quarta-feira, março 10, 2010

100 filmes, 2000-2009

A lista a seguir foi feita a pedido de Chico Fireman, do Filmes do Chico, e reúne meus filmes favoritos produzidos entre 2000 e 2009. Vale aqui a data do IMDB, e, claro, é um registro de minhas preferências neste exato momento, com possibilidades constantes de mudança e feito mesmo com as sérias lacunas de repertório que tenho. Vamos lá:




Em Paris

100 - Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan, EUA
99 - Os Infiltrados, de Martin Scorsese, EUA
98 - Madame Satã, de Karim Aïnouz, Brasil
97 - Gran Torino, de Clint Eastwood, EUA
96 - Nove Rainhas, de Fabian Bielinsky, Argentina
95 - Em Paris, de Christophe Honoré, França
94 - Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, Brasil
93 - Turning Gate, de Hong Sang-soo, Coreia do Sul
92 - Caché, de Michael Haneke, França
91 - O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, Peter Jackson, Nova Zelândia



E Sua Mãe Também

90 - Maria Antonieta, de Sofia Coppola, EUA
89 - Separações, de Domingos de Oliveira, Brasil
88 - Elefante, de Gus Van Sant, EUA
87 - The Brown Bunny, de Vincent Gallo, EUA
86 - Sob a Areia, de François Ozon, França
85 - Crime Delicado, de Beto Brant, Brasil
84 - E Sua Mãe Também, de Alfonso Cuarón, México
83 - Ninguém Pode Saber, de Hirokazu Koree-eda, Japão
82 - Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, EUA
81 - Cinemas, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, Brasil



Amantes

80 - Conte Comigo, de Kenneth Lonergan, EUA
79 - O Filho, de Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne, Bélgica
78 - As Leis de Família, de Daniel Burman, Argentina
77 - O Tigre e o Dragão, de Ang Lee, Taiwan
76 - Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, EUA
75 - Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, EUA
74 - Mr. Vingança, de Chan-wook Park, Coreia do Sul
73 - Kill Bill Volume 2, de Quentin Tarantino, EUA
72 - Amantes, de James Gray, EUA
71 - Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa, Japão



King Kong

70 - O Filho da Noiva, de Juan José Campanella, Argentina
69 - Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, Brasil
68 - Clean, de Oliver Assayas, França
67 - Longe do Paraíso, de Todd Haynes, EUA
66 - Doze Homens e Outro Segredo, de Steven Soderbergh, EUA
65 - Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson, EUA
64 - King Kong, de Peter Jackson, Nova Zelândia
63 - Taurus, de Aleksandr Sokurov, Rússia
62 - Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, Brasil
61 - O Pântano, de Lucrecia Martel, Argentina



Cleópatra

60 - O Sabor da Melancia, de Tsai Ming-Liang, Taiwan
59 - Cleópatra, de Júlio Bressane, Brasil
58 - Munique, de Steven Spielberg, EUA
57 - A Professora de Piano, de Michael Haneke, França
56 - Pinceladas de Fogo, de Im Kwon Taek, Coreia do Sul
55 - Edifício Master, de Eduardo Coutinho, Brasil
54 - Desejo e Perigo, de Ang Lee, Taiwan
53 - Clube da Lua, de Juan José Campanella, Argentina
52 - A Casa de Alice, de Chico Teixeira, Brasil
51- Sparrow, de Johnnie To, Hong Kong



O Sol

50 - Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, EUA
49 - O Amor em Cinco Tempos, de François Ozon, França
48 - O Sol, de Aleksandr Sokurov, Rússia
47 - Colateral, de Michael Mann, EUA
46 - Pulse, de Kiyoshi Kurosawa, Japão
45 - O Ultimato Bourne, de Paul Greengrass, EUA
44 - Zodíaco, de David Fincher, EUA
43 - A Menina Santa, de Lucrecia Martel, Argentina
42 - Paranoid Park, de Gus Van Sant, EUA
41 - Canções de Amor, de Christophe Honoré, França



Má Educação

40 - Mulher na Praia, de Hong Sang-soo, Coreia do Sul
39 - Ratatouille, de Brad Bird, EUA
38 - Eternamente Sua, de Apichatpong Weerasethakul, Tailândia
37 - Hulk, de Ang Lee, EUA
36 - Abraço Partido, de Daniel Burman, Argentina
35 - A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, EUA
34 - Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke, China
33- Má Educação, de Pedro Almodóvar, Espanha
32 - O Que Você Faria?, de Marcelo Piñeyro, Espanha
31 - O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, EUA



Aura

30 - Prenda-me se For Capaz, de Steven Spielberg, EUA
29 - Adeus, Dragon Inn, de Tsai Ming-Liang, Taiwan
28 - Dogville, de Lars von Trier, Dinamarca
27 - O Hospedeiro, de Bong Joon-ho, Coreia do Sul
26 - Santiago, de João Moreira Salles, Brasil
25 - Menina de Ouro, de Clint Eastwood, EUA
24 - Um Homem Sério, de Ethan Coen & Joel Coen, EUA
23 - Dançando no Escuro, de Lars von Trier, Dinamarca
22 - Aura, de Fabian Bielinski, Argentina
21 - Dolls, de Takeshi Kitano, Japão



