.