2046

20 - Gerry, de Gus Van Sant, EUA
19 - Homem-Aranha 2, de Sam Raimi, EUA
18 - À Prova de Morte, de Quentin Tarantino, EUA
17 - A Supremacia Bourne, de Paul Greengrass, EUA
16 - 2046, de Wong Kar-Wai, Hong Kong
15 - As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang, Taiwan
14 - Procurando Nemo, de Andrew Stanton, EUA
13 - Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, Tailândia
12 - Exilados, de Johnnie To, Hong Kong
11 - A Questão Humana, de Nicolas Klotz, França



Lavoura Arcaica

10 - Femme Fatale, de Brian de Palma, EUA
9 - Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan Coen & Joel Coen, EUA
8 - Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, Austrália
7 - As Ervas Daninhas, de Alain Resnais, França
6 - Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, Brasil
5 - O Novo Mundo, de Terrence Malick, EUA
4 - Fale Com Ela, de Pedro Almodóvar, Espanha
3 - Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin, França
2 - Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai, Hong Kong

E o melhor filme da década é:



1 - Miami Vice, de Michael Mann, EUA

domingo, março 07, 2010

Oscar 2010 #2

O filme mais complicado, instigante e inteligente do Oscar deste ano vem da sempre impecável linhagem dos irmãos Coen, que andam em fase inspiradíssima e especialmente cruel após Onde os Fracos Não Têm Vez. É essa também a fase em que eles menos recorrem à muleta da revisão dos gêneros clássicos do cinema americano, como fizeram durante toda a carreira, de Gosto de Sangue a O Amor Custa Caro. Agora, sem o filtro referencial, radicalizam uma visão de mundo pessimista e desconcertante: Um Homem Sério, o mais recente e indicado a Melhor Filme e Roteiro Original, talvez seja o filme em que o olhar deles sobre a vida é mais claro e límpido - não há muito sentido nas coisas, e pronto.

Se em Onde os Fracos... e Queime Antes de Ler sobressaiam-se entrelinhas políticas e uma sufocante malaise americana, Um Homem Sério é mais pessoal, menor, a partir do fator biográfico que o acompanha. É uma história muito judaica sobre personagens meio intelectuais vivendo a virada dos anos 60, período em que os Coen viviam a adolescência, e o garoto do filme faz a providencial descoberta da maconha enquanto o mundo de seus pais desmorona numa sequência de fatos absurdos.

Se a comédia de erros sempre esteve presente no cinema dos irmãos a partir de histórias de crimes fracassados, Um Homem Sério sugere que a vilã, desta vez, é a própria vida. Dentro do inferno sofrido pelo professor universitário que protagoniza o filme, não há nada que não seja real. Nada passa por fantástico ou extra-terreno, como assassinos psicopatas e mulheres perigosas. Os mecanismos dessa tortura podem ser o resultado de um exame médico, a rejeição da esposa, a expectativa de uma promoção no trabalho...



Apesar de aparentemente comezinho, esse conjunto de tensões acumuladas do cotidiano de um pai de família ganham as mesmas dimensões de horror já vistas em filmes como Ajuste Final, ou Fargo. O final, sagração do niilismo, coroa genialmente o tom de descrença em tudo e impotência geral diante da aleatoriedade da vida. Exasperante.

Aliás, nem precisava dizer, mas os Coen continuam fazendo o melhor cinema narrativo do mundo, de controle absoluto de cada imagem, cada plano, cada inflexão de voz de cada coadjuvante, como se tudo já estivesse concebido em sua perfeição desde o roteiro. E esse aqui é absolutamente o filme mais bem montado que o cinema vê em muito tempo.

>>> O segundo dos três filmes incríveis deste Oscar (o terceiro é Bastardos Inglórios, de que já falamos) é Guerra Ao Terror, de Kathryn Bigelow. O maior êxito desse aqui é ser composto como uma série de esquetes, que postas em sequência, desmentem o filme visto e o aponta rumo a um sentido oposto: de vibrante filme de ação para reflexão sobre a natureza viciante desta ação.

O jeito como Bigelow dispõe a história do desarmador de bombas que não consegue viver sem o desafio do perigo (Guerra ao Terror tem uma cena eletrizante depois da outra) me lembra um filme bem distante geográfica e tematicamente, mas com os mesmos artifícios.

Não estamos muito longe do repórter de celebridades de A Doce Vida, de Fellini, sempre atrás de uma história absurda, cada uma sem ligação com a anterior, mas juntas, capazes de formar um panorama de uma pessoa obcecada por aquilo tudo mas crítica o suficiente para detestá-la, mesmo sem conseguir sair desse trilho. A comparação não é tão absurda: para Bigelow, a geuura não deixa de ser um espetáculo do qual seu protagonista insiste em fazer parte.

>>> Um Sonho Possível é uma incógnita: é até uma Sessão da Tarde ok, mas sua indicação ao Oscar é mais absurda que a de Chocolate, de Lasse Hallström. Sandra Bullock tem carisma, mas vai levar o Oscar por questões estritamente industriais. Apenas mais um feel good movie beneficiado por uma bilheteria. Mais quadrado impossível. Ainda assim, acho melhor que Coração Louco, que vai tirar Jeff Bridges do jejum (ele está bem, nada demais). O filme não tem nem o domínio de tempo de Um Sonho Possível. Estruturas rangem, e é difícil lutar contra o sono. A música é bacana, e só.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Oscar 2010 #1

Invictus, de Clint Eastwood, é um filme que se beneficia muito de sua inserção no currículo de um grande mestre, com estilo e preocupações amplamente reconhecidas, e de sua existência como “peça de cinema” de maneira quase abstrata, sem uma dependência em relação à “história real” que expõe. Clint não retrata; filma.

Sua apreensão por este lado puramente cinematográfico é muito mais sadia. Clint retoma pela enésima vez seu tema da vingança e dos amargores do passado, coisa presente em sua obra desde os anos 70, mas aqui usa o assunto como ponto de partida, e não como fim.

Antes os personagens só se embolavam com as conseqüências da necessidade de dar o troco e, ao fim, aprendiam o quanto perderam neste processo, mesmo que toda a violência tenha sido necessária. Em Invictus, Clint lida com um ser humano tão calejado e superior que já começa o filme despido destes sentimentos, e o que vemos se desdobrar é a seqüência de estranhamentos causados justamente pela renúncia à vingança. Mandela chega no filme pronto, um deus como talvez realmente o seja. Deus não tem arcos dramáticos, claro.

O ponto dinâmico do filme é, em primeira instância, não Mandela, o protagonista, mas o jogador de rúgbi branco que recebe a missão de vencer o campeonato impossível. Num nível maior, e mais amplo, quem muda e aprende no filme é a própria África do Sul, unida cinematograficamente a fórceps pela alegria de uma conquista esportiva. Temos um país no início e outro no fim do filme.



Tal processo é filmado com a habitual precisão do diretor, com sua impecável levada Hollywood anos 40 de fazer cinema. O filme passa como uma grande matinê de Raoul Walsh sobre alguma cidadezinha do Arkansas unida por um objetivo comum – ritmo, câmera, texto sintético, tudo com a leveza profissional de um homem com domínio completo de seu ofício. Não são poucos os momentos de grande impacto – é de cair o queixo que essa encenação clássica torne atrativo um esporte como o rúgbi e uma historinha que só seria mais clichê se fosse fictícia. Tudo se dobra ao grande Clint.

Quase tudo, na verdade. O problema incômodo de Invictus é que ele realmente não se passa nessa cidade ideal do Arkansas, e a projeção desse molde de cinema sobre um país real passa como um equívoco pelo deliberado simplismo de ver anos de tensão social e racial se diluírem como em um comercial de cerveja.

O filme é sobre um golpe de marketing, mas é ingênuo o suficiente para endossá-lo com abraços de patroa e empregada (branca e negra) na arquibancada. Não são apenas coisa da “emoção do momento”, mas pequenas verrugas que ajudam a compor a sensação de missão cumprida que Mandela tem no fim do filme. O molde pode ser maravilhoso, mas seu encaixe não é dos melhores.

>>> A sensação de irrealidade sobre esse cenário sul-africano apresentado por Clint Eastwood se destaca ainda mais diante da ficção científica Distrito 9, uma alegoria diabólica sobre as tensões que o país enfrentou, e produto claro de feridas não cicatrizadas.

Difícil disfarçar o espanto com a sucessão de bolas dentro na transposição do cenário do apartheid a uma história sobre aliens refugiados na Terra, mais precisamente em Joanesburgo. Há desde a situação básica da township composta por pessoas inferiores, a violência e a tentativa de justificação legal deste tratamento, até a presença de terceiros elementos imigrantes também marginalizados.

A câmera nervosa e tensa do filme não ganha o imediato selo de aprovação concedido ao vocabulário elegantíssimo de Eastwood, mas o resultado não é apenas adequado, como também muito inteligente. Não temos aqui a urgência básica de um Cidade de Deus, mas um cinema consciente do impacto da cobertura do 11 de Setembro como narrativa audiovisual na mente de toda uma geração.

A mediadora do caos entre o filme lá e nós espectadores é a presença de um falso documentário. Nada de anormal até aí, mas o uso das tais imagens de arquivo captadas dos telejornais e sua importância cada vez maior no filme criam a incômoda sensação de acompanhar um desastre ao vivo, seja um sequestro de uma garota pelo namorado ciumento ou um atentado de grandes proporções. Dois filmes vêm à mente: o magnífico e eletrizante Guerra dos Mundos, de Spielberg e, nem tão próximo, o documentário Ônibus 174, de José Padilha.


>>> Educação, de Lone Scherfig, pode até parecer uma boa ideia no papel, mas é de uma mediocridade visual e narrativa de dar vergonha à mais modesta novela do SBT. E o conservadorismo, então – em vez de acentuar as novas sensações de uma garota tornando-se mulher, Educação as expõe apenas para condená-las em última instância.

Apesar disso tudo, a atriz praticamente estreante Carey Mulligan é um arraso, uma máquina de tirar leite de pedra, sempre deixando no ar uma frase a menos, abrindo horizontes para que se tenha vontade de entrar no seu pensamento. Sua expressividade (olhos e boca bem flexíveis) não a torna caricata, mas a possibilitam recorrem a um grande arsenal de emoções, em número bem maior até do que o filme normalmente ofereceria. Nem vi todas as concorrentes a melhor atriz, mas ela é claramente minha vencedora.

>>> Sobre Preciosa, eu também queria poder dizer que ao menos as atuações impressionam, mas, sinceramente, essa tonelada de prêmios sobre Mo'Nique é completamente excessiva É uma atuação sem modulações, feita de clímaxes, em uma nota só – esta é a mãe detestável e filha da puta que oprime a protagonista. A estreante Gabourey Sidibe é boa, até, mas não tem quem segure tantas escolhas constrangedoras, do texto que beira a autopiedade a esse visual clipado-bobo. No fim, soa como um Desabafo que Márcia exibia em seu programa de lavagem de roupa suja.

>>> Já Amor Sem Escalas é bem superior aos dois primeiros filmes de Jason Reitman, com um cinismo nem tão ostensivo nem vontade de soar cool. Tem o bem-vindo ar de um conto para adultos, a atualidade de uma história corporativa e um esmero artesanal de texto e montagem, como se o ritmo dos cortes fossem marcados pelos trechos mais pontiagudos do roteiro. Claro que o filme meio que se desequilibra ao quase redimir o protagonista, mas não há nada tão brusco assim – e o moralismo é finamente rebatido pelas revelações sobre outros personagens importantes.

Em tempo: Clooney excelente como sempre, essa garota nova Anna Kendrick muito bem também, mas boa parte da boa vontade com o filme vem da presença maravilhosa de Vera Farmiga, sensual, sutil, humana, e com incrível talento para projetar intimidade e conforto. Ela parece mais próxima do lado de cá da tela do que a maioria dos atores que tenho visto nos últimos tempos. O Oscar que vai para Mo'Nique seria dela, por direito.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Sessão Bola Preta

Não quero falar de Oscar, até porque ainda tem muita coisa para ver e o assunto tá enchendo tanto o saco quanto Lost (e vejam só, Lost é o pior assunto da Terra e além). Vamos atualizar o movielog então, que, em termos de qualidade, não anda nada bem.

O primeiro lixo é a imensa decepção do Anticristo, de Lars von Trier. Já escrevi por aqui umas duzentas vezes o quanto ele é genial, doido, anormal, etc, mas ver esse filme dá a sensação de que praticamente nada restou do cara que fez Ondas do Destino.

A fruta está podre desde o miolo, um fiapo de roteiro cheio de diálogos infantis travestidos de psicanálise, que, depois, acabam se convertendo em metáfora sociológica.



Com esse ponto de partida, não tem como dar certo, porque a base da qualidade do cinema dele é justamente o roteiro, o texto, a capacidade de armar situações aterrorizantes primeiramente em sua forma escrita.

Todo mundo observa as repetidas revoluções de imagem por ele trazidas, mas a verdade é que tudo isso sempre veio de scripts implacáveis, finos e clássicos, com a sempre presente referência de Barry Lyndon, de Kubrick.

Se o texto não sai, esse demônio da imagem fica girando no vazio, tentando injetar força num blá blá blá tolo e pretensamente bergmaniano na sua vontade de fazer um chamber drama de horror.

Em vez de peso e profundidade, Anticristo parece estranhamente publicitário, como um filme tirado e espertinho de Heitor Dhalia. A pretensão e a plasticidade da imagem me fazem lembrar aquele terrível Nina, que queria ser Dostoievski. Enfim, o resultado é que o filme nem chega a sair do lugar, e debate-se furiosamente como uma barata deitada sobre a própria carapaça.

Em tempo: pela primeira vez num filme de Lars von Trier, os atores estão terríveis - mesmo Charlotte Gainsbourg, premiada em Cannes.

Pra comprovar que Manderlay iniciou uma fase nada feliz de Von Trier, vi também, e em atraso, O Grande Chefe. Eu queria dizer que é uma porcaria, mas nem mesmo a paixão pra isso o filme desperta. Não é "revoltantemente" ruim como Anticristo. É nulo.

Se Lars von Trier ao menos tem um passado a zelar, o que dizer de Michel Gondry? A Natureza Quase Humana e Sonhando Acordado são dos piores filmes que eu já vi, e o segundo é pior ainda, tortura chinesa indie com aquela direção de arte metida a besta que a gente vê nos filmes desses clipeiros e de alguns cineastas falsos-gênios, como Wes Anderson.

Eu reclamava de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, mas ali pelo menos há uma tentativa de usar esse espalhafato espetaculoso a serviço de alguma coisa que não seja a própria "inventividade". Ô, cansaço...

quarta-feira, janeiro 20, 2010

O dia de Fellini. E de Lynch

Não acredito em destino, etc, mas não deixa de ser curioso ter visto um vídeo no YouTube em que Momentum, de Aimee Mann, ganha uma montagem sobre imagens de 8 1/2 e horas depois descobrir que Fellini completaria 90 anos hoje.

Acho que o primeiro Fellini que vi foi Amarcord, num VHS locado na VideoHobby da Graça, há praticamente dez anos. Óbvio, na época o filme só me causou estranhamento, e eu precisei de pelo menos mais cinco anos para descobri-lo por inteiro, como se deve, numa sala de cinema - no caso, a Walter da Silveira.



Poucas vezes chorei tanto num filme. Chorava em cenas aleatórias, por qualquer coisa, até em sequências que deveriam ser cômicas, como a do garoto que se aproxima da boazuda Gradiska numa sala de cinema.

O motivo é fácil de decifrar - Amarcord, eu me lembro, é o filme mais nostálgico já feito, bêbado de memórias falsas e verdadeiras, e, por consequência, é um épico sobre o tempo. As pessoas, as situações e as coisas passam e não há volta. Não há nada mais triste do que isso, afinal, mesmo quando as lembranças são as mais alegres.

Em Amarcord a gente chora e ri, ao mesmo tempo e sem parar. É o filme mais catártico de Fellini, porque a memória é sua única preocupação. Ele foi mais ambicioso e intelectual - e melhor, mesmo - em A Doce Vida e 8 1/2, e talvez mais focado e preciso em coisas como A Estrada da Vida e Noites de Cabíria, mas meu coração fica mesmo com o caos e a desorganização deslumbrantes de Amarcord.

*

Hoje também é aniversário de David Lynch, que acaba de ter seu Mulholland Drive celebrado por meio mundo (Cahiers, inclusive) como o melhor filme da década. É um filme potente, mas essa fase de entrega total ao absurdo, continuada com Império dos Sonhos, sinceramente não me diz muita coisa.

Lynch já era radical sem precisar mergulhar na abstração absoluta, acho, e mesmo seus saltos sem rede pareciam mais interessantes nas décadas de 80 e 90. Não há nada em seus filmes recentes que não me pareça mais bem desenvolvido e perturbador em A Estrada Perdida, praticamente sua obra-prima, não fossem História Real e Coração Selvagem.



Fãs radicais do autor em geral ficam com as obras mais novas ou Veludo Azul, mas tenho a tendência a admirar o modo como sentimentos estranhamente bons acabam se misturando no mundo de horror de Lynch.

Em História Real, nada me desconcerta como o olhar dos dois homens velhos que reconhecem, um no rosto do outro, a participação na Segunda Guerra. A mesma generosidade explode ainda mais em Coração Selvagem, em que um grande amor vence todas as batalhas contra o horror, a violência e o absurdo. E com "Love Me Tender" no final.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Os injustiçados + Avatar

Lista é sempre aquela coisa. A gente faz somente para se arrepender logo depois. Não vou alterar o Saymon Awards, mas, além do pesar pelo monte de coisa que eu não vi, não posso deixar de registrar o arrependimento por nem ter considerado na hora de fazer a lista duas coisas de que gostei muito ano passado.

A primeira é o deslumbrante Deixa Ela Entrar, um filme que atualiza toda a mitologia vampiresca para um corte impecavelmente nórdico, tanto no seu ritmo muito mais lento e calculado, quanto na delicadeza com que esse cinema costuma tratar os sentimentos, mesmo os mais sutis. Quase 20 anos depois, não tem como negar em Deixa Ela Entrar o DNA da obra-prima Minha Vida de Cachorro nesse relato dos ritos de passagem da infância à adolescência.

>>> O outro filme é menos popular, mas é igualmente convicto e apaixonado por seu ponto de vista de cinema, um ponto de vista que privilegia a forma, o espetáculo, a grande narrativa hollywoodiana em sua versão mais opulenta. Em Austrália, depois de três filmes sensacionais margeando as popices contemporâneas filtradas por todas as mídias e artes ao mesmo tempo, Baz Luhrmann firmou o foco no cinema e pôs pra fora deliberadamente seu repertório histórico numa tirada de chapéu ao glorious technicolor, breath-taking cinemascope & stereophonic sound.



É um filme que tem martelado minha cabeça - só sumiu na hora da lista - e o que tinha a dizer sobre ele foi mais ou menos cuspido numa discussão no orkut, onde postei os três parágrafos a seguir. Como não vou conseguir me articular melhor, reposto aqui:

"Sempre associei o cinema dele a uma coisa quase circense de conseguir se equilibrar mesmo em altíssima velocidade, não só em sua formatação cinematográfica, câmera, edição, clip, mas também à capacidade inflar o banal e o superficial rumo a uma estarração dessa superficialidade.

"Tem uma frase do Inácio na crítica de Maria Antonieta que passou a me perseguir quando eu penso em Baz Luhrmann. Inácio adora o filme, mas reclama que Kirsten Dunst não é superficial o suficiente para a personagem, e é assim que eu penso em Luhrmann, tendo atingido esse grau de superficialidade suficiente para que seus filmes sejam balões de gás ultraimpactantes.

"E o curioso é que este impacto acaba por comentar a superficialidade de que deveria fazer parte, mas não faz, justamente pela inteligência de sua metalinguagem. Nada solene, aliás, mas agressiva, uma autofagia doida do cinema sobre o cinema que tem um par menos nervoso e mais elegante em Brian de Palma".

Enfim, ele continua filmando com uma fome incrível de imagem, tirando grandes cenas a partir de um roteiro que é um praticamente um nada, mas um nada que pede pra ser filmado em grande escala. Pode-se usar essa ideia justamente para criticá-lo – glorificação do vazio, entronização do pastel de vento –, mas acho que o sentido da avaliação é contrário. A manipulação da forma torna o cinema tema de si mesmo e revela mais uma vez um diretor ciente de seu poder ao conduzir a relação das pessoas com a mentira, a fantasia e a arte.

Mesmo tendo renegado o filme, chama a atenção a preciosa atuação de Nicole Kidman, atriz que não tem medo de fazer a southern belle texana com sotaque britânico, à moda de Vivien Leigh. Faz tempo que ela, quase sempre formidável, não aparecia na tela com tanto vigor, consciente do poder de seu megaestrelato e da função deste em um filme tão empenhadamente fake.

Depois de suas exaustivas três horas – as melhores três horas que Hollywood nos proporciona desde o maravilhoso King Kong de Peter Jackson – resta a pergunta: e agora, Baz Luhrmann? Sua carreira ficou num enigma, e seus veios parecem esgotados pela própria energia aplicada em cada um de seus filmes: poderá ele voltar ao musical depois de Moulin Rouge? Seu pós-modernismo não já era passé desde Romeu + Julieta? Como poderá filmar em Hollywood mode após Austrália? Esperamos que a resolução deste impasse não seja a repetição, mas outra tomada de risco.

>>> Também em três horas de delírio hollywoodiano, aproveito pra mencionar o desbunde do Avatar de James Cameron. O filme é super, mais uma prova do imenso talento de Cameron a conduzir ação/aventura, talento inabalado mesmo com férias de dez anos desde Titanic - por sinal, um excelente thriller.



Se o lado montanha russa é de ficar embasbacado - a maioria absoluta dos blockbusters aventurescos me causa um tédio infernal -, essa história de futuro do cinema é forçação. Não adianta ter a tecnologia de ponta mais desgraçada do mundo que isso não significa nada diante de uma narrativa que é quase Errol Flynn, um capa e espada dos anos 30 mais bem equipado, e pronto.

Nada contra isso, aliás, super a favor, mas, futuro, futuro mesmo, tá muito mais nas Ervas Daninhas de Resnais. Tá ali uma sessão à prova de naftalina.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Saymon Awards 2010

Se nos anos anteriores eu já cometia falhas indesculpáveis perdendo filmes essenciais, em 2009, com a mudança para Angola, as coisas pioraram ainda mais. A lista a seguir contempla, como sempre, o calendário de estreias de Salvador, o que implica a presença de filmes já vistos em 2008 em outras plagas, e, claro, a ausência de muita coisa que não saiu do circuito RJ-SP. Não que eu fosse conseguir ver tanta coisa como Filipe Furtado, por exemplo, mas... Deixemos de justificativas:

10 - A Bela Junie, de Christophe Honoré - Honoré continua amando a nouvelle vague, mas virou a chave pro Trufô de As Duas Inglesas e o Amor. Literário e ultra moderno.

9 - Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet - Quem diria, hoje em dia, um choque de realidade! Ou a realidade em choque.

8 - Juventude, de Domingos Oliveira - O melhor filme de Domingos desde Separações. Parou de projetar sentimentos nas mulheres e filmou em primeira pessoa.

7 - Gran Torino, de Clint Eastwood - Clint aprende o que é sacrifício e para dentro de um caixão. É aqui que ele olha para o "outro" com generosidade, e não em Cartas de Iwo Jima, onde dobra o estrangeiro a sua visão de mundo americana.

6 - Amantes, de James Gray - O amor dói mais para os hipersensíveis. Converte os descrentes em James Gray.

5 - UP - Altas Aventuras, de Pete Docter - Lirismo delicadíssimo, narrativa clássica econômica e precisa. A palavra é quase desnecessária.

4 - Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino - Ao contrário de seus filmes anteriores, Bastardos Inglórios é humanamente vazio, mas a paixão pelo cinema como tema absoluto nunca o torna estéril. Lembra muito o Brian De Palma da fase Hitchcock.

3 - Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin - Difícil, excessivo, atropelado e muito irregular. Tanta gordura não impede que esse seja o filme mais apaixonado por gente do ano. Os melhores atores do mundo.

2 - Desejo e Perigo, de Ang Lee - Ang Lee nunca tão suntuoso. Ang Lee nunca tão minimalista. Filme tem a classe sufocante dos grandes mestres do épico, como o Coppola de O Poderoso Chefão II. Mesmo tom. Gigantesco e discreto, lento e explosivo.

... E o grande Saymon Awards vai para:



1 - Ervas Daninhas, de Alain Resnais - Resnais e os desequilíbrios do amor, aliás, metaforizados de maneira espetacular num desfecho de entrar para a história, dentro de um avião. Rara leveza para filmar os intempestivos atos de amor. A nouvelle vague não morreu, afinal.

Cinco atores:



1 - Gregoire Leprince-Ringuet, A Bela Junie
2 - Aderbal Freire Filho, Juventude
3 - Mathieu Amalric, Um Conto de Natal
4 - Christoph Waltz, Bastardos Inglórios
5 - Joaquin Phoenix, Amantes

Cinco atrizes:



1 - Meryl Streep, Dúvida
2 - Marion Cotillard, Inimigos Públicos
3 - Kate Winslet, Foi Apenas um Sonho
4 - Penélope Cruz, Abraços Partidos
5 - Catherine Deneuve, Um Conto de Natal

Dez melhores filmes que vi pela primeira vez esse ano, de qualquer época:



1 - A Tortura do Medo, de Michael Powell (GBR, 1960)
2 - As Duas Faces da Felicidade, de Agnes Varda (FRA, 1965)
3 - Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia, de Hector Babenco (BRA, 1977)
4 - O Segredo Íntimo de Lola, de Jacques Demy (EUA, 1969)
5 - Quando Uma Mulher Sobe as Escadas, de Mikio Naruse (JAP, 1960)
6 - Desejo Profano, de Shohei Imamura (JAP, 1964)
7 - Entre Dois Fogos, de Anthony Mann (EUA, 1948)
8 - O Enforcamento, de Nagisa Oshima (JAP, 1968)
9 - Juste Avant La Nuit, de Claude Chabrol (FRA, 1971)
10 - Morrer de Amor, de Alain Resnais (FRA, 1984)

Saymon Awards 2009

Saymon Awards 2008

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Feliz Natal

Este blog deseja um Feliz Natal com um vídeo do provável melhor filme sobre a época, Agora Seremos Felizes, de Vincente Minnelli. Na cena, Judy Garland canta "Have Yourself a Merry Little Christmas", para consolar a irmã menor, assustada com as perspectivas de uma mudança de casa e cidade no ano seguinte. Maravilhoso.

domingo, dezembro 13, 2009

Algumas notas sobre Abraços Partidos

Sim, este é o pior filme de Almodóvar desde que ele consolidou sua fase madura, lá pelos idos de Carne Trêmula, em 97. O cara continua um encenador genial, cheio de ideias maravilhosas para grandes cenas e imagens arrebatadoras, como a lágrima no tomate, os carros vistos de cima, armas pintadas e quadros e fotografias rasgadas. Vez em quando o filme tem um desses espasmos de genialidade, mas Abraços Partidos acaba não funcionando no cena-a-cena porque o Almodóvar grande roteirista parece ter saído de férias.

Estruturalmente, o filme é completamente mal-arquitetado, dividido em duas partes das quais apenas uma funciona: o flashback é um vulcão de paixões e desejo, crueldade e violência; a trama contemporânea é morna, patina numa terrível falta de assunto, e, para tentar manter-se de pé, afunda-se ainda mais em revelações de novela mexicana em mesa de bar e no café da manhã. Quando um personagem fica sabendo quem é o verdadeiro pai, por exemplo, nem o ator que o interpreta parece acreditar na tolice da cena.

Isso sem contar com a auto-indulgência de Almodóvar em relação a um monte de gordura do filme, como um longo diálogo sobre um filme de vampiros que não vai a lugar nenhum, ou a reaproximação do protagonista de seu antigo assistente de direção. Mas, enfim, tirando a decisão final da remontagem e a cena em que o cineasta tenta sentir o amor do passado numa imagem projetada, todo o segmento contemporâneo poderia ir para a lata do lixo.



Apesar de uma série de falhas evidentes, no entanto, Abraços Partidos torna-se algo instigante quando o observamos dentro da carreira de Almodóvar e o que ele representa em termos de indício do que está por vir nesta filmografia. Ao contrário do que fez no maravilhoso Volver, onde, diga-se a verdade, o cineasta tocava notas que já dominava completamente, o diretor tenta desta administrar um material fora de sua zona de conforto, reduzindo o humor ao máximo e buscando embrenhar-se no melodrama sem o seu contrabalanço habitual de exuberância e emoção.

Assim como Má Educação, Abraços Partidos é um melô sem lágrimas, premeditamente seco. Cabe um parêntese aqui para tentar mapear essa guinada sombria do diretor. Uma vez perguntaram-lhe quem eram os três maiores diretores da história e ele respondeu: Billy Wilder, Billy Wilder e Billy Wilder. Se no início da carreira, parecia interessar-se mais pelo escracho de Quanto Mais Quente Melhor, The Fortune Cookie ou Beija-me Idiota, Almodóvar parece inclinar-se agora a outra fase de seu mestre, responsável por coisas como Crepúsculo dos Deuses, Pacto de Sangue e A Montanha dos Sete Abutres.

Pode-se argumentar que este novo Almodóvar é menos Almodóvar que o de Volver, ou Kika, mas estes filmes secos do diretor são tão puro sangue quanto as comédias escrachadas e o os melodramas lacrimejantes: a diferença que a maldade, para o cineasta, está quase que confinada a uma dimensão cinematográfica ("As pessoas só caem das escadas no cinema") e por isso seus exemplares puramente noir - Abraços Partidos e Má Educação - são filtrados pela figura de um protagonista diretor de cinema e filmes dentro de filmes. A vilania e a crueldade se transformam em metalinguagem.

Por outro lado, apesar de andar por territórios que ainda não explorou com tanto afinco, Abraços Partidos é marcante por não deixar de conter todos os temas essenciais do Almodóvar recente, mesmo que em tom diferente. Assim como Tudo Sobre Minha Mãe, Má Educação e Fale Com Ela, é um filme dedicado ao poder da arte sobre as pessoas, e sobre como elas agem influenciadas pelas marcas deixas por filmes, peças, a música e dança, seja como espectadores ou como criadores. Enfim, a função da arte como reflexo e refúgio.

Além das pessoas e da arte, o terceiro item dessa equação: o tempo. Até como resultado de seu próprio da consciência de seu envelhecimento, Almodóvar tem feito cada vez mais filmes em várias dimensões temporais, quebra-cabeças narrativos em múltiplos tempos que se coadunam para judar a definir os personagens, como nos romances de Ian McEwan, escritor que admira. Almodóvar fica velho e faz filmes cada vez mais sobre o passado: a violência enfrentada por Raimunda, a peça e o amor de Manuela na juventude, o romance de Enrique e Angel, o filme destruído de Mateo Blanco...

Abraços Partidos é definitivamente o pior desses roteiros, mas ilustra bem a tendência da obra futura de Almodóvar. Mesmo com pontos fora da curva em tom e qualidade, como esse novo filme, o diretor continuará preso dentro de seu cinema particular, e o tema dos filmes deste cinema particular, no fundo, é a memória. Almodóvar está se transformando em Resnais.

domingo, novembro 15, 2009

Name dropping

O excesso de trabalho aqui no exílio continua a me afastar dos filmes, e tenho deixado este espaço abandonado. Não apenas por isso: dos poucos filmes que vi ultimamente, muitos me deixaram literalmente sem ter o que dizer, principalmente pela estranheza alien que às vezes aparece no cinema oriental, por onde tenho caminhado.






Do Japão, Desejo Profano, de Shohei Imamura, Mujô, de Akio Kissoji, e Rito de Amor e Morte, o curta e único filme dirigido por Yukio Mishima. Da Tailândia, Eternamente Sua e The Adventure of Iron Pussy, do incontornável e impronunciável Apichatpong Weerasethakul. De Hong Kong, o reencontro com Felizes Juntos, a obra-prima de Wong Kar-wai. E um pouco menos oriental mas igualmente alien, a revisão de Cavalos de Fogo, e a primeira olhada desconfiada em A Cor da Romã, ambos de Sergei Paradjanov.

Por ora, tudo o que posso oferecer é esse name-dropping. Aos poucos boto a cabeça no lugar - espero - e tento ser mais articulado.

sábado, outubro 17, 2009

Os melhores atores

Pra não perder a deixa, agora a lista de minha interpretações masculinas preferidas:

10 - Robert Ryan, Homens em Fúria


9 - Harvey Keitel, Vício Frenético


8 - Robert Mitchum, O Mensageiro do Diabo
night of the hunter Pictures, Images and Photos

7 - Marlon Brando, A Face Oculta


6 - Gregory Peck, Duelo ao Sol


5 - Richard Harris, This Sporting Life


4 - Jack Lemmon, Quanto Mais Quente Melhor


3 - Jeremy Irons, Gêmeos - Mórbida Semelhança


2 - Dirk Bogarde, O Criado


1 - Marcello Mastroianni, Divórcio à Italiana

terça-feira, outubro 13, 2009

As Melhores Atrizes

Exatos 30 dias desde a última postagem, publico aqui, só para movimentar o blog, uma lista que me veio à cabeça depois de ler esse perfil que a W. fez com a grande Liv Ullmann. A atriz de Bergman e hoje diretora completa 70 anos, e contribuiu para o meu rol das melhores interpretações femininas que já vi. Na ordem, e sem pensar muito:

10 - Emily Watson, Ondas do Destino


9 - Eleonora Rossi Drago, Verão Violento


8 - Meryl Streep, As Pontes de Madison


7 - Irene Dunne, Cupido é Moleque Teimoso


6 - Jane Fonda, Klute - O Passado Condena


5 - Liv Ullmann, Sonata de Outono


4 - Isabelle Huppert, Um Assunto de Mulheres


3 - Gena Rowlands, Noite de Estreia


2 - Emmanuelle Riva, Hiroshima, Meu Amor


1 - Gena Rowlands, Uma Mulher Sob Influência